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APÊNDICE
1. O uso de "mathal" / "amthal" no Alcorão
Neste tópico, apresentamos os
usos que o Alcorão faz de mathal/amthal.
02, 017 Eles
são semelhantes (mathaluhum kamathali) a quem é
iluminado pelo fogo. Mas Allah lhes tira a luz e os deixa em
trevas...
02, 171 Os
incrédulos são como (mathalu... kamathali) gado
que só percebe um chamado, um grito: são
surdos...
02, 214 (Para entrar
no Jardim) tereis de passar pelo mesmo (mathal) que passaram
os que vos precederam...
02, 261 Aqueles que
gastam sua fazenda por Allah são semelhantes (mathalu...
kamathali) a um grão que produz sete espigas e cada uma
cem grãos...
02, 264 Esse é
semelhante (famathaluhu kamathali) a uma rocha coberta de
terra. Vem o aguaceiro e a deixa nua...
02, 265 Aqueles que
gastam sua fazenda pelo desejo de agradar a Allah... são
semelhantes (mathalu... kamathali) a um jardim plantado em uma
colina. Se cai sobre ele um aguaceiro dá fruto em dobro; se
não cai, é aguado pelo orvalho...
03, 059 (Inna)
Para Allah, Jesus é semelhante a Adão (mathala...
kamathali)...
03, 117 (Os que
não crêem...) O que gastam nesta vida é
semelhante (mathalu... kamathali) a um vento glacial que
destrói a colheita...
07, 176 (Aquele a
quem em vão demos nossos sinais...) Com ele acontece algo de
semelhante (famathaluhu kamathali) ao que acontece com o
cão: que é hostil tanto se o atacas como se o deixas em
paz. Isso mesmo fazem os que renegam nossos sinais.
07, 177 Que mau
exemplo (mathalu) dão os que desprezam nossos
sinais!
10, 024 A vida neste
mundo é como (mathalu) água que fizemos descer
do Céu. As plantas da terra empapam-se (...) mas a uma ordem
nossa voltam a estar secas...
11, 024 Estes dois
tipos são semelhantes (mathalu) a um cego e surdo
comparado a um que vê e ouve. São similares
(mathalan)?
13, 017 Tal como a
espuma que se perde etc. Assim propõe Allah as
comparações (al-amthal).
13, 035 Imagem do
Jardim (Mathalu al-jannati) prometido: fluem arroios, tem
frutos e sombra...
14, 018 As obras dos
que não crêem são semelhantes (mathal) a
cinzas açoitadas pelo vento em um dia de
tormenta...
14, 024 Allah
propôs figuradamente (mathalan) uma boa palavra
semelhante a uma árvore boa, de raiz firme etc.
14, 025
Semelhante a uma árvore boa, de raiz firme etc. Allah
propõe os amthal aos homens. Talvez assim se deixem
admoestar.
14, 045 Vos demos
exemplos (al-amthal) (de castigo dos injustos)...
16, 060 Os que
não crêem na outra vida representam (mathalu) o
mal; para Allah, o Ideal supremo (Al-mathalu
al-a'la).
16, 075 Allah
propõe figuradamente (mathalan): um escravo incapaz
etc. e um homem forte etc. Acaso são iguais?
16, 076 Allah
propõe figuradamente (mathalan): dois homens, um mudo,
incapaz etc. e outro justo, de via reta etc. Acaso são
iguais?
16, 112-113 Allah
propõe em parábolas (mathalan): E conta a
história da cidade próspera que não agradecia a
Allah. Não ouviram o enviado e sofreram um castigo
etc.
17, 048 Olha a que te
comparam (al-amthal)!
18, 032-043 Propõe-lhes a
parábola (mathalan) dos dois homens e dos dois
vinhedos...
18, 045
Propõe-lhes uma parábola (mathala) sobre a vida
presente: é como água que fizemos descer do céu
e a vegetação se empapa, mas depois se converte em erva
seca...
22, 073 Ó
homens, escutai este argumento (mathalun): "aqueles que
invocais, em lugar de invocar a Allah, são incapazes de criar
uma mosca, mesmo que jejuassem".
24, 035 A luz de
Allah é comparável (mathalu) a uma lâmpada
que tem um pavio aceso. O pavio está num recipiente de vidro
etc. Assim propõe Allah as parábolas (al-amthal)
aos homens.
25, 009 Olha a que te
comparam (al-amthal)!
25, 033 (Os infiéis)
Não te propõem nada figuradamente (bimathalin)
que não demos Nós o verdadeiro sentido e a melhor
interpretação.
29, 041 Os que se
acolhem a amigos em vez de se acolher a Allah são como
(mathalu... kamathali) a aranha que faz uma casa. E a casa
mais frágil é a da aranha...
29, 043 (Os que se
acolhem a amigos em vez de se acolher a Allah são como a
aranha que faz uma casa. E a casa mais frágil é a da
aranha...) Propomos estes amthal aos homens, mas não os
compreendem senão os que sabem...
30, 027 Allah
representa o Ideal supremo (Al-mathalu al-a'la).
36, 013 e ss. Propõe-lhes
figuradamente (mathalan) {a longa parábola de
três enviados a uma cidade impenitente...).
39, 029 Allah
propõe figuradamente (mathalan): um homem que pertence
a dois sócios em desacordo e outro que pertence só a
um. São equiparáveis (mathalan)?
43, 008 Já
tendes o exemplo (mathalu) (de castigo de morte)...
43, 017 (Atrevem-se)
a equiparar (mathalan) a Deus...
43, 056 ...é
posto como exemplo (mathalan) para...
43, 057 (Jesus)
é posto como exemplo (mathalan) para...
43, 059 (Jesus)
é posto como exemplo (mathalan) para os filhos de
Israel...
47, 015 Imagem do
Jardim (Mathalu al-jannati) prometido: fluem arroios, tem
frutos e sombra...
57, 020 (A vida
presente é enganosa e efêmera...) Tal como
(kamathali) uma pancada de chuva que faz surgir a
vegetação mas logo volta a secar...
59, 015 (Os
hipócritas são) como (kamathali) os que os
precederam...
59, 016 (Os
hipócritas são) Como (kamathali) o Demônio
quando diz ao homem: "Não creias!". E quando já
não crê, diz: "Eu não sou responsável por
ti. Eu temo a Allah..."
59, 021 Se
tivéssemos feito descer este Qur`an sobre uma montanha,
vê-la-ias fender-se e humilhar-se por temor a Allah. Propomos
aos homens estes amthal.
62, 005 (Os que
renegaram a Torah) são semelhantes (mathalu...
kamathali) a um asno que carrega livros...
66, 010 Allah
põe como exemplo (de castigo) (mathalan) a mulher de
Noé e a mulher de Lot...
66, 011 ...e a mulher
do Faraó
2. Nota sobre a forma e a unidade da filosofia de Tomás
Tomás apresenta uma
impressionante unidade de visão, quando contempla o mundo
material. Para analisar a realidade material, ele parte das
experiências dos fenômenos da unidade de cada ente e das
mudanças substanciais, nas quais ocorre uma mudança de
sujeito: uma coisa A deixa de ser o que é e passa a ser outra
coisa, B.
Nesse caso, B não proveio do
nada (mas, evidentemente, de A) e A não se reduziu ao nada
(deixou de ser A e passou a ser B). Há, portanto, nesses casos
de mudança de substância, algo que permanece e algo que
muda (o que está a indicar que a substância é
composta). O que permanece é a pura potencialidade de ser um
ente físico (matéria prima), atualizada,
em cada caso, por um fator determinante dessa potência que faz
com que A seja A e B seja B: a forma substancial.
Retomando os clássicos
conceitos de Aristóteles, Tomás afirma que a
matéria é potência, enquanto a forma é o
componente ato na constituição de um ente: é
pela forma que um ente é o que é. A pedra é
pedra porque tem forma de pedra; o homem é homem porque tem
forma de homem: "Deve-se considerar que a natureza de algo é
principalissimamente a forma segundo a qual se constitui a
espécie da coisa. Ora, o homem é constituído em
sua espécie pela alma racional" ([1]).
Assim, para Tomás, todo ente
físico é composto de uma intrínseca união
de matéria (a potência de ser ente físico) e
forma (o ato que "atualiza" a matéria). E é tal sua
unidade de consideração do cosmos, que emprega o mesmo
binômio matéria/forma para indicar tanto a
composição substancial de uma pedra quanto a de um
homem. Alma, para Tomás, é simplesmente uma forma, a
forma dos viventes. Uma forma muito especial (daí que
também receba um nome especial), mas uma forma. Desse modo,
pode-se falar em alma de um vegetal, em alma de uma formiga ou de um
cão e em alma humana (no caso, uma alma
espiritual).
A alma, como forma, é um
princípio (ou melhor, um co-princípio, em
intrínseca união com o outro princípio: a
matéria) de composição substancial dos viventes.
É pela alma que se constitui e se integra o vivente enquanto
tal, e ela é também a fonte primeira de seu
agir.
Contra todo dualismo que tende a
separar exageradamente no homem a alma espiritual e a matéria,
Tomás afirma a intrínseca união e mútua
ordenação de ambos os princípios; contra o
"espiritualismo" de Platão, Tomás conclui: "É
evidente que o homem não é só a alma, mas um
composto de alma e de corpo" ([2]).
Tomás aceita tão
completamente o corpo como integrante essencial da realidade do ser
humano, que esta união se projeta até na
operação espiritual que é o conhecimento: "A
alma necessita do corpo para conseguir o seu fim, na medida em que
é pelo corpo que adquire a perfeição no
conhecimento e na virtude" ([3]).
3. Razão,
Natureza e Medida ([4]).
Razão, natureza e medida
são três conceitos importantes para uma melhor
compreensão da moral de Tomás e da virtude da prudentia.
Ratio, razão,
não deve aqui ser entendida como a razão do
"racionalismo", nem sequer somente como a faculdade racional humana.
Dentre os múltiplos significados da palavra latina ratio (que acompanha alguns dos sentidos do vocábulo grego logos), interessam-nos principalmente dois: um que aponta para
algo intrínseco à realidade das coisas; e outro, para
um peculiar relacionamento da razão humana com a
realidade.
Ratio é derivado do verbo reor, contar, calcular
([5]). Ratio originalmente é conta; rationem reddere é prestar contas. Mas ratio significa também:
razão, faculdade de calcular e de raciocinar; juízo,
causa, porquê; essência ([6]);
lista; título, caráter ([7])
etc.
Em filosofia, aparece como
tradução de logos que, como ensina Pierre
Chantraine ([8]),
entre muitos outros significados: "acabou por designar a razão imanente", isto é: a
estruturação interna de um ente, e este é o
primeiro significado que nos interessa neste estudo sobre
Tomás; o segundo é a capacidade intelectual humana de
abrir-se à ratio das coisas e captá-la
([9]).
No âmbito da fé,
não é por acaso, portanto, que S. João emprega,
em seu Evangelho, o vocábulo grego Logos (razão,
palavra) para designar a segunda Pessoa da Ssma. Trindade que "se fez
carne" em Jesus Cristo: o Logos não só é
imagem do Pai, mas também princípio da
Criação (cfr. Apo 3, 14), o responsável pela
articulação intelectual das coisas. Pois a
Criação deve ser entendida também como essa
"estruturação por dentro": projeto, design das
formas da realidade, feito por Deus através do Verbo, Logos. E em seu Comentário ao Evangelho de
João, Tomás chega a discutir a questão da
conveniência de traduzir Logos por Ratio em vez
de Verbum. Esta última forma parece-lhe melhor, pois se
ambas indicam pensamento, Verbum enfatiza a
"materialização" do pensamento (em
criação/palavra) ([10]).
Assim, para Tomás, a
criação é também "fala" de Deus: as
coisas criadas são pensadas e "proferidas" por Deus
([11]):
daí decorre a possibilidade de conhecimento do ente pela
inteligência humana ([12]).
É nesse sentido que a
Revelação Cristã fala da "Criação
pelo Verbo"; e a Teologia - na feliz formulação do
teólogo alemão Romano Guardini - afirma o
"caráter verbal" (Wortcharakter) de todas as coisas
criadas.
Próximo do conceito de
razão está o de natureza. Se ratio acentua o
caráter de pensamento, estruturação racional do
ser, natureza indica o ser enquanto princípio de
operações (falar, pensar, amar, germinar, digerir,
latir, etc.).
Não por acaso, natureza deriva de natus, do verbo nascer (nascor). Se agimos
como homens é porque nascemos homens e não ratos.
Natureza humana é, assim, o ser que o homem recebe de
nascença.
A "natureza", especialmente no caso
da natureza humana, não é entendida por Tomás
como algo rígido, como uma camisa de força
metafísica, mas como um projeto vivo, um impulso
ontológico inicial (ou melhor, "principial"), um
"lançamento no ser", cujas diretrizes fundamentais são
dadas precisamente pelo ato criador que, no entanto, tem de ser
completado pelo agir livre e responsável do homem.
Esse caminho moral é
percorrido, exercendo a liberdade de praticar o bem e, assim,
realizando sua própria natureza. Mas, o bem remete à
verdade: à ratio da realidade que a razão
prudente capta, propondo à vontade, sua
realização.
Resta falar algo sobre o conceito de
medida em Tomás.
Embora quantidade e qualidade sejam
categorias distintas, a linguagem atesta uma certa permeabilidade
entre o quantitativo e o qualitativo.
Na filosofia de Tomás,
encontramos um uso qualitativo da palavra mensura. "Medida"
como conceito ontológico - ensina Pieper -, significa algo
qualitativo, algo que pertence ao âmbito da forma substancial.
Além disso, encerra uma espécie de causalidade". Essa
causalidade é a causalidade formal externa, a do modelo, a do
projeto, prévia, primeira, da qual o objeto produzido
de acordo com o projeto é algo segundo, segundo o
projeto.
Assim, a forma na coisa é
somente causa formal interna (daí que Tomás fale de imitatio), segundo, de acordo com a causa formal
externa.
4. Trinta sentenças de
Tomás ([13]).
1. A razão reproduz a
natureza.
Ratio imitatur naturam (I,60,5).
2. A causa e a raiz do bem humano
é a razão.
Causa et radix humani boni est
ratio (I-II,66,1).
3. "Natureza" procede de
nascer.
Natura a nascendo est dictum et
sumptum (III,2,1).
4. A palavra natureza se impôs
primeiramente para significar a geração dos seres
vivos, que se chama nascimento. E como tal geração
provém de um princípio intrínseco, estendeu-se o
uso da palavra para significar princípio intrínseco de
qualquer mudança. Sendo tal princípio formal ou
material, tanto a matéria quanto a forma são comumente
chamadas natureza. Mas como é pela forma que se perfaz a
essência de uma coisa qualquer, a essência, que é
expressa na definição, é comumente chamada
natureza.
Nomen naturae primo impositum est
ad significandam generationem viventium, quae dicitur nativitas. Et
quia huiusmodi generatio est a principio intrinseco, extensum est hoc
nomen ad significandum principium intrinsecum cuiuscumque motus. Et
quia huiusmodi principium est formale vel materiale, communiter tam
materia quam forma dicitur natura. Et quia per formam completur
essentia uniuscuiusque rei, communiter essentia uniuscuiusque rei,
quam significat eius definitio, vocatur natura (I,29,2 ad
4).
5. A reta ordem das coisas coincide
com a ordem da natureza; pois as coisas naturais se ordenam a seu fim
sem qualquer desvio.
Rectus ordo rerum convenit cum
ordine naturae; nam res naturales ordinantur in suum finem absque
errore (CG 3,26).
6. O intelecto é naturalmente
apto a entender tudo o que há na natureza das
coisas.
Intellectus... natus est omnia quae sunt in rerum natura
intelligere (CG 3,59).
7. Os princípios da
razão são os mesmos que estruturam a
natureza.
Principia... rationis sunt ea quae
sunt secundum naturam (II-II,154,12).
8. O primeiro princípio de
todas as ações humanas é a razão e
quaisquer outros princípios que se encontrem para as
ações humanas obedecem, de algum modo, à
razão.
Omnium humanorum operum principium
primum ratio est, et quaecumque alia principia humanorum operum
inveniantur, quodammodo rationi obediunt (I-II,58,2).
9. Aquilo que é segundo a
ordem da razão quadra naturalmente ao homem.
Hoc... quod est secundum rationem
ordinem est naturaliter conveniens homini (II-II,145,3).
10. A razão é a
natureza do homem. Daí que tudo o que é contra a
razão é contra a natureza do homem.
Ratio hominis est natura, unde
quidquid est contra rationem, est contra hominis naturam (Mal.
14,2 ad 8).
11. A vontade não tem
caráter de regra suprema, mas é uma regra que recebe
sua retidão e orientação da
razão.
Voluntas... non habet rationem
primae regulae, sed est regula recta; dirigitur enim per rationem (Ver. 23,6).
12. O bem do homem enquanto homem
está em que a razão seja perfeita no conhecimento da
verdade e em que os apetites inferiores se regulem pela regra da
razão. Pois, se o homem é homem, é por ser
racional.
Bonum hominis, inquantum est homo,
est: ut ratio sit perfecta in cognitione veritatis et inferiores
appetitus regulentur secundum regulam rationis. Nam
homo habet, quod sit homo, per hoc, quod sit rationalis (Virt. comm., 9).
13. Tudo o que é imperfeito
tende à perfeição.
Omne autem imperfectum tendit in perfectionem (I-II,16,4).
14. A ordem se encontra primariamente
nas próprias coisas e delas é que passa para nosso
conhecimento.
Ordo autem principalius invenitur
in ipsis rebus et ex eis derivatur ad cognitionem nostram (II-II,26,1 ad 2).
15. As próprias coisas
são causa e medida de nosso conhecimento.
Ipsae res sunt causa et mensura
scientiae nostrae (Pot. 7,10 ad 5).
16. A verdade do intelecto humano tem
sua regra e medida na essência da coisa. Uma opinião
é verdadeira ou falsa de acordo com o que a coisa é ou
não é.
Veritas intellectus humani
regulatur et mensuratur ab essentia rei; ex eo enim quod res est vel
non est, opinio est vera vel falsa (Spe I ad 7).
17. O intelecto humano recebe sua
medida das coisas, de tal modo que um conceito do homem não
é verdadeiro por si mesmo, mas se diz verdadeiro pela
consonância com a realidade.
Intellectus humanus est mensuratus a rebus: ut scilicet
conceptus hominis non sit verus propter seipsum; sed dicitur verus ex
hoc quod consonat rebus (I-II,93,1 ad 3).
18. (Qualquer criatura...) Por ter
uma certa forma e espécie representa o Verbo, porque a obra
procede da concepção de quem a projetou.
(Quaelibet creatura... secundum
quod) habet quamdam formam et speciem, repraesentat Verbum: secundum
quod forma artificiati est ex conceptione artificis (I,45,8).
19. O conhecimento de Deus é a
medida das coisas: não quantitativa, mas porque mede a
essência e a verdade da coisa. Pois uma coisa tanto tem de
verdade em sua natureza, quanto reproduz o conhecimento de Deus; do
mesmo modo que um objeto artificial em relação a seu
projeto.
Scientia Dei est mensura rerum:
non quantitativa (...) sed quia mensurat essentiam et veritatem rei.
Unumquodque enim intantum habet de veritate suae naturae, inquantum
imitatur Dei scientiam: sicut artificiatum, inquantum concordat
arti (I,14,12 ad 3).
20. Diz Avicena que "a verdade de uma
coisa é a característica própria do ser que lhe
foi estabelecida" ... enquanto segue a razão própria
que dela existe na mente divina.
Dicit Avicenna quod "veritas rei
est proprietas esse uniuscuiusque rei quod stabilitum est ei"...
inquantum propriam sui rationem quae est in mente divina,
imitatur (CG I,60).
21. Deve-se considerar que a natureza
de algo é principalissimamente a forma segundo a qual se
constitui a espécie da coisa. Ora, o homem é
constituído em sua espécie pela alma racional.
Daí que aquilo que é contra a ordem da razão
seja propriamente contra a natureza do homem enquanto tal.
Considerandum est quod natura
uniuscuiusque rei potissime est forma, secundum quam res speciem
sortitur. Homo autem in specie constituitur per animam rationalem. Et
ideo id quod est contra ordinem rationis, proprie est contra naturam
hominis, inquantum est homo (I-II,71,2).
22. Para cada ente, bom é
aquilo que é adequado à sua forma; mau, o que fica fora
da ordem de sua forma.
Unicuique ... rei est bonum, quod
convenit ei secundum suam formam; et malum, quod est ei praeter
ordinem suae formae (I-II,18,5).
23. Diferem a apreensão dos
sentidos e a do intelecto: ao sentido, compete apreender este
colorido; ao intelecto, a própria natureza da cor.
Et sic differt aprehensio sensus et intellectus; nam
sensus est apprehendere hoc coloratum, intellectus autem ipsam
naturam coloris (Ver. 25,1).
24. A plenitude de toda a natureza
corporal depende, de certo modo, da plenitude do homem.
Ex consummatione igitur hominis
consummatio totius naturae corporalis quodammodo dependet (Comp.
Theol. I,148).
25. O moral pressupõe o
natural.
Naturalia praesupponuntur
moralibus (Corr. Frat. I ad 5).
26. A graça não suprime
a natureza, aperfeiçoa-a.
(Cum enim) gratia non tollat
naturam , sed perficiat (I,8,1 ad 2).
27. A consciência é
chamada de lei do nosso intelecto porque é o juízo da
razão deduzido da lei natural.
Conscientia dicitur esse
intellectus nostri lex, quia est iudicium rationis ex lege naturali
deductum (Ver. 17,1 ad 1).
28. É da essência da
virtude que ela vise ao máximo.
Ad rationem virtutis pertinet, ut respiciat ultimum (II-II,123,4).
29. O pecado contraria a
inclinação natural.
Peccatum est contra naturalem
inclinationem (I,63,9).
30. Tudo que vá contra a
razão é pecado.
Omne quod est contra rationem...
vitiosum est (II-II,168,4).
5. A proposta pedagógica de
Tomás de Aquino no De modo studendi
A dimensão moral da
educação mostra-se - breve e claramente - num texto de
Tomás, que apresentamos e comentamos a seguir: o De modo
studendi.
O De modo studendi ([14])
é uma carta de autoria de Tomás de Aquino
([15]),
aconselhando sobre o modo de estudar. O destinatário é
um tal "irmão João", um dominicano jovem, iniciando
seus estudos, e afoito por mergulhar no "oceano da sabedoria",
resolveu escrever ao mestre consumado, perguntando sobre
atalhos.
Tomás, que - no Comentário à Ética de Aristóteles - afirma ser o tempo o grande colaborador (bonus cooperator),
começa por responder ao impaciente Frei João que
não há atalhos, mas caminhos: pelos riachos é
que se chega ao mar e o "difícil deve ser atingido a partir do
fácil" (DMS, intr.).
Há, no que se refere à
vida intelectual, uma ordo, uma dinâmica própria
do conhecimento, daí que o Aquinate compare o sábio ao
arquiteto. Certamente, essa ordo exige uma
ordenação do próprio objeto de estudo: do mais
fácil para o mais difícil; do riacho para o alto mar.
Mas a aquisição do tesouro do saber exigirá
também uma ordenação interior do sujeito que
estuda. A essa ordo interius referem-se os conselhos do De
modo studendi. Afinal, o conhecimento da realidade é, para
Tomás, o objetivo da educação, e mais, a
própria realização do homem.
Assim, o De modo studendi é um espelho em que se reflete uma concepção de
educação totalmente diferente da que prevalece em nosso
tempo. Se um grande educador de hoje fosse consultado sobre "o modo
de estudar" ou sobre como "adquirir conhecimentos", certamente sua
reposta dirigir-se-ia a questões técnicas,
programático-curriculares, motivacionais...: o conhecimento
é, para nós, compartimentado, separado da
existência. Já Tomás, que pensa no saber como
algo integrado à existência, ante as mesmas perguntas,
aconselha "sobre como deve ser tua vida" (DMS,
intr.).
Se o objetivo da escola, hoje,
é formar o bom profissional, ou, quando muito, "educar para a
cidadania" ou formar para uma análise crítica do mundo;
os conselhos de Tomás, no século XIII, incidem sobre a
própria estrutura nuclear íntima do ser
humano.
Se a sabedoria não
pressupõe só uma dimensão intelectual, mas
está integrada ao todo da existência, não
é de estranhar, que, dentre os conselhos dados por
Tomás sobre o modo de estudar, encontremos a
exortação ao silêncio, à vida de
oração, à amabilidade, à humildade,
à pureza de consciência, à
santidade...
Nesse sentido, deve-se observar
também que o alcance semântico da própria palavra studium em latim é muito mais abrangente do que a nossa estudo. Studium significa amor, afeição,
devotamento, a atitude de quem se aplica a algo porque ama e,
não por acaso, esse vocábulo acabou especializando-se
em dedicação aos estudos. Assim, o
próprio título do opúsculo de Tomás Sobre o modo de estudar, sugere algo assim como: Sobre o
modo de aplicar-se amorosamente...
E, na verdade, o que Tomás
propõe - como pressuposto dessa abertura para a realidade -
é nada menos do que ascese de relacionamento do homem com Deus
(cfr. p. ex. DMS, 3), com os outros (cfr. p. ex. DMS,
5) e consigo mesmo (cfr. p. ex. DMS, 12).
Na visão compartimentada do
conhecimento que temos hoje, esperamos que nosso aluno demonstre
teoremas, calcule empuxos, balanceie equações
químicas, escreva redações sugestivas e conjugue
corretamente os verbos; o que ele é enquanto homem, isto
é lá com ele... Já para Tomás, como se
vê no De modo studendi, alguém dedicado ao estudo
deve, antes de mais nada, cuidar das atitudes da alma.
Talvez não haja nada mais
oposto ao espírito de nosso tempo do que os conselhos de
Tomás que recomendam o cultivo do silêncio. E, no
entanto, trata-se - como explica, a seguir, Josef Pieper
([16])-
de uma das regras fundamentais da vida intelectual e da vida do
espírito, desde que entendamos o mundo como mathal.
"Só quem cala ouve. Se
alguém me perguntasse pelas regras fundamentais da vida
intelectual e da vida espiritual, antes de mais nada dar-lhe-ia essa
frase para meditar.
À primeira vista, é um
lugar-comum: é óbvio que não se pode
simultaneamente falar e ouvir o que diz outra pessoa.
No entanto, essa sentença vai
além do âmbito meramente "acústico". Trata-se de
algo mais do que simplesmente calar a boca: também no
relacionamento normal com os homens exige-se um Silêncio mais
profundo - caso deva a palavra do outro verdadeiramente
alcançar-nos; mais ainda, caso deva atingir-nos o
coração o grito de socorro talvez completamente mudo de
uma pessoa. Já para isso vale o dito antigo: "Calar e ouvir
é o mais pesado dos trabalhos".
Mas esse pensamento chega ainda mais
perto da existência: aponta como que para um nível mais
profundo. Pois a palavra "entendimento" deriva de "entender"
([17]).
Por "entender" (ouvir) se abrangem todas as formas de captar a
realidade: ouvir tanto quanto ver, e toda espécie de
compreensão e intuição.
Tudo isto - é o que afirma a
frase: "Só quem cala, ouve" - só se realiza sob a
condição de calarmos; também (e especialmente)
quando se está "a sós, consigo mesmo, num quarto" e
nenhuma palavra de um parceiro humano nos reclama a
atenção.
Este Silêncio que aqui nos
é exigido não é, de fato, algo fácil de
ser descrito; sobretudo seu contrário, o
"não-silêncio", tem muitas faces.
Pois a receptividade da
atenção que cala pode ser sufocada pela passividade
(atitude de indiferença, "tanto-se-me-dá") ou pela
suficiência (de quem acha que já sabe tudo: querer
"ensinar o Pai-nosso ao vigário"), suficiência que corta
a palavra à linguagem das coisas; mas também, por
exemplo, por deixar entrar para dentro de si mesmo a barulheira da
rua e do mercado, a ruidosa manchete do dia, o ressoar visual de
vistosas baboseiras. Tudo isso é onipresente e, como todos
sabem, disponível a rodo para qualquer um que busque
"novidades".
O surdo fruto de tudo isto - em
segredo talvez desejado - é que o homem se impede de ouvir.
Mas se o que realmente importa para o homem é poder
ouvir!
Há um calar de ânimo
cerrado, com os lábios crispados; e há também um
silêncio morto. Mas, por natureza, não deve o homem
dirigir seu calar para um mundo igualmente sem palavras: não,
as coisas não são - como pretende um terrível
dito filosófico - mudas.
E a atitude de um silêncio
vazio, conscientemente voltado contra qualquer objeto (...), deve
permanecer sempre estranha para quem quer que compreenda o mundo como
Criação. Criação que se originou da
Palavra que era no princípio, e que apresenta uma mensagem de
mil vozes àquele que ouve calando. Mensagem cuja
percepção traz em si a verdadeira riqueza do
homem.
Apresentamos, a seguir, os conselhos
- muitos deles em forma proverbial - de Tomás no De modo
studendi.
Já que me pediste, frei
João - irmão, para mim, caríssimo em Cristo -,
que te indicasse o modo como se deve proceder para ir adquirindo o
tesouro do conhecimento, devo dar-te a seguinte
indicação: deves optar pelos riachos e não por
entrar imediatamente no mar, pois o difícil deve ser atingido
a partir do fácil. E, assim, eis o que te aconselho sobre como
deve ser tua vida:
1. Exorto-te a ser tardo para
falar e lento para ir ao locutório.
2. Abraça a pureza de
consciência.
3. Não deixes de aplicar-te
à oração.
4. Ama freqüentar tua cela,
se queres ser conduzido à adega do vinho da
sabedoria.
5. Mostra-te amável com
todos, ou, pelo menos, esforça-te nesse sentido; mas, com
ninguém permitas excesso de familiaridades, pois a excessiva
familiaridade produz o desprezo e suscita ocasiões de atraso
no estudo.
6. Não te metas em
questões e ditos mundanos.
7. Evita, sobretudo, a
dispersão intelectual.
8. Não descuides do
seguimento do exemplo dos homens santos e honrados.
9. Não atentes a quem
disse, mas ao que é dito com razão e isto, confia-o
à memória.
10. Faz por entender o que
lês e por certificar-te do que for duvidoso.
11. Esforça-te por
abastecer o depósito de tua mente, como quem anseia por encher
o máximo possível um cântaro.
12. Não busques o que
está acima de teu alcance.
13. Segue as pegadas daquele santo
Domingos que, enquanto teve vida, produziu folhas, flores e frutos na
vinha do Senhor dos exércitos.
Se seguires estes conselhos,
poderás atingir o que queres.
6. A filosofia de Tomás
como metafísica do concreto: o actus essendi
Os resultados da pesquisa de Busa
não chegam a surpreender (muito pelo contrário) a quem
conhece a doutrina do actus essendi do Aquinate. Como dissemos
alhures ([18]):
Com menos de trinta anos,
Tomás realiza uma descoberta revolucionária baseada na
distinção aristotélica entre potência e
ato: a do ato de ser. Será esta noção que
lhe permitirá superar o aparente antagonismo entre
espírito e matéria que dominava o seu tempo e que lhe
permitirá ser, com setecentos anos de antecedência, "o
mais existencialista de todos os filósofos" ([19]).
O fato de uma coisa ser, isto
é, exercer o ser em ato, de ter ato de ser,
é algo único e absolutamente decisivo, mais importante
que o conteúdo, a riqueza de ser, o grau de
perfeição que essa coisa possa apresentar. "O ser
é aquilo que há de mais íntimo em cada coisa, e
o que mais profundamente está inserido em todos os entes"
([20]).
E o que significa ser? Ser é,
antes de mais nada, atividade, ato. Todas as coisas, todos os entes, são antes de mais nada "aqueles que exercem o
ato de ser", fato que já a própria linguagem comum
recolhe: se o presidente é aquele que exerce a atividade de
presidir, o gerente a de gerir, o caminhante a de caminhar, o ente
exerce a de ser. Mas justamente por constituir a primeira atividade,
a mais fundamental - e "a mais maravilhosa", dirá Gilson, um
dos grandes filósofos modernos inspirados em Tomás -, o
ser escapa a qualquer definição: "O ato de ser
não pode ser definido" ([21]).
Não podemos captá-lo pela inteligência e
transformá-lo num conceito, como o fazemos com a
essência de qualquer coisa, porque é anterior a qualquer
idéia: se eu não sou, não posso pensar. O ser
é, e sempre será, um mistério que o homem
não pode esgotar.
Santo Tomás, portanto,
praticamente por humildade, não parte das essências, mas
das coisas, dos entes. Aceita em primeiro lugar o testemunho dos
sentidos: pão é pão; queijo é queijo;
ente é ente.
Ao afirmar a composição essência/ato de ser, Tomás não
considera o ser como algo justaposto, acrescentado a uma
essência ideal, como se a mangueira real fosse igual à
mangueira ideal, só que "além do mais" existindo.
Não, Tomás, com essa composição,
não parte da essência como algo separado ao qual se
agrega o ser; o ato de ser é que é o ponto de
partida, o elemento mais fundamental de todos os entes.
Tomás volta-se, portanto, para
este ente concreto que exerce antes e acima de tudo uma atividade "nuclear" fundamental: ser! E a essência,
neste contexto é a medida (no sentido clássico de mensura, mais formal do que quantitativo) da
recepção do ato de ser. Uma comparação
pode ajudar-nos a entender isto: nos sons realmente emitidos por um
flautista ([22]),
podemos distinguir o ato de soar ([23])
e, por assim dizer, o toar, a nota musical ([24]):
soar e soar como dó, ré, mi, fá, sol, lá
bemol, etc. Na verdade, o soar e o toar estão em
intrínseca união: cada som emitido pelo instrumento vem
unido a uma determinada freqüência que o define como tal
nota, e, inversamente, cada nota realmente emitida soa
([25]).
Ora, também a essência,
longe de ser uma realidade isolada à qual se justaporia o
existir, é entendida por Tomás como intrinsecamente
unida ao ente real e concreto: como de-finição,
de-limitação, de-terminação, isto
é estabelecendo os limites, o fim, o término, da
recepção do ato de ser por este ente concreto. Assim
como o dó, o si bemol e o sol se caracterizam como tais por
receberem o seu soar em tais e tais medidas (no caso, em sentido
quantitativo), este ente tem uma essência: é pedra,
árvore, cão ou homem por receber o actus essendi em tal e tal forma, em tal medida (no caso, em sentido qualitativo,
mais amplo que o quantitativo) ([26]).
"O ser é a atualidade de toda
forma e de todo princípio de operações:
só se podem dar em ato bondade ou humanidade enquanto se
dá o ser. Daí que necessariamente o ser esteja para a
essência como o ato para a potência" ([27]).
7. Nota sobre a prudência e
os amthal na tradição bíblica
Ao longo deste tópico,
recolheremos algumas poucas observações de um erudito
estudo de Spicq sobre o tema ([28]).
Após advertir que boa parte do
que os ocidentais chamam de prudência é, na
Bíblia, designado por Hakimah (sabedoria, sofía), Spicq observa que não há em
hebraico uma palavra própria, de uso constante, para designar
essa virtude: "Cette absence de terme précis est
significative, mais elle tient en partie a la pauvreté du
vocabulaire hébraïque et à son incapacité
relative d'exprimer les notions abstraites" (p.187).
No entanto, a Bíblia expressa
diversos elementos integrantes da prudência, por meio de
raízes cujo sentido original está em torno de: "pesar",
"examinar atentamente", "discernir"... (pp. 188-189).
A "prudência" bíblica,
prossegue Spicq, nunca é especulativa, mas volta-se sempre
para o agir: para o bem viver e para a moral; os mandamentos divinos,
aplicados à ação (p.189). E os jovens devem ser
educados nessa sabedoria prática: "La sagesse pratique ou
prudence n'est donc pas innée; elle se transmet, du moins en
partie, par la tradition, surtout chez les jeunes gens et les
ingénus" (p.192).
Assim, sendo a prudência obra
da razão (da razão que discerne e dirige), um de seus
atos mais autênticos será o de conhecer "O
coração prudente busca o conhecimento" (Pro XV, 14), em
oposição aos loucos, insensatos e néscios
([29])
(p.193). Desse modo, Spicq pode fundamentar (p. 190) o relacionamento
entre prudência e provérbios no Velho Testamento: "Si
l'on trouve sans cesse chez les prophètes des appels de ce
genre: `prêtez l'oreille... écoutez et comprenez', il
n'y a pas lieu de s'étonner qui soit exalté, dans la
littérature sapientielle et les exhortations proprement
morales, le rôle de la connaissance et de la raison dans la vie
du juste. Rien n'est plus significatif à cet égard que
les équivalences redondantes de Pro I:
Proverbes de Salomon, fils de David,
roi d'Israel,
pour connaitre la
sagesse et l'instruction,
pour instruire des
paroles de prudence,
pour
acquérir une instruction raisonnée
de la justice, de
l'équité et de la droiture;
pour donner aux
simples d'être avisés,
au jeune homme la
connaissance et la reflexion.
Que le sage
écoute et il gagnera en doctrine
le prudent recevra
des conseils de prudence.
Il comprendra les
proverbes et des sens mystérieux,
les paroles des
sages et leurs enigmes.
La crainte de
Iahvé est le principe de la science (morale);
Les
insensés méprisent la sagesse et l'instruction".
E, entre as
conclusões de suas análises, encontramos: "Si les
écrivains de l'A. T. n'ont aucunement cherché à
définir la nature de la prudence et à l'inscrire dans
un catalogue des vertus, il est hors de doute que le rôle qu'on
lui assigne correspond à celui fixé par Aristote et
qu'adoptera définitivement l'École: recta ratio
agibilium" (p. 209).
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silêncio" (trad.: Henrique Elfes) in LAUAND, L. J. "Santo
Tomás de Aquino: Sobre o Modo de Estudar" Cadernos de
História e FIlosfia da Educação São
Paulo, EDF-FEUSP, v.2, n.3, 1994, pp. 45-54.
Revista de Estudos
Árabes, Ano I, No. 1, Centro de Estudos Árabes, DLO
/ FFLCHUSP, 1993.
Revista de Estudos
Árabes, Ano I, No. 2, Centro de Estudos Árabes, DLO
/ FFLCHUSP, 1993.
Revista de Estudos
Árabes, Ano II, No. 3, Centro de Estudos Árabes,
DLO / FFLCHUSP, 1994.
Revista de Estudos
Árabes, Ano II, No. 4, Centro de Estudos Árabes,
DLO / FFLCHUSP, 1994.
Revista de Estudos
Árabes, Ano III, No. 5/6, Centro de Estudos Árabes,
DLO / FFLCHUSP, 1995.
SHAH, Idries. Aprender a
Aprender. Barcelona, Ed. Paidós Ibérica, 1988, p.
225-227, p. 231-233, in HORTA, Sylvio R. G. "Aprendendo a aprender"
(seleção e tradução) in LAUAND, L.
J. (org.) Oriente & Ocidente: Educação Moral e
Sátira dos Vícios, S. Paulo, EDIX/ DLO-FFLCHUSP,
1995.
SPICQ, C. "La vertu
de prudence dans l'Ancien Testament" Revue Biblique,
École Pratique d'Études Bibliques, Paris-Rome,
Année XLII, No.2, 1933, pp. 187-210.
STEINBERG, Martha "Provérbios
e tradução". TradTerm São Paulo,
FFLCHUSP, n. 2, 1995.
ÍNDICE DOS
PROVÉRBIOS ÁRABES CITADOS NESTE TRABALHO
(por ordem de
ocorrência)
(#1) Os maiores
mentirosos são o jovem emigrado e o velho cujos
contemporâneos morreram.
(#2) (É muito mais
fácil que se necessite como ingrediente) o alho na knafah do que o amor entre uma maronita e um rumm.
(#3) Ma qal al-mathal shay min
kadhab ("Os provérbios nunca mentem...").
(#4) O camelo tem
uma opinião; o cameleiro, outra.
(#5) Quando vi a miragem, joguei
fora minha água; agora, não tenho água, nem
miragem
(#6) Bate no cão, tua noiva
compreenderá...
(#7) Cão do grande, grande
e cão do príncipe, príncipe.
(#8) A cadeia (é) para os homens; o chorar, para as mulheres.
(#9) Opressão do gato e
não justiça do rato.
(#10) Al-jar qabla
ad-dar ("É mais importante o vizinho do que a
moradia").
(#11) Ar-rafyq qabla
at-taryq ("É mais importante o
companheiro do que a viagem").
(#12) A vasilha não pode ir
sempre ao fundo do poço e sair sempre inteira.
(#13) Ó Senhor, concede-nos
sempre o convívio dos poderosos, mas mantém-nos incólumes...
(#14) Se a vinha estivesse protegida de seus próprios guardas, produziria
toneladas.
(#15) Sem defeito,
garantido pelo ferreiro!
(#16) O que começa por
definição de condições, acaba em paz.
(#17) Aquele que se glorifica a si
mesmo te enviou saudações.
(#18) Mil batidas na porta antes
do salam (antes de atender e cumprimentar).
(#19) Desde o bater à porta
até à despedida.
(#20) Nem sequer um Ôi!
(#21) A segurança de
um homem está em conter sua língua.
(#22) Quem te confia seu
dinheiro, confia-te sua própria pessoa.
(#23) O vento, ele deixa por
conta da tempestade e dorme tranqüilo.
(#24) Aperte-lhe a
mão, mas confira os dedos depois.
(#25) Tendo saúde, está tudo bem!
(#26) Escapou do urso para
cair no fosso.
(#27) Abandona-te em Deus e
encontrarás a salvação.
(#28) 'alim bila 'amil mithl
al-gaym bila matar ("Sábio que não age
(que não `produz', que não ensina) é como nuvem
sem chuva").
(#29) Pai dele, alho; mãe,
cebola. Como pode ele cheirar bem?.
(#30) Al-qurd b'ayn ummuhu
gazal ("O macaco, aos olhos de sua mãe, é uma
gazela").
(#31) Interminável como o
Ramadã.
(#32) É no comer que se
mostra a afeição (pelo anfitrião).
(#33) "Quem viveu, morreu" ("Man 'asha mat").
(#34) "Quem morreu, findou" ("Man mata fat")
(#35) Quem compra o que não
precisa, acaba vendendo o que precisa...
(#36) Quando dois ladrões
divergem, aparece a coisa roubada.
(#37) Case seu filho quando
quiser; case sua filha quando puder...
(#38) Quem dará vida aos
ossos estando podres?
(#38a) "O cão que ofega
tanto se o atacas como se o deixas em paz".
(#38b) "casa de
aranha".
(#38c) "gado de um
só grito".
(#38d) "asno que carrega
livros".
(#39) É como pedir ao
camelo para tocar flauta.
(#40) Não tendo achado
nenhum defeito na rosa, apelidaram-na de "bochecha
vermelha".
(#41) O camelo riu uma vez na vida
e rasgou os lábios para sempre...
(#42) Ele procura mel no traseiro
da vespa.
(#43) Barulho no tacho, só
dos ossos.
(#44) Al-insan m'árrad
lin-nissyan ("O ser humano está exposto ao
esquecimento").
(#45) Guardo-me de fazer com as
mãos o nó que deverei desfazer com os
dentes.
(#46) Come-se grão a
grão o que se expele aos blocos.
(#47) O chacal engoliu a foice;
ouçam seus uivos depois para expeli-la.
(#48) Eu te conheço,
alfarroba...!
(#49) "Eu não tenho medo do alif, mas do que vem depois!".
(#50) Dê seu pão ao
padeiro, mesmo que ele coma a metade...
(#51) Por que estranhas que venha
na concha o que tu mesmo colocaste no pote?
(#52) Lobo e cordeiro, gato e
rato, falcão e pintada, corvo e corujão.
(#53) Rio sem água,
território sem rei, mulher sem marido.
(#54) Wa ma sumya al-insan insanan
illa linissyanihi ("O ser humano (Insan= ser humano ou
esquecedor) não foi chamado de esquecedor, senão por
causa de seu esquecimento").
(#55) É como a
peregrinação a Meca: quem diz que é
fácil, blasfema; quem diz que é trabalhosa,
blasfema.
(#56) Vender e arrepender-se
é melhor do que não vender e se
arrepender.
(#57) - Sim, meu príncipe,
era mesmo um pombo, só que agora já
voou...
(#58) Como dançar diante de
um cego.
(#59) Como ir se queixar para a
madrasta.
(#60) Como catar as pulgas de um
cão.
(#61) Como um lampião ao
meio-dia.
(#62) Tu me vendeste cebola
estragada; a moeda que eu te dei era falsa.
(#63) O besouro casou: desposou a
rã.
(#64) Ele (é)
óleo.
(#65) - Há quanto
tempo...! - Claro, você não vai à mesquita,
e eu não vou ao cabaré...
(#66) -Ôpa! Não
é porque eu disse `Enterre-me' que você vai pegar a
pá.
(#67) -Ôpa! Tá certo
que dissemos `A casa é sua!', mas não precisa trancar a
porta e levar a chave.
(#68) Meu amigo, meus olhos, luz
da minha vida! mas... longe de minha bolsa!
(#69) O corvo quis imitar o passo
(elegante) da perdiz e perdeu o seu.
(#70) Jiha morreu e
pensávamos estar, finalmente, livres dele. Aí ele
apareceu, dizendo: - Oi, pessoal!
(#71) Quem é mais velho:
Jiha ou o pai dele?
(#72) "Sua benção,
madrasta!".
(#73) Perguntaram a Jiha: -
Qual será o dia da ressurreição dos mortos? Ele
respondeu: - Quando eu morrer!
(#74) -O asno é
teu!
(#75) "Mão na massa,
Leila!".
(#76) "Cospe a pedrinha,
Mansur!".
(#77) Peito de nobre,
túmulo do segredo (Sudur al-ahrar, kubur
al-asrar).
(#78) A vida do fellah é murra (amarga); a do
citadino é hurra (livre, fácil).
(#79) O fellah desceu à madina (cidade) e não se
interessou senão por dibs bi
tahina.
(#80) Não há
preocupação, senão a do
casamento.
(#81) Não há
distância, senão a do
coração.
(#82) Não há
cansaço, senão o do
coração.
(#83) Não há dor,
senão a de dente.
(#84) O que é mais doce do
que o mel? Vinagre grátis.
(#85) O que é mais doce do
que haláwah? A reconciliação após
a inimizade.
(#86) Quem sabe melhor o que
você realmente é? Allah e seu vizinho.
(#87) Se é um homem quem te
dirige ameaças, podes, de noite, dormir tranqüilo; se
é uma mulher, podes começar a passar as noites em
claro...
(#88) Em março, habal (germinação); em abril, sabal (florescimento da espiga).
(#89) A uva, duss (apalpe); a azeitona, russ (esprema).
(#90) Semear na abstinência
do Natal (az-zara'ah / bi-alqta'ah).
(#91) Casa em que não entra
o sol, entra o médico.
(#92) Jejua um mês (shahr), viverás um século (dahr).
(#93) - De que filho a
senhora gosta mais? - Do pequeno, até que cresça;
do ausente, até que volte; do doente, até que
sare.
(#94) Por causa da rosa, a erva
daninha acaba sendo regada.
(#95) Fazer o bem e
lançá-lo ao mar: tu o reencontrarás mesmo muito
tempo depois..
(#96) Sábio é quem
estende seu manto como se fosse tapete e tolo é quem
pisa.
(#97) A mão que dá
está sempre acima da que recebe.
(#98) A ofensa é manta
muito curta: mostra a nudez de quem a veste.
(#99) Dou uma tâmara ao
pobre para sentir seu verdadeiro sabor.
(#100) Não será a
bondade a recompensa da própria bondade?
(#101) A repetição
deixa sua marca até nas pedras.
(#102) O rato aconselhou o dono da
casa a matar o gato... e a comprar queijo!
(#103) Foram ensinar o lobo a ler:
- Diga A. - Ovelha. - Diga B. - Cabritinho.
(#104) Ele está com o
traseiro no charco e (por isso) sonha com melancias.
(#105) - Manhê! Kin'an quer
um bolinho!
(#106) "Deus, envia-nos um
hóspede!", rezam as crianças...
(#107) Por que o careca haveria de
ser gentil com o barbeiro?
(#108) Quem precisa de algo do
cachorro, diz: - Bom dia, excelência!
(#109) - Ah, é fiado?
Então me vê dez quilos...
(#110) "Cebola é um prato
nobre", diz o pobre.
(#111) Quebre o fio de sua roca e
saberás o que ela tem embaixo da
língua...
(#112) Se o rico come cobra, todos
dizem: "Que paladar mais refinado!"; se é o pobre: "Endoidou
de vez!"...
(#113) Quando Tannús
(Toninho) precisou de nós, nós o chamávamos
simplesmente de Tannús, mas quando nós precisamos de
Tannús, tivemos de dizer: "Às ordens, venerável
mestre!".
(#114) Quando perguntaram ao
faminto: "Quanto é dois mais dois?", ele respondeu: "Quatro
pães!".
(#115) Defeito que agrada o
sultão, vira virtude.
(#116) Nunca o mercador diz: "Meu
azeite está rançoso".
(#117) Se é para se
apaixonar, que seja por um príncipe. Se é para bater
à porta, que seja à porta de um grande. Se é
para roubar, que seja um camelo.
(#118) Meca não está
longe para quem está determinado a fazer a
peregrinação.
(#119) Os segredos da arte, para
quem os conhece, estão escondidos sob um arbusto; para quem
não os conhece, sob uma montanha.
(#120) Antes inimigo do
príncipe do que do guardinha.
(#121) Você o joga no mar e
ele volta com dois peixes na boca.
(#122) Ele comeu a isca e ainda
deu uma defecadinha no anzol.
(#123) O gato (aproveita e)
deita-se em cima do doente.
(#124) Alimenta teu cão e
ele guardará tua casa; faze jejuar teu gato e ele te
comerá os ratos.
(#125) Não é por
amor a Deus que o gato caça os ratos.
(#126) O rato caiu do telhado. O
gato: - Que Deus te ajude! O rato: - Tire a pata de cima e deixe que
eu cuido de mim.
(#127) "Ó gato, quem
testemunha em teu favor?". " Minha cauda!".
(#128) A prece do gato: "Senhor,
dizima os moradores desta casa e faze-os cegos a fim de que eu possa
roubar". A prece do cão: "Senhor, multiplica os habitantes
desta casa e faze-os prosperar a fim de que cada um me dê um
bocado".
(#129) A mantegueira da velha caiu
no fogo. Ela disse: "Eu a ofereço a Allah".
(#130) Rasgou as roupas e
começou a gritar: Náufrago!, Náufrago!
(#131) Ele joga a pedra e depois
diz : "É o destino"...
(#132) Ele entra com a mãe
da noiva e sai com a mãe do noivo.
(#133) Ele deu os pêsames e
chorou, mas nem sabe quem morreu.
(#134) Tudo dói na madame;
só sua garganta continua boa...
(#135) Que Deus prolongue tua
doença, ó sheikh, até que minha galinha volte a
pôr ovos e eu te os possa oferecer.
(#136) Em cima dele, khara (excremento); embaixo dele, khara e ele ainda diz: -
Olha que cheiro de khara!
(#137) "Malta não
existe" - "Malta yoq!".
(#138) A culpa não é
da D. Cida (a costureira), mas de quem lhe passou as
medidas.
(#139) A parede
queixou-se ao prego: - Por que me perfuras? Ele respondeu: -
Pergunte ao martelo!
(#140) O mar brigou com o vento e
quem virou... foi a barquinha.
(#141) O cão late porque
late; o dono pensa que é para ele.
(#142) Se eu sou príncipe e
você é príncipe, quem é que vai atrelar o
cavalo?
(#143) Quando perguntaram à
mula "Quem é teu pai?", ela respondeu: "O cavalo é meu
tio!".
(#144) Economiza na
alimentação do gato e os ratos comer-te-ão as
orelhas.
(#145) O avaro teme a pobreza, mas
vive nela.
(#146) Será por inveja ou
avareza? Ou por ambas?
(#147) Ele almoçou na
madrasta.
(#148) - Teu moinho gira para a
direita ou para a esquerda? - Sei lá, o importante é
que ele me dá farinha!
(#149) Plantamos o "se", nasceu o
"eu gostaria"...
(#150) Disseram ao prisioneiro: -
Vamos te casar com uma moça muito bela e muito rica. -
Ótimo, mas soltem-me primeiro.
(#151) Não digas: -
Smallah!, antes que o camelo se levante.
(#152) -
Caíste sozinho ou foi o camelo que te arremessou? - Tanto faz:
o fato é que eu caí.
(#153) (Isto é) Peixe no
mar.
(#154) Você quer pegar as
uvas ou... matar o guarda?
(#155) Todo pedido de
autorização será negado...
(#156) Janta-o antes que ele te
almoce.
(#157) Não aconselhe o
tolo: em qualquer caso ele te culpará depois.
(#158) A vida é assim: um
dia a favor, outro contra... isto para os mais
venturosos.
(#159) Uma coisa é receber
as chibatadas; outra é contá-las...
(#160) Podem ficar
tranqüilos: a raposa me garantiu que não vai mais pegar
galinhas.
(#161) "- Corvo, roubar
sabão? Para que?" " - Roubar é da minha
natureza".
(#162) A galinha sempre cisca.
Mesmo sobre um monte de trigo, ela continua ciscando.
(#163) Khara (excremento) é khara mesmo depois de ter
atravessado o Eufrates (al-fara)..
(#164) Dor de dente... bem no dia
do casamento.
(#165) O lobo veio atacar as
ovelhas, logo quando o cão tinha ido defecar.
(#166) Bastou elogiarmos a limpeza
do gato, e ele foi e defecou no depósito de
farinha.
(#167) Os beduínos
(al-'arab) deixam a ruína detrás de si
(bitkharrab).
(#168) Quando os beduínos
começaram a ter abundância de manteiga, usaram-na para
limpar o traseiro.
(#169) Em mil noras, pode haver
uma que ame a sogra; em duas mil sogras, pode haver uma que ame a
nora.
(#170) A sogra já foi nora,
mas... esqueceu!
(#171) Rancor de homem é
rancor; rancor de mulher, rancores.
(#172) Não confie no
céu de março, mesmo que ele ria; não confie na
mulher, mesmo que ela chore.
[4].
Retomo - neste tópico e no seguinte - temas que contemplei em Oriente & Ocidente - Razão, Natureza e Graça:
Tomás de Aquino em Sentenças, S. Paulo, EDIX/
DLO-FFLCHUSP, 1995.
[5].
Por extensão, reor no latim comum passou também
a ser sinônimo de puto, aestimo (considerar,
reputar): daí que vocábulos como
"reputação" e "estimar" estejam próximas de
palavras da linguagem do cálculo como "computar" e
"estimativa". Daí também ratus, contado, de que
se originou não só "rateio", mas também
"ratificar".
[6].
Encontramos em Tomás, usos como: "De ratione intelligendi
est...", "é da essência da
intelecção...".
[7].
Neste último sentido, diz Tomás, por exemplo: "habet
rationem verbi", tem caráter verbal, apresenta-se como
palavra.
[8]. Dictionnaire Étymologique de la Langue
Grecque, Paris: Klincsieck, 1968. Logos significa
ainda: palavra, discurso, argumentação,
raciocínio, conta, proporção (ana-logos),
quociente, o Verbo, segunda Pessoa da Trindade etc. Para a etimologia
de ratio ver Érnout & Meillet Dictionnaire
Étymologique de la Langue Latine, Paris, Klincsieck, 1951,
3ème ed.
[9].
É o que Tomás chama também de recta
ratio, em oposição a uma perversa ratio que
se fecha à ratio das coisas ou as deforma.
[10].
Sua resposta é: "Ratio propriamente designa o conceito
da mente, enfatizando o que está na mente (mesmo que de nenhum
modo venha a se exteriorizar); já verbum, diz respeito
ao exterior. E por isso - como o Evangelista ao dizer Logos não só se dirigia à significação
da existência do Filho no Pai, mas também à
potência operativa do Filho pela qual `por Ele todas as coisas
foram criadas' - os antigos preferiram traduzir Logos por Verbum (que acentua a referência ao exterior) e
não por ratio, que só sugere o conceito na
mente" (Super Io. I,1,32).
[11].
Para entendermos melhor esta concepção de Tomás,
recordemos que, sendo criada pelo Verbo, a realidade, cada coisa
real, tem uma ratio, uma natureza, um conteúdo, um
significado, "um quê", uma verdade que, por um lado, faz com
que a coisa seja aquilo que é e, por outro, a torna
cognoscível para a inteligência humana. Um conhecimento
que será tanto mais adequado quanto maior for a objetividade
com que se abrir à realidade contida no objeto. Numa
comparação imprecisa (imprecisa, pois num caso trata-se
de realidade natural, viva e dinâmica, projetada pela
Inteligência divina e, no outro, de um objeto artificial
projetado pelo homem) com o ato criador divino, considero o isqueiro
que tenho diante de mim. Este objeto é produto de uma
inteligência, há uma racionalidade que o estrutura por
dentro. Inteligentemente o designer articulou a pedra, a mola,
o gás etc. É precisamente essa ratio que, por um
lado, estrutura por dentro qualquer ente que, por outro, permite,
como dizíamos, o acesso intelectual humano a esse ente. No
caso do isqueiro, a ratio que o constitui enquanto isqueiro
é o que me permite conhecê-lo e, uma vez conhecido,
consertá-lo, trocar uma peça etc.
[12].
Não por acaso Tomás considera que "inteligência"
tem que ver com intus-legere ("ler dentro"): a ratio do
conceito na mente é a ratio "lida" no íntimo da
realidade.
[13].
Para a seleção dessas sentenças, valemo-nos
muitas vezes do criterioso Thomas-Brevier (München,
Kösel, 1956) de Josef Pieper. Dele procedem as referências
às demais obras de S. Tomás, que seguem o seguinte
código de abreviaturas: Virt. comm. - Quaestio disputata de
virtutibus in communi; Ver. - Quaestiones disputatae de veritate;
Mal. - Quaestiones disputatae de malo; Pot. - Quaestiones disputatae
de potentia Dei ; Comp. Theol. - Compendium Theologiae; Spe -
Quaestio disputata de Spe.
[14].
A partir de agora, abreviado por DMS. Retomo, neste tópico o
trabalho "Santo Tomás de Aquino: Sobre o Modo de Estudar" Cadernos de História e Filosofia da
Educação São Paulo, EDF-FEUSP, v.2, n.3,
1994, pp. 45-54.
[15].
Martin Grabmann - em seu Die Werke des Hl. Thomas von Aquin,
Münster, Verlag der Aschendorffschen Verlagsbuchhandlung, 2a.
ed., 1931, p. 372-373 - considera o De modo studendi um
opúsculo autêntico. Contra as reservas (embora
mínimas) que Mandonnet guarda a propósito da autoria do De modo studendi - incluído por ele entre os vix
dubia de Tomás, Opusculum XLIV, opúsculos de
que dificilmente se pode duvidar de que o autor seja o Aquinate (S. Thomae Aquinatis: Opuscula Omnia cura et studio R.P. Petri
Mandonnet, vol. IV Paris, Lethielleux, 1927) -, Victor White, em
seu How to study, 2a. ed., Oxford, Blackfriars, 1949, aponta
razões intrínsecas que confirmam a tese da
autenticidade desse opúsculo. Para a tradução,
valemo-nos do texto latino apresentado por White.
[16].
"Viver do silêncio" (trad.: Henrique Elfes) in LAUAND, L. J.
"Santo Tomás de Aquino: Sobre o Modo de Estudar" Cadernos
de História e FIlosfia da Educação São Paulo, EDF-FEUSP, v.2, n.3, 1994, pp. 45-54.
[17].
Aqui Pieper joga com os termos alemães Vernunft e Vernehmen traduzidos por "entendimento" e "entender". Vernehmen é a percepção, a
captação de uma realidade, mas principalmente pela
audição. Aproxima-se muito do francês entendre, intermediário entre ouvir e
compreender.
[18].
Neste tópico, retomamos considerações que
fizemos em nosso Tomás de Aquino Hoje..., que, por sua
vez, segue de perto a obra de Josef Pieper: Thomas von Aquin:
Leben und Werk, München, DTV. 1981.
[19]. J.
Maritain, L'humanisme de Saint Thomas d'Aquin, in Mediaeval
Studies, 3 (1941).
[22].
Na comparação: os entes.
[23].
Na comparação: o actus essendi.
[24].
Na comparação: essência.
[26].
Sem termo de comparação com a flauta (onde não
existe o "puro ato de soar"), no caso de Deus, precisamente por
não haver delimitação,
determinação, definição na sua posse do
ser, não se pode falar em essência, mas em puro ato de
Ser; de cujo ser participam todos os entes.
[28].
SPICQ, C. "La vertu de prudence dans l'Ancien Testament" Revue Biblique, École Pratique d'Études
Bibliques, Paris-Rome, Année XLII, No.2, 1933, pp.
187-210.
[29].
Loucura, no Velho Testamento, não no sentido de
demência, mas de perversão do senso moral.
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