Ana Maria de Moraes Sarmento
Vellasco
Introdução
Esta Coletânea é
originária do corpus da minha
dissertação de mestrado, cujo título
é Provérbios: um estudo
sociolingüístico, fruto de uma pesquisa na
área da Sociolingüística Qualitativa.
Cumpre-me externar que há uma forte
razão pessoal para que eu me dedique ao estudo dos
provérbios. Os meus avós maternos -- com quem
eu possuía uma ligação filial, por ser
a primeira, a mais velha de apenas cinco netos --, ele,
Francisco Casemiro de Moraes Sarmento, português, e
ela, Anna Lamego de Moraes Sarmento, filha de portugueses,
empregavam-nos amiúde. Creio que cinqüenta por
cento das nossas conversas eram proverbiais. Os meus pais,
tios e tios-avós também os utilizavam com
muita freqüência, sempre mencionando que estavam
aludindo à sabedoria milenar do povo. O meu pai,
muito culto, sistematicamente fazia uso de aforismos, de
Confúcio a Vinicius de Morais. Assim, os
provérbios e a fraseologia atraíram o meu
interesse, desde a infância. Aos oito anos de idade eu
já possuía uma caderneta na qual costumava
anotar provérbios, adivinhas, quadrinhas, aforismos,
dísticos de caminhão, máximas, slogans,
clichês. Em família, pois, aprendi a maioria
das parêmias que hoje me vêm prontamente
à memória e que integram, consistentemente, o
meu léxico e as minhas estratégias
conversacionais.
O objetivo precípuo da minha pesquisa
de mestrado é a verificação, num estudo
sincrônico, de quais são os padrões de
uso dos provérbios na sociedade brasileira, por meio
da análise das condições de
produção e recepção de
provérbios (quem, por que, em que
situação e com que intenção os
usa), segundo as perspectivas etnográfica (Hammersley
& Atkinson, 1983) e
sociolingüístico-interacional. Este estudo tem
por alvo brasileiros, filhos de brasileiros, provenientes
das cinco regiões do País, de ambos os sexos,
faixas etárias e níveis de escolaridade e
sócio-econômicos diversos.
A coleta de dados para essa pesquisa foi
inicialmente promovida por meio de entrevistas orais no
Distrito Federal e entorno, em áreas rural e urbana,
quando os sujeitos da pesquisa citavam-me os
provérbios que mais empregavam e de que se
recordavam, ilustrando as situações de uso,
isto é, contextualizando-os, viabilizando, assim, a
análise sociolingüística pretendida.
Cumpre-me ressalvar que no Distrito Federal encontram-se
radicados brasileiros provenientes de todas as
regiões do Brasil. Em seguida, pesquisei
também em cidades do Estado de Goiás e na Zona
Sul da Cidade do Rio de Janeiro.
Ao se inteirarem da minha pesquisa,
inúmeros brasileiros meus parentes, amigos e
conhecidos, e mesmo desconhecidos, passaram a escrever-me e
a enviar-me listas extensas dos provérbios que
conheciam e que são usados no cotidiano das cidades
onde vivem.
Concomitantemente, surgiu-me a idéia de
pesquisar na Internet. No segundo semestre de 1995, obtive
informações com amigos e colegas da
Universidade de Brasília sobre o que nos viabilizava
o mundo cibernético, e decidi-me por integrar a lista
de brasileiros Bras-net, gerenciada por Walter Morales, Guta
Davis e Alberto Gomide.
Uma vez assinante da Bras-net, no
início de janeiro deste ano de 1996 apresentei-me e
divulguei a minha pesquisa para, segundo
informações dos gerentes da lista, quase 2.000
(dois mil) brasileiros residentes no Brasil e no
estrangeiro. A maior parte dos brasileiros, vulgo
brasneteiros, encontra-se em academias cursando mestrado,
doutorado e pós-doutorado. A recepção
foi a melhor possível e a contribuição
valiosa, como se pode verificar no corpo desta
Coletânea. Contataram-me brasneteiros que se encontram
em cinco continentes: América do Sul, América
do Norte, Ásia, Europa e Oceania. Ao término
de um mês já me haviam enviado cerca de 800
(oitocentos) dados. A Internet viabiliza-nos
informações à velocidade do som.
Deste modo, até a presente data
coletei, ao todo, 2.827 (dois mil oitocentos e vinte e sete
dados) que integram o vocabulário dos brasileiros e
que estão arrolados por ordem alfabética nesta
Coletânea. A maior parte dos informantes repetiu,
ratificou dados previamente coletados. Em face desta
realidade, registrei apenas o primeiro dado recebido,
eliminando os idânticos. Mantive, contudo, as
variações que, inclusive, denotam
regionalismos. Ao lado de cada dado encontra-se a
referência do Estado do Brasil onde nasceu o
informante. Aos dados coletados na Internet, de brasileiros
assinantes da Bras-net, acrescentei o nome da lista antes da
sigla indicativa da naturalidade do(a) informante. Ressalvo
que só compilei os dados de informantes brasileiros
filhos de brasileiros.
Por outro lado, ao corpus, que se
propunha ser de provérbios, somaram-se outras formas
concisas da língua, expressões que integram a
fraseologia popular brasileira.
Com isto, evidenciou-se um fato. A maioria
quase que absoluta dos informantes, mesmo os que
estão em meio acadêmico, não distingue
um provérbio de uma frase feita, de uma
máxima, de um aforismo, de um clichê, de um
slogan, de uma expressão idiomática. Tal
distinção torna-se mais fácil quando se
trata de uma superstição e de uma adivinha. O
maior problema reside na diferenciação entre o
provérbio e a frase feita. Observo ainda que mantive
no corpus da minha pesquisa todos os dados que me
foram informados, independentemente da
classificação dos mesmos.
Diante do supramencionado, torna-se imperativo
que eu proceda a uma explanação sucinta do que
são provérbios e à sua
diferenciação de algumas outras formas
concisas da língua, outrossim alvo do meu trabalho
acadêmico. Uma visão mais profunda e
esmiuçada estará disponível após
a defesa da minha dissertação de mestrado,
prevista para novembro próximo.
Os provérbios são elementos
notáveis em todas as línguas, tanto no que
tange às idéias que veiculam, como na
originalidade da construção sintática e
na articulação entre a forma e o
conteúdo. Todos somos capazes de citar, de pronto, ao
menos uma dúzia de provérbios. E,
curiosamente, se nos perguntarem onde os aprendemos, a
não ser que os tenhamos ouvido amiúde de
alguém, dificilmente seremos capazes de responder.
Mas todos sabemos em que ocasião empregá-los e
que partido deles podemos tirar.
Por um lado, os provérbios
dão-nos a sensação de que nos pertencem
e que deles podemos fazer o que bem entendermos - vez que se
tornam intimamente vinculados às nossas
próprias experiências. Por outro lado, os
provérbios são-nos impostos e obrigam-nos a
entrar numa lógica que vem da sociedade,
ultrapassando as nossas opções pessoais.
Os provérbios amalgamam-se, associam-se
às propriedades da sentença e do texto. Os
provérbios ocorrem em grandes textos como (i) as
conversações do dia-a-dia; (ii) editoriais de
jornais; (iii) sermões, e eles mesmos ocorrem como
textos completos neles mesmos, como, por exemplo, em grupos
de slogans, em inscrições em
edificações e em antologias, junto a outros
dizeres.
Há várias justificativas para o
estudo dos provérbios. A sua condição
tradicional, a sua imagem rústica, a sua forma
prosódica, o seu valor didático, a sua
condição de elemento persuasivo. A origem, a
história, a influância, o surgimento e o uso
dos vários tipos de provérbios; a
evolução da sua forma, a
tradução dos provérbios de uma
língua para a outra, a comparação de
provérbios, as convenções
literárias no uso dos provérbios, as
coleções de provérbios, a bibliografia
destas coleções, a coleção de
materiais e a disponibilidade de fontes antigas, etcetera,
são temáticas a serem exploradas,
especialmente no Brasil.
Estudiosos de outras áreas que
não a Lingüística, como
antropólogos, sociólogos, folcloristas,
comunicólogos, críticos e bibliógrafos
tâm-se interessado pelos provérbios, pois eles
nos levam, muito diretamente, a estimar a validade de
diferentes maneiras de expressão e a perceber
idéias éticas, políticas,
científicas ou estáticas, na história
da humanidade.
A origem dos provérbios está,
indubitavelmente, na sabedoria popular. Eles são
parte do folclore dos povos, assim como as lendas, os mitos,
as superstições e as canções,
vez que traduzem conhecimentos e crenças. São
uma manifestação do passado cristalizada no
presente. Sendo folclóricos, os provérbios
são enunciados anônimos -- à
exceção dos provérbios bíblicos,
que se encontram no Livro dos Provérbios, no Antigo
Testamento, assim chamados apesar de serem atribuídos
ao Rei Salomão. São cultura eminentemente
oral, transmitida boca-a-boca, de geração a
geração, mesmo hoje em dia, quando a
mídia tem papel preponderante na nossa sociedade.
São fruto da experiência cotidiana individual
ou grupal, de quem vivenciou determinadas verdades. (Cada
cabeça, uma sentença; Tantas cabeças,
tantas opiniões; So many men, so many minds; Autant
des têtes, autant d'avis; Tantas cabezas/Tantos
hombres, tantos pareceres/opiniones; A cada cabeza, su seso;
Tante teste, tante cervelle; Soviel Köpfe, soviel
Sinne; Quot capita, tot sententiae.)
Ao pensarmos no provérbio, temos a
idéia de que ele possui apenas um significado, mas
ocorre-nos perguntar se há uma contra-ordem. E
realmente há provérbios antagônicos,
como Longe dos olhos, perto do coração, O
que os olhos não vêem, o coração
não sente; Rei morto, rei posto, Quem foi rei nunca
perde a majestade; As roupas não fazem o homem, O
alfaiate faz o homem, ou Boa aparância é carta
de apresentação; Depois da tempestade vem a
bonança, Um problema nunca vem sozinho ou Uma
desgraça nunca vem sozinha; Nunca deixe para
amanhã o que você pode fazer hoje,
Amanhã é outro dia; Nunca é tarde para
aprender, Cachorro velho não aprende novos truques,
ou Boi velho não toma andadura; Quem cedo madruga
acha o que comer, Não é por muito madrugar que
amanhece mais cedo; Ruim com ele, pior sem ele, Antes
só do que mal acompanhado, e assim por diante.
Portanto, entendo que na discussão os
provérbios podem ser meras estratégias pelas
quais alguém tenta persuadir outrem em
direção a um argumento.
Uma questão que cruza com esta
são as ligações existentes entre os
provérbios de um determinado povo, que se expressa em
uma determinada língua, e os de outros povos, que se
expressam em outras línguas - por vezes sem
relação histórica. Diante disto, tem-se
a premissa de que a sabedoria popular pode ser comum a
vários povos, mas, por vezes, torna-se difícil
saber onde um determinado provérbio surgiu primeiro,
a exemplo de:
Água mole em pedra dura,
tanto bate até que fura.
A constant drop will wear a hole in a stone. Constant
dropping wears the stone.
L'eau qui tombe goutte à goutte, cave la pierre.
Goutte à goutte, l'eau creuse la pierre.
Agua blanda en dura piedra tanto dará que la
hienda.
La gota de agua horada la piedra.
Goccia a goccia, síncava la pietra.
Steter Tropfen höhlt den Stein.
Gutta cavat lapidem, non vi sed saepe cadendo.
A água silenciosa é a mais
perigosa.
Still waters run deep.
Il n'y a pire eau qui cellui qui dort.
Del agua mansa líbreme Dios, que de la brava me
libro yo.
Acqua cheta rovina i ponti.
Stille Wasser sind tief.
Flumina tranquillissima saepe sunt altissima.
A águia não se entretém
caçando moscas.
Lions don't hunt mice.
L'aigle ne s'amuse point à chasser/prendre les
mouches.
El águila no se entretenie en cazar moscas.
Löwen fangen keine Mäuse.
Quid leo cum mure? Aquila non captat muscas.
Barriga vazia não tem ouvidos.
A hungry belly has no ears.
Ventre affamé n'a point d'oreilles.
El vientre ayuno no oye a ninguno.
Einen hungrigen Magen is nicht gut predigen.
Venter praecepta non audit.
Cão que ladra, não morde.
Barking dogs seldom bite.
Chien qui aboie ne mord pas.
Perro que ladra no muerde.
Hunde, die bellen, beißen nicht.
Si non morderis, cane quid latrante vereris.
Com um só golpe, não se derruba uma
árvore.
An oak is not felled with one stroke.
Au premier coup ne choit pas l'arbre.
Un solo golpe no derriba (a) un roble. De un solo
empujón no se derriba a un paredón.
Von einem Streiche fällt keine Eiche.
Non uno ictu arbor cadit.
Depois da tempestade, vem a bonança.
Every cloud has a silver lining. The sun breaks through
the darkest clouds.
Après la pluie le beau temps.
Después de la lluvia viene el buen tiempo.
Auf Regen folgt Sonne.
Post nubila phoebus.
Em boca fechada não entra mosca... e de boca
fechada não sai cáca.
First think and then speak. Wise men (are) silent, fools
talk.
Il faut tourner sa langue sept fois dans sa bouche avant
de parler.
Antes de hablar, un padrenuestro rezar. en boca cerrada
no entran moscas.
Denke zweimal eh' du einmal sprichst. Kluges Schweigen
ist besser als dummes Reden.
Lingua mentem ne praecurrat.
Em cavalo dado não se olham os
dentes.
Don't look a gift horse in the mouth.
A cheval donné on ne regarde pas à la
bride/aux dents.
A caballo regalado, no se le mira el diente.
Einem geschenkten Gaul sieht man nicht in's Maul.
Donati non sunt ora inspicienda caballi.
Em terra de cegos, quem tem um olho é
rei.
In the kingdom of the blind, the one-eyed man is
king.
Au royaume des aveugles, les borgnes sont rois.
En el país de los ciegos, el tuerto es rey.
Unter den Blinden ist der Einäugige König.
Monoculus inter caecos rex.
Gato escaldado tem medo de água
fria.
Once bitten, twice shy.
Chat échaudé craint l'eau froide.
Gato escaldado del agua fría huye.
Gebrantes Kind scheut fas Feuer.
Não há rosas sem espinhos.
No rose without thorn.
Il n'est point des roses san épines.
No hay rosa sin espinas.
Keine Rose ohne Dornen.
Nulla rosa sine apina.
Não se fazem omeletes, sem quebrar
ovos.
You cannot make an omelet without breaking eggs.
On ne fait pas d'omelettes sans casser des oeufs.
No se hacen tortillas sin romper huevos.
Wo gehobelt wird, fallen Späne.
Nem tudo o que reluz é ouro.
All that glitters is not gold.
Tout qui reluit n'est pas or.
No es oro todo que reluce.
Es ist nicht alles Gold, was glänzt.
Non est aurum quicquid rutilat fulvum.
O fruto proibido é o mais saboroso.
Forbidden fruit is sweet.
Chose défendue, chose desirée. Pain
dérobé réveille
l'appétit.
Es más dulce el sabor de la fruta robada. Mucho
más se desea lo que se veda.
Verbotene Früchte sind süß.
O lobo perde o pâlo, mas não perde o
vício.
A leopard cannot change his spots. The wolf may lose his
teeth, but never his nature/memory. The fox may grow
grey, but never good.
A laver la tâte d'un âne on perd sa lessive.
Le loup/Le renard change de poil, mais non de naturel. En
sa peau mourra le loup/le renard.
Sobre negro no hay tintura.
Den Raben kann man nicht weißwaschen. Der
Wolf/Fuchs ändert wohl sein Haar, aber er bleit, wie
er war. Der Bock läßt wohl vom Bart, aber
nicht von der Art.
Balnea cornici non prosunt. Vulpes pilos mutat, non
mores.
Pelos frutos conhece-se a semente ou A
árvore se conhece pelos frutos.
By its fruit each plant is known. A tree is known by its
fruit.
On reconnaît l'arbre à ses fruits.
El árbol por el fruto es conocido. Por el hilo
sacarás el ovillo.
Ogni erba si conosce per lo seme.
An der Frucht erkennt man den Baum.
De fructu arborem cognosces.
Quem não pode agüentar o calor,
não vai à cozinha.
If you cannot stand the heat, stay out of the
kitchen.
Qui a peur des feuilles n'aille/ne vas (point) au
bois.
Al bosque no vaya quien de las hojas miedo tienga.
Wer das Laub fürchtet, bleibe aus dem Walde.
A conversação é de tal
forma estruturada que aprendemos a reconhecer quando um
provérbio pode ser evocado e em que ponto da
conversação, sem que necessariamente
conheçamos o item ou os itens que podem ser usados de
maneira bem-sucedida naqueles pontos. De fato, não
somente um, mas muitos provérbios poderiam ser
empregados naquele momento crítico. Além
disso, muitos dos provérbios são tão
profundamente embutidos no nosso conhecimento
metafórico, que poderíamos aprendê-los
sem contatá-los com muita freqüência em
interações. Eles têm estado envolvidos
em temáticas sociais diversificadas, apoiados no
conhecimento tradicional, personificados no cerne da
sabedoria, ou seja, são também
estratégias para lidar com
situações-problema. Mas esta sabedoria tem
sido confundida com a verdade, uma verdade transcendental
que subjaz além do comportamento atual, num continuum
entre dois ou mais seres que se comunicam. Mesmo em um
contexto no qual argumentos personificados na sabedoria
proverbial são encorajados, o item depende de ser
empregado apropriadamente, interativamente, para
personificar a sabedoria. Os provérbios, deste ponto
de vista, podem ser simplesmente uma parte do
repertório social de estratégias de
persuasão, disponíveis para aqueles que
tentariam usá-los de maneira bem-sucedida como parte
de uma discussão, na qual o domínio moral
está sendo negociado e um falante está
tentando afetar a atitude e as futuras ações
de um ou mais ouvintes, o que me leva a supor que realmente
possuem uma função persuasiva.
Por que um determinado provérbio aflora
muito freqüentemente em certos ambientes de
tensão na nossa vida social e por que esse
provérbio se encaixa numa determinada
situação prontamente? Nesta ótica,
tende-se a pensar, simultaneamente, na
situação e na formulação
proverbial. A qualidade de encaixe dá ao
provérbio um sentido de força, de poder, de
autoridade, quase que irrefutável, pelo fato de
embuti-lo num cenário dramático
preexistente.
O provérbio é a
designação genérica dos ditos
cristalizados que exprimem, em geral metaforicamente, uma
verdade ou resumem uma experiência. É uma
sentença independente e de sentido completo, que
direta ou indiretamente expressa um pensamento, uma
experiência, uma regra, uma norma, uma
advertência, um conselho.
São características dos
provérbios, quanto ao conteúdo, a sua
formulação abstrata, isto é, não
referida a nenhum caso particular, e a sua validade é
universal, sem distinção de lugar e tempo.
Quanto à forma, distinguem-se pela
elaboração trabalhada, artificiosa, que
utiliza os mais variados recursos de
construção, como a metrificação
(em grande número redondilhas), a rima, a
aliteração, a similicadância, a
repetição, o paralelismo, o dialogismo e
outros sem excluir mesmo a deformação
intencional de palavras e a violentação da
sintaxe.
Os provérbios são populares,
nascidos no seio do povo, de forma e sabor
característico, e refletem, em seu conjunto, os usos
e costumes, a índole e a psicologia de uma
nação, e incorporam-se no folclore nacional,
como Quem não gosta de samba, é ruim da
cabeça ou doente do pé.
No Brasil, o provérbio tem por
sinônimos adágio, rifão ou
refrão, anexim, dito, ditado e parêmia, que se
diferenciam uns dos outros, apenas por matizes. Entendo o
rifão e o anexim como francamente vulgares. O
rifão em estilo baixo e muitas vezes em baixos
termos: Da cintura pra baixo, tanto faz a galinha como a
sardinha; Amor de rameira e convite de hoteleiro, sempre
custam dinheiro; e o anexim geralmente encerrando o
mesmo estilo, com ironia ou chiste: Mais vale um cachorro
amigo do que um amigo cachorro. Refrão é
vocábulo praticamente desusado nesta
acepção, absorvido por rifão. Ditado
é a designação geral do
provérbio ou adágio, do rifão e do
anexim. Parêmia é a voz grega (Paroimia)
equivalente à latina provérbio, sinônimo
perfeito, mas pouco usado no Brasil.
Com os provérbios convivem outros tipos
de proposições concisas e de uso comum, mas
que de provérbios nada tâm, como os aforismos
ou citações, as máximas, as frases
proverbiais, os clichês, as
superstições, os slogans e assim por diante.
Apesar de todos eles expressarem verdades gerais em
essência e concisão, e de possuírem
formas memoráveis, diferem-se uns dos outros e
não têm sido devidamente definidos.
Pelos meus estudos, concluí que o
provérbio é um enunciado anônimo. A
característica precípua dos provérbios
é o anonimato da sua autoria -- excetuando-se os
provérbios bíblicos. É lexicalizado,
isto é, dicionarizado, parte do inventário da
língua. É também sintaticamente
autônomo -- surge no discurso sob forma
canônica, cristalizada, fixa, que não muda,
congelada, petrificada. É discursivamente
autônomo a sua aparição independe
de uma mudança conversacional. Considerado fora do
discurso, o provérbio possui um valor de verdade
geral. A metáfora é uma estratégia. O
provérbio é uma estratégia para se
lidar com uma situação.
Categorizo como aforismos ou citações
pensamentos de autor conhecido que implicam certa
distinção de conteúdo ou estilo, tal
como nos Aforismos de Hipócrates, de onde a palavra
é derivada. "Via trita via tuta"; "The beaten path is
the safe one", ou seja, O caminho batido é o mais
seguro. Este aforismo é-nos familiar, assim como
o são:
"A beleza está nos olhos de
quem a contempla."
"Nossas vidas tâm tanto ou pouco sentido quanto
nelas colocamos." (ambos os aforismos de Carl Gustav
Jung, psicanalista suíço)
ou
"Aprender sem pensar é
inútil; pensar sem aprender, perigoso."
"O homem de bem exige tudo de si próprio, o homem
medíocre espera tudo dos outros." (de
Confúcio - vide ref. bib.)
ou ainda
"A paciância traz mais frutos
que a força." (Edmund Burke)
"A verdadeira viagem se faz na memória." (Marcel
Proust)
"A vida que não se examina não vale a pena
ser vivida." (Sócrates)
"Escreve na areia as faltas do teu amigo."
(Pitágoras)
"Imaginação é mais importante do que
conhecimento." (Albert Einstein)
"Não sabendo que era impossível, ele foi
lá e fez." (Jean Cocteau)
"O amor é eterno enquanto dura." (Sofocleto)
"O inteligente previne-se de tudo; o idiota faz
observações sobre tudo." (Heinrich
Heine)
"O que o mestre é, vale mais que os ensinamentos
do mestre." (Karl Menninger)
"O real em nós é silencioso; o adquirido
é falante." (Kahlil Gibran)
"Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte,
para ver a alma." (George Bernard Shaw)
"Os sonhos nada custam, transformá-los em
realidade é que tem preço." (Ennis J.
Gibbs)
"Quando o homem não encontra a si mesmo, nada
encontra." (Goethe)
"Rico ou pobre, todo preguiçoso é um
cretino." (Jean-Jacques Rousseau)
"Ser ou não ser, eis a questão."
(Shakespeare)
"Só se encontra o que se busca, o que nos é
indiferente foge-nos." (Sófocles)
"Temer o amor é temer a vida e os que temem a vida
já estão meio mortos." (Bertrand
Russel)
"Uma longa viagem começa com o primeiro passo."
(Lao-Tsé, encontrados em Rónai) (1985).
As máximas eram, originalmente,
sinônimo de axioma -- proposições
básicas que podiam ser assumidas como primeiros
princípios da razão, especialmente na
filosofia ou na ciância. Todavia, posteriormente,
começou-se a tratar por máximas
proposições concisas que expressam regras
genericamente aceitas ou preceitos de conduta. Neste sentido
acham-se duas máximas gregas inscritas nas paredes do
Templo de Apolo, construído por Augustus: Nada em
excesso e Conheça-se a si mesmo. As máximas
foram enaltecidas por brilhantes filósofos e
médicos, como o Duque de La Rochefoucauld
(1613-1680), que analisou inteligentemente por meio delas
temáticas humanas referentes ao auto-conhecimento, no
livro Reflexões, Sentenças e Máximas
Morais, que surgiu em 1665 (vide ref. bib.); Jean de La
Bruyere, que escreveu um ensaio acerca das
condições sociais etcetera. No Brasil,
destaca-se o Barão de Itararé, que prima pela
ironia e pelo lúdico (vide Castro, 1990). A
máxima é expressada em termos gerais, que
são interpretados literalmente apenas e, não,
metaforicamente.
As frases feitas, segundo Tagnin (1989),
são dizeres, expressões comuns aos falantes de
uma língua. Se ouvirmos uma dessas frases
isoladamente, fora do contexto, somos capazes de recriar a
situação em que se insere, como nos exemplos
que se seguem:
A noite é uma
criança.
Até aí, morreu Neves.
Bom divertimento!
Cale a boca!
Depois não vá dizer que Santo Antônio
te enganou!
É mais fácil um boi voar!
Espere um minuto!
Está na hora da onça beber água.
Falando do diabo... o diabo aparece.
Melhor sorte na próxima!
Não é o que você está
pensando.
Não seja infantil!
Não tire conclusões apressadas!
O cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais.
O gato comeu a sua língua?
Pensa que berimbau é gaita?
Vá contar pra outro.
Vá em frente!
Você enlouqueceu?
Você perdeu o juízo?!
Os clichês são
estereótipos. Este termo é usado de duas
maneiras diferentes: (i) como termo técnico, que se
origina na Psicologia Social e refere-se a um certo tipo de
preconceito, e (ii) na linguagem do dia-a-dia, quando ele
significa algo constantemente repetido -- significado
adotado pelos lingüistas. Os clichês são
fórmulas comuns, verdades triviais coaguladas com a
forma lingüística fixa. Segundo Ferreira (1993:
73), o clichê, enquanto construção de
aparância lingüisticamente cristalizada, encobre
sob sua forma sentidos que não se encontram
petrificados. Alguns se fixam, outros são
excluídos ou tâm a sua direção
alterada. Não se pode, portanto, atribuir ao
clichê a condição de um fóssil,
sob pena de sermos surpreendidos ao descobrir que ele
está vivo e, como tal, sem significação
contínua. Exs.: Deus é brasileiro;
Negócio é negócio; Dinheiro é
dinheiro.
As superstições ou crendices
populares são também formas concisas, como as
anteriormente citadas e os provérbios, mas não
possuem forma poética e operam num setor diferente da
experiência humana. Elas tentam manipular as
confrontações do homem com o extra-sensorial,
o extra-pessoal, com forças sobrenaturais (ou
naturais). Consoante Abrahams (1968: 48), na maioria dos
casos estas forças ameaçam romper a
existância contínua dos indivíduos e,
por extensão, do grupo. A maioria das
superstições ataca potencialmente
forças malevolentes. Algumas, contudo, reconhecem a
existância de forças externas benevolentes e
tentam convertâ-las em vantagem para o
indivíduo ou para o grupo. Exemplos:
Abrir guarda-chuva dentro de casa
atrai chuva na certa.
Abrir o guarda-chuva, dentro de casa, dá azar.
Borboleta quando pousa na gente traz sorte.
Bruxa[1] quando entra na casa da gente é
sinal que a morte ronda.
Casa de esquina, ou morte ou ruína.
Cavalo argel traz desgraça pra si e pro dono.
Chifre de argola não pega mandinga.
Chuva e sol, casamento de espanhol.
Chuva na hora do casamento, em época de estiagem,
sorte no casamento.
Coceira na mão é sinal que vem dinheiro ou
notícia boa.
Colocar clara de ovo para Santa Clara, faz parar a
chuva.
Com crucifixo e alho vampiro não chega.
Comer carne com peixe faz crescerem as orelhas.
Cós de saia arrebentado, noivo tomado.
Dar nó no abainhado da saia, amarra cobra.
Defunto mole chama outro na casa.
Doente mudou de cabeceira, morte certa.
Doente que espirra não morre no dia.
Galinha que canta como galo anuncia a morte do dono da
casa.
Galo cantando fora de hora dá novidade
amanhã.
Galo cantando na boca da noite, sinal de que estão
furtando moça.
Gato preto encaipora a casa.
Gato tem sete vidas.
Homem narigudo, poucas vezes cornudo.
Imagem do Buda de costas próximo a porta traz
riqueza.
Lobisomem aparece em noite de Lua Cheia.
Mancha branca nas unhas é aviso que vai receber
presente.
Mancha branca nas unhas é sinal que andou falando
mentira.
Mão fria, coração quente; mão
quente, coração frio.
Menino que, à noite, brinca com fogo, mija na
rede.
Mentira faz crescer o nariz.
Moça que quiser achar casamento, enterre Santo
Antônio de cabeça pra baixo.
Moça que senta no canto da mesa fica solteira.
Morto de olho aberto, outra morte.
Muita cera no ouvido traz riqueza.
Mulher que se casa no dia de Sant'Ana, morre de
parto.
Olhar pro sol dá cegueira.
Pata de coelho dá sorte.
Quando gato preto cruza o nosso caminho, azar na
certa.
Quando o noivo vê a noiva vestida de noiva antes
dela entrar na igreja, sinal de
separação.
Quando se está de orelha quente é sinal que
alguém fala da gente; se é a esquerda
é por paixão, se é a direita falam
mal então.
Quando se fala mentira, se se cruzam os dedos, Deus
não castiga.
Quem abre guarda-chuva dentro de casa atrai azar.
Quem aponta pra Lua cria verruga na ponta do dedo.
Quem bate na madeira se isola de malefícios.
Quem bota bolsa no chão afasta dinheiro.
Quem cochicha, o rabo espicha.
Quem conta história de dia, cria rabo de
cotia.
Quem corta unha de bebê pagão faz ele virar
lobisomem.
Quem dá e toma, fica corcunda.
Quem dá e torna a tomar, vira a corcunda pro
mar.
Quem dá sal na mão pra si atrai
miséria.
Quem derruba um garfo recebe visita masculina.
Quem derruba uma colher recebe visita feminina.
Quem encontra um trevo de quatro folhas está com
sorte e não está prosa.
Quem entra por uma porta e sai pela outra leva a fortuna
da casa.
Quem escuta, o rabo encurta.
Quem mata gato, tem sete anos de atraso.
Quem mata sapo, fica seco.
Quem passa debaixo de escada atrai azar.
Quem primeiro perde a aliança (de casamento),
primeiro morre.
Quem reclama, o rabo inflama.
Quem se levanta primeiro da cama, no dia seguinte ao
casamento, é quem primeiro morre.
Quem se senta em pedra de amolar, se prepare pra
apanhar.
Quem tira a camisa do boi, sem a sua fica.
Quem vai à esquina o rabo afina.
Quem vai à roça o rabo engrossa.
Quem veste roupa do lado do avesso ganha presente.
Se há roupa do lado do avesso no quarto onde de
dorme, pesadelo na certa.
Semana Santa em março, fome ou mortaço.
Sinal no céu, castigo na terra.
So bala de prata mata lobisomem e vampiro.
Sol e chuva, casamento de viúva.
Vassoura atrás da porta afasta visita
malquista.
Visita que abre a porta na saída não volta
mais.
Os slogans são fórmulas que
penetraram na linguagem do dia-a-dia pela mídia.
Talhados com determinados objetivos, como os comerciais,
eles também servem como títulos para livros,
filmes, programas de TV. Por natureza, os slogans são
as formas concisas mais vivas das expressões do
conhecimento diário. Ex.: Slogan da Campanha Nacional
de Trânsito: "Perca um minuto em sua vida, mas
não perca a sua vida num minuto." Slogan da
Análise Transacional: "Quem não se envolve,
não se desenvolve". Slogan do programa de TV do
Chacrinha: "Quem não se comunica, se
trumbica." Slogan do refrigerante Grapette: "Quem
bebe Grapette, repete". Segundo Arnaud & Moon (1993:
324), "ser provérbio [...] é o ideal
do slogan". Portanto, o ideal do comunicador é
transformar o seu slogan num provérbio, fazer com que
o slogan caia no domínio público.
Já os provérbios são
afirmações concisas de verdades gerais,
provenientes da experiência popular, do senso comum,
da fidedignidade a um contexto de vida específico, da
simplicidade. Lidam com os interesses primários do
homem, como o amor e a luta; a saúde e a
doença; a juventude e a velhice; a fome e o alimento;
o trabalho e a brincadeira. São coloridos, plenos de
senso de humor e, especialmente, de natureza moral. Seu
efeito é elevar uma afirmação de um
nível ordinário, simplório, para um
nível enfático, para ensinar, elogiar,
persuadir, convencer ou, contrária e alternadamente,
para prevenir, advertir, envergonhar, restringir ou
desencorajar atitudes. Se uma máxima é
interpretada literalmente, o provérbio é
geralmente metafórico, possui duplo significado, uma
leitura literal e outra figurada. Freqüentemente, os
adágios são estabelecidos em uma forma
prosódica, rimada, rítmica, repetida,
aliterativa. A forma consonantal facilita a
retenção mnemônica dos
provérbios, como em:
A ocasião faz o
ladrão.
A paixão cega a razão.
Alho e pimenta, o fastio ausenta.
Cada qual com seu igual.
Comer e coçar está no começar.
Cria fama e deita-te na cama.
De médico e de louco todos nós temos um
pouco.
De raminho em raminho o passarinho faz seu ninho.
Favor recebido, favor esquecido.
Filho extremoso, pai venturoso.
Filhos criados, trabalhos dobrados.
Na boca do mentiroso, o certo se faz duvidoso.
Pai impertinente, filho desobediente.
Pai rico, filho nobre, neto pobre.
Pecado confessado está meio perdoado.
Quem faz uma vez, faz duas, faz três.
Quem não arrisca, não petisca.
Quem vai ao ar, perde o lugar.
Quem vai ao vento, perde o assento.
Se, na maioria das vezes, o provérbio
é rimado, há, também, provérbios
que não o são:
Em pé de pobre, todo sapato
serve.
Mortalha não tem bolso.
Quem sai aos seus não degenera.
O provérbio recebe
interpretação generalizada, independente da
realidade concreta à qual ele se refere:
A aranha vive do que tece.
Abelha atarefada não tem tempo
pra tristezas.
Água fria não escalda pirão.
Agulha sem fundo não arrasta linha.
Antes um pássaro na mão, que dois
voando.
Bode também tem barba.
Cada macaco no seu galho.
De noite, todos os gatos são pardos.
Em terra de sapos, de cóqua qüâles
(cócoras com eles).
Galinha não mata pinto.
Impossível é rato fazer ninho em orelha de
gato.
Macaco velho não bota a mão em cumbuca.
Porco velho não se coça em pé de
espinho.
Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha.
Saco vazio não pára em pé.
Urubu, quando anda caipora, atola-se até o
lajeiro.
Vassoura nova sempre varre bem a casa.
A interpretação generalizada
aplica-se a qualquer pessoa que se encontre diante da mesma
situação:
Não se chora pelo leite
derramado.
Nunca falta um chinelo velho para um pé
cansado.
Por causa de uma esporada, perde-se uma vaquejada.
Quem tem boca, vai a Roma.
Quem tudo quer, tudo perde.
Há provérbios descritivos:
Em casa onde não há
pão, todo mundo grita sem razão.
Os olhos do dono é que engordam o porco.
Quem anda em terra alheia é o primeiro que apanha
e o derradeiro que come.
Os provérbios são portadores de
uma carga moral crítica ou vinculativa:
A boa esposa faz a boa sopa; o bom
marido faz a boa esposa.
Ao rico não deva, ao pobre não prometa.
O pior cego é o que não quer ver.
O velhaco quer um no saco, outro no papo.
Quando o amigo é certo, um olho fechado e outro
aberto; quando não é certo, todos dois
abertos.
Queira bem de graça, que por dinheiro é
chalaça.
Quem abrolhos semeia, espinhos colhe.
Quem semeia vento, colhe tempestade; quem semeia amor,
colhe saudade.
Sacristão novo cospe fora da igreja;
sacristão velho faz pipi no altar.
Um inimigo prudente é preferível a um amigo
indiscreto.
Paremiologia (do grego paroimia, pelo latim
paroimia) é uma coleção de
parêmias ou provérbios. Paremíaco(a),
paremiógrafo(a), paremiólogo(a),
paremiologista, tudo se refere a provérbios ou proverbiologia, proverbiólogo,
proverbiologista (neologismos meus).
Há uma paremiologia tipicamente
brasileira, a exemplo das expressões proverbiais
toponímicas e referentes a locativos
indígenas, como por exemplo:
Macaé: má terra,
má gente, má maré.
São Paulo pra café, Ceará pra
valentão, Piauí pra vaca brava, Pernambuco
pra baião; Rio Grande pra cavalo, Paraná
pra chimarrão, Em Minas carne de porco, Rio de
Janeiro, eleição; Alagoas povo macho, Mato
Grosso pra brigão, Amazonas pra borracha,
Paraíba pra algodão; Para castanha o
Pará, Para arroz o Maranhão, Bahia pra
mulata, Sergipe cana e feijão; No Rio Grande do
Norte, Jerimum e violão, Em Goiás
moça bonita e rapaz sem coração
(...);
gentílicas:
Baiano, um por engano;
Baiano burro nasce morto;
Gaúcho sempre com a faca no bucho;
Todo gaúcho tem um lado gay que é
lésbico,
e assim por diante.
Pelos provérbios, sabedoria testada
pelo tempo, o falante impõe a sua autoridade. Os
provérbios possuem, pois, comumente, na
conversação, uma função
avaliativa e um tom didático. Essencialmente, o mesmo
efeito pode ser conseguido ao citar-se a Bíblia,
autores famosos ou autoridades relevantes em determinada
área. Nós nos tornamos tão acostumados
a ouvir os provérbios citados como papéis
avaliativos do comportamento, que a maioria dos
provérbios adquire o sabor didático. Por
exemplo, o provérbio Pedra que rola não
cria limo embora possa significar uma pessoa que se
move mantém a juventude por mais tempo ou uma
pessoa que muito se move não enriquece, os
ouvintes interpretam-no segundo as suas crenças, o
seu ponto de vista. Destarte, torna-se óbvia a
natureza didática dos provérbios e há
que se reconhecer a importância do momento
didático no seu significado interacional.
Uma segunda conseqüência do
caráter tradicional dos provérbios surge no
seu caráter autoritário. Os ouvintes tendem a
reagir às emissões proverbiais como se elas
fossem provenientes de fontes autoritárias. O peso da
tradição ou a maioria das opiniões
inculcam autoridade na emissão dos provérbios.
Uma simples afirmação deste fato ou
crença traduz-se em É melhor prevenir do
que remediar que parece agüentar uma força
diretiva semelhante a uma verdade imperativa como Pense
bem antes de agir.
No contexto da verdade, Se a palavra vale
prata, o silâncio vale ouro (provérbio
bíblico) pode expressar o mesmo significado
interacional que Por favor, fique quieto, ou Fale
pouco ou, ainda, Cale-se. Assim, evidenciam-se os
caráteres didático e autoritário dos
provérbios. Ao emitir um provérbio, o falante
acrescenta autoridade e credibilidade à sua
elocução, identificando-se com a sabedoria,
crenças e preconceitos tradicionais de uma
comunidade. Uma conseqüência disto pode ser
atribuída à maneira como se emprega o
provérbio. Falantes jovens citam menos
provérbios do que os falantes mais velhos e os
falantes mais velhos, geralmente, tendem a citar
provérbios quando falam para ouvintes mais jovens do
que eles. Por esta razão, no Brasil, os jovens tendem
a fazer um uso lúdico dos provérbios
transformando-os, adaptando-os a um contexto atual,
especialmente o político, como fizeram os estudantes
de Economia da Universidade de Brasília do Antes
só que mal acompanhado, transformado para Antes só que Malan acompanhado, e do De
grão em grão a galinha enche o papo, transformado em De Fernando em Fernando o Brasil vai-se
afundando. Não somente os jovens, mas o
brasileiro em geral, mesmo os idosos, possuem um senso de
humor apurado. Assim sendo, ouve-se muito na nossa sociedade Depois da tempestade vem a bonança como Depois da tempestade vem o lamaçal; Quem espera
sempre alcança como Quem espera desespera;
Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca
se acabe como Não há mal que sempre
dure, nem mal que sempre se ature, e assim por
diante.
Os provérbios deixam o falante fora do
contexto. Invocando a tradição e a comunidade
como um todo, o falante não apenas desaparece como um
agente direto, mas impõe o peso das
sanções sociais. O caráter tradicional
dos provérbios está imbuído nos seus
sentidos pré-concebidos com autoridade e empresta a
sua força diretiva de significados interacionais,
enquanto permite que o falante desapareça frente
à opinião consensual geral.
Em consonância com o seu caráter
didático e autoritário, os provérbios
tendem a situar o falante numa posição
superior ou vis-à-vis com o seu ouvinte. Ao citar um
provérbio, o falante sinaliza com um significado
interacional e, indubitavelmente, intenta funcionar como
conselheiro ou professor do seu ouvinte. Se uma pessoa cita
provérbios regularmente a alguém, assume, no
relacionamento, a responsabilidade de uma
condição superior à do ouvinte.
Ninguém espera que uma criança cite
provérbios aos seus avós, pais ou professores.
Logo, com uma citação proverbial, um falante
mostra que possui o direito de aconselhar e ou advertir o
seu ouvinte ou que ao menos naquela relação
está em condição de igualdade com o seu
interlocutor ou, ainda, mesmo que momentaneamente,
está em condição superior, pela posse
da sabedoria tradicional.
Como outras formas do folclore, os
provérbios são veículos para a
comunicação pessoal. Segundo Luyten (1988: 10)
todo ato comunicativo é, na realidade, uma tentativa
de alguém atuar sobre outro alguém, de
procurar modificar algo na estrutura mental da pessoa que
recebe a mensagem. Em cada elocução, pois,
há uma intenção. Pais podem utilizar-se
de provérbios para direcionar pensamentos e
ações de seus filhos. Todavia, ao utilizar-se
de um provérbio o imperativo paterno é
externalizado e alguma coisa removida daquele pai
individual. A responsabilidade do direcionamento da
criança projeta-se no passado anônimo, no
folclore. A criança sabe que o provérbio usado
pelo pai, que ora a adverte, não foi criado por ele.
O provérbio é proveniente do passado cultural,
cuja voz da verdade fala em termos do que é
tradicional à sociedade. O pai é apenas o
instrumento pelo qual o provérbio lhe fala.
De acordo com Arewa & Dundes (1964: 70), o
poder impessoal dos provérbios é mais aparente
no Fórum africano, onde os participantes de processos
judiciais argúem com provérbios, pretendendo
que os provérbios sirvam como precedentes passados
para ações presentes. Nas cortes
européias, assim como nas brasileiras, os advogados
citam casos anteriores (jurisprudância) como suporte
aos seus argumentos. No ritual legal africano, um advogado
de uma causa usa provérbios para o mesmo
propósito. Aqui, claramente, não é
suficiente saber-se provérbios; é
necessário ser um experto em aplicá-los a
novas situações. Obviamente, a causa
não será ganha por quem souber mais
provérbios, mas por quem melhor souber
aplicá-los.
A conseqüência do caráter
tradicional dos provérbios é que uma pessoa em
condição superior pode aconselhar como uma
maneira de estabelecer um vínculo de respeito com uma
pessoa que lhe está, naquele momento,
hierarquicamente inferior, isto é, este laço
pode ser como o de pais e filhos ou o de um professor e um
estudante. E este momento corresponde ao momento
didático do significado interacional dos
provérbios.
Atinando-se à questão da
utilização dos provérbios na
língua, há, pois, duas funções
importantes que a eles se podem atribuir, ambas ligadas ao
discurso argumentativo. Uma delas, a mais comum, é a
carga moral, com sentido didático. Usam-se os
provérbios como, por exemplo, para aconselhar:
a) os filhos a irem para a cama: Deitar cedo e cedo erguer-se.;
b) a dieta à mesa: Come-se para viver;
não se vive para comer.;
c) a prudância: Ame o seu vizinho, mas
não derrube a sua cerca; Saber esperar é
grande virtude; Quando evitamos as ocasiões,
removemos as tentações; Cautela e caldo de
galinha não fazem mal a ninguém.;
d) a parcimônia: Quem tudo quer, tudo perde;
Quando não se tem o que ser quer, é preciso
querer-se o que se tem.;
e) a verdade: Mais depressa se apanha um mentiroso que
um coxo; O diabo tem uma capa que encobre e outra que
descobre; A verdade é como o azeite, sempre vem
à tona;
g) a economia: Poupa o seu vintém, que um dia
você será alguém; Comprar a
enforcados, vender a namorados,
etcetera. Nesta função, o
provérbio é essencialmente didático,
utilizado para aconselhar uma atitude, para prevenir um
mal.
Uma outra função, igualmente
comum, é a do anteriormente mencionado argumento de
autoridade. A argumentação - que deve repousar
na coerância interna e objetiva dos argumentos -
recorre muitas vezes a pressões afetivas, do tipo Se você não fizer, eu fico triste ou aos
chamados argumentos de autoridade, como Faça,
porque eu mando ou Faça, porque é assim
que tem que ser feito. É neste último caso
que os provérbios se tornam um valioso auxiliar a
quem já não tem mais argumentos. E todos somos
capazes de recordar situações em que
assistimos -- ou em que protagonizamos -- discussões
que terminaram com um provérbio de autoridade
indiscutível:
A mão que dá o castigo,
dá o pão.
Amanhã, a Deus pertence.
Cada cabeça uma sentença.
Faça o que eu digo, mas não faça o
que eu faço.
Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de
perdão.
Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Quem não tem competância, não se
estabelece.
Respeito é bom e eu gosto.
Há que se frisar a importância
dos provérbios e de outros atos de fala indireta -- e
aqui incluem-se os atos de fala indireta e os figurados --
por permitirem que o falante disfarce os seus verdadeiros
sentimentos. Ao falante eles representam um caminho de fuga
e ao ouvinte oferecem opções e apontam para um
consenso real ou imaginário. Mas os falantes
também recorrem aos provérbios em
situações de duplo sentido, como, por exemplo,
quando são solicitados a tecer um julgamento sobre
algo que pode vir a magoar alguém ou revelar as suas
preferâncias íntimas. Assim, os falantes
também se utilizam dos provérbios para evitar
comprometimentos e refutações pessoais.
Nem todos os usos figurados são novos e
criativos. Os provérbios, assim como outros itens do
folclore e as expressões idiomáticas
exemplificam o aspecto convencional e repetitivo dos usos
figurados. Uma vez que a metáfora é uma
estratégia, um provérbio é uma
estratégia para lidar com uma
situação.
Magalhães-Almeida (1986), em sua
dissertação de mestrado, afirma que os
provérbios possuem forma relativamente fixa,
admitindo pouca ou nenhuma modificação,
sintática ou léxica. O seu uso
metafórico depreende-se na situação em
que são usados. A finalidade deles é de
resumir uma situação, retratá-la e
dar-lhe uma essência ao se emitir um determinado
julgamento. Exemplos:
(1) Pau que nasce torto, morre
torto.
(2) É de pequenino que se torce o pepino.
(3) Pela árvore se conhece a semente.
(4) Filho de peixe, peixinho é.
(5) Quem não se enfeita por si só se
enjeita.
(6) Mais vale um pássaro na mão que dois
voando.
(7) Um dia é da caça, outro do
caçador.
Nota-se a sinonímia nos
provérbios: em 1, 2, 3 e 4 os usos proverbiais
são similares.
Magalhães-Almeida ainda observa que,
dada uma situação particular de discurso, o
provérbio constitui-se num julgamento particular do
falante acerca de um evento especificado naquela
situação. Deste modo, Mais vale um
pássaro na mão que dois voando pode
referir-se ao fato de ser melhor ter um emprego certo do que
dois incertos, possuir-se pouco dinheiro ou jogá-lo
na loteria esperando dobrá-lo, ou mesmo
centuplicá-lo e perdâ-lo etcetera. Mas, numa
dada situação em que a referância foi
fixada, esse provérbio será a síntese
do julgamento pessoal do falante sobre algo ou alguém
ou uma dada situação real do mundo exterior.
Nesses termos, poder-se-ia pensar nos provérbios
metafóricos como uma predicação
referente a esse algo, alguém ou uma dada
situação, apesar de não se ter mais o
mesmo processo predicativo da lógica formal.
Tagnin (ibid) alega que no nível
semântico da convencionalidade as estruturas
convencionais da língua são decodificadas pelo
todo e não por suas partes, o que quer dizer que o
seu significado foi convencionalizado pela sociedade. Assim,
diz-se que uma forma lingüística foi
convencionalizada quando uma expressão passou a ter
um significado diferente dos seus constituintes. São
expressões fixas, cristalizadas e consagradas pelo
uso, empregadas dentro de um determinado contexto,
importantes no aprendizado de qualquer língua. Na
maioria das vezes nossas conversas seguem caminhos já
trilhados, carecem de conteúdo, desenvolvendo-se de
acordo com padrões pré-moldados de pensamento
e de expressão verbal. Fazem com que a nossa
comunicação flua com mais facilidade e
eficiância, pois evita que a todo momento tenhamos que
ser criativos. Do mesmo modo, isto vale para o ouvinte, que
não teria condições de estar
constantemente decodificando o interlocutor. Não
obstante, este tipo de expressão costuma ser chamado,
pejorativamente, de frase feita, pois as
fórmulas situacionais vâm em nosso socorro nos
momentos em que não sabemos o que dizer. Todos
já passamos por uma situação similar
à: -- Como é que se diz, filhinha?, --
Obrigada, vovó. As primeiras aulas de
fórmulas situacionais foram-nos dadas por nossos
pais. As estruturas que podem expressar polidez ou
distanciamento são fórmulas em que a estrutura
é fixa, mas a parte léxica é
variável; expressam padrões comportamentais
convencionados socialmente. Fórmulas de
distanciamento são fórmulas empregadas quando
o falante (i) não deseja parecer muito direto; (ii)
faz sugestões sob a forma de pergunta; (iii) visa a
amenizar o impacto de uma afirmação muito
categórica, e (vi) a suavizar opiniões.
Há, todavia, fórmulas fixas, classe esta que
engloba expressões fixas, petrificadas na
língua, que são proferidas a título de
comentários em um determinado contexto. Podem ser as
expressões idiomáticas, as frases feitas, as
fábulas, as citações e os
provérbios.
Os provérbios podem ocorrer como textos
por si mesmos e não apenas em textos amplos.
Além de serem antologizados como pequenos e discretos
textos, os provérbios ocorrem como textos completos,
como nos slogans e inscrições em
edificações, acompanhando figuras em cartoons, propagandas, etcetera. Em cada um desses
ambientes um provérbio possui uma
significação textual interacional e
semiótica limitada pela gravura e ou por outras
características do contexto, mas o significado
literal como texto predomina na maioria dos casos,
preservando-se a descrição correta do seu
significado.
A predominância do significado integral
do texto do provérbio, em contextos como os
supracitados, também justifica o estudo dos
provérbios como textos. Mesmo quando o
provérbio ocorre como parte integral de um discurso
amplo ou um texto escrito, a independância do seu
significado tem um importante papel na
determinação da sua contribuição
semântica no texto como um todo. Assim, o estudo dos
provérbios como texto está preliminarmente
justificado ou é um passo em direção
à análise dos provérbios em textos e
interações.
Como dizia a minha avó... Como dizia o
meu avô... Como dizia o meu pai... Como diz o
provérbio... Como diz o ditado...
Bem, passemos ao que diz o povo brasileiro, por meio desta
Coletânea de Provérbios e Outras
Expressões Populares Brasileiras.
Ana Maria de Moraes Sarmento Vellasco
vellasco@brnet.com.br
Brasil, Brasília, DF, maio de
1996.
Referências bibliográficas:
ABRAHAMS, Roger D. 1968. "A rhetoric of
everyday life: Traditional conversational genres". In:
Southern Folklore Quarterly 32: 44-59.
AREWA, E. Ojo & DUNDES, Alan. 1964.
"Proverbs and the ethnography of speaking folklore". In:
American Anthropologist 66, No. 6, Part 2: 70-85.
ARNAUD, Pierre & MOON, Rosamund. 1993.
"Fréquence et emploi des proverbes anglais et
français". In: Chapitrein J. L.PLANTIN, Christian. Lieux communs, topoi, stéréotypes,
clichés. Paris, Kimé, 1993, pp.
322-341.
CASTRO, Maria Lília Dias de. 1990. As articulações da ironia nas
máximas/mínimas do Barão de
Itararé. Tese de Doutorado inédita.
São Paulo, USP.
CONFÚCIO. Os Analectos. São Paulo: Editora Pensamento, s.d.
FERREIRA, Maria Cristina Leandro. 1993. A
antiética da vantagem do jeitinho na terra em que
Deus é brasileiro (O funcionamento discursivo do
clichê no processo de constituição da
brasilidade). In: ORLANDI, Eni Pulcinelli. (org.) Discurso Fundador (A formação do
país e a construção da identidade
nacional). Campinas, Pontes Editores.
HAMMERSLEY, M. & ATKINSON, P. 1983. Ethnography: principles in practice. London,
Routledge.
LA ROCHEFOUCAULD, François, Duc de.
!923. Reflexões, sentenças e máximas
morais. Rio de Janeiro, Garnier.
LUYTEN, Joseph. Sistemas de
Comunicação Popular. 1988. São
Paulo, Editora Ática, Série
Princípios.
MAGALHÃES-ALMEIDA, Cirlene. 1986. Para
uma descrição semântico-cognitiva da
linguagem metafórica. Dissertação de
Mestrado, inédita, Universidade de Brasília,
Brasília, DF.
R"NAI, Paulo. Dicionário Universal
de Citações. 1985. São Paulo,
Círculo do Livro.
TAGNIN, Stella Ortweiller. 1989. Expressões idiomáticas convencionais. São Paulo: Ática, Série
Princípios, pp. 88.
1 Borboleta escura, marrom ou
preta.