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Friday, 18 April 2014


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Provérbios brasileiros
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Agradecimentos
COLETÂNEA DE PROVÉRBIOS E OUTRAS EXPRESSÕES POPULARES BRASILEIRAS
DE PROVERBIO

Ana Maria de Moraes Sarmento Vellasco

Introdução

Esta Coletânea é originária do corpus da minha dissertação de mestrado, cujo título é Provérbios: um estudo sociolingüístico, fruto de uma pesquisa na área da Sociolingüística Qualitativa.

Cumpre-me externar que há uma forte razão pessoal para que eu me dedique ao estudo dos provérbios. Os meus avós maternos -- com quem eu possuía uma ligação filial, por ser a primeira, a mais velha de apenas cinco netos --, ele, Francisco Casemiro de Moraes Sarmento, português, e ela, Anna Lamego de Moraes Sarmento, filha de portugueses, empregavam-nos amiúde. Creio que cinqüenta por cento das nossas conversas eram proverbiais. Os meus pais, tios e tios-avós também os utilizavam com muita freqüência, sempre mencionando que estavam aludindo à sabedoria milenar do povo. O meu pai, muito culto, sistematicamente fazia uso de aforismos, de Confúcio a Vinicius de Morais. Assim, os provérbios e a fraseologia atraíram o meu interesse, desde a infância. Aos oito anos de idade eu já possuía uma caderneta na qual costumava anotar provérbios, adivinhas, quadrinhas, aforismos, dísticos de caminhão, máximas, slogans, clichês. Em família, pois, aprendi a maioria das parêmias que hoje me vêm prontamente à memória e que integram, consistentemente, o meu léxico e as minhas estratégias conversacionais.

O objetivo precípuo da minha pesquisa de mestrado é a verificação, num estudo sincrônico, de quais são os padrões de uso dos provérbios na sociedade brasileira, por meio da análise das condições de produção e recepção de provérbios (quem, por que, em que situação e com que intenção os usa), segundo as perspectivas etnográfica (Hammersley & Atkinson, 1983) e sociolingüístico-interacional. Este estudo tem por alvo brasileiros, filhos de brasileiros, provenientes das cinco regiões do País, de ambos os sexos, faixas etárias e níveis de escolaridade e sócio-econômicos diversos.

A coleta de dados para essa pesquisa foi inicialmente promovida por meio de entrevistas orais no Distrito Federal e entorno, em áreas rural e urbana, quando os sujeitos da pesquisa citavam-me os provérbios que mais empregavam e de que se recordavam, ilustrando as situações de uso, isto é, contextualizando-os, viabilizando, assim, a análise sociolingüística pretendida. Cumpre-me ressalvar que no Distrito Federal encontram-se radicados brasileiros provenientes de todas as regiões do Brasil. Em seguida, pesquisei também em cidades do Estado de Goiás e na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro.

Ao se inteirarem da minha pesquisa, inúmeros brasileiros meus parentes, amigos e conhecidos, e mesmo desconhecidos, passaram a escrever-me e a enviar-me listas extensas dos provérbios que conheciam e que são usados no cotidiano das cidades onde vivem.

Concomitantemente, surgiu-me a idéia de pesquisar na Internet. No segundo semestre de 1995, obtive informações com amigos e colegas da Universidade de Brasília sobre o que nos viabilizava o mundo cibernético, e decidi-me por integrar a lista de brasileiros Bras-net, gerenciada por Walter Morales, Guta Davis e Alberto Gomide.

Uma vez assinante da Bras-net, no início de janeiro deste ano de 1996 apresentei-me e divulguei a minha pesquisa para, segundo informações dos gerentes da lista, quase 2.000 (dois mil) brasileiros residentes no Brasil e no estrangeiro. A maior parte dos brasileiros, vulgo brasneteiros, encontra-se em academias cursando mestrado, doutorado e pós-doutorado. A recepção foi a melhor possível e a contribuição valiosa, como se pode verificar no corpo desta Coletânea. Contataram-me brasneteiros que se encontram em cinco continentes: América do Sul, América do Norte, Ásia, Europa e Oceania. Ao término de um mês já me haviam enviado cerca de 800 (oitocentos) dados. A Internet viabiliza-nos informações à velocidade do som.

Deste modo, até a presente data coletei, ao todo, 2.827 (dois mil oitocentos e vinte e sete dados) que integram o vocabulário dos brasileiros e que estão arrolados por ordem alfabética nesta Coletânea. A maior parte dos informantes repetiu, ratificou dados previamente coletados. Em face desta realidade, registrei apenas o primeiro dado recebido, eliminando os idânticos. Mantive, contudo, as variações que, inclusive, denotam regionalismos. Ao lado de cada dado encontra-se a referência do Estado do Brasil onde nasceu o informante. Aos dados coletados na Internet, de brasileiros assinantes da Bras-net, acrescentei o nome da lista antes da sigla indicativa da naturalidade do(a) informante. Ressalvo que só compilei os dados de informantes brasileiros filhos de brasileiros.

Por outro lado, ao corpus, que se propunha ser de provérbios, somaram-se outras formas concisas da língua, expressões que integram a fraseologia popular brasileira.

Com isto, evidenciou-se um fato. A maioria quase que absoluta dos informantes, mesmo os que estão em meio acadêmico, não distingue um provérbio de uma frase feita, de uma máxima, de um aforismo, de um clichê, de um slogan, de uma expressão idiomática. Tal distinção torna-se mais fácil quando se trata de uma superstição e de uma adivinha. O maior problema reside na diferenciação entre o provérbio e a frase feita. Observo ainda que mantive no corpus da minha pesquisa todos os dados que me foram informados, independentemente da classificação dos mesmos.

Diante do supramencionado, torna-se imperativo que eu proceda a uma explanação sucinta do que são provérbios e à sua diferenciação de algumas outras formas concisas da língua, outrossim alvo do meu trabalho acadêmico. Uma visão mais profunda e esmiuçada estará disponível após a defesa da minha dissertação de mestrado, prevista para novembro próximo.

Os provérbios são elementos notáveis em todas as línguas, tanto no que tange às idéias que veiculam, como na originalidade da construção sintática e na articulação entre a forma e o conteúdo. Todos somos capazes de citar, de pronto, ao menos uma dúzia de provérbios. E, curiosamente, se nos perguntarem onde os aprendemos, a não ser que os tenhamos ouvido amiúde de alguém, dificilmente seremos capazes de responder. Mas todos sabemos em que ocasião empregá-los e que partido deles podemos tirar.

Por um lado, os provérbios dão-nos a sensação de que nos pertencem e que deles podemos fazer o que bem entendermos - vez que se tornam intimamente vinculados às nossas próprias experiências. Por outro lado, os provérbios são-nos impostos e obrigam-nos a entrar numa lógica que vem da sociedade, ultrapassando as nossas opções pessoais.

Os provérbios amalgamam-se, associam-se às propriedades da sentença e do texto. Os provérbios ocorrem em grandes textos como (i) as conversações do dia-a-dia; (ii) editoriais de jornais; (iii) sermões, e eles mesmos ocorrem como textos completos neles mesmos, como, por exemplo, em grupos de slogans, em inscrições em edificações e em antologias, junto a outros dizeres.

Há várias justificativas para o estudo dos provérbios. A sua condição tradicional, a sua imagem rústica, a sua forma prosódica, o seu valor didático, a sua condição de elemento persuasivo. A origem, a história, a influância, o surgimento e o uso dos vários tipos de provérbios; a evolução da sua forma, a tradução dos provérbios de uma língua para a outra, a comparação de provérbios, as convenções literárias no uso dos provérbios, as coleções de provérbios, a bibliografia destas coleções, a coleção de materiais e a disponibilidade de fontes antigas, etcetera, são temáticas a serem exploradas, especialmente no Brasil.

Estudiosos de outras áreas que não a Lingüística, como antropólogos, sociólogos, folcloristas, comunicólogos, críticos e bibliógrafos tâm-se interessado pelos provérbios, pois eles nos levam, muito diretamente, a estimar a validade de diferentes maneiras de expressão e a perceber idéias éticas, políticas, científicas ou estáticas, na história da humanidade.

A origem dos provérbios está, indubitavelmente, na sabedoria popular. Eles são parte do folclore dos povos, assim como as lendas, os mitos, as superstições e as canções, vez que traduzem conhecimentos e crenças. São uma manifestação do passado cristalizada no presente. Sendo folclóricos, os provérbios são enunciados anônimos -- à exceção dos provérbios bíblicos, que se encontram no Livro dos Provérbios, no Antigo Testamento, assim chamados apesar de serem atribuídos ao Rei Salomão. São cultura eminentemente oral, transmitida boca-a-boca, de geração a geração, mesmo hoje em dia, quando a mídia tem papel preponderante na nossa sociedade. São fruto da experiência cotidiana individual ou grupal, de quem vivenciou determinadas verdades. (Cada cabeça, uma sentença; Tantas cabeças, tantas opiniões; So many men, so many minds; Autant des têtes, autant d'avis; Tantas cabezas/Tantos hombres, tantos pareceres/opiniones; A cada cabeza, su seso; Tante teste, tante cervelle; Soviel Köpfe, soviel Sinne; Quot capita, tot sententiae.)

Ao pensarmos no provérbio, temos a idéia de que ele possui apenas um significado, mas ocorre-nos perguntar se há uma contra-ordem. E realmente há provérbios antagônicos, como Longe dos olhos, perto do coração, O que os olhos não vêem, o coração não sente; Rei morto, rei posto, Quem foi rei nunca perde a majestade; As roupas não fazem o homem, O alfaiate faz o homem, ou Boa aparância é carta de apresentação; Depois da tempestade vem a bonança, Um problema nunca vem sozinho ou Uma desgraça nunca vem sozinha; Nunca deixe para amanhã o que você pode fazer hoje, Amanhã é outro dia; Nunca é tarde para aprender, Cachorro velho não aprende novos truques, ou Boi velho não toma andadura; Quem cedo madruga acha o que comer, Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo; Ruim com ele, pior sem ele, Antes só do que mal acompanhado, e assim por diante. Portanto, entendo que na discussão os provérbios podem ser meras estratégias pelas quais alguém tenta persuadir outrem em direção a um argumento.

Uma questão que cruza com esta são as ligações existentes entre os provérbios de um determinado povo, que se expressa em uma determinada língua, e os de outros povos, que se expressam em outras línguas - por vezes sem relação histórica. Diante disto, tem-se a premissa de que a sabedoria popular pode ser comum a vários povos, mas, por vezes, torna-se difícil saber onde um determinado provérbio surgiu primeiro, a exemplo de:

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
A constant drop will wear a hole in a stone. Constant dropping wears the stone.
L'eau qui tombe goutte à goutte, cave la pierre. Goutte à goutte, l'eau creuse la pierre.
Agua blanda en dura piedra tanto dará que la hienda.
La gota de agua horada la piedra.
Goccia a goccia, síncava la pietra.
Steter Tropfen höhlt den Stein.
Gutta cavat lapidem, non vi sed saepe cadendo.

A água silenciosa é a mais perigosa.
Still waters run deep.
Il n'y a pire eau qui cellui qui dort.
Del agua mansa líbreme Dios, que de la brava me libro yo.
Acqua cheta rovina i ponti.
Stille Wasser sind tief.
Flumina tranquillissima saepe sunt altissima.

A águia não se entretém caçando moscas.
Lions don't hunt mice.
L'aigle ne s'amuse point à chasser/prendre les mouches.
El águila no se entretenie en cazar moscas.
Löwen fangen keine Mäuse.
Quid leo cum mure? Aquila non captat muscas.

Barriga vazia não tem ouvidos.
A hungry belly has no ears.
Ventre affamé n'a point d'oreilles.
El vientre ayuno no oye a ninguno.
Einen hungrigen Magen is nicht gut predigen.
Venter praecepta non audit.

Cão que ladra, não morde.
Barking dogs seldom bite.
Chien qui aboie ne mord pas.
Perro que ladra no muerde.
Hunde, die bellen, beißen nicht.
Si non morderis, cane quid latrante vereris.

Com um só golpe, não se derruba uma árvore.
An oak is not felled with one stroke.
Au premier coup ne choit pas l'arbre.
Un solo golpe no derriba (a) un roble. De un solo empujón no se derriba a un paredón.
Von einem Streiche fällt keine Eiche.
Non uno ictu arbor cadit.

Depois da tempestade, vem a bonança.
Every cloud has a silver lining. The sun breaks through the darkest clouds.
Après la pluie le beau temps.
Después de la lluvia viene el buen tiempo.
Auf Regen folgt Sonne.
Post nubila phoebus.

Em boca fechada não entra mosca... e de boca fechada não sai cáca.
First think and then speak. Wise men (are) silent, fools talk.
Il faut tourner sa langue sept fois dans sa bouche avant de parler.
Antes de hablar, un padrenuestro rezar. en boca cerrada no entran moscas.
Denke zweimal eh' du einmal sprichst. Kluges Schweigen ist besser als dummes Reden.
Lingua mentem ne praecurrat.

Em cavalo dado não se olham os dentes.
Don't look a gift horse in the mouth.
A cheval donné on ne regarde pas à la bride/aux dents.
A caballo regalado, no se le mira el diente.
Einem geschenkten Gaul sieht man nicht in's Maul.
Donati non sunt ora inspicienda caballi.

Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.
In the kingdom of the blind, the one-eyed man is king.
Au royaume des aveugles, les borgnes sont rois.
En el país de los ciegos, el tuerto es rey.
Unter den Blinden ist der Einäugige König.
Monoculus inter caecos rex.

Gato escaldado tem medo de água fria.
Once bitten, twice shy.
Chat échaudé craint l'eau froide.
Gato escaldado del agua fría huye.
Gebrantes Kind scheut fas Feuer.

Não há rosas sem espinhos.
No rose without thorn.
Il n'est point des roses san épines.
No hay rosa sin espinas.
Keine Rose ohne Dornen.
Nulla rosa sine apina.

Não se fazem omeletes, sem quebrar ovos.
You cannot make an omelet without breaking eggs.
On ne fait pas d'omelettes sans casser des oeufs.
No se hacen tortillas sin romper huevos.
Wo gehobelt wird, fallen Späne.

Nem tudo o que reluz é ouro.
All that glitters is not gold.
Tout qui reluit n'est pas or.
No es oro todo que reluce.
Es ist nicht alles Gold, was glänzt.
Non est aurum quicquid rutilat fulvum.

O fruto proibido é o mais saboroso.
Forbidden fruit is sweet.
Chose défendue, chose desirée. Pain dérobé réveille l'appétit.
Es más dulce el sabor de la fruta robada. Mucho más se desea lo que se veda.
Verbotene Früchte sind süß.

O lobo perde o pâlo, mas não perde o vício.
A leopard cannot change his spots. The wolf may lose his teeth, but never his nature/memory. The fox may grow grey, but never good.
A laver la tâte d'un âne on perd sa lessive. Le loup/Le renard change de poil, mais non de naturel. En sa peau mourra le loup/le renard.
Sobre negro no hay tintura.
Den Raben kann man nicht weißwaschen. Der Wolf/Fuchs ändert wohl sein Haar, aber er bleit, wie er war. Der Bock läßt wohl vom Bart, aber nicht von der Art.
Balnea cornici non prosunt. Vulpes pilos mutat, non mores.

Pelos frutos conhece-se a semente ou A árvore se conhece pelos frutos.
By its fruit each plant is known. A tree is known by its fruit.
On reconnaît l'arbre à ses fruits.
El árbol por el fruto es conocido. Por el hilo sacarás el ovillo.
Ogni erba si conosce per lo seme.
An der Frucht erkennt man den Baum.
De fructu arborem cognosces.

Quem não pode agüentar o calor, não vai à cozinha.
If you cannot stand the heat, stay out of the kitchen.
Qui a peur des feuilles n'aille/ne vas (point) au bois.
Al bosque no vaya quien de las hojas miedo tienga.
Wer das Laub fürchtet, bleibe aus dem Walde.

 

A conversação é de tal forma estruturada que aprendemos a reconhecer quando um provérbio pode ser evocado e em que ponto da conversação, sem que necessariamente conheçamos o item ou os itens que podem ser usados de maneira bem-sucedida naqueles pontos. De fato, não somente um, mas muitos provérbios poderiam ser empregados naquele momento crítico. Além disso, muitos dos provérbios são tão profundamente embutidos no nosso conhecimento metafórico, que poderíamos aprendê-los sem contatá-los com muita freqüência em interações. Eles têm estado envolvidos em temáticas sociais diversificadas, apoiados no conhecimento tradicional, personificados no cerne da sabedoria, ou seja, são também estratégias para lidar com situações-problema. Mas esta sabedoria tem sido confundida com a verdade, uma verdade transcendental que subjaz além do comportamento atual, num continuum entre dois ou mais seres que se comunicam. Mesmo em um contexto no qual argumentos personificados na sabedoria proverbial são encorajados, o item depende de ser empregado apropriadamente, interativamente, para personificar a sabedoria. Os provérbios, deste ponto de vista, podem ser simplesmente uma parte do repertório social de estratégias de persuasão, disponíveis para aqueles que tentariam usá-los de maneira bem-sucedida como parte de uma discussão, na qual o domínio moral está sendo negociado e um falante está tentando afetar a atitude e as futuras ações de um ou mais ouvintes, o que me leva a supor que realmente possuem uma função persuasiva.

Por que um determinado provérbio aflora muito freqüentemente em certos ambientes de tensão na nossa vida social e por que esse provérbio se encaixa numa determinada situação prontamente? Nesta ótica, tende-se a pensar, simultaneamente, na situação e na formulação proverbial. A qualidade de encaixe dá ao provérbio um sentido de força, de poder, de autoridade, quase que irrefutável, pelo fato de embuti-lo num cenário dramático preexistente.

O provérbio é a designação genérica dos ditos cristalizados que exprimem, em geral metaforicamente, uma verdade ou resumem uma experiência. É uma sentença independente e de sentido completo, que direta ou indiretamente expressa um pensamento, uma experiência, uma regra, uma norma, uma advertência, um conselho.

São características dos provérbios, quanto ao conteúdo, a sua formulação abstrata, isto é, não referida a nenhum caso particular, e a sua validade é universal, sem distinção de lugar e tempo. Quanto à forma, distinguem-se pela elaboração trabalhada, artificiosa, que utiliza os mais variados recursos de construção, como a metrificação (em grande número redondilhas), a rima, a aliteração, a similicadância, a repetição, o paralelismo, o dialogismo e outros sem excluir mesmo a deformação intencional de palavras e a violentação da sintaxe.

Os provérbios são populares, nascidos no seio do povo, de forma e sabor característico, e refletem, em seu conjunto, os usos e costumes, a índole e a psicologia de uma nação, e incorporam-se no folclore nacional, como Quem não gosta de samba, é ruim da cabeça ou doente do pé.

No Brasil, o provérbio tem por sinônimos adágio, rifão ou refrão, anexim, dito, ditado e parêmia, que se diferenciam uns dos outros, apenas por matizes. Entendo o rifão e o anexim como francamente vulgares. O rifão em estilo baixo e muitas vezes em baixos termos: Da cintura pra baixo, tanto faz a galinha como a sardinha; Amor de rameira e convite de hoteleiro, sempre custam dinheiro; e o anexim geralmente encerrando o mesmo estilo, com ironia ou chiste: Mais vale um cachorro amigo do que um amigo cachorro. Refrão é vocábulo praticamente desusado nesta acepção, absorvido por rifão. Ditado é a designação geral do provérbio ou adágio, do rifão e do anexim. Parêmia é a voz grega (Paroimia) equivalente à latina provérbio, sinônimo perfeito, mas pouco usado no Brasil.

Com os provérbios convivem outros tipos de proposições concisas e de uso comum, mas que de provérbios nada tâm, como os aforismos ou citações, as máximas, as frases proverbiais, os clichês, as superstições, os slogans e assim por diante. Apesar de todos eles expressarem verdades gerais em essência e concisão, e de possuírem formas memoráveis, diferem-se uns dos outros e não têm sido devidamente definidos.

Pelos meus estudos, concluí que o provérbio é um enunciado anônimo. A característica precípua dos provérbios é o anonimato da sua autoria -- excetuando-se os provérbios bíblicos. É lexicalizado, isto é, dicionarizado, parte do inventário da língua. É também sintaticamente autônomo -- surge no discurso sob forma canônica, cristalizada, fixa, que não muda, congelada, petrificada. É discursivamente autônomo ­ a sua aparição independe de uma mudança conversacional. Considerado fora do discurso, o provérbio possui um valor de verdade geral. A metáfora é uma estratégia. O provérbio é uma estratégia para se lidar com uma situação.
Categorizo como aforismos ou citações pensamentos de autor conhecido que implicam certa distinção de conteúdo ou estilo, tal como nos Aforismos de Hipócrates, de onde a palavra é derivada. "Via trita via tuta"; "The beaten path is the safe one", ou seja, O caminho batido é o mais seguro. Este aforismo é-nos familiar, assim como o são:

"A beleza está nos olhos de quem a contempla."
"Nossas vidas tâm tanto ou pouco sentido quanto nelas colocamos." (ambos os aforismos de Carl Gustav Jung, psicanalista suíço)

ou

"Aprender sem pensar é inútil; pensar sem aprender, perigoso."
"O homem de bem exige tudo de si próprio, o homem medíocre espera tudo dos outros." (de Confúcio - vide ref. bib.)

ou ainda

"A paciância traz mais frutos que a força." (Edmund Burke)
"A verdadeira viagem se faz na memória." (Marcel Proust)
"A vida que não se examina não vale a pena ser vivida." (Sócrates)
"Escreve na areia as faltas do teu amigo." (Pitágoras)
"Imaginação é mais importante do que conhecimento." (Albert Einstein)
"Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez." (Jean Cocteau)
"O amor é eterno enquanto dura." (Sofocleto)
"O inteligente previne-se de tudo; o idiota faz observações sobre tudo." (Heinrich Heine)
"O que o mestre é, vale mais que os ensinamentos do mestre." (Karl Menninger)
"O real em nós é silencioso; o adquirido é falante." (Kahlil Gibran)
"Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte, para ver a alma." (George Bernard Shaw)
"Os sonhos nada custam, transformá-los em realidade é que tem preço." (Ennis J. Gibbs)
"Quando o homem não encontra a si mesmo, nada encontra." (Goethe)
"Rico ou pobre, todo preguiçoso é um cretino." (Jean-Jacques Rousseau)
"Ser ou não ser, eis a questão." (Shakespeare)
"Só se encontra o que se busca, o que nos é indiferente foge-nos." (Sófocles)
"Temer o amor é temer a vida e os que temem a vida já estão meio mortos." (Bertrand Russel)
"Uma longa viagem começa com o primeiro passo." (Lao-Tsé, encontrados em Rónai) (1985).

As máximas eram, originalmente, sinônimo de axioma -- proposições básicas que podiam ser assumidas como primeiros princípios da razão, especialmente na filosofia ou na ciância. Todavia, posteriormente, começou-se a tratar por máximas proposições concisas que expressam regras genericamente aceitas ou preceitos de conduta. Neste sentido acham-se duas máximas gregas inscritas nas paredes do Templo de Apolo, construído por Augustus: Nada em excesso e Conheça-se a si mesmo. As máximas foram enaltecidas por brilhantes filósofos e médicos, como o Duque de La Rochefoucauld (1613-1680), que analisou inteligentemente por meio delas temáticas humanas referentes ao auto-conhecimento, no livro Reflexões, Sentenças e Máximas Morais, que surgiu em 1665 (vide ref. bib.); Jean de La Bruyere, que escreveu um ensaio acerca das condições sociais etcetera. No Brasil, destaca-se o Barão de Itararé, que prima pela ironia e pelo lúdico (vide Castro, 1990). A máxima é expressada em termos gerais, que são interpretados literalmente apenas e, não, metaforicamente.

As frases feitas, segundo Tagnin (1989), são dizeres, expressões comuns aos falantes de uma língua. Se ouvirmos uma dessas frases isoladamente, fora do contexto, somos capazes de recriar a situação em que se insere, como nos exemplos que se seguem:

A noite é uma criança.
Até aí, morreu Neves.
Bom divertimento!
Cale a boca!
Depois não vá dizer que Santo Antônio te enganou!
É mais fácil um boi voar!
Espere um minuto!
Está na hora da onça beber água.
Falando do diabo... o diabo aparece.
Melhor sorte na próxima!
Não é o que você está pensando.
Não seja infantil!
Não tire conclusões apressadas!
O cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais.
O gato comeu a sua língua?
Pensa que berimbau é gaita?
Vá contar pra outro.
Vá em frente!
Você enlouqueceu?
Você perdeu o juízo?!

Os clichês são estereótipos. Este termo é usado de duas maneiras diferentes: (i) como termo técnico, que se origina na Psicologia Social e refere-se a um certo tipo de preconceito, e (ii) na linguagem do dia-a-dia, quando ele significa algo constantemente repetido -- significado adotado pelos lingüistas. Os clichês são fórmulas comuns, verdades triviais coaguladas com a forma lingüística fixa. Segundo Ferreira (1993: 73), o clichê, enquanto construção de aparância lingüisticamente cristalizada, encobre sob sua forma sentidos que não se encontram petrificados. Alguns se fixam, outros são excluídos ou tâm a sua direção alterada. Não se pode, portanto, atribuir ao clichê a condição de um fóssil, sob pena de sermos surpreendidos ao descobrir que ele está vivo e, como tal, sem significação contínua. Exs.: Deus é brasileiro; Negócio é negócio; Dinheiro é dinheiro.

As superstições ou crendices populares são também formas concisas, como as anteriormente citadas e os provérbios, mas não possuem forma poética e operam num setor diferente da experiência humana. Elas tentam manipular as confrontações do homem com o extra-sensorial, o extra-pessoal, com forças sobrenaturais (ou naturais). Consoante Abrahams (1968: 48), na maioria dos casos estas forças ameaçam romper a existância contínua dos indivíduos e, por extensão, do grupo. A maioria das superstições ataca potencialmente forças malevolentes. Algumas, contudo, reconhecem a existância de forças externas benevolentes e tentam convertâ-las em vantagem para o indivíduo ou para o grupo. Exemplos:

Abrir guarda-chuva dentro de casa atrai chuva na certa.
Abrir o guarda-chuva, dentro de casa, dá azar.
Borboleta quando pousa na gente traz sorte.
Bruxa[1] quando entra na casa da gente é sinal que a morte ronda.
Casa de esquina, ou morte ou ruína.
Cavalo argel traz desgraça pra si e pro dono.
Chifre de argola não pega mandinga.
Chuva e sol, casamento de espanhol.
Chuva na hora do casamento, em época de estiagem, sorte no casamento.
Coceira na mão é sinal que vem dinheiro ou notícia boa.
Colocar clara de ovo para Santa Clara, faz parar a chuva.
Com crucifixo e alho vampiro não chega.
Comer carne com peixe faz crescerem as orelhas.
Cós de saia arrebentado, noivo tomado.
Dar nó no abainhado da saia, amarra cobra.
Defunto mole chama outro na casa.
Doente mudou de cabeceira, morte certa.
Doente que espirra não morre no dia.
Galinha que canta como galo anuncia a morte do dono da casa.
Galo cantando fora de hora dá novidade amanhã.
Galo cantando na boca da noite, sinal de que estão furtando moça.
Gato preto encaipora a casa.
Gato tem sete vidas.
Homem narigudo, poucas vezes cornudo.
Imagem do Buda de costas próximo a porta traz riqueza.
Lobisomem aparece em noite de Lua Cheia.
Mancha branca nas unhas é aviso que vai receber presente.
Mancha branca nas unhas é sinal que andou falando mentira.
Mão fria, coração quente; mão quente, coração frio.
Menino que, à noite, brinca com fogo, mija na rede.
Mentira faz crescer o nariz.
Moça que quiser achar casamento, enterre Santo Antônio de cabeça pra baixo.
Moça que senta no canto da mesa fica solteira.
Morto de olho aberto, outra morte.
Muita cera no ouvido traz riqueza.
Mulher que se casa no dia de Sant'Ana, morre de parto.
Olhar pro sol dá cegueira.
Pata de coelho dá sorte.
Quando gato preto cruza o nosso caminho, azar na certa.
Quando o noivo vê a noiva vestida de noiva antes dela entrar na igreja, sinal de separação.
Quando se está de orelha quente é sinal que alguém fala da gente; se é a esquerda é por paixão, se é a direita falam mal então.
Quando se fala mentira, se se cruzam os dedos, Deus não castiga.
Quem abre guarda-chuva dentro de casa atrai azar.
Quem aponta pra Lua cria verruga na ponta do dedo.
Quem bate na madeira se isola de malefícios.
Quem bota bolsa no chão afasta dinheiro.
Quem cochicha, o rabo espicha.
Quem conta história de dia, cria rabo de cotia.
Quem corta unha de bebê pagão faz ele virar lobisomem.
Quem dá e toma, fica corcunda.
Quem dá e torna a tomar, vira a corcunda pro mar.
Quem dá sal na mão pra si atrai miséria.
Quem derruba um garfo recebe visita masculina.
Quem derruba uma colher recebe visita feminina.
Quem encontra um trevo de quatro folhas está com sorte e não está prosa.
Quem entra por uma porta e sai pela outra leva a fortuna da casa.
Quem escuta, o rabo encurta.
Quem mata gato, tem sete anos de atraso.
Quem mata sapo, fica seco.
Quem passa debaixo de escada atrai azar.
Quem primeiro perde a aliança (de casamento), primeiro morre.
Quem reclama, o rabo inflama.
Quem se levanta primeiro da cama, no dia seguinte ao casamento, é quem primeiro morre.
Quem se senta em pedra de amolar, se prepare pra apanhar.
Quem tira a camisa do boi, sem a sua fica.
Quem vai à esquina o rabo afina.
Quem vai à roça o rabo engrossa.
Quem veste roupa do lado do avesso ganha presente.
Se há roupa do lado do avesso no quarto onde de dorme, pesadelo na certa.
Semana Santa em março, fome ou mortaço.
Sinal no céu, castigo na terra.
So bala de prata mata lobisomem e vampiro.
Sol e chuva, casamento de viúva.
Vassoura atrás da porta afasta visita malquista.
Visita que abre a porta na saída não volta mais.

 

Os slogans são fórmulas que penetraram na linguagem do dia-a-dia pela mídia. Talhados com determinados objetivos, como os comerciais, eles também servem como títulos para livros, filmes, programas de TV. Por natureza, os slogans são as formas concisas mais vivas das expressões do conhecimento diário. Ex.: Slogan da Campanha Nacional de Trânsito: "Perca um minuto em sua vida, mas não perca a sua vida num minuto." Slogan da Análise Transacional: "Quem não se envolve, não se desenvolve". Slogan do programa de TV do Chacrinha: "Quem não se comunica, se trumbica." Slogan do refrigerante Grapette: "Quem bebe Grapette, repete". Segundo Arnaud & Moon (1993: 324), "ser provérbio [...] é o ideal do slogan". Portanto, o ideal do comunicador é transformar o seu slogan num provérbio, fazer com que o slogan caia no domínio público.

Já os provérbios são afirmações concisas de verdades gerais, provenientes da experiência popular, do senso comum, da fidedignidade a um contexto de vida específico, da simplicidade. Lidam com os interesses primários do homem, como o amor e a luta; a saúde e a doença; a juventude e a velhice; a fome e o alimento; o trabalho e a brincadeira. São coloridos, plenos de senso de humor e, especialmente, de natureza moral. Seu efeito é elevar uma afirmação de um nível ordinário, simplório, para um nível enfático, para ensinar, elogiar, persuadir, convencer ou, contrária e alternadamente, para prevenir, advertir, envergonhar, restringir ou desencorajar atitudes. Se uma máxima é interpretada literalmente, o provérbio é geralmente metafórico, possui duplo significado, uma leitura literal e outra figurada. Freqüentemente, os adágios são estabelecidos em uma forma prosódica, rimada, rítmica, repetida, aliterativa. A forma consonantal facilita a retenção mnemônica dos provérbios, como em:

A ocasião faz o ladrão.
A paixão cega a razão.
Alho e pimenta, o fastio ausenta.
Cada qual com seu igual.
Comer e coçar está no começar.
Cria fama e deita-te na cama.
De médico e de louco todos nós temos um pouco.
De raminho em raminho o passarinho faz seu ninho.
Favor recebido, favor esquecido.
Filho extremoso, pai venturoso.
Filhos criados, trabalhos dobrados.
Na boca do mentiroso, o certo se faz duvidoso.
Pai impertinente, filho desobediente.
Pai rico, filho nobre, neto pobre.
Pecado confessado está meio perdoado.
Quem faz uma vez, faz duas, faz três.
Quem não arrisca, não petisca.
Quem vai ao ar, perde o lugar.
Quem vai ao vento, perde o assento.

Se, na maioria das vezes, o provérbio é rimado, há, também, provérbios que não o são:

Em pé de pobre, todo sapato serve.
Mortalha não tem bolso.
Quem sai aos seus não degenera.

O provérbio recebe interpretação generalizada, independente da realidade concreta à qual ele se refere:
A aranha vive do que tece.

Abelha atarefada não tem tempo pra tristezas.
Água fria não escalda pirão.
Agulha sem fundo não arrasta linha.
Antes um pássaro na mão, que dois voando.
Bode também tem barba.
Cada macaco no seu galho.
De noite, todos os gatos são pardos.
Em terra de sapos, de cóqua qüâles (cócoras com eles).
Galinha não mata pinto.
Impossível é rato fazer ninho em orelha de gato.
Macaco velho não bota a mão em cumbuca.
Porco velho não se coça em pé de espinho.
Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha.
Saco vazio não pára em pé.
Urubu, quando anda caipora, atola-se até o lajeiro.
Vassoura nova sempre varre bem a casa.

 

A interpretação generalizada aplica-se a qualquer pessoa que se encontre diante da mesma situação:

Não se chora pelo leite derramado.
Nunca falta um chinelo velho para um pé cansado.
Por causa de uma esporada, perde-se uma vaquejada.
Quem tem boca, vai a Roma.
Quem tudo quer, tudo perde.

Há provérbios descritivos:

Em casa onde não há pão, todo mundo grita sem razão.
Os olhos do dono é que engordam o porco.
Quem anda em terra alheia é o primeiro que apanha e o derradeiro que come.

Os provérbios são portadores de uma carga moral crítica ou vinculativa:

A boa esposa faz a boa sopa; o bom marido faz a boa esposa.
Ao rico não deva, ao pobre não prometa.
O pior cego é o que não quer ver.
O velhaco quer um no saco, outro no papo.
Quando o amigo é certo, um olho fechado e outro aberto; quando não é certo, todos dois abertos.
Queira bem de graça, que por dinheiro é chalaça.
Quem abrolhos semeia, espinhos colhe.
Quem semeia vento, colhe tempestade; quem semeia amor, colhe saudade.
Sacristão novo cospe fora da igreja; sacristão velho faz pipi no altar.
Um inimigo prudente é preferível a um amigo indiscreto.

Paremiologia (do grego paroimia, pelo latim paroimia) é uma coleção de parêmias ou provérbios. Paremíaco(a), paremiógrafo(a), paremiólogo(a), paremiologista, tudo se refere a provérbios ou proverbiologia, proverbiólogo, proverbiologista (neologismos meus).

Há uma paremiologia tipicamente brasileira, a exemplo das expressões proverbiais toponímicas e referentes a locativos indígenas, como por exemplo:

Macaé: má terra, má gente, má maré.
São Paulo pra café, Ceará pra valentão, Piauí pra vaca brava, Pernambuco pra baião; Rio Grande pra cavalo, Paraná pra chimarrão, Em Minas carne de porco, Rio de Janeiro, eleição; Alagoas povo macho, Mato Grosso pra brigão, Amazonas pra borracha, Paraíba pra algodão; Para castanha o Pará, Para arroz o Maranhão, Bahia pra mulata, Sergipe cana e feijão; No Rio Grande do Norte, Jerimum e violão, Em Goiás moça bonita e rapaz sem coração (...);

gentílicas:

Baiano, um por engano;
Baiano burro nasce morto;
Gaúcho sempre com a faca no bucho;
Todo gaúcho tem um lado gay que é lésbico,

e assim por diante.

Pelos provérbios, sabedoria testada pelo tempo, o falante impõe a sua autoridade. Os provérbios possuem, pois, comumente, na conversação, uma função avaliativa e um tom didático. Essencialmente, o mesmo efeito pode ser conseguido ao citar-se a Bíblia, autores famosos ou autoridades relevantes em determinada área. Nós nos tornamos tão acostumados a ouvir os provérbios citados como papéis avaliativos do comportamento, que a maioria dos provérbios adquire o sabor didático. Por exemplo, o provérbio Pedra que rola não cria limo embora possa significar uma pessoa que se move mantém a juventude por mais tempo ou uma pessoa que muito se move não enriquece, os ouvintes interpretam-no segundo as suas crenças, o seu ponto de vista. Destarte, torna-se óbvia a natureza didática dos provérbios e há que se reconhecer a importância do momento didático no seu significado interacional.

Uma segunda conseqüência do caráter tradicional dos provérbios surge no seu caráter autoritário. Os ouvintes tendem a reagir às emissões proverbiais como se elas fossem provenientes de fontes autoritárias. O peso da tradição ou a maioria das opiniões inculcam autoridade na emissão dos provérbios. Uma simples afirmação deste fato ou crença traduz-se em É melhor prevenir do que remediar que parece agüentar uma força diretiva semelhante a uma verdade imperativa como Pense bem antes de agir.

No contexto da verdade, Se a palavra vale prata, o silâncio vale ouro (provérbio bíblico) pode expressar o mesmo significado interacional que Por favor, fique quieto, ou Fale pouco ou, ainda, Cale-se. Assim, evidenciam-se os caráteres didático e autoritário dos provérbios. Ao emitir um provérbio, o falante acrescenta autoridade e credibilidade à sua elocução, identificando-se com a sabedoria, crenças e preconceitos tradicionais de uma comunidade. Uma conseqüência disto pode ser atribuída à maneira como se emprega o provérbio. Falantes jovens citam menos provérbios do que os falantes mais velhos e os falantes mais velhos, geralmente, tendem a citar provérbios quando falam para ouvintes mais jovens do que eles. Por esta razão, no Brasil, os jovens tendem a fazer um uso lúdico dos provérbios transformando-os, adaptando-os a um contexto atual, especialmente o político, como fizeram os estudantes de Economia da Universidade de Brasília do Antes só que mal acompanhado, transformado para Antes só que Malan acompanhado, e do De grão em grão a galinha enche o papo, transformado em De Fernando em Fernando o Brasil vai-se afundando. Não somente os jovens, mas o brasileiro em geral, mesmo os idosos, possuem um senso de humor apurado. Assim sendo, ouve-se muito na nossa sociedade Depois da tempestade vem a bonança como Depois da tempestade vem o lamaçal; Quem espera sempre alcança como Quem espera desespera; Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe como Não há mal que sempre dure, nem mal que sempre se ature, e assim por diante.

Os provérbios deixam o falante fora do contexto. Invocando a tradição e a comunidade como um todo, o falante não apenas desaparece como um agente direto, mas impõe o peso das sanções sociais. O caráter tradicional dos provérbios está imbuído nos seus sentidos pré-concebidos com autoridade e empresta a sua força diretiva de significados interacionais, enquanto permite que o falante desapareça frente à opinião consensual geral.

Em consonância com o seu caráter didático e autoritário, os provérbios tendem a situar o falante numa posição superior ou vis-à-vis com o seu ouvinte. Ao citar um provérbio, o falante sinaliza com um significado interacional e, indubitavelmente, intenta funcionar como conselheiro ou professor do seu ouvinte. Se uma pessoa cita provérbios regularmente a alguém, assume, no relacionamento, a responsabilidade de uma condição superior à do ouvinte. Ninguém espera que uma criança cite provérbios aos seus avós, pais ou professores. Logo, com uma citação proverbial, um falante mostra que possui o direito de aconselhar e ou advertir o seu ouvinte ou que ao menos naquela relação está em condição de igualdade com o seu interlocutor ou, ainda, mesmo que momentaneamente, está em condição superior, pela posse da sabedoria tradicional.

Como outras formas do folclore, os provérbios são veículos para a comunicação pessoal. Segundo Luyten (1988: 10) todo ato comunicativo é, na realidade, uma tentativa de alguém atuar sobre outro alguém, de procurar modificar algo na estrutura mental da pessoa que recebe a mensagem. Em cada elocução, pois, há uma intenção. Pais podem utilizar-se de provérbios para direcionar pensamentos e ações de seus filhos. Todavia, ao utilizar-se de um provérbio o imperativo paterno é externalizado e alguma coisa removida daquele pai individual. A responsabilidade do direcionamento da criança projeta-se no passado anônimo, no folclore. A criança sabe que o provérbio usado pelo pai, que ora a adverte, não foi criado por ele. O provérbio é proveniente do passado cultural, cuja voz da verdade fala em termos do que é tradicional à sociedade. O pai é apenas o instrumento pelo qual o provérbio lhe fala.

De acordo com Arewa & Dundes (1964: 70), o poder impessoal dos provérbios é mais aparente no Fórum africano, onde os participantes de processos judiciais argúem com provérbios, pretendendo que os provérbios sirvam como precedentes passados para ações presentes. Nas cortes européias, assim como nas brasileiras, os advogados citam casos anteriores (jurisprudância) como suporte aos seus argumentos. No ritual legal africano, um advogado de uma causa usa provérbios para o mesmo propósito. Aqui, claramente, não é suficiente saber-se provérbios; é necessário ser um experto em aplicá-los a novas situações. Obviamente, a causa não será ganha por quem souber mais provérbios, mas por quem melhor souber aplicá-los.

A conseqüência do caráter tradicional dos provérbios é que uma pessoa em condição superior pode aconselhar como uma maneira de estabelecer um vínculo de respeito com uma pessoa que lhe está, naquele momento, hierarquicamente inferior, isto é, este laço pode ser como o de pais e filhos ou o de um professor e um estudante. E este momento corresponde ao momento didático do significado interacional dos provérbios.

Atinando-se à questão da utilização dos provérbios na língua, há, pois, duas funções importantes que a eles se podem atribuir, ambas ligadas ao discurso argumentativo. Uma delas, a mais comum, é a carga moral, com sentido didático. Usam-se os provérbios como, por exemplo, para aconselhar:

a) os filhos a irem para a cama: Deitar cedo e cedo erguer-se.;
b) a dieta à mesa: Come-se para viver; não se vive para comer.;
c) a prudância: Ame o seu vizinho, mas não derrube a sua cerca; Saber esperar é grande virtude; Quando evitamos as ocasiões, removemos as tentações; Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.;
d) a parcimônia: Quem tudo quer, tudo perde; Quando não se tem o que ser quer, é preciso querer-se o que se tem.;
e) a verdade: Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo; O diabo tem uma capa que encobre e outra que descobre; A verdade é como o azeite, sempre vem à tona;
g) a economia: Poupa o seu vintém, que um dia você será alguém; Comprar a enforcados, vender a namorados,

etcetera. Nesta função, o provérbio é essencialmente didático, utilizado para aconselhar uma atitude, para prevenir um mal.

Uma outra função, igualmente comum, é a do anteriormente mencionado argumento de autoridade. A argumentação - que deve repousar na coerância interna e objetiva dos argumentos - recorre muitas vezes a pressões afetivas, do tipo Se você não fizer, eu fico triste ou aos chamados argumentos de autoridade, como Faça, porque eu mando ou Faça, porque é assim que tem que ser feito. É neste último caso que os provérbios se tornam um valioso auxiliar a quem já não tem mais argumentos. E todos somos capazes de recordar situações em que assistimos -- ou em que protagonizamos -- discussões que terminaram com um provérbio de autoridade indiscutível:

A mão que dá o castigo, dá o pão.
Amanhã, a Deus pertence.
Cada cabeça uma sentença.
Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão.
Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Quem não tem competância, não se estabelece.
Respeito é bom e eu gosto.

Há que se frisar a importância dos provérbios e de outros atos de fala indireta -- e aqui incluem-se os atos de fala indireta e os figurados -- por permitirem que o falante disfarce os seus verdadeiros sentimentos. Ao falante eles representam um caminho de fuga e ao ouvinte oferecem opções e apontam para um consenso real ou imaginário. Mas os falantes também recorrem aos provérbios em situações de duplo sentido, como, por exemplo, quando são solicitados a tecer um julgamento sobre algo que pode vir a magoar alguém ou revelar as suas preferâncias íntimas. Assim, os falantes também se utilizam dos provérbios para evitar comprometimentos e refutações pessoais.

Nem todos os usos figurados são novos e criativos. Os provérbios, assim como outros itens do folclore e as expressões idiomáticas exemplificam o aspecto convencional e repetitivo dos usos figurados. Uma vez que a metáfora é uma estratégia, um provérbio é uma estratégia para lidar com uma situação.

Magalhães-Almeida (1986), em sua dissertação de mestrado, afirma que os provérbios possuem forma relativamente fixa, admitindo pouca ou nenhuma modificação, sintática ou léxica. O seu uso metafórico depreende-se na situação em que são usados. A finalidade deles é de resumir uma situação, retratá-la e dar-lhe uma essência ao se emitir um determinado julgamento. Exemplos:

(1) Pau que nasce torto, morre torto.
(2) É de pequenino que se torce o pepino.
(3) Pela árvore se conhece a semente.
(4) Filho de peixe, peixinho é.
(5) Quem não se enfeita por si só se enjeita.
(6) Mais vale um pássaro na mão que dois voando.
(7) Um dia é da caça, outro do caçador.

Nota-se a sinonímia nos provérbios: em 1, 2, 3 e 4 os usos proverbiais são similares.

Magalhães-Almeida ainda observa que, dada uma situação particular de discurso, o provérbio constitui-se num julgamento particular do falante acerca de um evento especificado naquela situação. Deste modo, Mais vale um pássaro na mão que dois voando pode referir-se ao fato de ser melhor ter um emprego certo do que dois incertos, possuir-se pouco dinheiro ou jogá-lo na loteria esperando dobrá-lo, ou mesmo centuplicá-lo e perdâ-lo etcetera. Mas, numa dada situação em que a referância foi fixada, esse provérbio será a síntese do julgamento pessoal do falante sobre algo ou alguém ou uma dada situação real do mundo exterior. Nesses termos, poder-se-ia pensar nos provérbios metafóricos como uma predicação referente a esse algo, alguém ou uma dada situação, apesar de não se ter mais o mesmo processo predicativo da lógica formal.

Tagnin (ibid) alega que no nível semântico da convencionalidade as estruturas convencionais da língua são decodificadas pelo todo e não por suas partes, o que quer dizer que o seu significado foi convencionalizado pela sociedade. Assim, diz-se que uma forma lingüística foi convencionalizada quando uma expressão passou a ter um significado diferente dos seus constituintes. São expressões fixas, cristalizadas e consagradas pelo uso, empregadas dentro de um determinado contexto, importantes no aprendizado de qualquer língua. Na maioria das vezes nossas conversas seguem caminhos já trilhados, carecem de conteúdo, desenvolvendo-se de acordo com padrões pré-moldados de pensamento e de expressão verbal. Fazem com que a nossa comunicação flua com mais facilidade e eficiância, pois evita que a todo momento tenhamos que ser criativos. Do mesmo modo, isto vale para o ouvinte, que não teria condições de estar constantemente decodificando o interlocutor. Não obstante, este tipo de expressão costuma ser chamado, pejorativamente, de frase feita, pois as fórmulas situacionais vâm em nosso socorro nos momentos em que não sabemos o que dizer. Todos já passamos por uma situação similar à: -- Como é que se diz, filhinha?, -- Obrigada, vovó. As primeiras aulas de fórmulas situacionais foram-nos dadas por nossos pais. As estruturas que podem expressar polidez ou distanciamento são fórmulas em que a estrutura é fixa, mas a parte léxica é variável; expressam padrões comportamentais convencionados socialmente. Fórmulas de distanciamento são fórmulas empregadas quando o falante (i) não deseja parecer muito direto; (ii) faz sugestões sob a forma de pergunta; (iii) visa a amenizar o impacto de uma afirmação muito categórica, e (vi) a suavizar opiniões. Há, todavia, fórmulas fixas, classe esta que engloba expressões fixas, petrificadas na língua, que são proferidas a título de comentários em um determinado contexto. Podem ser as expressões idiomáticas, as frases feitas, as fábulas, as citações e os provérbios.

Os provérbios podem ocorrer como textos por si mesmos e não apenas em textos amplos. Além de serem antologizados como pequenos e discretos textos, os provérbios ocorrem como textos completos, como nos slogans e inscrições em edificações, acompanhando figuras em cartoons, propagandas, etcetera. Em cada um desses ambientes um provérbio possui uma significação textual interacional e semiótica limitada pela gravura e ou por outras características do contexto, mas o significado literal como texto predomina na maioria dos casos, preservando-se a descrição correta do seu significado.

A predominância do significado integral do texto do provérbio, em contextos como os supracitados, também justifica o estudo dos provérbios como textos. Mesmo quando o provérbio ocorre como parte integral de um discurso amplo ou um texto escrito, a independância do seu significado tem um importante papel na determinação da sua contribuição semântica no texto como um todo. Assim, o estudo dos provérbios como texto está preliminarmente justificado ou é um passo em direção à análise dos provérbios em textos e interações.

Como dizia a minha avó... Como dizia o meu avô... Como dizia o meu pai... Como diz o provérbio... Como diz o ditado...
Bem, passemos ao que diz o povo brasileiro, por meio desta Coletânea de Provérbios e Outras Expressões Populares Brasileiras.

Ana Maria de Moraes Sarmento Vellasco
vellasco@brnet.com.br

Brasil, Brasília, DF, maio de 1996.



Referências bibliográficas:


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AREWA, E. Ojo & DUNDES, Alan. 1964. "Proverbs and the ethnography of speaking folklore". In: American Anthropologist 66, No. 6, Part 2: 70-85.

ARNAUD, Pierre & MOON, Rosamund. 1993. "Fréquence et emploi des proverbes anglais et français". In: Chapitrein J. L.PLANTIN, Christian. Lieux communs, topoi, stéréotypes, clichés. Paris, Kimé, 1993, pp. 322-341.

CASTRO, Maria Lília Dias de. 1990. As articulações da ironia nas máximas/mínimas do Barão de Itararé. Tese de Doutorado inédita. São Paulo, USP.

CONFÚCIO. Os Analectos. São Paulo: Editora Pensamento, s.d.

FERREIRA, Maria Cristina Leandro. 1993. A antiética da vantagem do jeitinho na terra em que Deus é brasileiro (O funcionamento discursivo do clichê no processo de constituição da brasilidade). In: ORLANDI, Eni Pulcinelli. (org.) Discurso Fundador (A formação do país e a construção da identidade nacional). Campinas, Pontes Editores.

HAMMERSLEY, M. & ATKINSON, P. 1983. Ethnography: principles in practice. London, Routledge.

LA ROCHEFOUCAULD, François, Duc de. !923. Reflexões, sentenças e máximas morais. Rio de Janeiro, Garnier.

LUYTEN, Joseph. Sistemas de Comunicação Popular. 1988. São Paulo, Editora Ática, Série Princípios.

MAGALHÃES-ALMEIDA, Cirlene. 1986. Para uma descrição semântico-cognitiva da linguagem metafórica. Dissertação de Mestrado, inédita, Universidade de Brasília, Brasília, DF.

R"NAI, Paulo. Dicionário Universal de Citações. 1985. São Paulo, Círculo do Livro.

TAGNIN, Stella Ortweiller. 1989. Expressões idiomáticas convencionais. São Paulo: Ática, Série Princípios, pp. 88.


1 Borboleta escura, marrom ou preta.







 
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