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VI -
CONCLUSÕES
PROVÉRBIOS E
EDUCAÇÃO MORAL
For I am proverb'd with a
grandsire phrase
(Romeu em Romeo and
Juliet I, 4).
I
Ao final desta tese, a título
de conclusões, retomaremos, inicialmente (seguindo a estrutura
do trabalho), seus principais pontos, que, esperamos, tenham ficado
suficientemente evidenciados. E, num segundo momento, teceremos
algumas considerações sobre a educação
moral, talvez de interesse também para o Brasil da
atualidade.
A filosofia da educação
pressupõe sempre a antropologia filosófica: só a
partir do ser do homem, podemos refletir sobre o educar. Se essa
afirmação é sempre verdadeira, ela é
tanto mais evidente quando se trata da educação moral,
na medida em que - com Tomás de Aquino - concebemos a moral
como o próprio ser do homem, ultimum potentiae ou, na
feliz tradução de Pieper, Selbstverwirklichungsvorgang, um processo de
auto-realização do ser humano ([1]).
Mas o trilhar deste caminho de
auto-realização dá-se, concretamente, pelo agir
livre e responsável em que, em cada caso, a prudentia julga sobre os meios que nos vão conduzindo àquele
máximo, àquele ultimum, àquele - para
repetir a feliz sentença de Píndaro - "Torna-te o que
és!" ([2]).
O bem recebe sua medida
(mensura) da verdade que, por sua vez, é medida pela
própria realidade. Pela sua conformidade com a realidade, esta
ou aquela ação concreta constrói
([3])
meu ser. Daí que - na genial percepção de
Shakespeare - a pergunta radical de Hamlet (Ato III, 1) não
é propriamente sobre a bondade ("whether 'tis
nobler...") do agir (sobre o to do or not to do...), mas:
"To be or not to be: that is the
question" ([4]).
Nesse quadro, o conhecimento é
o guia e o grande pressuposto da moral e da educação
moral: o homem deve guiar-se pela verdade, apreendida pela recta
ratio ([5]).
Mas, como vimos, na base das grandes
tradições oriental e ocidental, encontra-se a
constatação de que o homem é, essencialmente, Insan, aquele-que-esquece.
Daí a necessidade de a
educação moral ser uma Pedagogia do dhikr, uma
pedagogia do lembrar, uma pedagogia que busca, pela
repetição, guardar a lembrança do essencial ante
a entrópica tendência ao embotamento...
No âmbito da
educação moral, "educação
invisível" - como, aliás, também o é,
particularmente, a educação para a prudentia -,
o Oriente árabe tem, nesse sentido, uma proposta educativa
que, ao longo deste trabalho, estamos designando por Pedagogia do mathal.
Expressão cabal do sistema
língua/pensamento árabe (e da forma de pensamento
semita, em geral), o mathal - tal como aparece no
Alcorão, na Bíblia e em toda a tradição
árabe) realiza em si, condensa em si as características
desse sistema. "Meio e mensagem" o provérbio árabe
(tipicamente) apresenta: a imagem concreta, a
associação imediata, a ligação com o
passado, a ponte entre o universal e o concreto...
Essa particular
ordenação do mathal para a realidade concreta,
permite - e é o tema central desta tese - a
correlação e a fundamentação
antropológica da Pedagogia do mathal nos quadros da
filosofia de Tomás de Aquino: em diversos aspectos, o Oriente
pratica (pela Pedagogia do mathal) o que Tomás
preconiza.
De fato, na antropologia de
Tomás, o conceito central de alma é, ao mesmo tempo,
profundamente espiritual e radicalmente comprometido com a
matéria e com o concreto.
Essa radicalidade se traduz, em
termos de conhecimento, pela afirmação do obiectum
proprium da inteligência: ela, uma faculdade espiritual,
tem seu objeto próprio na essência das coisas sensíveis!
Daí que, no âmbito da
educação moral, o saber (nos dois sentidos de sapere) requeira a experiência e a
memória.
E quando consideramos a
educação moral como educação para a
prudência (virtude principal entre as cardeais!), destacam-se
notáveis contribuições da Pedagogia do mathal.
O provérbio assemelha-se
estruturalmente à prudentia (ambos se relacionam,
além do mais, com a vis cogitativa, potência que
enlaça o universal ao particular e vice-versa), na medida em
que condensa experiência e permite a aplicação da
memória ao operabilium da situação
presente.
Daí que o mathal exerça poderosa ação junto às partes quasi integrais da prudentia que destacamos para a
análise da educação moral: a memoria e a docilitas.
O provérbio realiza o
auxílio da lembrança, intervindo nas quatro leis que
Tomás enumera para a educação da
memória:
1) Os amthal estabelecem
agudas semelhanças (similitudines), adequadas para o
que se quer recordar. Tanto mais poderosa é sua
ação nesse sentido, quanto mais realiza a
vocação árabe de voltar-se, incisivamente, para
o concreto. Pois, diz o Aquinate, é necessário
encontrar semelhanças, já que as realidades espirituais
facilmente se esvaem se não estão ligadas, "amarradas"
a alguma semelhança corpórea (porque o conhecimento
humano é mais forte com relação ao
sensível).
Os amthal - com suas agudas
associações - ajudam a memória, também,
em outra importante dimensão da pedagogia de Tomás: o
bom humor.
2) Os amthal - com suas rimas
e ritmo - realizam também a segunda lei de Tomás: a que
afirma ser necessário organizar e dispor em ordem aquilo que
se quer lembrar, de tal modo que haja uma associação
por encadeamento.
3) A terceira lei da
educação da memória - a do interesse e afeto -
é realizada pelo apreço de que os amthal são objeto, por parte da sociedade oriental (e, por sua vez os amthal - expressão autêntica da cultura popular
semita - sabem tocar os pontos a que o árabe é
emocionalmente sensível...).
4) Parte importante da Pedagogia do dhikr, os amthal são lembrados (e são
lembradores...) na medida em que são mantidos vivos pela
repetição quotidiana.
Os provérbios dizem respeito
também a uma outra parte quasi integral da prudentia: a docilitas.
Como vimos, memoria e docilitas transcendem o âmbito meramente técnico
e se constituem em autênticas atitudes morais.
Assim, do mesmo modo que pode haver
um falseamento da lembrança, pode haver um falseamento da
percepção do presente, que impede de ver a
realidade.
Daí a importância dos
provérbios para a docilitas que, segundo Tomás,
leva, precisamente, a "considerar atentamente as sentenças dos
experientes".
Outro aspecto "invisível" mas
real (e de extrema importância) da Pedagogia do mathal,
enquanto educação moral, realiza-se no fato de os
provérbios constituírem, no Oriente, um referencial
comum de leitura da realidade. Pelo mathal, surge a
possibilidade de circunscrever, de configurar uma atitude que
passaria despercebida, se os provérbios não chamassem a
atenção para ela, não a enseñasen... Esta observação é
particularmente importante para o Ocidente contemporâneo -
carente de referenciais comuns -, única possibilidade de
autêntica integração de uma sociedade.
Finalmente, após indicar o
altíssimo potencial educativo de uma Pedagogia do mathal, concluímos, apontando também,
possíveis disfunções no uso dos
provérbios - também elas indicadas por Tomás de
Aquino -, provocadas pelas disfunções da
experiência: o pessimismo e o preconceito.
II
A moral e a educação
moral principiam pela visão da realidade. Precisamente esta
tarefa de apontar para a realidade concreta é uma das
funções pedagógicas, agudamente exercida pelos amthal.
Mas, para isso, é
necessário que os provérbios estejam vivos. No Oriente,
o mathal permeia, inapelavelmente, a
manifestação religiosa, social, enfim, toda a vida
quotidiana... Está presente no Alcorão, na
Bíblia; presente na reunião social; presente no seio de
situações familiares, de trabalho, de lazer...
balizando atitudes e respaldando comportamentos.
Quando se abandona a sabedoria do
concreto, instala-se um terrível Ersatz, assim expresso
pelo criador do Index Thomisticus, Robert Busa
([6]):
Entrevistadores: Que
conseqüências tem, no aspecto da liberdade, esta retirada
do cristianismo contemporâneo do terreno do
concreto?
Dr. Robert Busa: A
escravidão moderna, a mais horrível, é a
escravidão dos meios de comunicação. Os quais se
impõem de tal maneira, através dos sentidos, por isso
mesmo... "audio-visuais, que fazem as pessoas agirem como bonecos.
Mecanicamente. Aqueles mesmos sentidos que o Senhor nos deu para
reconhecer os seus desígnios, tornam-se instrumentos de
sujeição, fontes de submissão a desejos
artificiais e induzidos. Perde-se a capacidade crítica.
Mostram belíssimas coca-colas, gomas de mascar milagrosas, e
as pessoas não são mais capazes de perguntar-se: mas
esta é uma necessidade real ou uma necessidade induzida,
artificial? Infelizmente o caminho da verdadeira liberdade é
árduo e para poucos.
Condensando a sabedoria popular,
acumulada ao longo de um tempo cujo limite se desconhece, o mathal emerge do passado - sempre atual - para avalizar o
presente e garantir o futuro, como a confirmar que "o homem é
o mesmo, ontem e hoje; no Oriente e no Ocidente; na
oração, no repouso e no coração"
([7]).
No cerne desse diálogo que se
estabelece entre os homens e entre os tempos, acha-se o
caráter funcional do provérbio como sustentáculo
da "educação invisível", permitindo delinear uma
Pedagogia do mathal, que encontra, na prudentia, os
caminhos de sua concretização.
Caminhos que se enlaçam,
assim, com os de Tomás de Aquino nos campos em que mais
imediatamente se exerce sua contribuição para o nosso
tempo: Ética, Antropologia e
Educação.
Quando se tem em conta que a
educação moral é uma "educação
invisível", que - mais do que no âmbito oficial da
escola - se exerce na interação social informal e que a
moral pressupõe, antes e acima de tudo, conhecimento sobre o
homem, torna-se imediatamente evidente que a tradição
viva de provérbios populares é poderosa instância
de educação moral (que, como dissemos, valerá o
que valerem os conteúdos veiculados...). Nesse sentido
não esqueçamos, também, que - como indica Idries
Shah - o mathal (em geral, e também o provérbio)
pode ser lido em diversos níveis e levar a insuspeitados graus
de conhecimento da realidade e de si mesmo...
Nesse campo, o Oriente, mais
arraigado à tradição (e à
tradição oral...), recebe mais amplamente seus
benefícios. Como dissemos alhures: "Precisamente um dos mais
graves problemas culturais do Ocidente, hoje, é a
ausência de referencial comum, duradouro e universal. Já
não há, para nós, clássicos: nem Homero,
nem a Bíblia, nem provérbios" ([8]).
Talvez a única grande
exceção - felizmente há uma! - nessa falta de
referencial comum para o Brasil de hoje seja (além da
efêmera novela televisiva em curso...) o futebol. Sendo assunto
de interesse geral, é do futebol que procedem os
provérbios mais vivos e usados entre nós, iluminando
com suas metáforas nossa vida profissional, familiar,
política etc.: "Quem não faz, toma", "Em time que
está ganhando, não se mexe", "Futebol é bola na
rede", "Perdido por um, perdido por dez" etc. Do futebol,
também derivam para a vida, dezenas de expressões como:
"estar com a bola toda", "nestas alturas do campeonato", "dar bola",
"vestir a camisa", "pendurar a chuteira", "ganhar no grito", "pisar
na bola", "ter muita cancha", "pôr a bola no chão",
"embolar o meio de campo" etc., etc., etc.
"Já o oriental acha-se
respaldado, em segurança, sob a proteção da
verdade de um passado milenar que ele aceita, que lhe é
próprio, que o norteia, que o ampara e não o deixa
entregue à perplexidade de quem está num mundo, onde
tudo é vivido por primeira vez, sem raízes; que lhe
é im-pertinente" ([9]).
Um exemplo. Fala-se muito hoje em
cidadania. Para um antigo, o provérbio tornava evidente que o
comum, o social e o próprio Estado dizia-lhe respeito: "Por
teu Rey pelejaste, tua casa guardaste" ([10]).
Hoje, o que pode motivar um brasileiro a abdicar de seu
individualismo? A educação moral é tarefa
tão difícil quanto urgente numa época -
sob a égide da lei do oportunismo - em que a linguagem viva
já não dispõe sequer de nomes para as virtudes
(nem para os vícios...) e em que, quase se pode aplicar a toda
uma sociedade o diagnóstico que os contemporâneos de
Delicado aplicavam a um ou outro indivíduo:
Onde nam ha honra, nam ha
desonra.
Consideração oportuna
para o Brasil de hoje, em que o horizonte moral está se
estreitando a tal ponto que as novas "virtudes" parecem gravitar
unicamente em torno do conceito de "esperto" e as novas "desonras",
reduzem-se, tristemente, ao conceito de "trouxa"...
Consideração
oportuna para um tempo, como o nosso, em que um dos principais
filósofos encerra seu tratado sobre ética, dizendo:
"And if the tradition of the virtues was able to survive the horrors
of the last dark ages, we are not entirely without grounds for hope.
This time however the barbarians are not waiting beyond the
frontiers; they have already been governing us for quite some time.
And it is our lack of consciousness of this that constitutes part of
our predicament. We are waiting not for a Godot, but for another -
doubtless very different - St. Benedict" ([11]).
[1]. Menschliches Richtigsein. Die Kardinaltugenden neu
bedacht. Freiburg, IBK, 1980, p. 5.
[2].
Significativamente (nessa recente busca - mais ou menos consciente -
de uma retomada da moral e da educação moral, por parte
do Ocidente) o grande mathal cinematográfico -
independentemente do mérito da produção - que
é King Lion centra-se na sentença: "You are
being less than you are...".
[3].
Ou destrói, se estiver em desacordo com o real...
[4].
Edição cit., p. 266.
[5]. No capítulo "Significado de recta razón"
(do citado La Prudencia), Ramírez mostra sugestivamente
que "para el Angélico, en el caso presente, son
sinónimas razón recta y razón verdadera"
(p.112).
[6].
BUSA, Robert "Santo Tomás: O primado do
sensível"... entrevista citada, p. 23.
[7].
HANANIA, A. R. "A propósito de provérbios
franceses medievais" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e
Ocidente: Idade Média - Cultura Popular, São Paulo,
EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1995, pp. 19-20.
[8]. Oriente & Ocidente: Língua... 26-27.
[10].
Delicado, op. cit. p. 89.
[11].
MAC INTYRE, Alasdair After Virtue Indiana, Notre
Dame, 1981, p. 245.
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