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Friday, 3 February 2012


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VI - CONCLUSÕES

PROVÉRBIOS E EDUCAÇÃO MORAL

For I am proverb'd with a grandsire phrase

(Romeu em Romeo and Juliet I, 4).

I

Ao final desta tese, a título de conclusões, retomaremos, inicialmente (seguindo a estrutura do trabalho), seus principais pontos, que, esperamos, tenham ficado suficientemente evidenciados. E, num segundo momento, teceremos algumas considerações sobre a educação moral, talvez de interesse também para o Brasil da atualidade.

A filosofia da educação pressupõe sempre a antropologia filosófica: só a partir do ser do homem, podemos refletir sobre o educar. Se essa afirmação é sempre verdadeira, ela é tanto mais evidente quando se trata da educação moral, na medida em que - com Tomás de Aquino - concebemos a moral como o próprio ser do homem, ultimum potentiae ou, na feliz tradução de Pieper, Selbstverwirklichungsvorgang, um processo de auto-realização do ser humano ([1]).

Mas o trilhar deste caminho de auto-realização dá-se, concretamente, pelo agir livre e responsável em que, em cada caso, a prudentia julga sobre os meios que nos vão conduzindo àquele máximo, àquele ultimum, àquele - para repetir a feliz sentença de Píndaro - "Torna-te o que és!" ([2]).

O bem recebe sua medida (mensura) da verdade que, por sua vez, é medida pela própria realidade. Pela sua conformidade com a realidade, esta ou aquela ação concreta constrói ([3]) meu ser. Daí que - na genial percepção de Shakespeare - a pergunta radical de Hamlet (Ato III, 1) não é propriamente sobre a bondade ("whether 'tis nobler...") do agir (sobre o to do or not to do...), mas: "To be or not to be: that is the question" ([4]).

Nesse quadro, o conhecimento é o guia e o grande pressuposto da moral e da educação moral: o homem deve guiar-se pela verdade, apreendida pela recta ratio ([5]).

Mas, como vimos, na base das grandes tradições oriental e ocidental, encontra-se a constatação de que o homem é, essencialmente, Insan, aquele-que-esquece.

Daí a necessidade de a educação moral ser uma Pedagogia do dhikr, uma pedagogia do lembrar, uma pedagogia que busca, pela repetição, guardar a lembrança do essencial ante a entrópica tendência ao embotamento...

No âmbito da educação moral, "educação invisível" - como, aliás, também o é, particularmente, a educação para a prudentia -, o Oriente árabe tem, nesse sentido, uma proposta educativa que, ao longo deste trabalho, estamos designando por Pedagogia do mathal.

Expressão cabal do sistema língua/pensamento árabe (e da forma de pensamento semita, em geral), o mathal - tal como aparece no Alcorão, na Bíblia e em toda a tradição árabe) realiza em si, condensa em si as características desse sistema. "Meio e mensagem" o provérbio árabe (tipicamente) apresenta: a imagem concreta, a associação imediata, a ligação com o passado, a ponte entre o universal e o concreto...

Essa particular ordenação do mathal para a realidade concreta, permite - e é o tema central desta tese - a correlação e a fundamentação antropológica da Pedagogia do mathal nos quadros da filosofia de Tomás de Aquino: em diversos aspectos, o Oriente pratica (pela Pedagogia do mathal) o que Tomás preconiza.

De fato, na antropologia de Tomás, o conceito central de alma é, ao mesmo tempo, profundamente espiritual e radicalmente comprometido com a matéria e com o concreto.

Essa radicalidade se traduz, em termos de conhecimento, pela afirmação do obiectum proprium da inteligência: ela, uma faculdade espiritual, tem seu objeto próprio na essência das coisas sensíveis!

Daí que, no âmbito da educação moral, o saber (nos dois sentidos de sapere) requeira a experiência e a memória.

E quando consideramos a educação moral como educação para a prudência (virtude principal entre as cardeais!), destacam-se notáveis contribuições da Pedagogia do mathal.

O provérbio assemelha-se estruturalmente à prudentia (ambos se relacionam, além do mais, com a vis cogitativa, potência que enlaça o universal ao particular e vice-versa), na medida em que condensa experiência e permite a aplicação da memória ao operabilium da situação presente.

Daí que o mathal exerça poderosa ação junto às partes quasi integrais da prudentia que destacamos para a análise da educação moral: a memoria e a docilitas.

O provérbio realiza o auxílio da lembrança, intervindo nas quatro leis que Tomás enumera para a educação da memória:

1) Os amthal estabelecem agudas semelhanças (similitudines), adequadas para o que se quer recordar. Tanto mais poderosa é sua ação nesse sentido, quanto mais realiza a vocação árabe de voltar-se, incisivamente, para o concreto. Pois, diz o Aquinate, é necessário encontrar semelhanças, já que as realidades espirituais facilmente se esvaem se não estão ligadas, "amarradas" a alguma semelhança corpórea (porque o conhecimento humano é mais forte com relação ao sensível).

Os amthal - com suas agudas associações - ajudam a memória, também, em outra importante dimensão da pedagogia de Tomás: o bom humor.

2) Os amthal - com suas rimas e ritmo - realizam também a segunda lei de Tomás: a que afirma ser necessário organizar e dispor em ordem aquilo que se quer lembrar, de tal modo que haja uma associação por encadeamento.

3) A terceira lei da educação da memória - a do interesse e afeto - é realizada pelo apreço de que os amthal são objeto, por parte da sociedade oriental (e, por sua vez os amthal - expressão autêntica da cultura popular semita - sabem tocar os pontos a que o árabe é emocionalmente sensível...).

4) Parte importante da Pedagogia do dhikr, os amthal são lembrados (e são lembradores...) na medida em que são mantidos vivos pela repetição quotidiana.

Os provérbios dizem respeito também a uma outra parte quasi integral da prudentia: a docilitas.

Como vimos, memoria e docilitas transcendem o âmbito meramente técnico e se constituem em autênticas atitudes morais.

Assim, do mesmo modo que pode haver um falseamento da lembrança, pode haver um falseamento da percepção do presente, que impede de ver a realidade.

Daí a importância dos provérbios para a docilitas que, segundo Tomás, leva, precisamente, a "considerar atentamente as sentenças dos experientes".

Outro aspecto "invisível" mas real (e de extrema importância) da Pedagogia do mathal, enquanto educação moral, realiza-se no fato de os provérbios constituírem, no Oriente, um referencial comum de leitura da realidade. Pelo mathal, surge a possibilidade de circunscrever, de configurar uma atitude que passaria despercebida, se os provérbios não chamassem a atenção para ela, não a enseñasen... Esta observação é particularmente importante para o Ocidente contemporâneo - carente de referenciais comuns -, única possibilidade de autêntica integração de uma sociedade.

Finalmente, após indicar o altíssimo potencial educativo de uma Pedagogia do mathal, concluímos, apontando também, possíveis disfunções no uso dos provérbios - também elas indicadas por Tomás de Aquino -, provocadas pelas disfunções da experiência: o pessimismo e o preconceito.

II

A moral e a educação moral principiam pela visão da realidade. Precisamente esta tarefa de apontar para a realidade concreta é uma das funções pedagógicas, agudamente exercida pelos amthal.

Mas, para isso, é necessário que os provérbios estejam vivos. No Oriente, o mathal permeia, inapelavelmente, a manifestação religiosa, social, enfim, toda a vida quotidiana... Está presente no Alcorão, na Bíblia; presente na reunião social; presente no seio de situações familiares, de trabalho, de lazer... balizando atitudes e respaldando comportamentos.

Quando se abandona a sabedoria do concreto, instala-se um terrível Ersatz, assim expresso pelo criador do Index Thomisticus, Robert Busa ([6]):

Entrevistadores: Que conseqüências tem, no aspecto da liberdade, esta retirada do cristianismo contemporâneo do terreno do concreto?

Dr. Robert Busa: A escravidão moderna, a mais horrível, é a escravidão dos meios de comunicação. Os quais se impõem de tal maneira, através dos sentidos, por isso mesmo... "audio-visuais, que fazem as pessoas agirem como bonecos. Mecanicamente. Aqueles mesmos sentidos que o Senhor nos deu para reconhecer os seus desígnios, tornam-se instrumentos de sujeição, fontes de submissão a desejos artificiais e induzidos. Perde-se a capacidade crítica. Mostram belíssimas coca-colas, gomas de mascar milagrosas, e as pessoas não são mais capazes de perguntar-se: mas esta é uma necessidade real ou uma necessidade induzida, artificial? Infelizmente o caminho da verdadeira liberdade é árduo e para poucos.

Condensando a sabedoria popular, acumulada ao longo de um tempo cujo limite se desconhece, o mathal emerge do passado - sempre atual - para avalizar o presente e garantir o futuro, como a confirmar que "o homem é o mesmo, ontem e hoje; no Oriente e no Ocidente; na oração, no repouso e no coração" ([7]).

No cerne desse diálogo que se estabelece entre os homens e entre os tempos, acha-se o caráter funcional do provérbio como sustentáculo da "educação invisível", permitindo delinear uma Pedagogia do mathal, que encontra, na prudentia, os caminhos de sua concretização.

Caminhos que se enlaçam, assim, com os de Tomás de Aquino nos campos em que mais imediatamente se exerce sua contribuição para o nosso tempo: Ética, Antropologia e Educação.

Quando se tem em conta que a educação moral é uma "educação invisível", que - mais do que no âmbito oficial da escola - se exerce na interação social informal e que a moral pressupõe, antes e acima de tudo, conhecimento sobre o homem, torna-se imediatamente evidente que a tradição viva de provérbios populares é poderosa instância de educação moral (que, como dissemos, valerá o que valerem os conteúdos veiculados...). Nesse sentido não esqueçamos, também, que - como indica Idries Shah - o mathal (em geral, e também o provérbio) pode ser lido em diversos níveis e levar a insuspeitados graus de conhecimento da realidade e de si mesmo...

Nesse campo, o Oriente, mais arraigado à tradição (e à tradição oral...), recebe mais amplamente seus benefícios. Como dissemos alhures: "Precisamente um dos mais graves problemas culturais do Ocidente, hoje, é a ausência de referencial comum, duradouro e universal. Já não há, para nós, clássicos: nem Homero, nem a Bíblia, nem provérbios" ([8]).

Talvez a única grande exceção - felizmente há uma! - nessa falta de referencial comum para o Brasil de hoje seja (além da efêmera novela televisiva em curso...) o futebol. Sendo assunto de interesse geral, é do futebol que procedem os provérbios mais vivos e usados entre nós, iluminando com suas metáforas nossa vida profissional, familiar, política etc.: "Quem não faz, toma", "Em time que está ganhando, não se mexe", "Futebol é bola na rede", "Perdido por um, perdido por dez" etc. Do futebol, também derivam para a vida, dezenas de expressões como: "estar com a bola toda", "nestas alturas do campeonato", "dar bola", "vestir a camisa", "pendurar a chuteira", "ganhar no grito", "pisar na bola", "ter muita cancha", "pôr a bola no chão", "embolar o meio de campo" etc., etc., etc.

"Já o oriental acha-se respaldado, em segurança, sob a proteção da verdade de um passado milenar que ele aceita, que lhe é próprio, que o norteia, que o ampara e não o deixa entregue à perplexidade de quem está num mundo, onde tudo é vivido por primeira vez, sem raízes; que lhe é im-pertinente" ([9]).

Um exemplo. Fala-se muito hoje em cidadania. Para um antigo, o provérbio tornava evidente que o comum, o social e o próprio Estado dizia-lhe respeito: "Por teu Rey pelejaste, tua casa guardaste" ([10]). Hoje, o que pode motivar um brasileiro a abdicar de seu individualismo? A educação moral é tarefa tão difícil quanto urgente numa época  - sob a égide da lei do oportunismo - em que a linguagem viva já não dispõe sequer de nomes para as virtudes (nem para os vícios...) e em que, quase se pode aplicar a toda uma sociedade o diagnóstico que os contemporâneos de Delicado aplicavam a um ou outro indivíduo:

Onde nam ha honra, nam ha desonra.

Consideração oportuna para o Brasil de hoje, em que o horizonte moral está se estreitando a tal ponto que as novas "virtudes" parecem gravitar unicamente em torno do conceito de "esperto" e as novas "desonras", reduzem-se, tristemente, ao conceito de "trouxa"...

Consideração oportuna para um tempo, como o nosso, em que um dos principais filósofos encerra seu tratado sobre ética, dizendo: "And if the tradition of the virtues was able to survive the horrors of the last dark ages, we are not entirely without grounds for hope. This time however the barbarians are not waiting beyond the frontiers; they have already been governing us for quite some time. And it is our lack of consciousness of this that constitutes part of our predicament. We are waiting not for a Godot, but for another - doubtless very different - St. Benedict" ([11]).



[1]. Menschliches Richtigsein. Die Kardinaltugenden neu bedacht. Freiburg, IBK, 1980, p. 5.

[2]. Significativamente (nessa recente busca - mais ou menos consciente - de uma retomada da moral e da educação moral, por parte do Ocidente) o grande mathal cinematográfico - independentemente do mérito da produção - que é King Lion centra-se na sentença: "You are being less than you are...".

[3]. Ou destrói, se estiver em desacordo com o real...

[4]. Edição cit., p. 266.

[5]. No capítulo "Significado de recta razón" (do citado La Prudencia), Ramírez mostra sugestivamente que "para el Angélico, en el caso presente, son sinónimas razón recta y razón verdadera" (p.112).

[6]. BUSA, Robert  "Santo Tomás: O primado do sensível"... entrevista citada, p. 23.

[7]. HANANIA, A. R.  "A propósito de provérbios franceses medievais"  in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: Idade Média - Cultura Popular, São Paulo, EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1995, pp. 19-20.

[8]Oriente & Ocidente: Língua... 26-27.

[9].  Ibidem, pp. 26-27.

[10]. Delicado, op. cit. p. 89.

[11]. MAC INTYRE, Alasdair  After Virtue  Indiana, Notre Dame, 1981, p. 245.

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