Este trabalho - do ponto de vista pessoal,
existencial - surgiu como importante passo em um processo de
conscientização, de busca de identidade cultural,
semelhante, talvez, ao de tantos brasileiros, descendentes de
imigrantes.
Tal como eles, tivemos a experiência
de um bi-culturalismo: a infância marcada pelo intenso
convívio com quatro avós libaneses - Mikhail,
Wadiah, Yussuf e Mariam. Como falavam em árabe (ou em
"burtuqárabe"...) com meus pais e tios (alguns
nascidos no Líbano), passei a infância haurindo
deles (e de vizinhos libaneses no bairro do Paraíso...)
tantos aspectos dessa tradição cultural que, para
além das profundas marcas afetivas, influenciaram
também - como sujeito dessa pedagogia informal, que
é a Pedagogia do mathal - a
educação intelectual e a formação
como um todo.
(Adiantemos, desde já, que a
tradução do conceito - central para nós -
de mathal (plural: amthal), pode ser aproximada
pelos nossos "provérbio", "comparação",
"parábola" etc. Ao longo deste estudo, enfatizaremos a
dimensão "provérbio" do mathal).
Para além do frio e objetivo
tratamento acadêmico do "tema" dos amthal árabes, encontra-se, no autor, a dimensão pessoal
de reencontro de um passado presente, de um afeto familiar, também no outro sentido da palavra: o
de afeição antiga, sem data precisa, lá em
alguma região de uma infância marcada não
pela - para nós, então, inexistente -
televisão, mas pelo calor daquele vagar pelas
tertúlias em que o tempo parava, para o mútuo
verter-se da con-versação: relatos,
recordações, episódios divertidos
(recontados mil vezes, com o sabor da primeira),
provérbios etc.
Misturava-se português e árabe.
O árabe era a língua dos antigos, do
mistério: usada tanto para a hiperbólica
expansão da afetividade como para outros exageros
orientais: nossas bacias hidrográficas brasileiras
não podiam competir com o rio Bardauni...
E quando perguntaram ao zahlauy pela
população da cidade ele retrucou:
- Depende.
- Depende do que?
- Em tempo de guerra ou em tempo de
paz?
- !!??
- Sim, porque em tempo de paz, dez mil; em
tempo de guerra, cem mil.
- Por que?
- Porque em tempo de guerra, cada um de
nós vale por dez...
Aprendi mil amthal na época,
mas só mais tarde vim a conhecer o provérbio
libanês que diz:
(#1)Os maiores mentirosos
são o jovem emigrado e o velho cujos
contemporâneos morreram ([1]).
Seja como for, meus avós imigrantes,
muito cedo, integraram-se plenamente - a gratidão
é o valor árabe supremo! - e aprenderam a amar
apaixonadamente o Brasil ([2]).
E, só muitos anos depois, eu mesmo
viria a descobrir e escrever: "Enquanto o ocidental cultua a
razão racionalista e persegue a lógica, que,
afinal, organizam e universalizam a expressão, o
árabe valoriza a sugestão, a
insinuação. As múltiplas realidades
suscitadas pela palavra terão a marca da
percepção individual, ficando preservada a
intimidade e a autenticidade da relação do homem
com o mundo. Por isso, tantos desacertos do ocidental ao
interpretar literal e cartesianamente a expressão
árabe. E, reciprocamente, o árabe fica perplexo
ao constatar que a intuição e a subjetividade
(tenha-se em conta que a dicotomia objetivo/subjetivo, como
mutuamente excludentes, é parte do ideário
ocidental) - de importância nuclear na
visão-de-mundo oriental - importam pouco para o Ocidente
com seu vezo de `objetividade'" ([3]).
E "no âmbito dos sentimentos, a exuberância da
imaginação árabe é
insuperável no mapeamento da alma humana. Auxiliada por
incisivos provérbios e metáforas, a língua
árabe demonstra que a fantasia nem sempre é
fantasiosa, mas, muitas vezes, supera a fria razão em
captação da realidade" ([4]).
O árabe era a língua dos
desfechos - então, para os netos, enigmáticos -
dos relatos que suscitavam ruidosas gargalhadas. O árabe
era usado tanto para as exclamações religiosas
como para as palavras fortes ou "inconvenientes"; e para
assuntos que as crianças não deviam
entender...
A sonoridade do árabe (com acento
libanês), tinha um sabor de ritual: não
entendíamos as palavras, mas intuíamos do que os
mais velhos estavam falando: pela prosódia (pela
musicalidade ou pelo planger da voz - o libanês, por
vezes, fala "chorando"...) sabíamos se se tratava de
recordações, de referência a alguma pessoa
querida, de negócios ("duplicata", por exemplo, era uma
das palavras portuguesas que, às vezes, se misturava ao
árabe...) etc.
A infância marcada por esse Oriente,
que - brincando, brincando... - foi imprimindo um senso de
prevalência do concreto imaginativo (base do humor
árabe, das metáforas, e de todo tipo de mathal), de homogeneidade do tempo, de presença
viva do passado e de tantos outros aspectos, de que trata o
presente trabalho acadêmico...
Ao final desta nota, quero expressar os
agradecimentos a meus mestres, Prof. Dr. Helmi M. I. Nasr e
Profa. Dra. Aida Ramezá Hanania, que me ensinaram que
numa mesma e única raiz árabe - S-D-Q -
confundem-se os significados de amizade e
confiança.
De um ponto de vista objetivo, o presente
trabalho pretende articular a união de diversos aspectos
da investigação que temos realizado nos
últimos dez anos. Tais pesquisas versaram sobre dois
grandes campos: a educação moral (nos quadros da
filosofia de Tomás de Aquino) e a forma de pensamento
árabe ([6]),
condicionada por estruturas da língua.
O particular ponto de vista, sob o qual
enfocamos esses campos, conduziu-nos à sua
unificação - natural e forte - em torno do tema
dos provérbios árabes.
Assim, o leitor encontrará, ao longo
desta análise, 176 provérbios árabes
([7]),
contraponteando (em geral) as teses filosóficas e
pedagógicas de Tomás de Aquino.
Muito do que afirmamos neste trabalho
é inédito ([8]),
mas sua originalidade faz-se presente também na
articulação de diversos temas já por
nós tratados - sobretudo em diversos volumes da
Coleção Oriente & Ocidente e na Revista de Estudos Árabes ([9])
- e que agora se integram na perspectiva da
educação moral.
Provérbios e educação
moral são dois temas de extrema atualidade. Se
até recentemente eram menosprezados ([10])
por certos setores da investigação
universitária ([11]),
hoje, cada vez mais, têm seu merecido lugar de destaque
reconhecido no meio acadêmico. De fato, desde o
início da década, observa-se, no Brasil, um
crescente clamor por ética e moralidade (ecos de uma
renovação mundial de interesse pela
ética).
Por outro lado, é visível -
como lembra Garcia Hoz - "a significação
especial" que os estudos sobre cultura popular adquirem na
educação pós-moderna:
"tradições milenares são consideradas as
mais audazes e indispensáveis" ([12]).
É evidente que quando, aqui, nos
referimos à educação moral, estamos
pensando em algo bem distinto daqueles - mais ou menos
inócuos - conteúdos tradicionalmente veiculados
pela disciplina "Educação Moral e
Cívica"... Aliás, nem sequer estamos nos
referindo à educação formal, que se
ministra na escola, mas à "Educação
Invisível", para antecipar a expressão de um de
nossos referenciais pedagógicos, o educador espanhol
Victor Garcia Hoz ([13]).
A articulação entre a
filosofia da educação moral de Tomás de
Aquino e a educação invisível dos amthal torna-se evidente, quando se estuda o papel
ultra-essencial da virtude da prudentia para a
ética e para a educação. Como veremos, a prudentia, virtude intelectual - classicamente
definida como a "reta razão no agir", recta ratio
agibilium - informa o bem agir, realizando uma ponte entre
o abstrato e o concreto.
E, como pretendemos mostrar, precisamente
esta é também uma função dos amthal: a realidade vivida transforma-se em
experiência e esta condensa-se em provérbio que,
por sua vez, volta para a realidade, iluminando-a e permitindo
sua leitura.
Se a prudentia pode realizar sua
função decisória na conduta humana
é porque se apóia no conhecimento: duas de suas
partes quasi integrais são a memoria e a docilitas, com o que se estabelece importante interface
com os amthal.
Naturalmente, o que estamos dizendo sobre os
provérbios árabes vale também para os
provérbios ocidentais ou de qualquer outra cultura e a
sentença de Lunde & Wintle é sempre
verdadeira: "Perhaps the quickest way to understand a people or
a culture is to learn their proverbs" ([14]).
A relação da cultura árabe com os
provérbios é, porém, diferente. Trata-se
de uma afinidade especial, muito mais intensa: o
provérbio espelha o próprio núcleo da
forma de pensamento árabe.
Provérbios existem em todas as
culturas e também no Ocidente; mas não tão
copiosamente e, sobretudo, não com a força
psicológica e educativa que exercem no Oriente, que os
potencia e lhes dá um importante papel
pedagógico, a tal ponto que podemos falar numa Pedagogia do mathal.
Imediatamente decorrentes da própria
forma de pensamento, dão-se em estado, por assim dizer,
"quimicamente puro" na tradição árabe.
Naturalmente, ao longo deste trabalho, enfatizaremos as
características da forma de pensamento árabe - em
união com os amthal - em contraste com a forma
ocidental logos, mas essa ênfase significa uma
tendência ([15])
e não uma determinação.
Seja como for, o mathal (e
interessa-nos aqui, sobretudo, o mathal como
provérbio) é a melhor expressão (como
pretendemos demonstrar) da forma de pensamento árabe.
Com extrema felicidade, assim o expressou Aida
Hanania:
"A célebre sentença moderna
que afirma a identidade entre meio e mensagem encontra
aplicação com total propriedade no caso do
Oriente com as máximas de sabedoria. Valem aqui, para as
máximas de sabedoria, as mesmas
considerações que temos já feito alhures
para seus irmãos, os provérbios. O sistema
língua/forma de pensamento - para usar o conceito de
Lohmann -, com relação ao árabe, encontra,
nessas sentenças, sua mais perfeita
correspondência. Em vez de longos e articulados
discursos, a língua árabe (o pensamento
árabe) expressa-se de modo muito mais natural e
autêntico por rápidas sentenças de
caráter incisivo, que atingem o íntimo do
interlocutor por condensarem séculos (ou
milênios...) de uma sabedoria mais do que humana. Os ergo e os demonstrandum do Ocidente dão
lugar (...às sentenças dos sábios, e
há uma adesão... ) à milenar voz da
sabedoria que, por eles, fala. É a verdade das coisas
que se deixa ver na trouvaille do dito"
([16]).
Tendo essas considerações em
conta, não é de estranhar o extraordinário
apreço que o árabe tem pelos provérbios e
que o provérbio seja também - sob diversos
aspectos - ponto importante para uma filosofia da
educação moral.
Conhecer provérbios é, no
Oriente, conhecer a vida: "Un homme ou une femme qui ne
savaient pas plusiers centaines de proverbes et qui
n'étaient pas capables de les débiter
séance tenante, étaient alors regardés
comme ignorants. On m'affirme ([17])
que cet usage est encore vivant dans bien des villages libanais
et dans d'autres pays de langue arabe" ([18]).
A partir da análise das
relações entre estruturas de língua e
formas de pensamento, configurar-se-ão algumas
importantes características do sistema árabe (e
semítico em geral) que, por assim dizer, se traduzem em
forma de provérbio.
2. O referencial filosófico de
Tomás de Aquino
Na perspectiva dessa Pedagogia do mathal, compreende-se que não é casual a
escolha de Tomás de Aquino como referencial
filosófico para os fundamentos antropológicos e
éticos dessa Pedagogia ([19]).
Tal escolha ([20])
prende-se ao fato de que a filosofia (e os fundamentos da
educação) proposta por Tomás - a um tempo
clássica e de extrema atualidade ([21])
- apresenta uma concepção particularmente
adequada para a análise de uma
manifestação cultural popular como
provérbios.
De fato, a metodologia e o pensamento do
Aquinate estão comprometidos com o conhecimento comum
(como veremos, ele sempre parte da realidade, do fenômeno
e valoriza o papel do sensível no conhecimento) e com a
linguagem comum ([22]).
Tomás tem um enorme respeito pela linguagem do povo:
"Multitudinis usus, quem in rebus nominandis sequendum",
"o uso comum do povo que deve ser seguido...", assim
começa a Summa Contra Gentiles...
A linguagem comum é, até
mesmo, por ele considerada depositária de sabedoria,
quando devidamente trabalhada, garimpada ([23])
e, eventualmente, corrigida).
Cabem aqui as reflexões de Hans Urs
von Balthasar, referindo-se à metodologia
filosófica praticada por um dos autores que mais
influenciou o presente trabalho, Josef Pieper (que,
também neste ponto, segue S. Tomás):
"Pieper mostra que as ciências
particulares, ao prescindir do sentido do ser como um todo,
podem permitir-se uma linguagem precisa (ou devem contentar-se
com ela), enquanto o filósofo, que visa o `sagrado e
manifesto mistério' (Goethe) do ser na totalidade e do
seu significado, deve sempre considerar a linguagem comum, a
que se faz a partir da sabedoria dos que filosofam
inconscientemente ([24]).
`A palavra da linguagem comum humana encerra mais realidade que
o termo artificial'. E ajunta a surpreendente mas acertada
afirmação: `Não só Lao-tse,
Platão e S. Agostinho, mas também
Aristóteles e S. Tomás - por improvável
que isso possa parecer - ignoram toda terminologia
especializada'.
Estes nomes afiançam que a
simplicidade a que Pieper alude - selo de credibilidade - de
modo algum se confunde com uma trivial clareza de banalidade.
Por que não? Porque o método de cada
ciência só é correto quando se deixa
determinar pelo objeto. A História ou a Psicologia
têm um modo diferente de precisão do que a
Física ou a Biologia. Para Pieper, esta sentença
fundamental sempre tem sido o seu ponto de partida: acolher e
admitir o fato tal como ele se dá, na sua própria
verdade, bondade e beleza é o pressuposto para se
aprender algo dele" ([25]).
Nessa mesma linha - a do compromisso de
Tomás com o concreto, sua ligação com o
conhecimento comum - situa-se um "surpreendente" resultado
([26])
da mais avançada pesquisa em informática sobre
Tomás de Aquino, a do pensador alemão Robert
Busa, criador do Index Thomisticus ([27]).
Trata-se, precisamente - como o denomina o próprio Dr.
Busa em entrevista recente ([28])
-, de um "concretismo tomista" (p. 21).
"Primado do sensivel", "Tomás parte
sempre da realidade, das certezas vitais", "Concretismo
tomista, concretismo positivo. Deste concretismo tomista
não só se pode como se deve falar", são
algumas das conclusões a que chegou o especialista,
após a varredura das "cerca de nove milhões de
palavras" (p.23) de que se compõe a obra completa de
Tomás...
De fato, ao tabular os dados, chega-se aos
seguintes resultados no corpus tomista
(p.24):
.
"Predominância de palavras que
exprimem realidade concreta em Tomás:
CATEGORIA
% de Incidência.
Nomes próprios de realidades
invisíveis 2,64%
(Deus, angelus,
paradisus...)
Objetos invisíveis
0,33%
Objetos concretos
6,67%
Sensus, sentire,
sensibilis + o nome
1,61%
e o verbo dos sentidos.
Intellectus-intelligire etc.
0,97%"
.
Esses são alguns dos tantos pontos
que perfazem a sintonia da filosofia de Tomás com o bom
sentir do povo e, portanto, sua afinidade com a sabedoria
concreta das tradições de
provérbios.
Aproveitando-nos de uma metáfora de
que o próprio Tomás freqüentemente se vale -
a comparação entre o sábio e o arquiteto
-, diríamos que seu filosofar está para a
sabedoria do homem da rua, assim como o saber do bom arquiteto
para a adequada construção da casa
([29]).
Dentro desse quadro filosófico,
é natural também a constante referência ao
filósofo alemão Josef Pieper, que é um dos
principais intérpretes contemporâneos desse
pensamento (especialmente no que se refere à filosofia
moral).
3. O diálogo entre Oriente e
Ocidente
Apresentamos, neste tópico,
reflexões sobre as condições de
diálogo entre Oriente e Ocidente ([30]).
Ponderemos inicialmente a
consideração das diferenças entre esses
dois mundos: ela pressupõe, antes de mais nada,
registrá-las, apontar para aquilo que se manifesta, para
o fenômeno. E um tratamento acadêmico não
pode, certamente, deter-se nesse nível: para além
do mero âmbito fenomênico, impõe-se
também a reflexão filosófica sobre o
alcance, o significado e a razão dessas
diferenças. Assim, em nossa análise,
despontará como privilegiado campo formal a linguagem:
cerne e raiz do pensamento e do modo de situar-se no mundo; pátria, como diz o poeta. Tais aspectos formais
não são meras formalidades: marcam (e revelam...)
profundamente a cosmovisão de um povo.
Essa consideração das
diferenças não só não impede, mas,
até mesmo, possibilita o autêntico diálogo.
Se todo diálogo é, afinal de contas, um con-versar, um mútuo verter-se, então o
diálogo, também ele, tem os seus pressupostos: o
primeiro é o reconhecimento do outro enquanto tal,
respeitando-o na alteridade de seu modo de ser e de
sentir; suspendendo quaisquer juízos "a priori",
sobretudo os derivados do provincianismo, que se erige em
referencial cultural padrão.
Esse provincianismo, como se sabe,
manifesta-se sob formas variadas: desde o grosseiro
considerar-se cada um, pura e simplesmente, o centro do mundo
([31]),
até a sutil forma de preterir o outro, projetando-o no
âmbito do ex-cêntrico, do
exótico...
O autêntico diálogo ocorre
quando cada interlocutor, conservando seu próprio modo
de ser e de situar-se no mundo, abre-se para a
complementaridade, busca o conhecimento e sabe viver - no
sentido em que fala Tomás de Aquino - a docilitas: alegra-se em aprender ([32]).
O autêntico diálogo ocorre - e
esta é uma das grandes tarefas da educação
invisível - quando nos abrimos para ideais maiores, que
(talvez até inconscientemente) acabam por suprimir as
estreitas barreiras que nos enclausuravam. Nesse sentido, o Dr.
Ruy Afonso da Costa Nunes, após ter analisado a
experiência medieval desse diálogo, assim conclui
a entrevista que concedeu à Revista de Estudos
Árabes:
"Quando se considera, por exemplo, o modo
como se processou o movimento de traduções na
Espanha islamizada, nós observamos que aí reina
um ambiente de compreensão, de tolerância e de
solidariedade, não só entre cristãos e
muçulmanos, mas também entre cristãos,
judeus e muçulmanos. Todos eles colaboraram numa obra
comum, em que prevalecia o interesse cultural. E, como
assinalei, no intercâmbio Árabes/Ocidente, os
muçulmanos, de certo modo, devolveram aquilo que os
cristãos lhes haviam proporcionado. E isso, esta
mútua compreensão, este mútuo
intercâmbio poderia perfeitamente - por que não? -
continuar a processar-se nos dias de hoje" ([33]).
Mas nem tudo são diferenças e
complementaridade. A conexão entre Tomás de
Aquino e o Oriente é possível também, na
medida em que - para além das diferenças (a que
tanta importância damos neste estudo...) - encontra-se o
mesmo e único ser humano por detrás da
língua, das formas de pensamento, das
visões-de-mundo etc.
Se há formas oriental e
ocidental de atingir a realidade e relacionar-se com ela, essa
diversidade não nos deve ofuscar a ponto de impedir de
ver as co-incidências (o incidir conjuntamente) que
aproximam os dois mundos.
Ao longo deste trabalho, enfatizaremos o
caráter oriental dos provérbios, o que não
deve excluir a consideração da dimensão
universal da sabedoria árabe. Tal
afirmação é necessária, como
condição de fecundo diálogo entre Ocidente
e Oriente: não se trata de exotismos "orientais", mas de
um modo oriental de apreender a mesma e única realidade
do ser humano.
Enquanto agentes privilegiados da
educação invisível, os provérbios
recolhem o saber popular, condensam a experiência sobre a
realidade do homem: sua existência quotidiana: as
condições de vida, o sensato e o ridículo,
as alegrias e as tristezas, as grandezas e as misérias,
a realidade e os sonhos, a objetividade e os
preconceitos...
Mais do que qualquer outra expressão
literária, os provérbios têm,
freqüentemente, o dom de incidir sobre aquele
núcleo permanente, atemporal da realidade do homem. E
daí, também, decorre sua perene atualidade.
Demasiadamente impressionados por sociologismos, relativismos
([34])
e historicismos, nós tendemos à
incompreensão de outras culturas e de épocas
passadas e a pensar que somos muito originais, quando, na
verdade, o que realmente ressalta dos estudos históricos
e antropológicos é não a diferença,
mas a identidade. Para além das concretas formas
históricas ([35]),
está lá o mesmo homem, com suas grandezas e
mediocridades...
O mesmo homem, por vezes decifrado em
provérbios geniais. Por mais diversas que sejam as
épocas, as latitudes ou as tribos, sempre encontraremos,
essencialmente, pesadas críticas e ironias contra o
egoísmo, a avareza, a inveja, a pequenez etc. e -
invariavelmente também - o louvor da generosidade, da
sinceridade, da grandeza, da lealdade etc. São fatos
constantes em todas as culturas.
Nesse sentido, discutindo as
diferenças e semelhanças entre provérbios
orientais e ocidentais, diz Aida Hanania:
"Um ligeiro revolver de seu conteúdo
sapiencial alerta para o caráter universal das
afirmações que encerram; como a salientar que o
homem é o mesmo ontem e hoje; no Ocidente e no Oriente;
na cidade e no campo; na labuta, na oração, no
repouso e no coração.
Evidentemente, toda cultura tem seu
referencial de provérbios e seu registro é
ininterrupto através dos tempos. As coletâneas que
os reúnem, porém, - mesmo as mais distantes no
tempo e no espaço - revelam que a
reivindicação da época e do lugar
dá-se por algumas circunstâncias especiais que
condicionam o dizer: meio geográfico; determinado
estágio de desenvolvimento; peculiaridades regionais
etc.
A figura do camelo, por exemplo,
fará parte, freqüentemente, do cabedal
imagético do Oriente e, como tal, pontifica em
vários provérbios, idênticos, em mensagem,
a provérbios do Ocidente que, para tanto, utiliza um
elemento que lhe é mais familiar.
Assim:
(#4)O camelo tem uma
opinião; o cameleiro, outra.
"O asno tem uma opinião; outra
têm os asneiros" (árabe/ocid.,
respectivamente).
(#5) Quando vi a miragem, joguei fora
minha água; agora, não tenho água, nem
miragem.
"Mais vale um pássaro na mão,
que dois voando." (árabe/ocid.,
respectivamente).
(...)
A mensagem que se cristaliza em
provérbio, respalda-se na experiência; guarda, por
isso, um tom afirmativo, de perenidade; beira a
advertência; torna-se aconselhamento; apela para o
equilíbrio; revela os limites humanos e a grandiosidade
do Criador. Predominam as constatações
intrínsecas ao homem enquanto ser universal, em sua
relação com a vida, tais como as referentes ao
comportamento de seu semelhante; ao destino; ao tempo etc."
([36]).
Precisamente a consciência dessas
permanências, de que nós (apesar de nossa
ilusão de progresso linear) não somos tão
diferentes e "evoluídos" quanto pensávamos,
talvez seja uma das principais contribuições que
o leitor de hoje pode receber dos provérbios do
Oriente.
4. Nota sobre a Pedagogia visível
e a Educação invisível
Antes de examinarmos questões
relativas à educação moral, é
necessário esclarecer um ponto fundamental: a
educação informal exercida pela Pedagogia do mathal.
Nesse sentido, parece-nos oportuna a
referência - presente já no título deste
tópico - à obra do conhecido educador espanhol,
Victor Garcia Hoz, na medida em que esse autor estabelece
adequado embasamento pedagógico. Destaquemos alguns
pontos de particular interesse, começando pela
própria caracterização da
"invisibilidade": "A diferença básica entre uma
pedagogia visível e uma educação
invisível, oculta, está no conteúdo do que
se transmite e na maneira como é transmitido. Quanto
mais especificados estiverem os critérios e
conteúdos da educação, quanto mais
explícitos e justificados estiverem os modos ou
métodos da sua transmissão, mais visível
se torna a Pedagogia; quanto mais implícito for o
método da transmissão e mais difusos os
critérios do que é transmitido, mais penetramos
na educação invisível (...). A Pedagogia
visível costuma dar maior importância ao
conhecimento e à aquisição de destrezas,
práticas ou mentais, enquanto a educação
invisível está mais perto das atitudes, da
iniciativa, das aspirações pessoais, dos valores
(...). A educação invisível não
dispõe de tais instrumentos técnicos. Seus
procedimentos (...) são múltiplos, difusos e
não estão sujeitos a uma medida aparentemente
precisa" ([37]).
É bem o caso da Pedagogia do mathal. Como operacionalizar as riquezas de seu
potencial?
Precisamente pelo que a torna importante, a
Pedagogia do mathal tende a não ser tão
valorizada no Ocidente, embora, na verdade, a
educação invisível seja "... como a
desconhecida trama dos diversos elementos que se manifestam em
algo tão importante, porém tão
difícil de definir como a saúde, a vitalidade, a
coragem diante das dificuldades (...) De um modo geral
poderíamos pensar que a Pedagogia visível
manifesta-se predominantemente na vida escolar, no ensino
sistemático e na aprendizagem como
aquisição de conhecimentos, isto é, nos
conteúdos da formação científica,
enquanto a educação invisível, por ser
profunda, projeta-se especialmente na formação
ética, ou seja, no desenvolvimento de aptidões e
promoção de valores ou virtudes, principalmente virtudes morais ([38])"
([39]).
5. A estrutura do presente
trabalho
Após esta Introdução, que se completará - nos
próximos tópicos - com a discussão da
metodologia e as necessárias considerações
sobre a clave de leitura da linguagem de Tomás de Aquino
- começaremos as análises de que nos ocuparemos
tematicamente.
O cap. I - "Estruturas de linguagem e formas
de pensamento" - procura estabelecer as bases do sistema
língua/pensamento árabe, voltado para a posterior
análise dos amthal como fenômeno
tipicamente oriental (semítico e
árabe).
O capítulo começa com o
estabelecimento de alguns conceitos fundamentais
([40])
como: sistema língua/pensamento, sistema logos e
sistema ma'na. Ao contrapor o sistema ma'na (no
centro do qual está a língua árabe) ao
sistema logos (no centro do qual situa-se o grego
clássico), destacaremos sete características da
língua/forma de pensamento árabe: o peculiar uso
da frase nominal, a associação imediata, a
flexão de raízes, o pensamento
confundente, a metátese, o papel da imagem concreta
e a ligação com o passado. Essas
características da língua/forma de pensamento
árabe são as que nos pareceram particularmente
importantes para nossa análise, em capítulos
ulteriores, de provérbios e educação, na
cultura árabe (a essas características
estruturais, somam-se outras, culturais, próprias da
mentalidade árabe, como a hospitalidade, o apreço
pelas narrativas, pelo juramento etc. que serão
abordadas - em comentários esparsos - ao longo do
trabalho).
O capítulo fecha-se (I.9) com uma
nota sobre a influência árabe (e a presença
de algumas dessas características árabes) em
antigos provérbios portugueses (Para este e outros
confrontos, valemo-nos da clássica coletânea -
datada de 1651 - de Antônio Delicado).
A seguir, detemo-nos (Cap. II) a examinar o
significado e o alcance do conceito, para nós central,
de mathal na língua árabe.
Exemplo típico do pensamento
confundente árabe (que adiante, analisaremos), mathal condensa em si diversos significados e embora (ou
precisamente porque...) nos interesse mais o que pode ser
traduzido por "provérbio", analisamos também os
demais significados, a partir do Alcorão (em Apêndice 1 encontra-se uma elucidadora listagem e
tradução dos versículos do Alcorão
em que ocorrem os vocábulos mathal e amthal) e da Bíblia.
Discutimos também a - aparentemente
contraditória - dupla função
(veladora/reveladora) do mathal no ensino e na
comunicação e a leitura do mundo como mathal pelo árabe (e pelo semita em
geral).
O cap. III estabelece as bases
antropológicas da ética e da
educação moral em Tomás de Aquino
(principalmente na Summa Theologiae). Apresentamos
inicialmente - e é uma distinção de seu
filosofar - o caráter de unidade entre o espírito
e a matéria, em torno de sua concepção de
alma (III.1) como forma do corpo (anima forma
corporis).
A partir dessa concepção de
alma, desponta sua imponente definição do obiectum proprium da inteligência humana (III.2),
um fundamento para uma pedagogia do concreto, para uma
pedagogia do sensível, para uma Pedagogia do mathal (III.3).
Em III.4, apresentamos, brevemente, as
linhas fundamentais da concepção de moral, por
Tomás, entendida como realização,
auto-realização do ser humano.
Nesse quadro emerge, em toda sua grandeza, a prudentia, virtude que é a base concreta para uma
Pedagogia do mathal.
O Capítulo IV - imerso também
na filosofia de S. Tomás - começa por
caracterizar a prudentia como virtude intelectual, do
intelecto prático, voltada para o agir.
Dado seu caráter de ponte entre o
abstrato e o concreto, dedicamos um tópico (IV.3)
à cogitativa (vis cogitativa), sentido
interno ([41])
que é também sujeito psíquico da prudentia. Especialmente importante para nosso estudo
é a operação - realizada pela cogitativa -
chamada collatio.
Após caracterizar as partes quasi integrais da prudentia (IV.4), o
capítulo fecha-se com uma nota sobre o destacado papel
que a Memória exerce nas grandes tradições
antropológicas oriental e ocidental, a título de
introdução à análise da memoria como virtude.
Estabelecidas as bases antropológicas
de uma Pedagogia do mathal, passamos - Cap. V - a
analisar as linhas pelas quais ela se exerce.
Sendo parte importante da
educação invisível, a Pedagogia do mathal não se deixa operacionalizar, mas convida
a intuir: daí que - em alguns momentos em que a
realidade, sutilmente, nos convoca à apreensão -
optamos por passar a palavra, mais detidamente, à
tradição sapiencial que, pela própria voz
de seus mestres, nos instrui. É o caso de três
citações um pouco mais longas (e especialmente
densas) que se recolhem no trabalho: trechos de Entrevista do mestre Sufi Idries Shah (em V.4) e a carta De modo studendi de Tomás de Aquino junto com a
meditação Viver do Silêncio de Josef
Pieper (estas em Apêndice 5) ([42]).
Segue-se um estudo mostrando as profundas e
fecundas relações entre provérbios e
memória: as quatro leis da educação da
memória, propostas por S. Tomás, são
confrontadas com a Pedagogia do mathal. Em V.3,
apresentamos a virtude da docilitas. Nestes
tópicos, ressalta-se - para além do âmbito
das técnicas - a dimensão moral da memoria e da docilitas (que se completa, apresentando em Apêndice 5, a doutrina pedagógica do De
modo studendi).
Em V.4, um dos principais mestres
contemporâneos do sufismo, Idries Shah, aponta algumas
características da Pedagogia do mathal e discute
sua aplicabilidade ao Ocidente.
Em V.5, a partir de uma sugestiva
observação de Pieper, tratamos das
relações entre Educação moral,
linguagem e realidade, discussão que é ampliada
em V.6 - "Provérbios e percepção da
realidade".
Os dois tópicos finais do cap. V,
são dedicados às disfunções que
podem ocorrer nos provérbios: pessimismo e
preconceitos.
Nas Conclusões, além de
retomar os principais pontos estruturais discutidos, propomos
uma reflexão sobre os amthal no Oriente e a
educação moral no Brasil de hoje.
Note-se, a propósito, que se - ao
longo deste trabalho - não nos referimos continuamente
(de modo explícito) ao Ocidente, este está sempre
presente ("De te fabula narratur..."), mais não
seja como "a noiva" no infinitamente agudo mathal:
(#6) Bate no cão, tua noiva
compreenderá... ([43]).
No Apêndice, apresentamos,
inicialmente, "O uso de "mathal"/"amthal" no
Alcorão". E, em seguida, alguns conceitos básicos
da antropologia e da ética de Tomás (subjacentes
ao tratamento temático do corpo do trabalho), uma
seleção de sentenças do Aquinate (para
alguns de nossos temas éticos), seu opúsculo De modo studendi e a filosofia de Tomás como
metafísica do concreto: a doutrina sobre o actus
essendi.
O Apêndice se fecha com
uma "Nota sobre a prudência e os amthal na
tradição bíblica".
Na Bibliografia, limitamo-nos a
listar os títulos efetivamente citados no
trabalho.
Ao final, apresentamos Índices dos provérbios citados / dos vocábulos neles
contidos e de autores.
6. Observações
metodológicas
A metodologia seguida, adequada a este tipo
de análise filosófica ([44]),
é a proposta (e praticada...) por Josef Pieper.
Resumirei aqui as principais linhas e fundamentos dessa
proposta pieperiana ([45]).
Seguindo a citada sugestão de von
Balthasar, para caracterizar uma metodologia filosófica
([46]),
estabeleçamos o contraste com as
ciências.
Nesse sentido, notemos, em primeiro lugar,
que cada ciência estuda seu objeto sob um determinado
ponto de vista: volta-se para um determinado aspecto e o resto
não lhe interessa.
Assim, uma mesma realidade, por exemplo, o
homem, é vista por diferentes ciências, sob pontos
de vista distintos: um é o enfoque da Medicina; outro, o
da Psicologia; outro ainda, o da Sociologia etc.
O objeto de estudo de uma ciência e,
sobretudo, seu peculiar ponto de vista ([47])
condicionam, como é óbvio, a metodologia dessa
ciência: de nada adiantam a compreensão
empática para o matemático enquanto tal, nem
teoremas para o historiador; e, quanto ao instrumental, o
astrônomo vale-se de um telescópio e não de
um microscópio; o físico, ao contrário do
matemático, dispõe de um laboratório,
etc.
Certamente, a questão do
método das ciências não é tão
simples: há, por exemplo, muita discussão sobre
os procedimentos de descoberta e justificação de
um resultado científico.
Quando, porém, se trata do filosofar
- tal como foi concebido pelo pensamento clássico - a
questão torna-se ainda mais problemática, pois o
filosofar não pode ter a operacionalidade
metodológica que podemos encontrar, em maior ou menor
grau, no pensamento científico. E isto, precisamente
pelo fato de que o filosofar pergunta "o que, em si e afinal,
é isto" ([48]),
não se limitando a um "ponto de vista", mas - como certa
vez afirmou Whitehead -, filosofar é indagar "What is
it all about?" ([49]),
indagar pelo todo que se relaciona com este objeto
([50]).
É essa amplitude de perspectiva que
torna o filosofar problemático: ele não tem (nem
pode ter, nem pretende ter...), de modo algum, uma metodologia
"bem-comportada". Para além de qualquer
operacionalidade, filosofar é "um processo existencial
que se desenvolve no centro do espírito, um ato
espontâneo que surge da vida interior" ([51])
e depende, fundamentalmente, como afirmou T. S. Eliot
([52]),
de insight and wisdom, intuição e
sabedoria, disponibilidade para as grandes experiências
(para Pieper, o filosofar parte das experiências
([53]))
sobre o homem e o mundo ([54]),
nas quais a realidade se revela.
Porém - e aí reside uma
peculiar dificuldade para quem filosofa - essas
experiências especialmente densas não têm
brilho duradouro na consciência reflexiva: logo se
desvanecem, desfazem-se, escapam-nos.
Não chegam, contudo, a se aniquilar:
"Ainda que não se dêem a conhecer de modo
imediato, essas experiências estão presentes e
ativas, e quem queira expressá-las deve ultrapassar o
que se manifesta na superfície e procurar atingi-las
para, por assim dizer, retraduzi-las em forma de enunciado"
([55]).
O filosofar deve, portanto, começar
pelo fenômeno. "Como sempre - diz Pieper -,
começaremos por apontar do melhor modo possível a
resposta (a uma indagação filosófica)
dirigindo a atenção ao fenômeno, isto
é, àquilo que se manifesta" ([56]).
Com o fenômeno, vem a colorida viveza
do concreto, da experiência, que se impõe com o
peso da realidade, não permitindo sequer o aparecimento
da célebre objeção contra a obscuridade
dos filósofos, homens - assim se formula a irônica
objeção - "com os pés firmemente
cravados... nas nuvens" ([57]).
Mas o fenômeno é apenas o começo, deve-se
"ultrapassar o que se manifesta na superfície e procurar
atingir" o significado (antropológico, ético,
pedagógico) subjacente. É desse modo que, a
partir do concreto, adotamos tipos e conceitos estabelecidos
por autores como Lohmann e Pieper. Tipos e conceitos abstratos
(no sentido de abstraídos da realidade concreta)
como: "forma de pensamento", virtude, prudentia etc.
Assim, por exemplo, por detrás de
simples fatos gramaticais da língua árabe,
procuramos estabelecer seu significado em termos de "forma de
pensamento" e é precisamente esse tipo que nos permite
voltar ao concreto e esquadrinhar o significado mais amplo
deste ou daquele mathal...
Se tudo corre bem, este método acaba
sendo - também ele - um harmônico diálogo
entre abstrato e concreto, entre rigor e
intuição, entre Ocidente e Oriente...
Nesse sentido, estamos bem conscientes das
limitações de "precisão" que nos
são impostas pelos próprios temas de que nos
ocupamos...
Porém, como certa vez se expressou o
próprio Tomás de Aquino, o mais importante para o
homem é não-claro, mas o pouco que nesse campo se
obtém é muito mais decisivo do que os precisos e
operacionais resultados de outras ciências: "Minimum
quod potest haberi de cognitione rerum altissimarum,
desiderabilius est quam certissima cognitio quae habetur de
minimis rebus" ([58]).
É - como aponta Heidegger ([59])
- a triste mudança de clave que ocorre quando se passa
da filosofia antiga para a moderna: naquela, a dignidade do
conhecimento liga-se à importância do objeto;
nesta, à clareza do sujeito.
Assim, até em termos formais, optamos
por, constantemente, ir contraponteando as
considerações sistemáticas com a
apresentação ao leitor da base concreta de
provérbios ([60]),
a elas conectadas: a expressão "por exemplo" aparece
cerca de uma centena de vezes neste trabalho! Se em diversos
momentos apoiamo-nos na intuição e convocamos o
leitor a exercer o binômio insight and wisdom para
estabelecer as conexões devidas entre o caráter
paradigmático do concreto e o pensamento abstrato, estas
intuições estão sempre apoiadas em
rigorosa análise do fenômeno (com o nível
de rigor que a matéria comporta...). Em linguagem de S.
Tomás, nossa metodologia procura estabelecer
condições de passagem da collatio ao
conceito, da vis cogitativa ao intellectus...)
Foi feita, por exemplo, uma varredura
completa para determinar com exatidão a gama de
significados confundidos em torno da raiz m-th-l no
Alcorão.
Para tanto, valemo-nos de um avançado
programa de hipertexto em árabe do Alcorão
([61])
e fizemos uma pesquisa exaustiva ([62])
de todas as formas daquela raiz.
A correspondente pesquisa bíblica
deu-se também por hipertexto: o Debora-Microbible ([63]).
Ao restringir nosso universo de estudo -
seria impossível abrirmo-nos ao infinito campo dos amthal árabes - limitamo-nos, principalmente, aos
cerca de sete mil provérbios libaneses, provenientes de
duas fontes especialmente interessantes ([64]):
FEGHALI, Michel Proverbes et Dictons
Syro-Libanais, Paris, Institut d'Ethnologie, 1938 (traz
3048 provérbios).
FREYHA, Anis A Dictionnary of
Modern Lebanese Proverbs, Beirut, Librairie du Liban, 1974
(traz 4248 provérbios).
Não são, em sua maioria,
provérbios especificamente libaneses ([65]),
mas universalmente conhecidos no mundo árabe
([66]).
Como fontes auxiliares (ou de contraste),
valemo-nos - entre outras - das seguintes excelentes
coletâneas:
NASR, Helmi, M. I. "Uma
seleção de provérbios árabes" in
LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: O literário
e o Popular, São Paulo, EDIX/DLO-FFLCHUSP,
1995.
HANANIA, Aida R. "O Líbano e a
Montanha - Vozes da Montanha" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: O Literário e o Popular,
São Paulo, EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1995.
DELICADO, Antônio Adágios Portuguezes reduzidos a lugares communs,
Lisboa, Officina de Domingos Lopes Rosa, 1651. Este livro
apresenta milhares de provérbios portugueses da Idade
Média a meados do século XVII. Valemo-nos da obra
de Delicado, também como contraponto dos amthal árabes.
7. Lista de Abreviaturas
As obras acima referidas trazem os
provérbios numerados e serão, ao longo deste
trabalho, citadas abreviadamente - assim [FGHL, 3098]
é o provérbio de número 3098 da
coletânea de Feghali - de acordo com o
código:
[FGHL, ] - FEGHALI, Michel Proverbes et dictons...
[FRHA, ] - FREYHA, Anis A
Dictionnary of...
[NASR, ] - NASR, Helmi, M. I. "Uma
seleção..."
[ARH, ] - HANANIA, Aida R. "O
Líbano..."
[BLMR, ] - BELAMRI, Rabah Proverbes et Dictons...
Outras abreviaturas são:
BJE - Bíblia de
Jerusalém ([68]),
nova edição revista, São Paulo, Paulinas,
1991. Sempre que citada em castelhano, trata-se da BJE
(Programa Debora-MicroBible).
[DELIC, ] - DELICADO,
ANTÔNIO Adágios Portuguezes reduzidos a
lugares communs, Lisboa, Officina de Domingos Lopes Rosa,
1651 ([69]).
Algumas outras obras de uso mais restrito,
receberão abreviatura própria no local em que
ocorrem.
Quanto às obras de Santo Tomás
de Aquino:
A Summa Theologiae será citada
só pela passagem. Assim, por exemplo, II-II,154,12
é o corpus do artigo 12 da questão 154 da
segunda parte da segunda parte da Summa. E I,60,1 ad 3
é a resposta à terceira objeção no
artigo 1 da questão 60 da primeira parte da Summa.
A Summa Contra Gentiles será
citada abreviadamente como CG ([70]).
8. Nota sobre a linguagem e o problema da
tradução: o caso da prudentia
Pareceu-nos necessário incluir
já nesta Introdução uma nota sobre
a linguagem e a tradução do Aquinate. Pois,
precisamente por Tomás estar voltado para a linguagem
comum, o leitor contemporâneo defronta-se com uma
dificuldade especial na compreensão de sua
filosofia.
A proximidade entre a nossa língua e
o latim de Tomás não nos deve enganar: ocorre com
a linguagem um conhecido fenômeno de
alteração do sentido das palavras que se
manifesta muitas vezes quando lemos um autor de outra
época. E não só alteração;
como mostra Lewis ([71]),
ocorre freqüentemente, sobretudo no campo da ética,
uma terrível inversão de polaridade: "the
remarkable tendency of adjectives which originally imputes
great goodness, to become terms of disparagement"
([72]):
aquela palavra que originalmente designava uma qualidade
positiva, esvazia-se de seu sentido inicial ou passa até
a designar uma qualidade negativa.
Foi o que aconteceu, entre outras, com as
palavras (de especial interesse para este trabalho) "prudente"
e "prudência".
Atingida ao longo dos séculos pelo
subjetivismo metafórico e pelo gosto pelo eufemismo
([73]),
já não designa hoje a grande virtude, mas sim a
conhecida cautela (talvez oportunista, ambígua e
egoísta) ao tomar (ou ao não tomar...)
decisões.
Observação similar era
registrada, já em 1926, por
Garrigou-Lagrange:
"Une étude sur la prudence ne
présente au premier abord pour beaucoup de lecteurs
qu'un médiocre intéret. Plusiers pensent
peut-être à monsieur Proudhomme, d'autres songent
à une vertu qui consiste surtout à ne pas agir,
dès qu'il y a quelque risque à courir: `Soyons
prudents, pas d'affaires'. Et de fait, dans plusieurs
dictionnaires, la définition qui est donnée de la
prudence fait penser à cette sorte de vertu toute
négative, qui n'a guère de la vertu que le nom.
La prudence serait-elle une qualité negative?'"
([74]).
Em Tomás, pelo contrário, prudentia expressa exatamente o contrário da
indecisão: é a arte de decidir-se corretamente,
isto é, com base não em interesses interesseiros
e oportunistas, em sentimentos piegas, em temores, em
preconceitos etc., mas, unicamente, com base na realidade: pelo límpido conhecimento do
ser.
Desse modo, para Tomás, a
prudência leva-nos a tomar corajosa e prontamente o
partido do que é justo (uma sentença que, no
sentido que as palavras adquiriram hoje, tornou-se,
literalmente, incompreensível para nós). É
evidente, assim, que a prudência é uma virtude
intelectual: é a atitude firme da inteligência que
não se deixa subornar nem distorcer a sua capacidade de
ver a realidade. E o homem prudente, além disso,
transforma essa realidade percebida em decisão de
ação. Por isso, Tomás confere a essa
virtude o incomparável posto de primeira entre as
virtudes cardeais.
Assim, embora os dicionários
Latim-Português continuem a trazer prudência como a tradução de prudentia, esta
última é a grandiosa virtude que expressa a arte
de decidir-se com base no conhecimento objetivo da realidade,
ao passo que a nossa prudência possa designar a
indecisão, que pondera tudo, exceto aquilo que a
realidade efetivamente exige de um homem reto ([75]).
Certamente, este fenômeno transcende o
âmbito da linguagem e remete a um empobrecimento
existencial do próprio homem, na medida em que (como
analisaremos no cap. V), nossa possibilidade de
percepção do mundo e de vivência de
atitudes está fortemente condicionada pela
existência de uma linguagem viva (que, por outro lado,
só se mantém viva e presente, na medida em que as
realidades para as quais aponta a linguagem interessam à
comunidade falante ([76])).
Estas observações são
necessárias, na medida em que trataremos, neste
trabalho, de alguns conceitos fundamentais da filosofia de
Tomás.
[1].
Para efeitos de índice, iremos numerando, com o sinal #,
seguido do número, os provérbios árabes
citados neste trabalho. O provérbio acima é o de
número 3372 da coletânea de FREYHA, Anis A Dictionnary of Modern Lebanese Proverbs, Beirut,
Librairie du Liban, 1974. Também não nos foi
narrado o antológico diálogo entre Leila e seu
pai:
- De quantos soldados, papai, se compunha
aquele exército numeroso, tão belamente descrito
por meu avô nestes versos: "Era um exército
multicolorido e garboso cuja cabeça fazia sua entrada em
Damasco, enquanto sua retaguarda ainda não se havia
movido de Medina?"
- Precisamente eu me encontrava nele, minha
filha. Éramos quatro: eu, meu filho e dois escravos (in
CHALITA, Mansour As Mais Belas Páginas da
Literatura Árabe, Rio de Janeiro, A.C.I.G., 1973, p.
226).
[2].
Aconteceu com meu avós, literalmente, o que descreve
Helmi Nasr: "Há uma semelhança entre o povo
brasileiro e os árabes: os dois são espirituais e
sabem valorizar a amizade, a cordialidade, a harmonia das
relações humanas; sabem ajudar, sacrificar-se,
ser generosos. Eu vivi muitos anos na Europa e sempre me senti
estrangeiro; já no Brasil, desde o primeiro dia,
senti-me em casa. O brasileiro é muito acolhedor e
não está imerso no materialismo como alguns
europeus. Aqui, o árabe está tão à
vontade que acaba se esquecendo de voltar; um árabe
chega para ficar, digamos dois ou três anos, e não
quer voltar, acaba ficando trinta ou quarenta anos, a vida
toda..." (Entrevista à Revista de Estudos
Árabes, São Paulo, v.1, n.2, p.
14).
No início, meus avós ainda
protestaram (inutilmente e, no fundo, simbolicamente), quando
começaram os casamentos (e não só de seus
filhos nascidos no Líbano...) com "brasileiras". E - Al-hamdu lillah! - esqueceram-se também das
profundas divergências religiosas, cultivadas no Oriente,
dando plena aprovação ao casamento de seus filhos
Jan, (rumm, ortodoxo) e Rosa (de arraigada
tradição maronita). Só quarenta anos
depois desse enlace, vim a conhecer o terrível mathal:
(#2) "(É muito mais fácil
que se necessite como ingrediente) o alho na knafah do
que o amor entre uma maronita e um rumm".
(FREYHA, Anis A Dictionnary...,
No. 685). Knafah é o conhecido doce cujos
ingredientes são: queijo, semolina, manteiga e muito
açúcar. "Alho na knafah" equivale ao nosso
"No dia em que a galinha criar dentes...".
[3]. Oriente e Ocidente: Língua e Mentalidade, S.
Paulo, Centro de Estudos Árabes FFLCH-USP / APEL, 1993,
p. 17, (em co-autoria).
[4].
"Oriente e Ocidente: Língua e Mentalidade" Revista de Estudos Árabes São Paulo,
Centro de Estudos Árabes FFLCH-USP, v.1, n.1, jan./jun.
1993, p.64, (em co-autoria).
[5].
É o provérbio de número 138 da
coletânea de FEGHALI, Michel Proverbes et Dictons
Syro-Libanais, Paris, Institut d'Ethnologie, 1938.
[6].
Emprego a expressão "forma de pensamento" no sentido
lohmanniano, que discutimos no Cap. I do presente
trabalho.
[7].
172 provérbios numerados linearmente (ao #38 - do
Alcorão -, seguem-se #38a, #38b, #38c e #38d).
[8],
Os estudos sobre a virtude da prudência e suas partes quasi integrais, a raiz m-th-l no Alcorão,
diversos aspectos da reflexão sobre
educação moral etc.
[9].
Publicações do Centro de Estudos Árabes da
FFLCH-USP.
[11].
"Moral" (tal como era entendida...) não condizia com o
espírito libertário pós-68 e
provérbios, enquanto cultura popular, era também
objeto de preconceitos por parte do pedantismo das "elites"
...
[12].
GARCIA HOZ, Victor Pedagogia Visível -
Educação Invisível, São Paulo,
Nerman, 1988, pp. 28-29.
[14].
LUNDE, Paul & WINTLE, Justin A Dictionary of
Arabic and Islamic Proverbs, London, Routledge & Kegan
Paul, 1984, p. vii.
[15].
E não que o árabe não disponha de
provérbios de formato ocidental (e vice-versa).
[16]. Oriente e Ocidente: Sentenças de Sabedoria dos
Antigos, São Paulo, DLO-FFLCHUSP / EDIX, 1994, p.
49
[17].
Feghali estava, então, radicado na França (nota
nossa).
[18].
FEGHALI, Michel Proverbes et Dictons..., p. XI.
[19].
Embora ocidental, Tomás - leitor e amante da
Bíblia - soube compreender o significado e o alcance da
Pedagogia do mathal semita e sua filosofia ajusta-se sob
medida a essa proposta educacional. Veja-se - a
propósito das relações entre prudentia e amthal na Bíblia - o Apêndice 7.
[20].
Além, é claro, de uma opção
filosófica pessoal, no sentido em que fala Josef Pieper:
"É de Fichte a afirmação: `A Filosofia que
se escolhe depende do homem que se é'. A
formulação não é muito feliz, pois
não se trata de `escolher' uma Filosofia. Em todo caso,
é claro e acertado o que o autor pretende dizer com
isso. No próprio campo do saber natural, as coisas
não se processam de modo que baste forçar um
pouco a cabeça para entrar na posse de uma verdade. Isso
vale mais ainda quando essa verdade se relaciona com o sentido
do mundo e da vida. Aí, com maior razão,
não basta ter uma "boa cabeça", é preciso
ser algo como homem, como pessoa" (Was heisst
Philosophieren?, 8. Aufl., München, Kösel, p.
109).
[21].
Como dissemos alhures: "Atualidade não significa
necessariamente `estar ocorrendo faticamente' (e, menos ainda,
`estar de moda'); trata-se, no caso, da atualidade do
complementar, daquilo que deveria estar ocorrendo. Nesse
sentido, para nossa época - que progrediu tanto em
Ciência e Tecnologia, mas não em Sabedoria e
Ética -, pode ser muito oportuno o diálogo com
Tomás" LAUAND, L. J. Tomás de Aquino Hoje,
Curitiba-S. Paulo, PUC-PR - GRD, 1993, p. 11. Não se
trata, portanto, de uma perspectiva de história (e menos
ainda de arqueologia...) das idéias.
[22].
Veja-se a este respeito, por exemplo, PIEPER, Josef
"Sobre a Linguagem da Filosofia" in LAUAND, L. J. Filosofia e Linguagem Comum, Curitiba, PUC-PR,
1990; LAUAND, L. J. Tomás de Aquino,
Hoje, cap. "Método e estilo de Tomás",
Curitiba, PUC-PR, 1993 e "A linguagem comum" in O que
é uma Universidade - Introdução à
Filosofia da Educação de Josef Pieper,
São Paulo, EDUSP/Perspectiva 1987.
[23].
Por isso, Tomás sempre está atento à
sabedoria escondida na linguagem do povo, buscando nela a
transparência. Um exemplo entre tantos: já na
primeira questão da Suma Teológica, ao
procurar caracterizar o que é a sabedoria, Tomás
explica que a sabedoria não deve ser entendida somente
como conhecimento que advém do frio estudo, mas como um
saber que se experimenta e saboreia. Sempre muito atento aos
fenômenos da linguagem, à fala do povo, como fonte
de profundas descobertas filosóficas, encanta-se com o
fato - para ele experiência pessoal vivida - de que em
latim sapere signifique tanto "saber" como "saborear".
Esta coincidência de significados na linguagem do povo -
Tomás bem o "sabe" - não é casual: se
há quem saiba por que estudou, verdadeiramente
sábio é aquele que sabe porque saboreou...
[25].
Prólogo a PIEPER, Josef Lesebuch,
München, Kösel, pp. 5-6.
[26].
Surpreendente, para certos setores que insistem em ignorar que
S. Tomás não é "essencialista"... Ligado,
precisamente, a este ponto está o Apêndice
6: "A filosofia de Tomás como metafísica do
concreto: o actus essendi".
[28].
BUSA, Robert "Santo Tomás: O primado do
sensível" Trinta Dias, São Paulo,
Editbrás, Ano IX, No. 5., maio 1995, pp. 20 e ss.
[29].
O cidadão comum não estudou arquitetura, mas sabe
que não lhe serve uma casa em que, por exemplo, a porta
da rua se abra diretamente para a cozinha, e em que esta se
comunique sem divisórias com o banheiro; em que a adega
esteja a céu aberto no terraço etc. Já a
filosofia de Tomás assemelha-se ao trabalho do
sábio arquiteto, que aplica a sua competência
profissional e o seu senso artístico para realizar
aquilo que, afinal de contas, coincide com o bom senso do homem
comum: cozinha é cozinha; banheiro é banheiro!
Tudo de acordo com a realidade humana.
[30].
Retomando alguns princípios que fizemos constar
já no "Prólogo" de Oriente e Ocidente:
Língua e Mentalidade..., volume I de uma
coleção - atualmente em seu número 10 -
voltada precisamente para esse grande diálogo...
[31].
Aponta-nos, nesse sentido, o Prof. Nilson José Machado,
os três preconceitos formulados por Gardner: westism, testism, bestism (o do
ocidentalismo, o de que toda a realidade pode ser apreendida
por meio de testes e o de que, simplesmente, somos os
melhores).
[32].
Com isso surge aquilo que parece ser um outro pressuposto do
diálogo, ou, pelo menos, o seu tom: o bom humor, que,
afinal, é distância crítica em
relação a si mesmo e antídoto contra
qualquer fanatismo...
[33].
"Filosofia e Ciência Árabes e o Ocidente Medieval" Revista de Estudos Árabes São Paulo,
Centro de Estudos Árabes FFLCH-USP, v.2, n.3, jan./jun.
1994.
[34].
A propósito do relativismo, em seu capítulo "O
valor", I. M. Bochenski lembra a oportuna
distinção entre valor / avaliação
(e a paralela verdade / conhecimento). Relativos são as
avaliações (e os conhecimentos) mas não os
valores (e a verdade): "Nossas avaliações podem
mudar e muita coisa que aqui é considerada boa é
em outros lugares considerada má. (...) Os antigos
egípcios, por exemplo, tinham uma fórmula para o
cálculo da superfície do triângulo que
é, evidentemente, falsa do ponto de vista de nossa
geometria; e utilizaram-se dessa fórmula durante
séculos. Demonstra isto que haja duas fórmulas
verdadeiras para se calcular a superfície do
triângulo? Absolutamente não... isto só
demonstra que os homens daquele tempo ainda não tinham
descoberto a fórmula certa. O mesmo se dá com os
valores. A avaliação - que é a nossa
visão dos valores e nossa reação ante os
mesmos - é algo bem diferente dos próprios
valores. As avaliações que os homens fazem
são mutáveis, relativas, instáveis, mas os
valores, estes são eternos e imutáveis". Diretrizes do pensamento filosófico, São
Paulo, Herder, 1967, pp. 73-74.
[35].
E dos cacoetes,viseiras e preconceitos coletivos de cada
época e cultura.
[36].
"A propósito de provérbios franceses
medievais" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente:
Idade Média - Cultura Popular, São Paulo,
EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1995, pp. 19-20.
[37].
GARCIA HOZ, Victor Pedagogia visível...,
pp. 16-17.
[39].
GARCIA HOZ, Victor Pedagogia visível...,
pp. 18-19.
[40].
O referencial teórico, no caso, é o estabelecido
pelo filósofo alemão contemporâneo
Johannnes Lohmann.
[41].
Os sentidos internos são: sentido comum (central),
imaginação, memória e estimativa (no
homem, cogitativa). Um excelente tratamento do tema encontra-se
em ROYCE, James E. Man and his Nature, New York,
Mc Graw-Hill, 1961. Para este, como para outros tópicos
elementares da filosofia de Tomás, indicamos
também: MILLÁN PUELLES, Antonio Fundamentos de Filosofia. 7ª. ed., Madrid, Rialp,
1970 e FRAILE, Guillermo "El siglo XIII" in História de la Filosofia vol. II, 2a. ed.,
Madrid, BAC, 1966.
[42].
Do mesmo modo, para assuntos auxiliares da filosofia moral de
Tomás, recorremos às obras de PIEPER - Das Viergespann, München, Kösel, 1964; Die Wirklichkeit und das Gute, München, Kösel,
5ª. ed., s.d. e Menschliches Richtigsein. Die
Kardinaltugenden neu bedacht. Freiburg, IBK, 1980 - e
RAMÍREZ, Santiago M. La Prudencia
Madrid, Palabra, 1982, 2a. ed.
[45].
Retomando considerações que fiz em "Um Aspecto
Árabe no Filosofar de Pieper - Linguagem e Pensamento
Confundente na Metodologia do Filosofar de Josef Pieper" in
LAUAND, L. J. (org.) Oriente & Ocidente: Filosofia e
Arte, São Paulo, DLO-FFLCHUSP, 1994.
[46].
Da filosofia praticada por um Tomás de Aquino ou por um
Pieper.
[48].
"Was ist `dieses' überhaupt und im letzten Grunde?"
PIEPER Was heisst Philosophieren, München,
Kösel, 1980, 8a. ed., p. 63. Na mesma linha de
Platão, Teeteto 175.
[49].
A conhecida sentença de Whitehead ("Remarks" Philosophical Review 46, 1937, p. 178),
freqüentemente citada por Pieper.
[50].
Não esqueçamos, por outro lado, que precisão - etimológica e realmente -
significa recorte. A ciência é precisa, na medida
em que diz: "interessa-me este aspecto da realidade (e o resto
não me interessa)"; já o filósofo, quando
pergunta por uma realidade - por exemplo, "o que é o
homem?" -, ele não se restringe a um determinado ponto
de vista, mas abre-se omnidimensionalmente ao ser, ao que, em
si e em seus últimos fundamentos, tal realidade (o
homem, a arte, a vida, ou o que for) é.
[51].
"Ich meine mit dem philosophischen Fragen einen existentiellen,
in der Mitte des Geistes sich zutragenden Vorgang, einen
spontanen, dringlichen, gar nicht zu unterlassenden Akt des
inneren Lebens". Verteidigungsrede für die
Philosophie, München, Kösel, 1966,
p.28
[52].
"Insight and Wisdom in Philosophy", prefácio a PIEPER Leisure the Basis of Culture, London, Faber & Faber,
1952, p. 16.
[53].
"Experiência é conhecimento com base no imediato
contato com a realidade", um sentido muito mais rico do que o
que lhe é conferido por um cientificismo que identifica
experiência com aquilo que possa ser expresso
científica ou protocolarmente. PIEPER Verteidigungsrede... p. 116 e ss.
[54].
PIEPER Offenheit für das Ganze, Essen,
Fredebeul & Koenen, 1963, p.7.
[55].
PIEPER, Josef Abertura Para o Todo: a chance da
universidade, São Paulo, Apel, 1989, p. 21. Pieper
aponta como depositários dessa experiência: a
linguagem, as instituições e os modos de agir
humanos, todos presentes nesta nossa análise.
[56]. Über die Schwierigkeit heute zu glauben,
München, Kösel, 1974, p. 25.
[57].
Citada por ROYCE, James E. Man and his Nature, New
York, Mc Graw-Hill, 1961, p. 5.
[58]. S. Theol. I,1,5 ad 1. Tomás nos conduz a uma
inversão do cientificismo: só podemos ter
precisão, clareza e expressar protocolar ou
operacionalmente realidades de menor importância.
Já o pouco e não-claro conhecimento que podemos
ter na Filosofia da Educação é sumamente
relevante.
[59].
Ao final de seu Qu'est-ce que la philosophie. In Os
Pensadores vol. XLV (Sartre-Heidegger). São Paulo,
Abril, 1973.
[60].
É este o procedimento de Aristóteles quando trata
das máximas (e, também, ao longo de toda a sua Retórica).
[61].
Edição da Zerosoft, Ver 1.00, 1992
(disponível na rede Internet). Feita com base na
edição (e comentários) de Al-Jalalin,
Damasco, Al-Malah, 1960 e na edição em
inglês de ALI, A. Yusuf, Amana COrp., 1989.
[62].
Também no sentido de cansativa... Tenha-se em conta que,
pelo fenômeno árabe da flexão de
raízes, cada forma flexionada ou unida a
partículas como bi, fa, ka etc.
constitui busca independente...
[63].
Da CIB (Maredsous, 1990) com programa FindIT, da Marpex,
Ontario, 1992.
[64].
Além de serem autores extremamente criteriosos,
apresentam edições bilíngües -
Feghali (árabe/francês) e Freyha
(árabe/inglês) - com comentários.
[65].
Um excelente estudo sobre as peculiaridades do Líbano
(também no que se refere aos amthal), encontra-se
em HANANIA, Aida R. "O Líbano e a Montanha - Vozes da
Montanha" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: O
Literário e o Popular, São Paulo,