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LUIZ JEAN LAUAND
PROVÉRBIOS E EDUCAÇÃO MORAL
- A filosofia da educação de Tomás de Aquino e a Pedagogia do mathal.

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NOTA INICIAL

Este trabalho - do ponto de vista pessoal, existencial - surgiu como importante passo em um processo de conscientização, de busca de identidade cultural, semelhante, talvez, ao de tantos brasileiros, descendentes de imigrantes.

Tal como eles, tivemos a experiência de um bi-culturalismo: a infância marcada pelo intenso convívio com quatro avós libaneses - Mikhail, Wadiah, Yussuf e Mariam. Como falavam em árabe (ou em "burtuqárabe"...) com meus pais e tios (alguns nascidos no Líbano), passei a infância haurindo deles (e de vizinhos libaneses no bairro do Paraíso...) tantos aspectos dessa tradição cultural que, para além das profundas marcas afetivas, influenciaram também - como sujeito dessa pedagogia informal, que é a Pedagogia do mathal - a educação intelectual e a formação como um todo.

(Adiantemos, desde já, que a tradução do conceito - central para nós - de mathal (plural: amthal), pode ser aproximada pelos nossos "provérbio", "comparação", "parábola" etc. Ao longo deste estudo, enfatizaremos a dimensão "provérbio" do mathal).

Para além do frio e objetivo tratamento acadêmico do "tema" dos amthal árabes, encontra-se, no autor, a dimensão pessoal de reencontro de um passado presente, de um afeto familiar, também no outro sentido da palavra: o de afeição antiga, sem data precisa, lá em alguma região de uma infância marcada não pela - para nós, então, inexistente - televisão, mas pelo calor daquele vagar pelas tertúlias em que o tempo parava, para o mútuo verter-se da con-versação: relatos, recordações, episódios divertidos (recontados mil vezes, com o sabor da primeira), provérbios etc.


Misturava-se português e árabe. O árabe era a língua dos antigos, do mistério: usada tanto para a hiperbólica expansão da afetividade como para outros exageros orientais: nossas bacias hidrográficas brasileiras não podiam competir com o rio Bardauni...

E quando perguntaram ao zahlauy pela população da cidade ele retrucou:

- Depende.

- Depende do que?

- Em tempo de guerra ou em tempo de paz?

- !!??

- Sim, porque em tempo de paz, dez mil; em tempo de guerra, cem mil.

- Por que?

- Porque em tempo de guerra, cada um de nós vale por dez...

Aprendi mil amthal na época, mas só mais tarde vim a conhecer o provérbio libanês que diz:

(#1) Os maiores mentirosos são o jovem emigrado e o velho cujos contemporâneos morreram ([1]).

Seja como for, meus avós imigrantes, muito cedo, integraram-se plenamente - a gratidão é o valor árabe supremo! - e aprenderam a amar apaixonadamente o Brasil ([2]).

E, só muitos anos depois, eu mesmo viria a descobrir e escrever: "Enquanto o ocidental cultua a razão racionalista e persegue a lógica, que, afinal, organizam e universalizam a expressão, o árabe valoriza a sugestão, a insinuação. As múltiplas realidades suscitadas pela palavra terão a marca da percepção individual, ficando preservada a intimidade e a autenticidade da relação do homem com o mundo. Por isso, tantos desacertos do ocidental ao interpretar literal e cartesianamente a expressão árabe. E, reciprocamente, o árabe fica perplexo ao constatar que a intuição e a subjetividade (tenha-se em conta que a dicotomia objetivo/subjetivo, como mutuamente excludentes, é parte do ideário ocidental) - de importância nuclear na visão-de-mundo oriental - importam pouco para o Ocidente com seu vezo de `objetividade'" ([3]). E "no âmbito dos sentimentos, a exuberância da imaginação árabe é insuperável no mapeamento da alma humana. Auxiliada por incisivos provérbios e metáforas, a língua árabe demonstra que a fantasia nem sempre é fantasiosa, mas, muitas vezes, supera a fria razão em captação da realidade" ([4]).

O árabe era a língua dos desfechos - então, para os netos, enigmáticos - dos relatos que suscitavam ruidosas gargalhadas. O árabe era usado tanto para as exclamações religiosas como para as palavras fortes ou "inconvenientes"; e para assuntos que as crianças não deviam entender...

A sonoridade do árabe (com acento libanês), tinha um sabor de ritual: não entendíamos as palavras, mas intuíamos do que os mais velhos estavam falando: pela prosódia (pela musicalidade ou pelo planger da voz - o libanês, por vezes, fala "chorando"...) sabíamos se se tratava de recordações, de referência a alguma pessoa querida, de negócios ("duplicata", por exemplo, era uma das palavras portuguesas que, às vezes, se misturava ao árabe...) etc.

A infância marcada por esse Oriente, que - brincando, brincando... - foi imprimindo um senso de prevalência do concreto imaginativo (base do humor árabe, das metáforas, e de todo tipo de mathal), de homogeneidade do tempo, de presença viva do passado e de tantos outros aspectos, de que trata o presente trabalho acadêmico...

Ao final desta nota, quero expressar os agradecimentos a meus mestres, Prof. Dr. Helmi M. I. Nasr e Profa. Dra. Aida Ramezá Hanania, que me ensinaram que numa mesma e única raiz árabe - S-D-Q - confundem-se os significados de amizade e confiança.

INTRODUÇÃO

(#3) "Ma qal al-mathal shay min kadhab"

("Os provérbios nunca mentem...").

Provérbio libanês ([5]).

1. A importância do mathal para a Pedagogia

De um ponto de vista objetivo, o presente trabalho pretende articular a união de diversos aspectos da investigação que temos realizado nos últimos dez anos. Tais pesquisas versaram sobre dois grandes campos: a educação moral (nos quadros da filosofia de Tomás de Aquino) e a forma de pensamento árabe ([6]), condicionada por estruturas da língua.

O particular ponto de vista, sob o qual enfocamos esses campos, conduziu-nos à sua unificação - natural e forte - em torno do tema dos provérbios árabes.

Assim, o leitor encontrará, ao longo desta análise, 176 provérbios árabes ([7]), contraponteando (em geral) as teses filosóficas e pedagógicas de Tomás de Aquino.

Muito do que afirmamos neste trabalho é inédito ([8]), mas sua originalidade faz-se presente também na articulação de diversos temas já por nós tratados - sobretudo em diversos volumes da Coleção Oriente & Ocidente e na Revista de Estudos Árabes ([9]) - e que agora se integram na perspectiva da educação moral.

Provérbios e educação moral são dois temas de extrema atualidade. Se até recentemente eram menosprezados ([10]) por certos setores da investigação universitária ([11]), hoje, cada vez mais, têm seu merecido lugar de destaque reconhecido no meio acadêmico. De fato, desde o início da década, observa-se, no Brasil, um crescente clamor por ética e moralidade (ecos de uma renovação mundial de interesse pela ética).

Por outro lado, é visível - como lembra Garcia Hoz - "a significação especial" que os estudos sobre cultura popular adquirem na educação pós-moderna: "tradições milenares são consideradas as mais audazes e indispensáveis" ([12]).

É evidente que quando, aqui, nos referimos à educação moral, estamos pensando em algo bem distinto daqueles - mais ou menos inócuos - conteúdos tradicionalmente veiculados pela disciplina "Educação Moral e Cívica"... Aliás, nem sequer estamos nos referindo à educação formal, que se ministra na escola, mas à "Educação Invisível", para antecipar a expressão de um de nossos referenciais pedagógicos, o educador espanhol Victor Garcia Hoz ([13]).

A articulação entre a filosofia da educação moral de Tomás de Aquino e a educação invisível dos amthal torna-se evidente, quando se estuda o papel ultra-essencial da virtude da prudentia para a ética e para a educação. Como veremos, a prudentia, virtude intelectual - classicamente definida como a "reta razão no agir", recta ratio agibilium - informa o bem agir, realizando uma ponte entre o abstrato e o concreto.

E, como pretendemos mostrar, precisamente esta é também uma função dos amthal: a realidade vivida transforma-se em experiência e esta condensa-se em provérbio que, por sua vez, volta para a realidade, iluminando-a e permitindo sua leitura.

Se a prudentia pode realizar sua função decisória na conduta humana é porque se apóia no conhecimento: duas de suas partes quasi integrais são a memoria e a docilitas, com o que se estabelece importante interface com os amthal.

Naturalmente, o que estamos dizendo sobre os provérbios árabes vale também para os provérbios ocidentais ou de qualquer outra cultura e a sentença de Lunde & Wintle é sempre verdadeira: "Perhaps the quickest way to understand a people or a culture is to learn their proverbs" ([14]). A relação da cultura árabe com os provérbios é, porém, diferente. Trata-se de uma afinidade especial, muito mais intensa: o provérbio espelha o próprio núcleo da forma de pensamento árabe.

Provérbios existem em todas as culturas e também no Ocidente; mas não tão copiosamente e, sobretudo, não com a força psicológica e educativa que exercem no Oriente, que os potencia e lhes dá um importante papel pedagógico, a tal ponto que podemos falar numa Pedagogia do mathal.

Imediatamente decorrentes da própria forma de pensamento, dão-se em estado, por assim dizer, "quimicamente puro" na tradição árabe. Naturalmente, ao longo deste trabalho, enfatizaremos as características da forma de pensamento árabe - em união com os amthal - em contraste com a forma ocidental logos, mas essa ênfase significa uma tendência ([15]) e não uma determinação.

Seja como for, o mathal (e interessa-nos aqui, sobretudo, o mathal como provérbio) é a melhor expressão (como pretendemos demonstrar) da forma de pensamento árabe. Com extrema felicidade, assim o expressou Aida Hanania:

"A célebre sentença moderna que afirma a identidade entre meio e mensagem encontra aplicação com total propriedade no caso do Oriente com as máximas de sabedoria. Valem aqui, para as máximas de sabedoria, as mesmas considerações que temos já feito alhures para seus irmãos, os provérbios. O sistema língua/forma de pensamento - para usar o conceito de Lohmann -, com relação ao árabe, encontra, nessas sentenças, sua mais perfeita correspondência. Em vez de longos e articulados discursos, a língua árabe (o pensamento árabe) expressa-se de modo muito mais natural e autêntico por rápidas sentenças de caráter incisivo, que atingem o íntimo do interlocutor por condensarem séculos (ou milênios...) de uma sabedoria mais do que humana. Os ergo e os demonstrandum do Ocidente dão lugar (...às sentenças dos sábios, e há uma adesão... ) à milenar voz da sabedoria que, por eles, fala. É a verdade das coisas que se deixa ver na trouvaille do dito" ([16]).

Tendo essas considerações em conta, não é de estranhar o extraordinário apreço que o árabe tem pelos provérbios e que o provérbio seja também - sob diversos aspectos - ponto importante para uma filosofia da educação moral.

Conhecer provérbios é, no Oriente, conhecer a vida: "Un homme ou une femme qui ne savaient pas plusiers centaines de proverbes et qui n'étaient pas capables de les débiter séance tenante, étaient alors regardés comme ignorants. On m'affirme ([17]) que cet usage est encore vivant dans bien des villages libanais et dans d'autres pays de langue arabe" ([18]).

A partir da análise das relações entre estruturas de língua e formas de pensamento, configurar-se-ão algumas importantes características do sistema árabe (e semítico em geral) que, por assim dizer, se traduzem em forma de provérbio.

2. O referencial filosófico de Tomás de Aquino

Na perspectiva dessa Pedagogia do mathal, compreende-se que não é casual a escolha de Tomás de Aquino como referencial filosófico para os fundamentos antropológicos e éticos dessa Pedagogia ([19]).

Tal escolha ([20]) prende-se ao fato de que a filosofia (e os fundamentos da educação) proposta por Tomás - a um tempo clássica e de extrema atualidade ([21]) - apresenta uma concepção particularmente adequada para a análise de uma manifestação cultural popular como provérbios.

De fato, a metodologia e o pensamento do Aquinate estão comprometidos com o conhecimento comum (como veremos, ele sempre parte da realidade, do fenômeno e valoriza o papel do sensível no conhecimento) e com a linguagem comum ([22]). Tomás tem um enorme respeito pela linguagem do povo: "Multitudinis usus, quem in rebus nominandis sequendum", "o uso comum do povo que deve ser seguido...", assim começa a Summa Contra Gentiles...

A linguagem comum é, até mesmo, por ele considerada depositária de sabedoria, quando devidamente trabalhada, garimpada ([23]) e, eventualmente, corrigida).

Cabem aqui as reflexões de Hans Urs von Balthasar, referindo-se à metodologia filosófica praticada por um dos autores que mais influenciou o presente trabalho, Josef Pieper (que, também neste ponto, segue S. Tomás):

"Pieper mostra que as ciências particulares, ao prescindir do sentido do ser como um todo, podem permitir-se uma linguagem precisa (ou devem contentar-se com ela), enquanto o filósofo, que visa o `sagrado e manifesto mistério' (Goethe) do ser na totalidade e do seu significado, deve sempre considerar a linguagem comum, a que se faz a partir da sabedoria dos que filosofam inconscientemente ([24]). `A palavra da linguagem comum humana encerra mais realidade que o termo artificial'. E ajunta a surpreendente mas acertada afirmação: `Não só Lao-tse, Platão e S. Agostinho, mas também Aristóteles e S. Tomás - por improvável que isso possa parecer - ignoram toda terminologia especializada'.

Estes nomes afiançam que a simplicidade a que Pieper alude - selo de credibilidade - de modo algum se confunde com uma trivial clareza de banalidade. Por que não? Porque o método de cada ciência só é correto quando se deixa determinar pelo objeto. A História ou a Psicologia têm um modo diferente de precisão do que a Física ou a Biologia. Para Pieper, esta sentença fundamental sempre tem sido o seu ponto de partida: acolher e admitir o fato tal como ele se dá, na sua própria verdade, bondade e beleza é o pressuposto para se aprender algo dele" ([25]).

Nessa mesma linha - a do compromisso de Tomás com o concreto, sua ligação com o conhecimento comum - situa-se um "surpreendente" resultado ([26]) da mais avançada pesquisa em informática sobre Tomás de Aquino, a do pensador alemão Robert Busa, criador do Index Thomisticus ([27]). Trata-se, precisamente - como o denomina o próprio Dr. Busa em entrevista recente ([28]) -, de um "concretismo tomista" (p. 21).

"Primado do sensivel", "Tomás parte sempre da realidade, das certezas vitais", "Concretismo tomista, concretismo positivo. Deste concretismo tomista não só se pode como se deve falar", são algumas das conclusões a que chegou o especialista, após a varredura das "cerca de nove milhões de palavras" (p.23) de que se compõe a obra completa de Tomás...

De fato, ao tabular os dados, chega-se aos seguintes resultados no corpus tomista (p.24):

.

"Predominância de palavras que exprimem realidade concreta em Tomás:

CATEGORIA                               % de Incidência.

Nomes próprios de realidades invisíveis  2,64%

(Deus, angelus, paradisus...)

Objetos invisíveis          0,33%

Objetos concretos       6,67%

Sensus, sentire,

sensibilis + o nome        1,61%

e o verbo dos sentidos.

Intellectus-intelligire etc.     0,97%"

.

Esses são alguns dos tantos pontos que perfazem a sintonia da filosofia de Tomás com o bom sentir do povo e, portanto, sua afinidade com a sabedoria concreta das tradições de provérbios.

Aproveitando-nos de uma metáfora de que o próprio Tomás freqüentemente se vale - a comparação entre o sábio e o arquiteto -, diríamos que seu filosofar está para a sabedoria do homem da rua, assim como o saber do bom arquiteto para a adequada construção da casa ([29]).

Dentro desse quadro filosófico, é natural também a constante referência ao filósofo alemão Josef Pieper, que é um dos principais intérpretes contemporâneos desse pensamento (especialmente no que se refere à filosofia moral).

3. O diálogo entre Oriente e Ocidente

Apresentamos, neste tópico, reflexões sobre as condições de diálogo entre Oriente e Ocidente ([30]).

Ponderemos inicialmente a consideração das diferenças entre esses dois mundos: ela pressupõe, antes de mais nada, registrá-las, apontar para aquilo que se manifesta, para o fenômeno. E um tratamento acadêmico não pode, certamente, deter-se nesse nível: para além do mero âmbito fenomênico, impõe-se também a reflexão filosófica sobre o alcance, o significado e a razão dessas diferenças. Assim, em nossa análise, despontará como privilegiado campo formal a linguagem: cerne e raiz do pensamento e do modo de situar-se no mundo; pátria, como diz o poeta. Tais aspectos formais não são meras formalidades: marcam (e revelam...) profundamente a cosmovisão de um povo.

Essa consideração das diferenças não só não impede, mas, até mesmo, possibilita o autêntico diálogo. Se todo diálogo é, afinal de contas, um con-versar, um mútuo verter-se, então o diálogo, também ele, tem os seus pressupostos: o primeiro é o reconhecimento do outro enquanto tal, respeitando-o na alteridade de seu modo de ser e de sentir; suspendendo quaisquer juízos "a priori", sobretudo os derivados do provincianismo, que se erige em referencial cultural padrão.

Esse provincianismo, como se sabe, manifesta-se sob formas variadas: desde o grosseiro considerar-se cada um, pura e simplesmente, o centro do mundo ([31]), até a sutil forma de preterir o outro, projetando-o no âmbito do ex-cêntrico, do exótico...

O autêntico diálogo ocorre quando cada interlocutor, conservando seu próprio modo de ser e de situar-se no mundo, abre-se para a complementaridade, busca o conhecimento e sabe viver - no sentido em que fala Tomás de Aquino - a docilitas: alegra-se em aprender ([32]).

O autêntico diálogo ocorre - e esta é uma das grandes tarefas da educação invisível - quando nos abrimos para ideais maiores, que (talvez até inconscientemente) acabam por suprimir as estreitas barreiras que nos enclausuravam. Nesse sentido, o Dr. Ruy Afonso da Costa Nunes, após ter analisado a experiência medieval desse diálogo, assim conclui a entrevista que concedeu à Revista de Estudos Árabes:

"Quando se considera, por exemplo, o modo como se processou o movimento de traduções na Espanha islamizada, nós observamos que aí reina um ambiente de compreensão, de tolerância e de solidariedade, não só entre cristãos e muçulmanos, mas também entre cristãos, judeus e muçulmanos. Todos eles colaboraram numa obra comum, em que prevalecia o interesse cultural. E, como assinalei, no intercâmbio Árabes/Ocidente, os muçulmanos, de certo modo, devolveram aquilo que os cristãos lhes haviam proporcionado. E isso, esta mútua compreensão, este mútuo intercâmbio poderia perfeitamente - por que não? - continuar a processar-se nos dias de hoje" ([33]).

Mas nem tudo são diferenças e complementaridade. A conexão entre Tomás de Aquino e o Oriente é possível também, na medida em que - para além das diferenças (a que tanta importância damos neste estudo...) - encontra-se o mesmo e único ser humano por detrás da língua, das formas de pensamento, das visões-de-mundo etc.

Se há formas oriental e ocidental de atingir a realidade e relacionar-se com ela, essa diversidade não nos deve ofuscar a ponto de impedir de ver as co-incidências (o incidir conjuntamente) que aproximam os dois mundos.

Ao longo deste trabalho, enfatizaremos o caráter oriental dos provérbios, o que não deve excluir a consideração da dimensão universal da sabedoria árabe. Tal afirmação é necessária, como condição de fecundo diálogo entre Ocidente e Oriente: não se trata de exotismos "orientais", mas de um modo oriental de apreender a mesma e única realidade do ser humano.

Enquanto agentes privilegiados da educação invisível, os provérbios recolhem o saber popular, condensam a experiência sobre a realidade do homem: sua existência quotidiana: as condições de vida, o sensato e o ridículo, as alegrias e as tristezas, as grandezas e as misérias, a realidade e os sonhos, a objetividade e os preconceitos...

Mais do que qualquer outra expressão literária, os provérbios têm, freqüentemente, o dom de incidir sobre aquele núcleo permanente, atemporal da realidade do homem. E daí, também, decorre sua perene atualidade. Demasiadamente impressionados por sociologismos, relativismos ([34]) e historicismos, nós tendemos à incompreensão de outras culturas e de épocas passadas e a pensar que somos muito originais, quando, na verdade, o que realmente ressalta dos estudos históricos e antropológicos é não a diferença, mas a identidade. Para além das concretas formas históricas ([35]), está lá o mesmo homem, com suas grandezas e mediocridades...

O mesmo homem, por vezes decifrado em provérbios geniais. Por mais diversas que sejam as épocas, as latitudes ou as tribos, sempre encontraremos, essencialmente, pesadas críticas e ironias contra o egoísmo, a avareza, a inveja, a pequenez etc. e - invariavelmente também - o louvor da generosidade, da sinceridade, da grandeza, da lealdade etc. São fatos constantes em todas as culturas.

Nesse sentido, discutindo as diferenças e semelhanças entre provérbios orientais e ocidentais, diz Aida Hanania:

"Um ligeiro revolver de seu conteúdo sapiencial alerta para o caráter universal das afirmações que encerram; como a salientar que o homem é o mesmo ontem e hoje; no Ocidente e no Oriente; na cidade e no campo; na labuta, na oração, no repouso e no coração.

Evidentemente, toda cultura tem seu referencial de provérbios e seu registro é ininterrupto através dos tempos. As coletâneas que os reúnem, porém, - mesmo as mais distantes no tempo e no espaço - revelam que a reivindicação da época e do lugar dá-se por algumas circunstâncias especiais que condicionam o dizer: meio geográfico; determinado estágio de desenvolvimento; peculiaridades regionais etc.

A figura do camelo, por exemplo, fará parte, freqüentemente, do cabedal imagético do Oriente e, como tal, pontifica em vários provérbios, idênticos, em mensagem, a provérbios do Ocidente que, para tanto, utiliza um elemento que lhe é mais familiar.

Assim:

(#4) O camelo tem uma opinião; o cameleiro, outra.

"O asno tem uma opinião; outra têm os asneiros"  (árabe/ocid., respectivamente).

(#5) Quando vi a miragem, joguei fora minha água; agora, não tenho água, nem miragem.

"Mais vale um pássaro na mão, que dois voando." (árabe/ocid., respectivamente).

(...)

A mensagem que se cristaliza em provérbio, respalda-se na experiência; guarda, por isso, um tom afirmativo, de perenidade; beira a advertência; torna-se aconselhamento; apela para o equilíbrio; revela os limites humanos e a grandiosidade do Criador. Predominam as constatações intrínsecas ao homem enquanto ser universal, em sua relação com a vida, tais como as referentes ao comportamento de seu semelhante; ao destino; ao tempo etc." ([36]).

Precisamente a consciência dessas permanências, de que nós (apesar de nossa ilusão de progresso linear) não somos tão diferentes e "evoluídos" quanto pensávamos, talvez seja uma das principais contribuições que o leitor de hoje pode receber dos provérbios do Oriente.

4. Nota sobre a Pedagogia visível e a Educação invisível

Antes de examinarmos questões relativas à educação moral, é necessário esclarecer um ponto fundamental: a educação informal exercida pela Pedagogia do mathal.

Nesse sentido, parece-nos oportuna a referência - presente já no título deste tópico - à obra do conhecido educador espanhol, Victor Garcia Hoz, na medida em que esse autor estabelece adequado embasamento pedagógico. Destaquemos alguns pontos de particular interesse, começando pela própria caracterização da "invisibilidade": "A diferença básica entre uma pedagogia visível e uma educação invisível, oculta, está no conteúdo do que se transmite e na maneira como é transmitido. Quanto mais especificados estiverem os critérios e conteúdos da educação, quanto mais explícitos e justificados estiverem os modos ou métodos da sua transmissão, mais visível se torna a Pedagogia; quanto mais implícito for o método da transmissão e mais difusos os critérios do que é transmitido, mais penetramos na educação invisível (...). A Pedagogia visível costuma dar maior importância ao conhecimento e à aquisição de destrezas, práticas ou mentais, enquanto a educação invisível está mais perto das atitudes, da iniciativa, das aspirações pessoais, dos valores (...). A educação invisível não dispõe de tais instrumentos técnicos. Seus procedimentos (...) são múltiplos, difusos e não estão sujeitos a uma medida aparentemente precisa" ([37]).

É bem o caso da Pedagogia do mathal. Como operacionalizar as riquezas de seu potencial?

Precisamente pelo que a torna importante, a Pedagogia do mathal tende a não ser tão valorizada no Ocidente, embora, na verdade, a educação invisível seja "... como a desconhecida trama dos diversos elementos que se manifestam em algo tão importante, porém tão difícil de definir como a saúde, a vitalidade, a coragem diante das dificuldades (...) De um modo geral poderíamos pensar que a Pedagogia visível manifesta-se predominantemente na vida escolar, no ensino sistemático e na aprendizagem como aquisição de conhecimentos, isto é, nos conteúdos da formação científica, enquanto a educação invisível, por ser profunda, projeta-se especialmente na formação ética, ou seja, no desenvolvimento de aptidões e promoção de valores ou virtudes, principalmente virtudes morais ([38])" ([39]).

5. A estrutura do presente trabalho

Após esta Introdução, que se completará - nos próximos tópicos - com a discussão da metodologia e as necessárias considerações sobre a clave de leitura da linguagem de Tomás de Aquino - começaremos as análises de que nos ocuparemos tematicamente.

O cap. I - "Estruturas de linguagem e formas de pensamento" - procura estabelecer as bases do sistema língua/pensamento árabe, voltado para a posterior análise dos amthal como fenômeno tipicamente oriental (semítico e árabe).

O capítulo começa com o estabelecimento de alguns conceitos fundamentais ([40]) como: sistema língua/pensamento, sistema logos e sistema ma'na. Ao contrapor o sistema ma'na (no centro do qual está a língua árabe) ao sistema logos (no centro do qual situa-se o grego clássico), destacaremos sete características da língua/forma de pensamento árabe: o peculiar uso da frase nominal, a associação imediata, a flexão de raízes, o pensamento confundente, a metátese, o papel da imagem concreta e a ligação com o passado. Essas características da língua/forma de pensamento árabe são as que nos pareceram particularmente importantes para nossa análise, em capítulos ulteriores, de provérbios e educação, na cultura árabe (a essas características estruturais, somam-se outras, culturais, próprias da mentalidade árabe, como a hospitalidade, o apreço pelas narrativas, pelo juramento etc. que serão abordadas - em comentários esparsos - ao longo do trabalho).

O capítulo fecha-se (I.9) com uma nota sobre a influência árabe (e a presença de algumas dessas características árabes) em antigos provérbios portugueses (Para este e outros confrontos, valemo-nos da clássica coletânea - datada de 1651 - de Antônio Delicado).

A seguir, detemo-nos (Cap. II) a examinar o significado e o alcance do conceito, para nós central, de mathal na língua árabe.

Exemplo típico do pensamento confundente árabe (que adiante, analisaremos), mathal condensa em si diversos significados e embora (ou precisamente porque...) nos interesse mais o que pode ser traduzido por "provérbio", analisamos também os demais significados, a partir do Alcorão (em Apêndice 1 encontra-se uma elucidadora listagem e tradução dos versículos do Alcorão em que ocorrem os vocábulos mathal e amthal) e da Bíblia.

Discutimos também a - aparentemente contraditória - dupla função (veladora/reveladora) do mathal no ensino e na comunicação e a leitura do mundo como mathal pelo árabe (e pelo semita em geral).

O cap. III estabelece as bases antropológicas da ética e da educação moral em Tomás de Aquino (principalmente na Summa Theologiae). Apresentamos inicialmente - e é uma distinção de seu filosofar - o caráter de unidade entre o espírito e a matéria, em torno de sua concepção de alma (III.1) como forma do corpo (anima forma corporis).

A partir dessa concepção de alma, desponta sua imponente definição do obiectum proprium da inteligência humana (III.2), um fundamento para uma pedagogia do concreto, para uma pedagogia do sensível, para uma Pedagogia do mathal (III.3).

Em III.4, apresentamos, brevemente, as linhas fundamentais da concepção de moral, por Tomás, entendida como realização, auto-realização do ser humano.

Nesse quadro emerge, em toda sua grandeza, a prudentia, virtude que é a base concreta para uma Pedagogia do mathal.

O Capítulo IV - imerso também na filosofia de S. Tomás - começa por caracterizar a prudentia como virtude intelectual, do intelecto prático, voltada para o agir.

Dado seu caráter de ponte entre o abstrato e o concreto, dedicamos um tópico (IV.3) à cogitativa (vis cogitativa), sentido interno ([41]) que é também sujeito psíquico da prudentia. Especialmente importante para nosso estudo é a operação - realizada pela cogitativa - chamada collatio.

Após caracterizar as partes quasi integrais da prudentia (IV.4), o capítulo fecha-se com uma nota sobre o destacado papel que a Memória exerce nas grandes tradições antropológicas oriental e ocidental, a título de introdução à análise da memoria como virtude.

Estabelecidas as bases antropológicas de uma Pedagogia do mathal, passamos - Cap. V - a analisar as linhas pelas quais ela se exerce.

Sendo parte importante da educação invisível, a Pedagogia do mathal não se deixa operacionalizar, mas convida a intuir: daí que - em alguns momentos em que a realidade, sutilmente, nos convoca à apreensão - optamos por passar a palavra, mais detidamente, à tradição sapiencial que, pela própria voz de seus mestres, nos instrui. É o caso de três citações um pouco mais longas (e especialmente densas) que se recolhem no trabalho: trechos de Entrevista do mestre Sufi Idries Shah (em V.4) e a carta De modo studendi de Tomás de Aquino junto com a meditação Viver do Silêncio de Josef Pieper (estas em Apêndice 5) ([42]).

Segue-se um estudo mostrando as profundas e fecundas relações entre provérbios e memória: as quatro leis da educação da memória, propostas por S. Tomás, são confrontadas com a Pedagogia do mathal. Em V.3, apresentamos a virtude da docilitas. Nestes tópicos, ressalta-se - para além do âmbito das técnicas - a dimensão moral da memoria e da docilitas (que se completa, apresentando em Apêndice 5, a doutrina pedagógica do De modo studendi).

Em V.4, um dos principais mestres contemporâneos do sufismo, Idries Shah, aponta algumas características da Pedagogia do mathal e discute sua aplicabilidade ao Ocidente.

Em V.5, a partir de uma sugestiva observação de Pieper, tratamos das relações entre Educação moral, linguagem e realidade, discussão que é ampliada em V.6 - "Provérbios e percepção da realidade".

Os dois tópicos finais do cap. V, são dedicados às disfunções que podem ocorrer nos provérbios: pessimismo e preconceitos.

Nas Conclusões, além de retomar os principais pontos estruturais discutidos, propomos uma reflexão sobre os amthal no Oriente e a educação moral no Brasil de hoje.

Note-se, a propósito, que se - ao longo deste trabalho - não nos referimos continuamente (de modo explícito) ao Ocidente, este está sempre presente ("De te fabula narratur..."), mais não seja como "a noiva" no infinitamente agudo mathal:

(#6) Bate no cão, tua noiva compreenderá... ([43]).

No Apêndice, apresentamos, inicialmente, "O uso de "mathal"/"amthal" no Alcorão". E, em seguida, alguns conceitos básicos da antropologia e da ética de Tomás (subjacentes ao tratamento temático do corpo do trabalho), uma seleção de sentenças do Aquinate (para alguns de nossos temas éticos), seu opúsculo De modo studendi e a filosofia de Tomás como metafísica do concreto: a doutrina sobre o actus essendi.

 O Apêndice se fecha com uma "Nota sobre a prudência e os amthal na tradição bíblica".

Na Bibliografia, limitamo-nos a listar os títulos efetivamente citados no trabalho.

Ao final, apresentamos Índices dos provérbios citados / dos vocábulos neles contidos e de autores.

6. Observações metodológicas

A metodologia seguida, adequada a este tipo de análise filosófica ([44]), é a proposta (e praticada...) por Josef Pieper. Resumirei aqui as principais linhas e fundamentos dessa proposta pieperiana ([45]).

Seguindo a citada sugestão de von Balthasar, para caracterizar uma metodologia filosófica ([46]), estabeleçamos o contraste com as ciências.

Nesse sentido, notemos, em primeiro lugar, que cada ciência estuda seu objeto sob um determinado ponto de vista: volta-se para um determinado aspecto e o resto não lhe interessa.

Assim, uma mesma realidade, por exemplo, o homem, é vista por diferentes ciências, sob pontos de vista distintos: um é o enfoque da Medicina; outro, o da Psicologia; outro ainda, o da Sociologia etc.

O objeto de estudo de uma ciência e, sobretudo, seu peculiar ponto de vista ([47]) condicionam, como é óbvio, a metodologia dessa ciência: de nada adiantam a compreensão empática para o matemático enquanto tal, nem teoremas para o historiador; e, quanto ao instrumental, o astrônomo vale-se de um telescópio e não de um microscópio; o físico, ao contrário do matemático, dispõe de um laboratório, etc.

Certamente, a questão do método das ciências não é tão simples: há, por exemplo, muita discussão sobre os procedimentos de descoberta e justificação de um resultado científico.

Quando, porém, se trata do filosofar - tal como foi concebido pelo pensamento clássico - a questão torna-se ainda mais problemática, pois o filosofar não pode ter a operacionalidade metodológica que podemos encontrar, em maior ou menor grau, no pensamento científico. E isto, precisamente pelo fato de que o filosofar pergunta "o que, em si e afinal, é isto" ([48]), não se limitando a um "ponto de vista", mas - como certa vez afirmou Whitehead -, filosofar é indagar "What is it all about?" ([49]), indagar pelo todo que se relaciona com este objeto ([50]).

É essa amplitude de perspectiva que torna o filosofar problemático: ele não tem (nem pode ter, nem pretende ter...), de modo algum, uma metodologia "bem-comportada". Para além de qualquer operacionalidade, filosofar é "um processo existencial que se desenvolve no centro do espírito, um ato espontâneo que surge da vida interior" ([51]) e depende, fundamentalmente, como afirmou T. S. Eliot ([52]), de insight and wisdom, intuição e sabedoria, disponibilidade para as grandes experiências (para Pieper, o filosofar parte das experiências ([53])) sobre o homem e o mundo ([54]), nas quais a realidade se revela.

Porém - e aí reside uma peculiar dificuldade para quem filosofa - essas experiências especialmente densas não têm brilho duradouro na consciência reflexiva: logo se desvanecem, desfazem-se, escapam-nos.

Não chegam, contudo, a se aniquilar: "Ainda que não se dêem a conhecer de modo imediato, essas experiências estão presentes e ativas, e quem queira expressá-las deve ultrapassar o que se manifesta na superfície e procurar atingi-las para, por assim dizer, retraduzi-las em forma de enunciado" ([55]).

O filosofar deve, portanto, começar pelo fenômeno. "Como sempre - diz Pieper -, começaremos por apontar do melhor modo possível a resposta (a uma indagação filosófica) dirigindo a atenção ao fenômeno, isto é, àquilo que se manifesta" ([56]).

Com o fenômeno, vem a colorida viveza do concreto, da experiência, que se impõe com o peso da realidade, não permitindo sequer o aparecimento da célebre objeção contra a obscuridade dos filósofos, homens - assim se formula a irônica objeção - "com os pés firmemente cravados... nas nuvens" ([57]). Mas o fenômeno é apenas o começo, deve-se "ultrapassar o que se manifesta na superfície e procurar atingir" o significado (antropológico, ético, pedagógico) subjacente. É desse modo que, a partir do concreto, adotamos tipos e conceitos estabelecidos por autores como Lohmann e Pieper. Tipos e conceitos abstratos (no sentido de abstraídos da realidade concreta) como: "forma de pensamento", virtude, prudentia etc.

Assim, por exemplo, por detrás de simples fatos gramaticais da língua árabe, procuramos estabelecer seu significado em termos de "forma de pensamento" e é precisamente esse tipo que nos permite voltar ao concreto e esquadrinhar o significado mais amplo deste ou daquele mathal...

Se tudo corre bem, este método acaba sendo - também ele - um harmônico diálogo entre abstrato e concreto, entre rigor e intuição, entre Ocidente e Oriente...

Nesse sentido, estamos bem conscientes das limitações de "precisão" que nos são impostas pelos próprios temas de que nos ocupamos...

Porém, como certa vez se expressou o próprio Tomás de Aquino, o mais importante para o homem é não-claro, mas o pouco que nesse campo se obtém é muito mais decisivo do que os precisos e operacionais resultados de outras ciências: "Minimum quod potest haberi de cognitione rerum altissimarum, desiderabilius est quam certissima cognitio quae habetur de minimis rebus" ([58]). É - como aponta Heidegger ([59]) - a triste mudança de clave que ocorre quando se passa da filosofia antiga para a moderna: naquela, a dignidade do conhecimento liga-se à importância do objeto; nesta, à clareza do sujeito.

Assim, até em termos formais, optamos por, constantemente, ir contraponteando as considerações sistemáticas com a apresentação ao leitor da base concreta de provérbios ([60]), a elas conectadas: a expressão "por exemplo" aparece cerca de uma centena de vezes neste trabalho! Se em diversos momentos apoiamo-nos na intuição e convocamos o leitor a exercer o binômio insight and wisdom para estabelecer as conexões devidas entre o caráter paradigmático do concreto e o pensamento abstrato, estas intuições estão sempre apoiadas em rigorosa análise do fenômeno (com o nível de rigor que a matéria comporta...). Em linguagem de S. Tomás, nossa metodologia procura estabelecer condições de passagem da collatio ao conceito, da vis cogitativa ao intellectus...)

Foi feita, por exemplo, uma varredura completa para determinar com exatidão a gama de significados confundidos em torno da raiz m-th-l no Alcorão.

Para tanto, valemo-nos de um avançado programa de hipertexto em árabe do Alcorão ([61]) e fizemos uma pesquisa exaustiva ([62]) de todas as formas daquela raiz.

A correspondente pesquisa bíblica deu-se também por hipertexto: o Debora-Microbible ([63]).

Ao restringir nosso universo de estudo - seria impossível abrirmo-nos ao infinito campo dos amthal árabes - limitamo-nos, principalmente, aos cerca de sete mil provérbios libaneses, provenientes de duas fontes especialmente interessantes ([64]):

FEGHALI, Michel Proverbes et Dictons Syro-Libanais, Paris, Institut d'Ethnologie, 1938 (traz 3048 provérbios).

FREYHA, Anis  A Dictionnary of Modern Lebanese Proverbs, Beirut, Librairie du Liban, 1974 (traz 4248 provérbios).

Não são, em sua maioria, provérbios especificamente libaneses ([65]), mas universalmente conhecidos no mundo árabe ([66]).

Como fontes auxiliares (ou de contraste), valemo-nos - entre outras - das seguintes excelentes coletâneas:

NASR, Helmi, M. I. "Uma seleção de provérbios árabes" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: O literário e o Popular, São Paulo, EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1995.

HANANIA, Aida R. "O Líbano e a Montanha - Vozes da Montanha" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: O Literário e o Popular, São Paulo, EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1995.

BELAMRI, Rabah  Proverbes et Dictons Algériens (bil.: árabe/francês), Paris, L'Harmattan, 1986 ([67]).

DELICADO, Antônio  Adágios Portuguezes reduzidos a lugares communs, Lisboa, Officina de Domingos Lopes Rosa, 1651. Este livro apresenta milhares de provérbios portugueses da Idade Média a meados do século XVII. Valemo-nos da obra de Delicado, também como contraponto dos amthal árabes.

7. Lista de Abreviaturas

As obras acima referidas trazem os provérbios numerados e serão, ao longo deste trabalho, citadas abreviadamente - assim [FGHL, 3098] é o provérbio de número 3098 da coletânea de Feghali - de acordo com o código:

[FGHL, ] - FEGHALI, Michel Proverbes et dictons...

[FRHA, ] - FREYHA, Anis  A Dictionnary of...

[NASR, ] - NASR, Helmi, M. I. "Uma seleção..."

[ARH, ] - HANANIA, Aida R. "O Líbano..."

[BLMR, ] - BELAMRI, Rabah  Proverbes et Dictons...

Outras abreviaturas são:

BJE - Bíblia de Jerusalém ([68]), nova edição revista, São Paulo, Paulinas, 1991. Sempre que citada em castelhano, trata-se da BJE (Programa Debora-MicroBible).

[DELIC, ] - DELICADO, ANTÔNIO  Adágios Portuguezes reduzidos a lugares communs, Lisboa, Officina de Domingos Lopes Rosa, 1651 ([69]).

Algumas outras obras de uso mais restrito, receberão abreviatura própria no local em que ocorrem.

Quanto às obras de Santo Tomás de Aquino:

A Summa Theologiae será citada só pela passagem. Assim, por exemplo, II-II,154,12 é o corpus do artigo 12 da questão 154 da segunda parte da segunda parte da Summa. E I,60,1 ad 3 é a resposta à terceira objeção no artigo 1 da questão 60 da primeira parte da Summa.

A Summa Contra Gentiles será citada abreviadamente como CG ([70]).

8. Nota sobre a linguagem e o problema da tradução: o caso da prudentia

Pareceu-nos necessário incluir já nesta Introdução uma nota sobre a linguagem e a tradução do Aquinate. Pois, precisamente por Tomás estar voltado para a linguagem comum, o leitor contemporâneo defronta-se com uma dificuldade especial na compreensão de sua filosofia.

A proximidade entre a nossa língua e o latim de Tomás não nos deve enganar: ocorre com a linguagem um conhecido fenômeno de alteração do sentido das palavras que se manifesta muitas vezes quando lemos um autor de outra época. E não só alteração; como mostra Lewis ([71]), ocorre freqüentemente, sobretudo no campo da ética, uma terrível inversão de polaridade: "the remarkable tendency of adjectives which originally imputes great goodness, to become terms of disparagement" ([72]): aquela palavra que originalmente designava uma qualidade positiva, esvazia-se de seu sentido inicial ou passa até a designar uma qualidade negativa.

Foi o que aconteceu, entre outras, com as palavras (de especial interesse para este trabalho) "prudente" e "prudência".

Atingida ao longo dos séculos pelo subjetivismo metafórico e pelo gosto pelo eufemismo ([73]), já não designa hoje a grande virtude, mas sim a conhecida cautela (talvez oportunista, ambígua e egoísta) ao tomar (ou ao não tomar...) decisões.

Observação similar era registrada, já em 1926, por Garrigou-Lagrange:

"Une étude sur la prudence ne présente au premier abord pour beaucoup de lecteurs qu'un médiocre intéret. Plusiers pensent peut-être à monsieur Proudhomme, d'autres songent à une vertu qui consiste surtout à ne pas agir, dès qu'il y a quelque risque à courir: `Soyons prudents, pas d'affaires'. Et de fait, dans plusieurs dictionnaires, la définition qui est donnée de la prudence fait penser à cette sorte de vertu toute négative, qui n'a guère de la vertu que le nom. La prudence serait-elle une qualité negative?'" ([74]).

Em Tomás, pelo contrário, prudentia expressa exatamente o contrário da indecisão: é a arte de decidir-se corretamente, isto é, com base não em interesses interesseiros e oportunistas, em sentimentos piegas, em temores, em preconceitos etc., mas, unicamente, com base na realidade: pelo límpido conhecimento do ser.

Desse modo, para Tomás, a prudência leva-nos a tomar corajosa e prontamente o partido do que é justo (uma sentença que, no sentido que as palavras adquiriram hoje, tornou-se, literalmente, incompreensível para nós). É evidente, assim, que a prudência é uma virtude intelectual: é a atitude firme da inteligência que não se deixa subornar nem distorcer a sua capacidade de ver a realidade. E o homem prudente, além disso, transforma essa realidade percebida em decisão de ação. Por isso, Tomás confere a essa virtude o incomparável posto de primeira entre as virtudes cardeais.

Assim, embora os dicionários Latim-Português continuem a trazer prudência como a tradução de prudentia, esta última é a grandiosa virtude que expressa a arte de decidir-se com base no conhecimento objetivo da realidade, ao passo que a nossa prudência possa designar a indecisão, que pondera tudo, exceto aquilo que a realidade efetivamente exige de um homem reto ([75]).

Certamente, este fenômeno transcende o âmbito da linguagem e remete a um empobrecimento existencial do próprio homem, na medida em que (como analisaremos no cap. V), nossa possibilidade de percepção do mundo e de vivência de atitudes está fortemente condicionada pela existência de uma linguagem viva (que, por outro lado, só se mantém viva e presente, na medida em que as realidades para as quais aponta a linguagem interessam à comunidade falante ([76])).

Estas observações são necessárias, na medida em que trataremos, neste trabalho, de alguns conceitos fundamentais da filosofia de Tomás.



[1]. Para efeitos de índice, iremos numerando, com o sinal #, seguido do número, os provérbios árabes citados neste trabalho. O provérbio acima é o de número 3372 da coletânea de FREYHA, Anis  A Dictionnary of Modern Lebanese Proverbs, Beirut, Librairie du Liban, 1974. Também não nos foi narrado o antológico diálogo entre Leila e seu pai:

- De quantos soldados, papai, se compunha aquele exército numeroso, tão belamente descrito por meu avô nestes versos: "Era um exército multicolorido e garboso cuja cabeça fazia sua entrada em Damasco, enquanto sua retaguarda ainda não se havia movido de Medina?"

- Precisamente eu me encontrava nele, minha filha. Éramos quatro: eu, meu filho e dois escravos (in CHALITA, Mansour  As Mais Belas Páginas da Literatura Árabe, Rio de Janeiro, A.C.I.G., 1973, p. 226).

[2]. Aconteceu com meu avós, literalmente, o que descreve Helmi Nasr: "Há uma semelhança entre o povo brasileiro e os árabes: os dois são espirituais e sabem valorizar a amizade, a cordialidade, a harmonia das relações humanas; sabem ajudar, sacrificar-se, ser generosos. Eu vivi muitos anos na Europa e sempre me senti estrangeiro; já no Brasil, desde o primeiro dia, senti-me em casa. O brasileiro é muito acolhedor e não está imerso no materialismo como alguns europeus. Aqui, o árabe está tão à vontade que acaba se esquecendo de voltar; um árabe chega para ficar, digamos dois ou três anos, e não quer voltar, acaba ficando trinta ou quarenta anos, a vida toda..." (Entrevista à Revista de Estudos Árabes, São Paulo, v.1, n.2, p. 14).

No início, meus avós ainda protestaram (inutilmente e, no fundo, simbolicamente), quando começaram os casamentos (e não só de seus filhos nascidos no Líbano...) com "brasileiras". E - Al-hamdu lillah! - esqueceram-se também das profundas divergências religiosas, cultivadas no Oriente, dando plena aprovação ao casamento de seus filhos Jan, (rumm, ortodoxo) e Rosa (de arraigada tradição maronita). Só quarenta anos depois desse enlace, vim a conhecer o terrível mathal:

(#2) "(É muito mais fácil que se necessite como ingrediente) o alho na knafah do que o amor entre uma maronita e um rumm".

(FREYHA, Anis  A Dictionnary..., No. 685). Knafah é o conhecido doce cujos ingredientes são: queijo, semolina, manteiga e muito açúcar. "Alho na knafah" equivale ao nosso "No dia em que a galinha criar dentes...".

[3]. Oriente e Ocidente: Língua e Mentalidade, S. Paulo, Centro de Estudos Árabes FFLCH-USP / APEL, 1993, p. 17, (em co-autoria).
[4]. "Oriente e Ocidente: Língua e Mentalidade"  Revista de Estudos Árabes  São Paulo, Centro de Estudos Árabes FFLCH-USP, v.1, n.1, jan./jun. 1993, p.64, (em co-autoria).
[5]. É o provérbio de número 138 da coletânea de FEGHALI, Michel Proverbes et Dictons Syro-Libanais, Paris, Institut d'Ethnologie, 1938.
[6]. Emprego a expressão "forma de pensamento" no sentido lohmanniano, que discutimos no Cap. I do presente trabalho.
[7]. 172 provérbios numerados linearmente (ao #38 - do Alcorão -, seguem-se #38a, #38b, #38c e #38d).
[8], Os estudos sobre a virtude da prudência e suas partes quasi integrais, a raiz m-th-l no Alcorão, diversos aspectos da reflexão sobre educação moral etc.
[9]. Publicações do Centro de Estudos Árabes da FFLCH-USP.
[10]. Ou, no mínimo, menos-prezados...
[11]. "Moral" (tal como era entendida...) não condizia com o espírito libertário pós-68 e provérbios, enquanto cultura popular, era também objeto de preconceitos por parte do pedantismo das "elites" ...
[12]. GARCIA HOZ, Victor  Pedagogia Visível - Educação Invisível, São Paulo, Nerman, 1988, pp. 28-29.
[13]. Ibidem.
[14]. LUNDE, Paul & WINTLE, Justin  A Dictionary of Arabic and Islamic Proverbs, London, Routledge & Kegan Paul, 1984, p. vii.
[15]. E não que o árabe não disponha de provérbios de formato ocidental (e vice-versa).
[16]. Oriente e Ocidente: Sentenças de Sabedoria dos Antigos, São Paulo, DLO-FFLCHUSP / EDIX, 1994, p. 49
[17]. Feghali estava, então, radicado na França (nota nossa).
[18]. FEGHALI, Michel Proverbes et Dictons..., p. XI.
[19]. Embora ocidental, Tomás - leitor e amante da Bíblia - soube compreender o significado e o alcance da Pedagogia do mathal semita e sua filosofia ajusta-se sob medida a essa proposta educacional. Veja-se - a propósito das relações entre prudentia e amthal na Bíblia - o Apêndice 7.
[20]. Além, é claro, de uma opção filosófica pessoal, no sentido em que fala Josef Pieper: "É de Fichte a afirmação: `A Filosofia que se escolhe depende do homem que se é'. A formulação não é muito feliz, pois não se trata de `escolher' uma Filosofia. Em todo caso, é claro e acertado o que o autor pretende dizer com isso. No próprio campo do saber natural, as coisas não se processam de modo que baste forçar um pouco a cabeça para entrar na posse de uma verdade. Isso vale mais ainda quando essa verdade se relaciona com o sentido do mundo e da vida. Aí, com maior razão, não basta ter uma "boa cabeça", é preciso ser algo como homem, como pessoa" (Was heisst Philosophieren?, 8. Aufl., München, Kösel, p. 109).
[21]. Como dissemos alhures: "Atualidade não significa necessariamente `estar ocorrendo faticamente' (e, menos ainda, `estar de moda'); trata-se, no caso, da atualidade do complementar, daquilo que deveria estar ocorrendo. Nesse sentido, para nossa época - que progrediu tanto em Ciência e Tecnologia, mas não em Sabedoria e Ética -, pode ser muito oportuno o diálogo com Tomás" LAUAND, L. J. Tomás de Aquino Hoje, Curitiba-S. Paulo, PUC-PR - GRD, 1993, p. 11. Não se trata, portanto, de uma perspectiva de história (e menos ainda de arqueologia...) das idéias.
[22]. Veja-se a este respeito, por exemplo, PIEPER, Josef  "Sobre a Linguagem da Filosofia" in LAUAND, L. J.  Filosofia e Linguagem Comum, Curitiba, PUC-PR, 1990;  LAUAND, L. J.  Tomás de Aquino, Hoje, cap. "Método e estilo de Tomás", Curitiba, PUC-PR, 1993 e "A linguagem comum" in O que é uma Universidade - Introdução à Filosofia da Educação de Josef Pieper, São Paulo, EDUSP/Perspectiva 1987.
[23]. Por isso, Tomás sempre está atento à sabedoria escondida na linguagem do povo, buscando nela a transparência. Um exemplo entre tantos: já na primeira questão da Suma Teológica, ao procurar caracterizar o que é a sabedoria, Tomás explica que a sabedoria não deve ser entendida somente como conhecimento que advém do frio estudo, mas como um saber que se experimenta e saboreia. Sempre muito atento aos fenômenos da linguagem, à fala do povo, como fonte de profundas descobertas filosóficas, encanta-se com o fato - para ele experiência pessoal vivida - de que em latim sapere signifique tanto "saber" como "saborear". Esta coincidência de significados na linguagem do povo - Tomás bem o "sabe" - não é casual: se há quem saiba por que estudou, verdadeiramente sábio é aquele que sabe porque saboreou...
[24]. Grifo nosso.
[25]. Prólogo a PIEPER, Josef  Lesebuch, München, Kösel, pp. 5-6.
[26]. Surpreendente, para certos setores que insistem em ignorar que S. Tomás não é "essencialista"... Ligado, precisamente, a este ponto está o Apêndice 6: "A filosofia de Tomás como metafísica do concreto: o actus essendi".
[27]. Em hipertexto para CD-ROM.
[28]. BUSA, Robert  "Santo Tomás: O primado do sensível"  Trinta Dias, São Paulo, Editbrás, Ano IX, No. 5., maio 1995, pp. 20 e ss.
[29]. O cidadão comum não estudou arquitetura, mas sabe que não lhe serve uma casa em que, por exemplo, a porta da rua se abra diretamente para a cozinha, e em que esta se comunique sem divisórias com o banheiro; em que a adega esteja a céu aberto no terraço etc. Já a filosofia de Tomás assemelha-se ao trabalho do sábio arquiteto, que aplica a sua competência profissional e o seu senso artístico para realizar aquilo que, afinal de contas, coincide com o bom senso do homem comum: cozinha é cozinha; banheiro é banheiro! Tudo de acordo com a realidade humana.
[30]. Retomando alguns princípios que fizemos constar já no "Prólogo" de Oriente e Ocidente: Língua e Mentalidade..., volume I de uma coleção - atualmente em seu número 10 - voltada precisamente para esse grande diálogo...
[31]. Aponta-nos, nesse sentido, o Prof. Nilson José Machado, os três preconceitos formulados por Gardner: westism, testism, bestism (o do ocidentalismo, o de que toda a realidade pode ser apreendida por meio de testes e o de que, simplesmente, somos os melhores).
[32]. Com isso surge aquilo que parece ser um outro pressuposto do diálogo, ou, pelo menos, o seu tom: o bom humor, que, afinal, é distância crítica em relação a si mesmo e antídoto contra qualquer fanatismo...
[33]. "Filosofia e Ciência Árabes e o Ocidente Medieval" Revista de Estudos Árabes  São Paulo, Centro de Estudos Árabes FFLCH-USP, v.2, n.3, jan./jun. 1994.
[34]. A propósito do relativismo, em seu capítulo "O valor", I. M. Bochenski lembra a oportuna distinção entre valor / avaliação (e a paralela verdade / conhecimento). Relativos são as avaliações (e os conhecimentos) mas não os valores (e a verdade): "Nossas avaliações podem mudar e muita coisa que aqui é considerada boa é em outros lugares considerada má. (...) Os antigos egípcios, por exemplo, tinham uma fórmula para o cálculo da superfície do triângulo que é, evidentemente, falsa do ponto de vista de nossa geometria; e utilizaram-se dessa fórmula durante séculos. Demonstra isto que haja duas fórmulas verdadeiras para se calcular a superfície do triângulo? Absolutamente não... isto só demonstra que os homens daquele tempo ainda não tinham descoberto a fórmula certa. O mesmo se dá com os valores. A avaliação - que é a nossa visão dos valores e nossa reação ante os mesmos - é algo bem diferente dos próprios valores. As avaliações que os homens fazem são mutáveis, relativas, instáveis, mas os valores, estes são eternos e imutáveis". Diretrizes do pensamento filosófico, São Paulo, Herder, 1967, pp. 73-74.
[35]. E dos cacoetes,viseiras e preconceitos coletivos de cada época e cultura.
[36]. "A propósito de provérbios franceses medievais"  in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: Idade Média - Cultura Popular, São Paulo, EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1995, pp. 19-20.
[37]. GARCIA HOZ, Victor  Pedagogia visível..., pp. 16-17.
[38]. Grifo nosso.
[39]. GARCIA HOZ, Victor  Pedagogia visível..., pp. 18-19.
[40]. O referencial teórico, no caso, é o estabelecido pelo filósofo alemão contemporâneo Johannnes Lohmann.
[41]. Os sentidos internos são: sentido comum (central), imaginação, memória e estimativa (no homem, cogitativa). Um excelente tratamento do tema encontra-se em ROYCE, James E.  Man and his Nature, New York, Mc Graw-Hill, 1961. Para este, como para outros tópicos elementares da filosofia de Tomás, indicamos também: MILLÁN PUELLES, Antonio  Fundamentos de Filosofia. 7ª. ed., Madrid, Rialp, 1970 e  FRAILE, Guillermo "El siglo XIII" in História de la Filosofia vol. II, 2a. ed., Madrid, BAC, 1966.
[42]. Do mesmo modo, para assuntos auxiliares da filosofia moral de Tomás, recorremos às obras de PIEPER -  Das Viergespann, München, Kösel, 1964;  Die Wirklichkeit und das Gute, München, Kösel, 5ª. ed., s.d. e  Menschliches Richtigsein. Die Kardinaltugenden neu bedacht. Freiburg, IBK, 1980 - e RAMÍREZ, Santiago M.  La Prudencia  Madrid, Palabra, 1982, 2a. ed.
[43]. BELAMRI, Rabah  Proverbes et Dictons Algériens (bil.: árabe/francês), Paris, L'Harmattan, 1986, No. 360.
[44]. E à filosofia da educação moral.
[45]. Retomando considerações que fiz em "Um Aspecto Árabe no Filosofar de Pieper - Linguagem e Pensamento Confundente na Metodologia do Filosofar de Josef Pieper" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente & Ocidente: Filosofia e Arte, São Paulo, DLO-FFLCHUSP, 1994.
[46]. Da filosofia praticada por um Tomás de Aquino ou por um Pieper.
[47]. Que os antigos chamavam de objeto formal.
[48]. "Was ist `dieses' überhaupt und im letzten Grunde?" PIEPER  Was heisst Philosophieren, München, Kösel, 1980, 8a. ed., p. 63. Na mesma linha de Platão, Teeteto 175.
[49]. A conhecida sentença de Whitehead ("Remarks" Philosophical Review 46, 1937, p. 178), freqüentemente citada por Pieper.
[50]. Não esqueçamos, por outro lado, que precisão - etimológica e realmente - significa recorte. A ciência é precisa, na medida em que diz: "interessa-me este aspecto da realidade (e o resto não me interessa)"; já o filósofo, quando pergunta por uma realidade - por exemplo, "o que é o homem?" -, ele não se restringe a um determinado ponto de vista, mas abre-se omnidimensionalmente ao ser, ao que, em si e em seus últimos fundamentos, tal realidade (o homem, a arte, a vida, ou o que for) é.
[51]. "Ich meine mit dem philosophischen Fragen einen existentiellen, in der Mitte des Geistes sich zutragenden Vorgang, einen spontanen, dringlichen, gar nicht zu unterlassenden Akt des inneren Lebens". Verteidigungsrede für die Philosophie,  München, Kösel, 1966, p.28
[52]. "Insight and Wisdom in Philosophy", prefácio a PIEPER Leisure the Basis of Culture, London, Faber & Faber, 1952, p. 16.
[53]. "Experiência é conhecimento com base no imediato contato com a realidade", um sentido muito mais rico do que o que lhe é conferido por um cientificismo que identifica experiência com aquilo que possa ser expresso científica ou protocolarmente. PIEPER  Verteidigungsrede... p. 116 e ss.
[54]. PIEPER  Offenheit für das Ganze, Essen, Fredebeul & Koenen, 1963, p.7.
[55]. PIEPER, Josef  Abertura Para o Todo: a chance da universidade, São Paulo, Apel, 1989, p. 21. Pieper aponta como depositários dessa experiência: a linguagem, as instituições e os modos de agir humanos, todos presentes nesta nossa análise.
[56]. Über die Schwierigkeit heute zu glauben, München, Kösel, 1974, p. 25.
[57]. Citada por ROYCE, James E.  Man and his Nature, New York, Mc Graw-Hill, 1961, p. 5.
[58]. S. Theol. I,1,5 ad 1. Tomás nos conduz a uma inversão do cientificismo: só podemos ter precisão, clareza e expressar protocolar ou operacionalmente realidades de menor importância. Já o pouco e não-claro conhecimento que podemos ter na Filosofia da Educação é sumamente relevante.
[59]. Ao final de seu Qu'est-ce que la philosophie. In Os Pensadores vol. XLV (Sartre-Heidegger). São Paulo, Abril, 1973.
[60]. É este o procedimento de Aristóteles quando trata das máximas (e, também, ao longo de toda a sua Retórica).
[61]. Edição da Zerosoft, Ver 1.00, 1992 (disponível na rede Internet). Feita com base na edição (e comentários) de Al-Jalalin, Damasco, Al-Malah, 1960 e na edição em inglês de ALI, A. Yusuf, Amana COrp., 1989.
[62]. Também no sentido de cansativa... Tenha-se em conta que, pelo fenômeno árabe da flexão de raízes, cada forma flexionada ou unida a partículas como bi, fa, ka etc. constitui busca independente...
[63]. Da CIB (Maredsous, 1990) com programa FindIT, da Marpex, Ontario, 1992.
[64]. Além de serem autores extremamente criteriosos, apresentam edições bilíngües - Feghali (árabe/francês) e Freyha (árabe/inglês) - com comentários.
[65]. Um excelente estudo sobre as peculiaridades do Líbano (também no que se refere aos amthal), encontra-se em HANANIA, Aida R. "O Líbano e a Montanha - Vozes da Montanha" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: O Literário e o Popular, São Paulo,