EDUCAÇÃO MORAL E PEDAGOGIA DO MATHAL
"Onde nam ha honra, nam
ha desonra"
(antigo provérbio português ([1])).
V.1
Prudência e contingência
Estabelecidos
os referenciais teóricos nos capítulos anteriores, este
é o momento de dedicarmo-nos tematicamente ao alcance
educativo dos amthal.
Destaquemos
alguns aspectos prévios.
Tomás,
nos artigos 1 a 5 de II-II,49 trata, em particular, de cada uma
daquelas cinco virtudes - partes quasi integrais da
prudência em sua dimensão cognoscitiva (das quais
interessam-nos particularmente a memoria e a docilitas)
- e uma constante essencial, nesses artigos, é o fato de que a
prudência versa sobre ações
contingentes.
Assim, no
artigo 1, dedicado à virtude da memoria, Tomás
observa que não pode o homem reger-se por verdades
necessárias, mas somente pelo que acontece in pluribus (geralmente).
Note-se que
esta é também a razão da insegurança em
tantas decisões humanas: a prudência traz consigo o
enfrentamento do peso da incerteza, que tende a paralisar os
imprudentes ([2]).
É
dessa dramática imprudência da indecisão, que
tratam alguns clássicos da literatura: do "to be or not to
be..." do Hamlet de Shakespeare aos dilemas kafkianos (o
remorso impõe-se a qualquer decisão), passando pelo
Grande Inquisidor de Dostoiévski, que descreve "o homem
esmagado sob essa carga terrível: a liberdade de escolher"
([3])
e apresenta a massa que abdicou da prudentia e se deixa
escravizar, preferindo "até mesmo a morte à liberdade
de discernir entre o bem e o mal" ([4]).
E, assim, os subjugados declaram de bom grado: "Reduzi-nos à
servidão, contanto que nos alimenteis" ([5]).
Este aspecto
da condição humana, a angústia da
decisão, é descrita também, proverbialmente,
pelo mathal:
(#55)
É como a peregrinação a Meca: quem diz que
é fácil, blasfema; quem diz que é trabalhosa,
blasfema [FRHA, 3521].
Nesse mesmo
sentido, outros provérbios propõem a
solução que a experiência aponta para
situações de impasse:
(#56)
Vender e arrepender-se é melhor do que não vender e se
arrepender [FRHA, 1103].
(#57) -
Sim, meu príncipe, era mesmo um pombo, só que agora
já voou... [FRHA, 2805].
(É
preciso aproveitar a ocasião. Este provérbio é o
desfecho da conhecida história em que, numa caçada, o
príncipe, indeciso, em vez de disparar logo sobre o objeto,
enredou-se em longas discussões, com seus acompanhantes, sobre
se se trataria de um pombo ou de uma pedra, até que o objeto
(era um pombo mesmo...) escapou voando...).
Nos
próximos dois tópicos, a partir dessa
contingência da condição humana, analisaremos
aspectos da educação invisível propiciada pelos amthal, ligados à memória e à docilitas.
Lembremos -
ao tratar da educação para a prudência em
conexão com a Pedagogia do mathal - a central
afirmação de S. Tomás: "A prudência
não é inata em nós; ela procede da
educação e da experiência" ([6]).
V.2
A Memória e a Pedagogia do mathal
Mas, voltemos
à análise de Tomás. A prudência versa
sobre o contingente e, portanto, é pela experiência
(per experimentum) que deve o prudente guiar-se, pois, "diz o
Filósofo", "a virtude intelectual origina-se e desenvolve-se
com a experiência e com o tempo". Mas a experiência, por
sua vez, não é senão memória acumulada...
([7]).
Cabem aqui as
sugestivas observações do Prof. Sylvio Horta: "Como foi
guardada, transmitida essa experiência da vida? Rituais, livros
sapienciais, provérbios, fábulas, anedotas etc. A
partir da vida de cada um, teremos que encontrar de novo, dar um novo
posto a essa sabedoria - bastante problemática - que é
fundamental para nossas vidas, principalmente em nossa época,
em que teimamos em reduzir tudo à realidade de coisas: o homem
é reduzido ora à biologia, ora à economia, ora
à psicologia, ora à sociologia. A
educação contemporânea, assim como os meios de
comunicação, tem favorecido essa
interpretação coisificada e fragmentária da
pessoa, o que acaba por determinar o nosso comportamento em
relação aos outros, que passamos a tratar como coisas.
Só com essa volta à experiência da vida - e uma
educação que a tenha em conta - é que evitaremos
a perda do sentido da realidade que é a vida"
([8]).
Tomás,
no ad 2 de II-II,49,1, aponta as quatro leis fundamentais da
educação da memória:
1)
Estabelecer semelhanças (similitudines) adequadas para
o que se quer recordar. Mas, afirma, não semelhanças
usuais, pois guardamos melhor o invulgar. E, assim, prossegue o
Aquinate, é necessário encontrar semelhanças ou
imagens, pois as realidades espirituais facilmente se esvaem se
não estão "amarradas" a alguma semelhança
corpórea (nisi quibusdam similitudinibus corporalis quasi
alligentur). E isto, conclui, porque o conhecimento humano
é mais forte com relação ao
sensível.
À luz
deste princípio (aliás, bastante empírico),
torna-se imediatamente evidente a extraordinária força
educativa, elucidadora da realidade, dos provérbios
árabes concretos (e os amthal, insistamos, são,
literalmente, as similitudines de que fala
Tomás).
Assim, no
sentido da discussão que fazíamos em torno do genial mathal "Pai dele, alho; mãe, cebola..." (em "I.7 - A
imagem concreta"), encontraremos, freqüentemente, um contraste:
a mesma realidade é expressa em abstrato por nossos
provérbios ocidentais, e de modo vivo, material e concreto
pelos provérbios árabes.
Desse modo,
por exemplo, em vez de dizer fórmulas abstratas, como as
nossas: "É perda de tempo", "É inútil" etc., o
árabe vale-se de comparações, como as recolhidas
por Amrouche ([9]):
(#58) Como
dançar diante de um cego (p. 53).
(#59) Como
ir se queixar para a madrasta (p.84).
(#60) Como
catar as pulgas de um cão (p. 116).
(#61) Como
um lampião ao meio-dia (p. 201).
E em lugar de
nossa abstrata expressão "Fica uma pela outra", diz o
árabe:
(#62) Tu
me vendeste cebola estragada; a moeda que eu te dei era falsa (p.
27).
E em vez de
"Cada qual com seu igual" (ou o provérbio espanhol: "Dios
los crea y ellos se juntan"):
(#63) O
besouro casou: desposou a rã (p.83).
Para
referir-se a um "oportunista":
(#64) Ele
(é) óleo (p. 172) ([10]).
(Quaisquer
que sejam as situações, ele sempre sabe situar-se "por
cima", tal como o óleo sobre a água...).
Este é
também o momento de indicar um outro aspecto do pensamento
pedagógico de Tomás (também freqüente nos amthal): o apreço pelo bom-humor ([11]).
Ao tratar do
tema na Summa, a afirmação central de
Tomás encontra-se em II-II,168,3 ad 3 : Ludus est
necessarius ad conversationem humanae vitae, o lúdico
é necessário para a vida humana (e para uma vida
humana).
Daí
decorrem importantes conseqüências para a
educação, entre elas a de que o ensino não pode
ser aborrecido e enfadonho: o fastidium é um grave
obstáculo para a aprendizagem ([12]).
A tristeza e o fastio produzem um estreitamento, um bloqueio, ou,
para usar a metáfora de Tomás, um peso (aggravatio
animi) ([13]).
Daí que Tomás recomende a quem ensina, o uso
didático de formulações divertidas: para
descanso dos ouvintes e para que seja ouvido com gosto (libenter
audiat - II-II,177,1): o que acontece quando "se fala, de tal
modo que deleite os ouvintes" (dum aliquis sic loquitur quod
auditores delectet - II-II,177,1). E, tratando do relacionamento
humano, Tomás chega a afirmar que ninguém agüenta
um dia sequer com uma pessoa aborrecida e desagradável
([14]).
Assim, de
acordo com as necessidades de sua sociedade, o libanês fulmina
- em divertidas formulações proverbiais
([15])
- os abusos que dificultam a convivência.
É o
caso dos amthal:
(#65) -
Há quanto tempo...! - Claro, você não vai
à mesquita, e eu não vou ao cabaré... ([16]).
(#66)
-Ôpa! Não é porque eu disse `Enterre-me' que
você vai pegar a pá" [FRHA, 146].
(É bem
conhecido o espírito de acolhimento oriental e suas
desconcertantes - sobretudo para padrões europeus
nórdicos - manifestações de carinho (por
palavras ou por gestos) em fórmulas que, para o ocidental,
parecem exageradas. O Alcorão prescreve, por exemplo (IV, 86),
retribuir uma saudação com outra mais intensa ou, pelo
menos, não inferior (naturalmente, a reação em
cadeia deflagrada por um simples "Bom dia" pode durar uma
eternidade). Nesse sentido, Cristo, que tão bem sabe valorizar
a hospitalidade e as formas humanas de acolhimento (cfr. p. ex. Lc 7,
44 e ss.), tem que recomendar aos discípulos enviados em
missão: "A ninguém saudeis pelo caminho" (Lc 10, 4).
É um problema de aproveitamento do tempo em uma missão
urgente! Neste campo das saudações e das
manifestações de carinho, o refinado Oriente
está a anos-luz de distância do primário
Ocidente... Por exemplo, o ocidental, ante uma visita que se despede,
diz (quando muito): "Vê se aparece!" (com o que - consciente ou
inconscientemente - parece afirmar: Nós somos pessoas muito
importantes, interessantes, bonitas ... e autorizamos você -
que não é nada disso... -, a vir ver-nos, pois,
nós, além do mais, somos também generosos etc.).
Já o oriental despede-se da visita dizendo: Ismah lana nashufak! - "Permita que
nós o vejamos" (você é o importante, etc.
etc...). Evidentemente, o exagero das formas (que, em todo caso, no
Oriente, não é mero formalismo) requer o
necessário corretivo do bom humor dos provérbios.
Assim, uma das fórmulas mais fortes de manifestar o carinho
é Taqbarny, "Enterre-me!" (com o que se diz: eu quero
que você sobreviva a mim, eu não saberia viver sem
você etc.) é temperada por esse mathal).
Ainda contra
os abusos da hospitalidade, este outro provérbio:
(#67)
-Ôpa! Tá certo que dissemos `A casa é sua!', mas
não precisa trancar a porta e levar a chave" [FRHA,
147].
E para
prevenir contra os que se aproveitam interesseiramente da
amizade:
(#68) Meu
amigo, meus olhos, luz da minha vida! mas... longe de minha
bolsa! [FRHA, 2124].
A
formulação divertida, além do mais, auxilia a
memória. É freqüente, nesse sentido, que os
provérbios resumam - em uma frase - longas histórias ou
anedotas e façam a ligação com outros tipos de amthal: provérbio - fábula; provérbio -
parábola etc.
Assim, um
popularíssimo provérbio em todo o mundo árabe
é, na verdade, o desfecho de uma fábula do Kalila e
Dimna ([17]):
(#69) O
corvo quis imitar o passo (elegante) da perdiz e perdeu o seu. [BLMR, 130].
(É
freqüente, em todas as línguas, a relação e
mútua-influência entre provérbios e literatura;
entre o literário e o popular. Por exemplo, os
provérbios apresentados por Helmi Nasr em "Uma
seleção de provérbios árabes", são
de origem literária ([18]).
Uma boa análise desse fenômeno é a apresentada
por William George Smith:
"There were originally two sources of proverbial wisdom.
One was the common man, from whom came the proverbs of distilled
experience such as `a bird in the hand is worth two in the bush'. The
other was the wise man, or oracle, whose utterances were the result
of reflection, and were received as rules of life by the folk, who
had neither time nor mental capacity to meditate upon fundamental
truths. The ordinary man was busy making sure the bird remained in
his hand.
Once
he had discovered, the uselessness of two birds in the bush, or ten
in the wood, or a hundred in the air, as against the practical
satisfaction of one firmly seized hold of, he registered this
conviction as a bit of everyday common sense which it would be well
to remember, and passed it on. His comment became a familiar saying,
a byword, a proverb. In course of time, it was quoted by a writer
either in its obvious sense, or with a transferred meaning to give
point to some quite other subject, thus taking to itself a new
characteristic of a proverb. Similarly, as education became more
general, the sayings, or sententiae, of the wise men were
incorporated in books and gradually penetrated downwards until they
were adopted as proverbs by the people. In both cases there is the
process of gradual penetration of the spoken word from above to below
and from below to above, with literature as a kind of eternally
moving wheel on which proverbs were caught up, and from which they
were thrown off again") ([19]).
Ainda na
linha da conexão entre humor e memória, o árabe
criou o popularíssimo personagem Jiha ([20]),
que concentra em si, dezenas de anedotas e casos divertidos (algo
semelhante a nosso Pedro Malazarte ou ao aluno "Joãozinho",
personagem de piadas referentes a escola).
Como tipo de
variadas situações cômicas, Jiha
não deixa de apresentar uma certa ambigüidade: se muitas
vezes é o esperto ([21]),
é freqüentemente também, o tolo, egoísta e
importuno, como é o caso dos seguintes amthal:
(#70)
Jiha morreu e pensávamos estar, finalmente, livres
dele. Aí ele apareceu, dizendo: - Oi, pessoal! [FRHA,
3418].
(#71) Quem
é mais velho: Jiha ou o pai dele? [FRHA,
1247].
(#72) "Sua
benção, madrasta!" [FGHL, 946].
(Jiha
apanhava constantemente da madrasta e, aparentando
indiferença, repetia, a cada pancada, com ar idiota: "Sua
benção, madrasta!". O provérbio é usado
para indicar que alguém é imbecil, ou que alguma fala
é non-sense).
(#73)
Perguntaram a Jiha: - Qual será o dia da
ressurreição dos mortos? Ele respondeu: - Quando eu
morrer! [FGHL, 203].
Já o
preguiçoso é estigmatizado pela frase
proverbial:
(#74) -O
asno é teu! [FGHL, 95].
(Um homem
morreu e deixou, em testamento, seu asno para o mais
preguiçoso de seus três filhos. Ante o juiz, o primeiro
relatou que um dia, no rio, com água até o
pescoço, era tanta a sua preguiça que teria morrido de
sede, mas não se sentia capaz de curvar o pescoço para
beber. O juiz já ia dar-lhe o asno, quando o segundo contou
que também morria de sede em sua cama e, por preguiça,
não era capaz sequer de abrir os lábios para acolher a
água que caía de uma goteira situada bem em cima de sua
boca. Já ia o juiz adjudicar-lhe o legado, mas antes quis
interrogar o terceiro, que permanecia em silêncio. Este,
indagado, respondeu: "Eu... eu... sei lá... dá o asno
prá quem cê quisé, isto me cansa tanto...". Ao
que o juiz, imediatamente, ajuntou: "Miserável,
preguiçoso dos preguiçosos: O asno é
teu!").
Há
pouco falávamos da defesa contra os abusos de hospitalidade.
Ainda dentre os provérbios ligados a episódios,
encontramos este que defende contra os abusos do
juramento:
(#75)
"Mão na massa, Leila!" [FRHA, 709].
(O Oriente, o
juramento. A cada passo, por qualquer ninharia, jura-se. Jura-se
pelas barbas do profeta, pelo amor dos meus filhinhos, pela luz dos
olhos meus, pelo sol e pela lua, pela manhã e pela noite, pelo
Alcorão e pela Bíblia... O árabe, a
emoção, o pranto. O exagero. Os acalorados juramentos
não deixam de ser suspeitos, mas como defender-se da chantagem
emocional que por vezes eles veiculam? Como não perder a
lucidez e detectar a eventual falta de credibilidade de que podem ser
portadores? A distância crítica, para manter a
objetividade, tem uma grande defesa: a do bom humor, avalizado por
este antigo provérbio que, no original, contém apenas
duas palavras. Trata-se do proverbial episódio do
beduíno que roubara um saco de farinha. Ante o juiz, foi-lhe
exigido um juramento de inocência. Sem pestanejar, ele jurou,
pensando consigo mesmo: "Leila, minha mulher, pode, perfeitamente,
estar fazendo pastéis, agora, com aquela farinha. Farinha roubada, Deus é testemunha, eu não
tenho").
E contra os
abusos dos importunos:
(#76)
"Cospe a pedrinha, Mansur!" [FRHA, 959].
(Frase que se
tornou proverbial. Mansur era um "boca-suja", sacristão do
bispo, o qual tentava, em vão, corrigir-lhe a linguagem,
permeada constantemente de palavrões. Até que lhe
ocorreu a eficiente sugestão de que Mansur mantivesse uma
pedrinha na boca para ajudá-lo a lembrar-se de evitar
expressões indecorosas. Num dia de intenso calor, o bispo
percorria a estrada - a pé, acompanhado por Mansur - fazendo
suas visitas pastorais, quando ouviu uma velha que chamava por ele,
insistentemente, do alto de um morro. Quando acabou de subir a penosa
encosta, a velha explicou que o chamara para abençoar sua
ninhada de pintinhos... O bispo, enquanto passava o lenço na
testa, voltou-se para Mansur - também ele furioso... -,
dizendo: "Tudo bem, Mansur, pode cuspir a pedrinha!").
2) Na segunda
lei, Tomás afirma ser necessário organizar e dispor em
ordem aquilo que se quer lembrar, de tal modo que haja uma
associação por encadeamento.
É o
que fazem muitos provérbios através do ritmo e da
rima:
(#77)
Peito de nobre, túmulo do segredo [NASR,
8].
(Rimado
no original: Sudur al-ahrar, kubur al-asrar.).
(#78) A
vida do fellah é murra (amarga); a
do citadino é hurra (livre, fácil).
[ARH, 3].
(#79) O fellah desceu à madina (cidade) e
não se interessou senão por dibs bi
tahina [ARH, 4].
(O dibs bi
tahina é um melado com molho de gergelim, vulgar em
todo o Líbano. O fellah, pouco dado a
inovações, aferra-se a seus hábitos de vida. O
provérbio, guardadas as devidas proporções, tem
o mesmo sentido que teria, entre nós: "O caipira foi ao
restaurante do shopping e pediu milho verde" - nota de
ARH).
Como ajuda
para a memória, alguns provérbios são formulados
em enunciados peculiares.
Alguns vem
propostos em forma de enigma. Outros, expressam saborosas formas
intensivas, de acentuado sabor oriental:
(#80)
Não há preocupação, senão a do
casamento [FRHA, 3416].
(A forma da
tradução procura preservar o caráter
categórico da infinita sabedoria que parece falar,
através dos séculos, verdades eternas).
(#81)
Não há distância, senão a do
coração [FGHL, 1478].
(#82)
Não há cansaço, senão o do
coração [FRHA, 3122].
(#83)
Não há dor, senão a de dente [FRHA, 3416].
(#84) O
que é mais doce do que o mel? Vinagre grátis
[FRHA, 2058].
(#85) O
que é mais doce do que haláwah? A
reconciliação após a inimizade [FRHA,
2057].
(#86) Quem
sabe melhor o que você realmente é? Allah e seu vizinho [FRHA, 3393].
(#87) Se
é um homem quem te dirige ameaças, podes, de noite,
dormir tranqüilo; se é uma mulher, podes começar a
passar as noites em claro... [BLMR, 52].
(Eco de
conselhos bíblicos. O Eclesiástico, após
enunciar, em seu capítulo 25, as desgraças
superlativas:
"Qualquer
ferida, menos a ferida do coração;
qualquer
miséria, menos a miséria causada pelo
adversário;
qualquer
injustiça, menos a injustiça que vem do
inimigo...;
não
há pior veneno do que o veneno da serpente;
não
há pior cólera do que a cólera do
inimigo...",
desfecha:
"Prefiro morar com um leão ou com um dragão, a morar
com uma mulher perversa... Pouca maldade é comparável
à da mulher". E, mais adiante, também em sistema
comparativo semítico: "É melhor a maldade de um homem
do que a bondade de uma mulher" (Eclo 42, 14). Já o livro dos
Provérbios diz: "Melhor é morar no deserto do que com
uma mulher iracunda" (Prv 21,19); "Melhor é morar no
canto de um teto do que numa casa com uma mulher briguenta" (Prv
25,24); "Goteira pingando sem parar em dia de chuva e a mulher
briguenta são semelhantes" (Prv 27,15)).
Encontramos
também enunciados rimados (freqüentemente associados a
datas religiosas) para veicular úteis lembretes sobre o clima
e a agricultura:
(#88) Em
março, habal (germinação); em
abril, sabal (florescimento da espiga) [ARH,
7].
(#89) A
uva, duss (apalpe); a azeitona, russ (esprema) [ARH, 8].
(Apalpe a uva
e esprema a azeitona. Quando a uva ainda está verde, a
azeitona já está madura- nota de ARH).
(#90)
Semear na abstinência do Natal [FGHL,
1977].
(Rimado no
original: az-zara'ah / bi-alqta'ah. Os cristãos
do Líbano tinham antes do Natal alguns dias de
abstinência, que coincidiam com a estação das
chuvas, propícia para a semeadura).
O mesmo se
dá com conselhos médicos, de bom senso ou sobre a
experiência de vida.
(#91) Casa
em que não entra o sol, entra o médico [FGHL,
2282].
(#92)
Jejua um mês (shahr), viverás um
século (dahr) [FGHL, 2285].
3) É
necessário, prossegue o Aquinate ao enunciar a terceira lei,
que o homem tenha solicitude e afeto para com aquilo que quer
recordar ([22]),
pois onde não há interesse e amor, não se fixam
as impressões na alma.
Nesse
sentido, há um ponto em que Tomás atinge profundamente
o modo de ser oriental. Pedagogo agudo, Tomás - ao falar do
"dom da palavra" em II-II,177,1 - diz que aquele que ensina deve
tocar o sentimento, mover ao afeto e isto acontece quando faz com que
o que ouve "seja movido ao amor das realidades significadas pelas
palavras e queira pô-las em prática: e isto ocorre
quando a formulação é tal, que o ouvinte se
emociona" (quod aliquis amet ea quae verbis significantur, et
velit ea implere: quod fit dum aliquis sic loquitur quod auditorem
flectat).
Esse
potencial emotivo, tocante, realiza-se em diversos provérbios
árabes que movem ao amor, à compreensão, ao
perdão, à generosidade:
(#93) - De
que filho a senhora gosta mais? - Do pequeno, até que
cresça; do ausente, até que volte; do doente,
até que sare [FRHA, 3932].
(#94) Por
causa da rosa, a erva daninha acaba sendo regada [FRHA,
2297].
(#95)
Fazer o bem e lançá-lo ao mar: tu o
reencontrarás mesmo muito tempo depois. [FGHL,
1595].
(#96)
Sábio é quem estende seu manto como se fosse tapete e
tolo é quem pisa ([23]).
(#97) A
mão que dá está sempre acima da que recebe ([24]).
(#98) A
ofensa é manta muito curta: mostra a nudez de quem a veste ([25]).
(#99) Dou
uma tâmara ao pobre para sentir seu verdadeiro sabor ([26]).
(#100)
Não será a bondade a recompensa da própria
bondade? ([27]).
4)
Finalmente, diz Tomás ao enunciar a quarta lei da
memória, é necessário meditar
freqüentemente sobre o que queremos guardar na
memória.
E cita o
provérbio: "o costume é como uma natureza". "Daí
que nos lembramos rapidamente do que muitas vezes consideramos,
associando, como que naturalmente, uma coisa a outra". E assim, como
indicávamos há pouco, a Pedagogia do mathal é uma Pedagogia do dhikr, da repetição
viva, que vai contraponteando a realidade quotidiana, ensinando a ver
um significado mais profundo em suas mil incidências que, sem a
revelação dos amthal, dificilmente perderia sua
opacidade. Tal intuição é confirmada pelo mathal libanês:
(#101) A
repetição deixa sua marca até nas pedras [FRHA, 1195].
Estas duas
últimas leis enunciadas por Tomás, tal como a
prudência, unem a ordem intelectual à moral. A memoria, mais do que uma questão de técnicas
mnemônicas, liga-se a uma sabedoria pessoal e coletiva (da qual
os provérbios são expressão e causa). Com muita
propriedade, lembra Pieper - evocando aquele duplo sentido que
Tomás encontra na palavra latina sapere ([28]):
"Por memória entende-se aqui algo mais do que, por assim
dizer, a mera faculdade natural de lembrar-se (...). A `boa'
memória, entendida como requisito de perfeição
da prudência, não significa senão uma
memória `fiel ao ser' (...) O falseamento da
recordação, em oposição à
realidade, mediante o sim ou o não da vontade, constitui a
mais típica forma de perversão da prudência"
([29]).
Precisamente
contra essas interferências sobre a límpida
visão/recordação da realidade - "mediante o sim
ou o não da vontade" ao sabor de interesses interesseiros, de
auto-suficiências etc. - adverte a irônica sabedoria dos
amthal:
(#102) O
rato aconselhou o dono da casa a matar o gato... e a comprar queijo! [BLMR, 309].
(#103)
Foram ensinar o lobo a ler: - Diga A. - Ovelha. - Diga B. -
Cabritinho [FRHA, 1220].
(Ao lhe
pedirem as duas primeiras letras do alfabeto (alif e ba`), o lobo dá as respostas "disparatadas": 'anzah e jady, literalmente, "cabra" e "cabritinho"
(ou, também, "menino")).
Com uma
formulação um tanto forte (de modo algum alheia
à tradição oriental), outro mathal adverte:
(#104) Ele
está com o traseiro no charco e (por isso) sonha com
melancias ([30]).
Já as
"manhas" infantis (tipo para as dos adultos), tornam-se
visíveis em:
(#105) -
Manhê! Kin'an quer um bolinho! [FGHL,
908].
(Kin'an e seu
irmãozinho mais velho esperavam impacientemente ao pé
do fogo a chegada do pai, enquanto a mãe fritava
aromáticos bolinhos. Querendo abreviar a espera, mas sem se
expor, o mais velho disse: - Manhê! Kin'an quer um bolinho! A
frase tornou-se proverbial).
(#106)
"Deus, envia-nos um hóspede!", rezam as crianças... [FGHL, 458].
(Naturalmente,
com a vinda de um hóspede, o tratamento e a comida
melhoram).
(#107) Por
que o careca haveria de ser gentil com o barbeiro?
[FRHA, 279].
(#108)
Quem precisa de algo do cachorro, diz: - Bom dia,
excelência! [FRHA, 411].
(#109) -
Ah, é fiado? Então me vê dez quilos...
[FRHA, 679].
(#110)
"Cebola é um prato nobre", diz o pobre [FRHA,
899].
(#111)
Quebre o fio de sua roca e saberás o que ela tem embaixo da
língua. [FGHL, 1038].
(Não
se deixe enganar pela aparência suave e gentil dessa
moça bela e doce (sobretudo se ela quer casar com você);
seu verdadeiro caráter pode ser outro).
(#112) Se
o rico come cobra, todos dizem: "Que paladar mais refinado!"; se
é o pobre: "Endoidou de vez!". [FRHA,
142].
(A
irônica constatação da diversidade de
juízos ante o mesmo ato praticado por um rico e um pobre
é tema freqüente nos amthal: da sabedoria da
Bíblia ("O rico pratica uma injustiça e ainda se
mostra altivo; o pobre sofre uma injustiça e ainda precisa
pedir desculpas" (Eclo 13,3) ou "Rico tropeça, todos o
socorrem, rico diz tolices, todos o aplaudem; pobre fala, dizem `Cala
a boca' e, se tropeça, derrubam-no de vez" (Eclo 13, 22-23))
aos para-choques de caminhão: "Rico correndo é atleta;
pobre, ladrão!" etc.).
(#113)
Quando Tannús (Toninho) precisou de nós, nós o
chamávamos simplesmente de Tannús, mas quando
nós precisamos de Tannús, tivemos de dizer: "Às
ordens, venerável mestre!" [FGHL, 222].
(#114)
Quando perguntaram ao faminto: "Quanto é dois mais dois?", ele
respondeu: "Quatro pães!" [FRHA, 2701].
(#115)
Defeito que agrada o sultão, vira virtude ([31]).
(#116)
Nunca o mercador diz: "Meu azeite está rançoso" [FRHA, 3346].
(Pelo
contrário, seu pregão sempre é: "Óleo,
óleo puro, óleo fresquinho...").
O artigo de
Tomás sobre a memoria fecha-se com a resposta à
terceira objeção: a memória não pode ser
parte da prudência, pelo fato tão simples de que a
prudência é para o "agível" (operabilium)
do futuro, enquanto a memória é do passado. A resposta
de Tomás a esta objeção está em
consonância com o que dissemos em I.8 sobre a
concepção gramatical/mental árabe do passado:
"É mister tomar do passado argumentos para o futuro. E, assim,
a memória do passado é necessária para bem
aconselhar-nos sobre o futuro".
V.3
A docilitas e a Pedagogia do mathal
Do mesmo modo
que pode haver um falseamento da lembrança, pode haver um
falseamento da percepção da realidade presente, que se
recusa à objetividade ([32]).
Daí
que, no art.3 (sempre em II-II,49), dedicado à outra parte quasi integral da prudência, a docilitas,
Tomás afirme a necessidade dessa disposição de
abertura e acolhimento para aprender, a que se opõe a
auto-suficiência e a indiferença negligente (ad 2). O
Aquinate volta a lembrar que a prudência tem por objeto
ações particulares e que estas se dão em
diversidade praticamente infinita (quasi infinitae
diversitates). Assim, para a prudência, não pode um
indivíduo sozinho, em pouco tempo, considerá-las todas.
Tomás conclui, com Aristóteles, afirmando toda uma
pedagogia dos provérbios: "É necessário
considerar atentamente (attendere) as opiniões e
sentenças (mesmo não demonstradas) dos anciãos e
dos experientes, não menos do que as verdades demonstradas,
pois, pela experiência, eles penetram nos
princípios".
Essa
disposição de aprender, de deixar-se ensinar é
particularmente necessária nos dias de hoje ([33]),
caso queiramos estabelecer - para além da Pedagogia
visível que instrui em técnicas cada vez mais
sofisticadas - uma educação invisível, moral,
que atinja o homem na totalidade de seu ser.
Nesse
sentido, Pieper diz, a propósito do conceito de docilidade em
S. Tomás: "Sem docilitas não pode haver
prudência perfeita. Mas a docilitas não é
evidentemente a submissão e o zelo superficial do `bom
discípulo'. O que o termo designa é aquela
disponibilidade leal que, em face da multiplicidade realista das
coisas e das situações experimentadas, renuncia a
refugiar-se estupidamente na absurda autarquia dum saber
fictício. O que o termo designa é aquela capacidade de
se deixar ensinar, capacidade que brote, não de uma vaga
modéstia, mas simplesmente do desejo verdadeiro - o que
já, de resto, necessariamente, contém a autêntica
humildade. A falta de abertura e a auto-suficiência intelectual
são, no fundo, formas de resistência à verdade
das coisas reais; ambas assentam na incapacidade de o sujeito
conseguir fazer calar o seu `interesse'- condição
imprescindível da apreensão da realidade"
([34]).
Não
será a atual supressão dos provérbios, sua
exclusão dos horizontes de visão do ocidental
contemporâneo, um sinal a mais dessa auto-suficiência,
dessa incapacidade de deixar-se ensinar, dessa falta de abertura e
falta de humildade, características de nosso tempo?
Com isto
tocamos um ponto que merece atenção mais detalhada.
Quando falamos de memoria e docilitas (por exemplo)
não estamos pensando prioritariamente em aspectos
"técnicos" da educação, mas em sua
dimensão moral: a atitude interior de humildade receptiva.
Veja-se a este respeito o Apêndice 5, sobre a proposta
pedagógica de Tomás em seu De modo studendi ([35]).
V.4
Idries Shah e a Pedagogia do mathal
Algumas
características da Pedagogia do mathal são
apontadas nas agudas reflexões de um dos maiores mestres
contemporâneos do sufismo, Idries Shah ([36]).
Idries Shah,
inicialmente, retoma os temas ([37])
da velação/revelação na forma de ensino
por amthal e na leitura do mundo como mathal.
Daí
decorre a "multiplicidade de sentidos" de um mathal (conto ou
provérbio...), desde que se saiba "superar a face externa" e
abrir-se para a compreensão de "conceitos e experiências
que têm estrutura semelhante, mas que operam em um nível
superior de percepção".
Assim,
respondendo à pergunta sobre o papel educativo das
sentenças e relatos, o mestre diz:
"A grande
fraternidade dos Sufis afirma estas três coisas:
- que o
ensinamento Sufi conduz a um reino superior de
iluminação humana;
- que mesmo
que as suas formas exteriores mudem, o sufismo é eterno;
pode-se dizer que sempre existiu;
- que a
finalidade do ensinamento Sufi é provocar experiências
que conduzam a um conhecimento elevado e não simplesmente
propiciar informações ou estímulos
emocionais.
O sufismo
aperfeiçoou, entre outras técnicas, um método de
ensino característico que é quase desconhecido fora dos
limites dos iniciados no caminho. Este método, chamado de Impressão Esquemática de Contos, está
contido no uso especial que os Sufis fazem da literatura oral e de
outras formas literárias. (...)
Uma coisa
específica que se pode dizer sobre o conto Sufi é que a
sua construção é tal que permite a
apresentação, na mente, de um projeto ou série
de relações. Quando a mente do leitor se familiariza
com essa estrutura, pode compreender conceitos e experiências
que têm estrutura semelhante, mas que operam em um nível
superior de percepção. Poder-se-ia dizer que é a
relação que há entre o ante-projeto e o
utensílio terminado.
Esse
método, segundo o ensinamento Sufi, pode produzir
iluminação ao indivíduo de acordo com a sua
capacidade de compreensão. Pode, também, fazer parte
essencial dos exercícios de preparação de um
estudante. O processo exige que se vá além da face
externa de um relato, sem inibir a capacidade do estudante para
compreender e gozar de seu humor e outras características
exteriores.
Nos
círculos Sufis, é costume que os estudantes se embebam
em relatos destinados a seu estudo, de modo que possam conhecer os
seus múltiplos significados quando esses forem úteis
para o seu desenvolvimento".
Tomemos, por
exemplo, o provérbio #89:
"A uva, apalpe; a azeitona, esprema".
Esta
sentença é, sem dúvida, um útil lembrete
agrícola (em um primeiro nível de leitura...). Mas,
nada impede que, numa ponderação posterior, o mesmo mathal se revele, por exemplo, um convite a refletir sobre a
realidade humana e sua dimensão moral: as coisas do mundo são sinal (segundo a sugestiva
acumulação confundente do radical '-l-m, que
discutíamos em II.5 e o sentido das parábolas de
Cristo, em II.4) e, portanto, os distintos modos de lidar com a uva e
com a azeitona podem estar indicando que as pessoas são
diferentes e, por isso, nosso relacionamento com elas não pode
ser uniforme.
E é
evidente que não é à flor, mas a seres humanos
que se refere o mathal #94: "Por causa da rosa, a erva
daninha acaba sendo regada".
Nessa mesma
linha, situa-se também o #124:
"Alimenta teu
cão e ele guardará tua casa; faze jejuar teu gato e ele
te comerá os ratos".
Nesse
sentido, é oportuno retomar, aqui, o pensamento de São
Paulo, que é toda uma proposta de Pedagogia do mathal:
"Na lei de Moisés está escrito: `Não
atarás a boca ao boi que debulha'. Mas, acaso Deus se ocupa de
bois? Não é, na realidade, em atenção a
nós que Ele diz isto?" (I Cor 9, 9-10).
Assim se
compreende que, ao elaborarmos os Índices de
provérbios citados nesta tese, deparamos um número
(à primeira vista) surpreendente: nos cento e setenta e seis amthal que selecionamos, aparecem nada menos do que trinta animais diferentes ([38]).
Após
indicar o potencial educativo dos amthal, o mestre - aguda e
certeiramente - responde a uma pergunta sobre por que o Ocidente
é tão refratário à sabedoria dos amthal (enquanto o Oriente preserva o apreço pela
"pérola").
Idries
Shah: O problema é que, no Ocidente, a compreensão
do exemplo tem sido freqüentemente trivializada.
Há muitas anedotas da literatura e do folclore ocidental que
se poderiam empregar para o desenvolvimento da sabedoria. Mas o
costume tem sido escrevê-los como relatos menores, ou rir-se do
seu "lado engraçado". Daí que os leitores ficam
vacinados contra a possibilidade de provocar
discernimento.
(Já no
Oriente...) o conceito da "pérola dentro da ostra" foi
constantemente repetido e mantido vivo. É interessante notar
que este conceito foi enfatizado também nas
traduções e repetições ocidentais dessas
histórias, com suficiente freqüência para permitir
que esse elemento se mantivesse ao menos como uma possibilidade. Essa
insistência em que a ostra pode conter uma pérola, em
vez de ser meramente uma ostra, permite que o homem ocidental busque
este conteúdo em relatos que têm um sabor oriental, mas
ele não o tolera em um relato ocidental.
(Um exemplo
concreto: "É como a orelha de `Van Gogh'").
Os materiais
que mais freqüentemente se encontram no Ocidente estão em
histórias, anedotas, contos e episódios. Embora
não haja habilidade para utilizá-los, esta
poderá ser desenvolvida.
Uma das
necessidades básicas sufis é permitir que as pessoas se
vejam a si mesmas como realmente são, e deixem de lado as
fantasias sobre como são ou sobre o que acreditam que
estão fazendo. Há uma história ocidental que
é boa o suficiente para ser um
conto-demonstração Sufi:
Um homem foi
a uma exposição de Van Gogh em Nova York. O lugar
estava tão repleto que ele nem sequer pode se aproximar dos
quadros. Foi-se embora e entalhou uma orelha em carne seca; depois a
emoldurou, voltou à exposição e afixou-a na
parede com essa inscrição: "orelha de Van Gogh". A
multidão se aglomerou ante aquele objeto, permitindo assim que
o verdadeiro expert contemplasse os quadros e demonstrasse ao
público que eles estavam ali apenas em busca de
sensações.
Em um
contexto Sufi, este conto teria sido utilizado tanto para assinalar a
diferença entre estética e emoção, como
para que os participantes se vissem a si mesmos como realmente
eram.
No ocidente,
contudo, esses contos são geralmente utilizados apenas como
piadas: permitem que o ouvinte se sinta contente, talvez aliviado,
por não ter estado lá; ou superior, por não se
identificar com os que se enganaram.
(...) E
espero que não esqueçamos, enquanto tratarmos deste
tema, que muitas das mais apreciadas tradições do
Ocidente derivam, e não sem orgulho, do Oriente Médio,
e especialmente do Mediterrâneo oriental...
V.5
Educação moral, linguagem, realidade e Pedagogia do mathal
Outro
importante aspecto a ser destacado no potencial de
educação moral (sempre "invisível") exercido
pelos provérbios, procede da filosofia moral de Josef Pieper.
Uma de suas mais significativas contribuições para a
filosofia da educação (e, particularmente, para a
filosofia da educação moral) está em apontar
concretamente a relação entre educação
moral e linguagem.
Tal
afirmação não é alheia ao fato de que,
como vimos, a principal entre as virtudes cardeais, mãe e raiz
das virtudes morais, é uma virtude intelectual, a prudentia.
Ora, nos
próprios fundamentos da articulação que a
prudência realiza entre o bem e o ser, passando pelo
conhecimento, encontra-se a linguagem.
O pensamento
e a vida estão mais ligados à linguagem do que em geral
supomos. A força viva da palavra não só
transmite, mas até mesmo gera e preserva, em
interação dinâmica, o que pensamos e sentimos.
Sem a palavra, nossa percepção da realidade é
confusa ou nem sequer chega a ocorrer.
Valem para
toda a realidade humana (e, muito especialmente para a moral), as
considerações sobre a "latência", que Abraham
Moles tece em seu estudo O Kitsch. Valendo-se de uma
metáfora fotográfica, ele fala de uma revelação das impressões confusas
([39]),
pelo surgimento de um vocábulo: "O surgimento nas
línguas germânicas de um termo preciso para
designá-lo (a própria palavra Kitsch - nota
nossa) levou-as a uma primeira tomada de consciência:
através da palavra, o conceito torna-se passível de
apreensão, e manipulável... O trajeto científico
para conhecer, começa por nomear" ([40]).
De fato -
para continuarmos com o exemplo do Kitsch -, sem a posse da
palavra é-nos muito mais difícil reparar - (como
já dizíamos no cap. IV, também a
propósito do Kitsch) -, em que há, no fundo,
qualquer coisa de comum entre o pingüim da geladeira e o
anãozinho do jardim...
É
precisamente neste aspecto fundamental da educação
moral que Pieper insiste ao longo de todo o Das Viergespann ([41]):
a interação entre a possibilidade de
percepção (e vivenciamento da realidade moral) e a
existência de linguagem viva.
O
empobrecimento do léxico moral ([42])
é, portanto, hoje, o problema primeiro da
educação moral, na medida em que gera um
círculo, literalmente, vicioso: a falta de linguagem viva
embota a visão e o vivenciamento da realidade moral; o
definhamento da realidade esvazia (ou deforma) as
palavras...
Faltam-nos os
conceitos, faltam-nos os juízos, falta-nos acesso à
realidade.
V.6
Provérbios e percepção da realidade
A moral e a
educação moral principiam, pois, pela visão da
realidade. Precisamente esta tarefa de apontar para a realidade
(até então, não divisada) e indicar as notas que
caracterizam um conceito (pelo qual apreendemos a realidade...)
é uma das funções pedagógicas, agudamente
exercida pelos provérbios.
Quando se tem
em conta que a educação moral é uma
"educação invisível", que - mais do que no
âmbito oficial da escola - se exerce na interação
social informal e que a moral pressupõe, antes e acima de
tudo, conhecimento sobre o homem, torna-se imediatamente evidente que
a tradição viva de provérbios populares é
poderosa instância de educação moral (que,
naturalmente, valerá o que valerem os conteúdos
veiculados...).
No caso, essa
educação se faz, antes de mais nada, precisamente pela
possibilidade de circunscrever, de configurar uma
situação, que passaria despercebida, se os
provérbios não chamassem a atenção para
ela ([43]):
especialmente para a educação moral vale a
intuição contida na sugestiva
acumulação semântica da palavra castelhana enseñar: ensinar e mostrar!
Há,
portanto, parece-nos, uma co-relação entre a
desorientação moral contemporânea ocidental e o
desenraizamento das tradições proverbiais.
Nesse
sentido, já há séculos, Delicado advertia, na
introdução de seu livro, sobre o alcance educativo dos
provérbios: "pera boa doutrina moral, que a todos pertence".
Uma observação particularmente pertinente para o Brasil
de hoje, carente de referenciais comuns: tanto no campo da realidade
como no da linguagem.
Note-se, a
propósito, que já Aristóteles - quando na Retórica trata tematicamente da expressão por
meio de gnomé (máxima) ([44])
- lembra que a gnomé é um meio de traduzir uma
maneira de ver, que se refere precisamente ao universal que diz
respeito à ação: ao que o homem busca e evita em
seu agir ([45]).
Apresentemos,
aqui, alguns exemplos dessa percepção da realidade,
facilitada (ou mesmo possibilitada...) pelos amthal. Ela se
exerce, exortando à grandeza e à prática das
virtudes, e, por outro, denunciando e ironizando a pequenez e o
vício. Em qualquer caso, anunciando a realidade.
Para o
primeiro caso, destacamos, inicialmente, a exortação
à determinação e à grandeza, objeto de
muitos amthal:
(#117) Se
é para se apaixonar, que seja por um
príncipe;
Se
é para bater à porta, que seja à porta de um
grande;
Se
é para roubar, que seja um camelo [FRHA,
644].
(#118)
Meca não está longe para quem está determinado a
fazer a peregrinação. [FRHA,
3741].
(#119) Os
segredos da arte, para quem os conhece, estão escondidos sob
um arbusto; para quem não os conhece, sob uma montanha ([46]).
(Ou é
fácil, ou é impossível...).
(#120)
Antes inimigo do príncipe do que do guardinha [FRHA,
2308].
(O
príncipe, naturalmente, tem mais o que fazer, do que ocupar-se
com desavenças... Rimado no original: amyr/khafyr).
O
libanês não se deixa abater e resiste à
adversidade, opondo-lhe seu engenho e sua
determinação:
(#121)
Você o joga no mar e ele volta com dois peixes na boca [FRHA, 177].
(Provérbio
recentemente lembrado pelo primeiro-ministro Hariri, a
propósito do projeto de reconstrução do
Líbano...).
(#122) Ele
comeu a isca e ainda deu uma defecadinha no anzol [FRHA,
299].
Dentre os
vícios, destaquemos, em primeiro lugar, o egoísmo do
ser humano, que é, freqüentemente, figurado no gato,
tomado como tipo do oportunismo:
(#123) O
gato (aproveita e) deita-se em cima do doente [BLMR,
272].
(#124)
Alimenta teu cão e ele guardará tua casa; faze jejuar
teu gato e ele te comerá os ratos [FRHA,
196].
(#125)
Não é por amor a Deus que o gato caça os
ratos ([47]).
(#126) O
rato caiu do telhado. O gato: - Que Deus te ajude! O rato: -
Tire a pata de cima e deixe que eu cuido de mim [FRHA,
4132].
(#127)
"Ó gato, quem testemunha em teu favor?". " Minha cauda!" ([48]).
(#128) A
prece do gato: "Senhor, dizima os moradores desta casa e faze-os
cegos a fim de que eu possa roubar". A prece do cão: "Senhor,
multiplica os habitantes desta casa e faze-os prosperar a fim de que
cada um me dê um bocado" ([49]).
Formas sutis
de hipocrisia (difíceis até de nomear abstratamente)
são agudamente atingidas:
(#129) A
mantegueira da velha caiu no fogo. Ela disse: "Eu a ofereço a
Allah" ([50]).
(#130)
Rasgou as roupas e começou a gritar: Náufrago!, Náufrago! [FRHA, 2750].
(#131) Ele
joga a pedra e depois diz : "É o destino". [FRHA,
227].
(#132) Ele
entra com a mãe da noiva e sai com a mãe do noivo. [FRHA, 1097].
(#133) Ele
deu os pêsames e chorou, mas nem sabe quem morreu. [FRHA, 1107].
(#134)
Tudo dói na madame; só sua garganta continua boa... [FRHA, 2921].
(#135) Que
Deus prolongue tua doença, ó sheikh, até que
minha galinha volte a pôr ovos e eu te os possa oferecer... ([51]).
(#136) Em
cima dele, khara (excremento); embaixo dele, khara e ele ainda diz: - Olha que cheiro de khara! [FGHL, 316].
(#137)
"Malta não existe" - "Malta yoq!" [FRHA,
184].
(Emprega-se
como resposta ante desculpas esfarrapadas para omissões
injustificadas como: "Desculpe, todas as máquinas de xerox,
lá da faculdade, estavam quebradas...", ou "Passei na
farmácia, mas não havia aspirina...". Procede do
proverbial episódio ocorrido no tempo em que a Turquia, em
guerra com a Inglaterra, encarregou um almirante de ocupar a ilha de
Malta. O almirante partiu e voltou, após algum tempo, dizendo
que não tinha encontrado nenhuma Malta; "Malta não
existe!". A forma verbal yoq é turca e expressa uma
característica típica e decisiva do sistema de
língua/pensamento uralo-altaico. Como dissemos, o sistema
língua/pensamento árabe é ma'na -
intencionalidade - enquanto no sistema grego (e indo-europeu em
geral), centrado semanticamente no verbo ser, os membros da frase se
agrupam em ordem circular em torno de um verbo. O sistema
uralo-altaico, entretanto ([52]),
é estritamente linear, com um par de verbos que designam
respectivamente a existência ou a não-existência: em turco "var: existe...
tal coisa" e "yoq: não existe... tal coisa". Se o
indo-europeu é um sistema de enunciação
explícita, o uralo-altaico é de simples
constatação.
Mas nem tudo
são desculpas falsas, há situações em que
alguém injustamente "leva a culpa". Pelos amthal essas
realidades tornam-se visíveis:
(#138) A
culpa não é da D. Cida (a costureira), mas de quem lhe
passou as medidas. [FGHL, 1767].
(O nome da
costureira no original é: Emm Elyas, que rima com qyas, medida).
(#139) A
parede queixou-se ao prego: - Por que me perfuras? Ele
respondeu: - Pergunte ao martelo! [FRHA,
2262].
(#140) O
mar brigou com o vento e quem virou... foi a barquinha ([53]).
A vaidade (a
tola vaidade...) é sutilmente apanhada pelas
formulações:
(#141) O
cão late porque late; o dono pensa que é para ele ([54]).
(#142) Se
eu sou príncipe e você é príncipe, quem
é que vai atrelar o cavalo? [FGHL,
1221].
(#143)
Quando perguntaram à mula "Quem é teu pai?", ela
respondeu: "O cavalo é meu tio!" [FRHA,
2692].
Como
não poderia deixar de ser, a avareza é também
alvo da ironia dos amthal:
(#144)
Economiza na alimentação do gato e os ratos
comer-te-ão as orelhas. [FRHA, 460].
(#145) O
avaro teme a pobreza, mas vive nela. [FGHL,
427].
(#146)
Será por inveja ou avareza? Ou por ambas? [FRHA,
1403].
(Inveja e
avareza costumam andar juntas...).
(#147) Ele
almoçou na madrasta [FGHL, 944].
(Diz-se
daquele que sim, comeu, mas muito mal...).
V.7
Disfunções dos provérbios: o pessimismo no
extremo do realismo
Tomás,
sempre muito agudo e equilibrado não deixa de advertir para as
possíveis disfunções da experiência (e,
portanto, acrescentemos, dos provérbios que a
veiculam...).
Se no tratado
da prudência, Tomás afirma, como vimos, que essa virtude
dá-se mais nos velhos ("prudentia magis est in
senibus..."), por causa de sua longa experiência
("...propter experientiam longi temporis" - II-II,47,15 ad 2),
em outro tratado, o da justiça, o Aquinate agudamente observa
que pode haver aspectos negativos associados à
experiência: o pessimismo da suspeita (suspicio... provenit
ex longa experientia). E afirma, com Aristóteles, que os
velhos são dados à suspeita, precisamente porque
já muito experimentaram (e a experiência aproxima da
certeza...) os defeitos dos outros (II-II, 60, 3).
De passagem,
vale a pena registrar - a propósito dos temas da
experiência e das disfunções dos
provérbios - algumas observações de
Aristóteles sobre o uso e o abuso das máximas
([55]).
Inicialmente, ele aponta que o exprimir-se por máximas
só fica bem em pessoas de idade e em assuntos que
pressupõem experiência. "Pois é inconveniente,
para quem não atingiu a velhice, fazer uso de máximas e
contar fábulas e fazê-lo sobre assuntos em que se carece
de experiência. É sinal de tolice e de grosseria, como o
prova suficientemente o fato de que os rústicos são os
mais inclinados a falar sentenciosamente..." (II,21,9). Aliás,
já na Bíblia ([56])
- que, por outro lado, insistentemente, exalta a sabedoria dos amthal ([57])-
encontramos também diversas advertências - também
elas em forma proverbial! - sobre o abuso dos provérbios:
"Como
las piernas vacilantes del cojo, es el proverbio en boca de los
necios" (Pro 26:7);
"Como
espino que va a parar a mano de borracho, es el proverbio en boca de
los necios" (Pro 26:9);
"De
boca de necio no se acepta el proverbio, pues jamás lo dice a
su hora" (Eclo 20:20) etc.
De resto,
Aristóteles, aconselha a nos valermos de máximas
(Retórica II,21,11) - mesmo as mais desgastadas pelo
uso (tal fato indica, precisamente, que são unanimemente
aceitas ([58]))
-, quando são úteis, por exemplo para exortar
(II,21,11), para refutar frases feitas de domínio
público (II,21,13) etc.
Em II,21,15,
Aristóteles mostra as duas vantagens do uso das máximas
pelo orador. A primeira é propiciar acolhimento por parte dos
ouvintes, mais não seja pelo prazer da vaidade primária
destes, ao verem suas próprias opiniões expostas em
modo universal. Por exemplo - prossegue o Estagirita -, com muito
prazer, aquele que sofre com um mau vizinho, dará acolhida a
quem lhes disser a gnomé: "Grande calamidade é
um mau vizinho" (Hesíodo). E conclui (II,21,16),
apontando o segundo auxílio prestado pelas máximas:
conferir uma dimensão moral ao discurso, ao mostrar as
preferências (e, portanto, o caráter) do orador:
máximas moralmente boas farão parecer igualmente bom
quem as emprega.
Voltemos
às disfunções dos provérbios e da
experiência.
"C'um saber
só de experiências feito", de "lições"
aprendidas no passado, o pragmatismo, o pessimismo e a
desconfiança podem informar as palavras e os provérbios
que se tiram do "experto peito" (Lusíadas IV, 94). E
reciprocamente: os provérbios são poderosos
instrumentos para a educação das novas
gerações: para ironizar os defeitos e desmistificar
ilusões a respeito da realidade e do ser humano. Assim,
materializam-se em sentenças muitas formas -
freqüentemente cheias de sarcasmo - de condenar e ridicularizar
as atitudes contrárias a esse realismo prosaico.
Na fronteira
entre o realismo e o pessimismo, muitos provérbios tendem a um
realismo cru e sem ilusões, beirando também o
pragmatismo ([59]):
(#148) -
Teu moinho gira para a direita ou para a esquerda? - Sei lá, o
importante é que ele me dá farinha! [FRHA,
2222].
(#149)
Plantamos o "se" ([60]),
nasceu o "eu gostaria"... [FRHA, 1839].
(#150)
Disseram ao prisioneiro: - Vamos te casar com uma moça muito
bela e muito rica. - Ótimo, mas soltem-me primeiro. [FGHL, 1397].
(#151)
Não digas: - Smallah!, antes que o camelo se levante. [FGHL, 2799].
(O camelo, ao
levantar-se, oferece um espetáculo grandioso quando ergue sua
enorme massa de um só golpe. É tão imponente
que, instintivamente, vem à boca a interjeição
de admiração e espanto, misto de prece e de louvor: Smallah! - "Meu Deus!", "Deus te conserve!", "Que beleza!". O
efeito é tanto mais surpreendente quando, ainda há um
minuto, o camelo estava calmo, aparentemente indolente, largado no
solo).
(#152)
- Caíste sozinho ou foi o camelo que te arremessou? - Tanto
faz: o fato é que eu caí. [FRHA,
4135].
(#153)
(Isto é) Peixe no mar [FRHA, 1924].
(Diz-se
quando alguém quer vender ou usar um bem de que ainda
não dispõe).
(#154)
Você quer pegar as uvas ou... matar o guarda? [FRHA,
332].
(Quando
já se obteve o que se queria, o melhor é ir embora
quanto antes, sem expor-se inutilmente...).
(#155)
Todo pedido de autorização será negado... [FGHL, 1741].
(Vá em
frente, faça primeiro e peça autorização
depois...).
(#156)
Janta-o antes que ele te almoce. [FRHA, 1177].
(#157)
Não aconselhe o tolo: em qualquer caso ele te culpará
depois [FRHA, 3140].
(#158) A
vida é assim: um dia a favor, outro contra... isto para os
mais venturosos [FRHA, 635].
(#159) Uma
coisa é receber as chibatadas; outra é
contá-las... [FGHL, 1699].
(Usado como
resposta, quando diante de uma queixa o interlocutor diz: "Mas, isso
não é nada" ou "Você não deve se
preocupar" etc.).
O pessimismo
dos velhos afirma a incorrigibilidade humana, que é
concretizada pela comparação com os animais (e por
outras metáforas...):
(#160)
Podem ficar tranqüilos: a raposa me garantiu que não vai
mais pegar galinhas [FRHA, 1144].
(Frase
irônica para desmontar, no ato, as declarações de
emenda de um salafrário).
(#161) "-
Corvo, roubar sabão? Para que?" "- Roubar é da
minha natureza" [FGHL, 2987].
(#162) A
galinha sempre cisca. Mesmo sobre um monte de trigo, ela continua
ciscando ([61]).
(#163) Khara (excremento) é khara mesmo depois
de ter atravessado o Eufrates (al-fara). [FGHL,
392].
(Rimado no
original).
Em sua
dimensão pessimista, os provérbios - já
há séculos - tinham enunciado as "Leis de
Murphy":
(#164) Dor
de dente... bem no dia do casamento [FRHA,
4247].
(#165) O
lobo veio atacar as ovelhas, logo quando o cão tinha ido
defecar. [FRHA, 73].
(#166)
Bastou elogiarmos a limpeza do gato, e ele foi e defecou no
depósito de farinha [FRHA, 2043].
V.8
Disfunções dos provérbios: rótulos e
preconceitos
Um outro
capítulo importante nas disfunções dos
provérbios é o do preconceito ([62]).
Seu caráter deletério está na
cristalização, tanto mais grave, quanto mais engenhosa
for a formulação.
Se, como
dissemos em tópico anterior, a memória e a
ligação com o passado são a própria base
sobre a qual se edifica a educação moral, a
disfunção da memória dá-se perpetuando o
preconceito (e aqui, mais do que em qualquer outra parte, vê-se
o quão importante é uma memória adequada,
proporcional, fiel à realidade...).
Pela
particular ligação do Oriente com o passado, a
disfunção da memória tende a tornar
impossível o perdão, a compreensão, o
relacionamento... ([63]).
Alguns poucos
exemplos de amthal preconceituosos:
(#167) Os
beduínos (al-'arab) deixam a ruína detrás
de si (bitkharrab) [FGHL, 2260].
(Rimado no
original. O beduíno é visto como grosseirão,
vândalo, ladrão etc.).
(#168)
Quando os beduínos começaram a ter abundância de
manteiga, usaram-na para limpar o traseiro [FRHA,
2843].
(#169) Em
mil noras, pode haver uma que ame a sogra; em duas mil sogras, pode
haver uma que ame a nora. [FRHA,
790].
(#170) A
sogra já foi nora, mas... esqueceu! [FRHA,
2704].
(#171)
Rancor de homem é rancor; rancor de mulher, rancores. [BLMR, 56].
(A
formulação original joga com o singular e o dual
(número característico do árabe): Rancor de
homem é um rancor; rancor de mulher, dois
rancores).
(#172)
Não confie no céu de março, mesmo que ele
ria;
Não
confie na mulher, mesmo que ela chore ([64]).
Naturalmente,
o preconceito não é apanágio dos
provérbios árabes. Dá-se também na
tradição européia, tendo como alvo, entre outros
([65]),
precisamente o árabe.
Para os
provérbios seguintes, adotaremos as seguintes
abreviaturas:
[SBARBI,
Tal] - Verbete "Tal" em SBARBI, José María Gran Diccionário de refranes de la lengua
española. Obra póstuma editada por Manuel J.
Garcia. Buenos Aires, Joaquín Gil, 1943.
[SMITH,
p.N] - Página N em SMITH, William George (comp. and
editor) The Oxford Dictionary of English Proverbs,
Oxford at The Clarendon Press, 1936 (repr.).
No campo do
preconceito, encontramos em Delicado, muito antigos provérbios
portugueses (/espanhóis), nos quais o tipo de certas atitudes
ridículas é a mulher árabe Axa ('Aisha)
([66]):
Axa foy ao
banho, teve que contar anno [DELIC, 26].
(Cabem
três sentidos ao provérbio:
"Axa tem que
contar (computar) um ano entre banho e banho",ou
"Axa, por ter
ido ao banho, já tem assunto (contar: narrar) para um ano" e
"O banho de
Axa é lento, demora um ano".
É de
supor (pela rima: año/baño) que o original seja
castelhano).
Aja (/Axa)
é objeto de diversos outros maldosos provérbios
espanhóis (/portugueses):
Aja
enlodada, ni viuda ni casada [SBARBI, Aja].
(A mulher que
- tendo incurrido en algun desliz - tem o nome
manchado...).
Aja no tiene qué comer y convida huéspedes [SBARBI, Aja].
(Na
versão portuguesa: "Axa nam tem que comer, convida
hóspedes" [DELIC, 027]).
De
cuando acá Aja con albanega? [SBARBI, Aja].
(A albanega é um adorno caro e supérfluo. O
provérbio satiriza e lança maliciosas suspeitas sobre
uma ascensão rápida ou fácil...).
Quem comete o
erro é Aja, mas sabe subtrair-se à
punição:
Hácelo
Aja, y azotan a Mazote [SBARBI, Aja].
("O justo
paga pelo pecador").
Também
o beduíno e o "moro" são estigmatizados
([67]):
Ser
un beduíno [SBARBI,
Beduíno].
(O
próprio Sbarbi comenta: "Frase empleada para calificar de
huraña y brutal a una persona").
Así
hará (uno tal cosa) como volverse moro [SBARBI, Moro].
(Negativa
rotunda e definitiva...).
Ser moro
al água [SBARBI, Moro].
(Estar
perdido: ninguém se dará ao trabalho de
salvá-lo...).
Siempre
lo tuviste, moro, andar en barraganadas [SBARBI, Moro].
Three Moors to a Portuguese; three Portuguese to an
Englishman [SMITH, p. 490].
(Antigo
provérbio, já registrado em 1625).
The
more Moors, the better victory [SMITH, p. 452].
(Já
registrado no século XVII (embora, certamente, seja muito
anterior)).
[1].
Registrado no capítulo "Honra" de Antonio Delicado, Adagios
portuguezes...
[2].
Como apontávamos, curiosamente, a prudentia, virtude da
decisão, converteu-se na atual "prudência"
indecisa...
[3].
DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Os Irmãos
Karamázovi São Paulo, Ouro, s.d., p.
226.
[6]. Ergo prudentia non inest nobis a natura sed ex doctrina et
experimento (II-II,47,15,sed contra).
[7].
Em II-II 47,16, Santo Tomás discute se a prudência pode
se perder por esquecimento. E afirma que sendo apetitiva (e
não só cognoscitiva...), não se perde diretamente (non directe) a prudência por
esquecimento, mas conclui: "O esquecimento, no entanto, pode impedir
a prudência, pois esta para preceituar, precisa de conhecimento
e este, sim, pode ser esquecido".
[8] "A experiência da vida
- Sub-solo da reflexão filosófica" in LAUAND, L. J.
(org.) Oriente e Ocidente: Idade Média...
[9].
AMROUCHE, Marguerite Taos Le Grain Magique, Paris,
François Maspero, 1966.
[10].
Na Retórica (III,11,5), Aristóteles ensina:
"Deve-se tirar as metáforas das coisas que nos são
próximas, mas não demasiado evidentes" ARISTOTE Art Rhéthorique et Art Poétique - (ed.
bilíngüe: gr./fr.) trad. nouvelle avec texte, intr. et
notes par Jean Voilquin et Jean Capelle. Paris, Garnier,
1944.
[11].
Veja-se, por exemplo, nossa apresentação (e
tradução) a seu "Tratado sobre o brincar" in LAUAND, L.
J. O Significado Místico..., pp. 13-41. Dessa obra
extraímos este parágrafo e o seguinte. Tomás
trata tematicamente do brincar no Comentário à
Ética de Aristóteles (IV,16) e na Suma
Teológica, II-II, questão 168, artigos 2, 3 e
4.
[12]. Suma Teológica, prólogo. Em outro lugar da Suma Teológica, no tratado sobre as paixões,
Tomás analisa um interessante efeito da alegria e do prazer na
atividade humana, o que ele chama metaforicamente de
dilatação: que amplia a capacidade de aprender, tanto
em sua dimensão intelectual, quanto na da vontade (o que
designaríamos, hoje, por motivação): "A largura
é uma dimensão da magnitude dos corpos e só
metaforicamente aplica-se às disposições da
alma. `Dilatação' indica uma extensão, uma
ampliação de capacidade e se aplica à
`deleitação' (Tomás joga com as palavras dilatatio-delectatio) com relação a dois
aspectos. Um provém da capacidade de apreender que se volta
para um bem que lhe convém e, por tal apreensão, o
homem percebe que adquiriu uma certa perfeição que
é grandeza espiritual: e por isso se diz que pela
deleitação sua inteligência cresceu, houve uma
dilatação. O segundo aspecto diz respeito à
capacidade apetitiva que assente ao objeto desejado e repousa nele
como que abrindo-se a ele para captá-lo mais intimamente. E,
assim, dilata-se o afeto humano pela deleitação, como
que entregando-se para acolher interiormente o que é
agradável" (I-II, 33, 1).
[15].
Já Aristóteles havia advertido em sua Retórica (III,11,6): "A maior parte das
expressões engraçadas procedem da metáfora e de
uma certa mistificação percebida imediatamente pelo
ouvinte; ele apreende tanto mais manifestamente que apreendeu algo,
quanto mais inesperado é o objeto. O espírito parece
dizer a si mesmo: `Como é verdade! Eu é que estava
enganado!'" ARISTOTE Art Rhéthorique et Art
Poétique - (ed. bilíngüe: gr./fr.) trad.
nouvelle avec texte, intr. et notes par Jean Voilquin et Jean
Capelle. Paris, Garnier, 1944.
[16]. FINBERT, ELian-J. Le Livre de la Sagesse
Arabe, Paris, R. Laffont, 1948, p. 41
[17].
É o capítulo XVI "O ermitão e seu
hóspede".
[18]. in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: O
Literário e o Popular, São Paulo, 1995.
[19].
SMITH, William George (comp. and editor) The Oxford
Dictionary of English Proverbs, Oxford at The Clarendon Press,
1936 (repr.), pp. vii-viii.
[20].
Para o estudo de Jiha, como para o bom humor árabe em
geral, veja-se também nosso capítulo "O Bom Humor na
Bíblia - O Bom Humor Árabe" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente & Ocidente: O Bom Humor na Bíblia - O Bom Humor
Árabe (e outros estudos), S. Paulo, EDIX/
DLO-FFLCHUSP, 1995.
[21].
Veja-se a este respeito: "Humor: um magnífico tesouro da
língua árabe" in ICAB, publ. mensal do Instituto
de Cultura Árabe Brasileira, São Paulo, Ano III, No. 6;
DIAS, Eduardo Harém - Contos e Ditos
Muçulmanos, Lisboa Clássica, 1942 e CHALLITA,
Mansour As Mais Belas Páginas... Um exemplo:
"Cobiçando as belas sandálias novas de Jiha, os
companheiros de caminho, ao avistarem uma grande árvore,
desafiam-no: "Vamos ver se você é capaz de escalar essa
árvore". Jiha descalça-se e, pondo as
sandálias no bolso, diz-lhes: "Levo comigo as sandálias
para o caso de encontrar um atalho lá em cima e poder
continuar caminhando".
[22].
Saber de cor, com o coração, by heart, par coeur.
[23]. FINBERT, Elian-J. Le
livre..., p. 29.
[28].
De que falamos na Introdução.
[29].
PIEPER, Josef Das Viergespann, München, Kösel,
1964, p. 29.
[30].
AMROUCHE, Marguerite Taos Le Grain..., p.19.
[31].
FINBERT, Elian-J. Le Livre..., p. 48.
[32].
Ou melhor, como orientalmente diz Pieper, de ouvir a
realidade...
[33].
Em que a geração pós-68 é formada pela
"sentença": "Não confie em ninguém com mais de
trinta anos".
[34].
PIEPER, Josef Virtudes Fundamentais, Lisboa, Aster, 1960, p.
26.
[35].
O fato de termos dedicado um Apêndice a esta
questão, não significa que as reflexões que
aí estão contidas sejam de menor importância, mas
somente que, no corpo do trabalho, por conterem
citações longas, interromperiam o fluir da
discussão.
[36].
Naturalmente, os Sufis voltam-se mais para o mathal enquanto
conto, o que não impede de aplicarmos as reflexões de
Idries Shah para o mathal-provérbio.
[37].
SHAH, Idries. Aprender a Aprender. Barcelona, Ed.
Paidós Ibérica, 1988, p. 225-227, p. 231-233. Citaremos
aqui pela seleção e tradução de HORTA,
Sylvio R. G. "Aprendendo a aprender" in LAUAND, L. J.
(org.) Oriente & Ocidente: Educação Moral e
Sátira dos Vícios, S. Paulo, EDIX/ DLO-FFLCHUSP,
1995.
[38].
Aranha - #38b; Asno - #38d, #74; Besouro - #63; Cabritinho - #103;
Camelo - #4, #39, #41, #117, #151, #152; Cão - #6, #7, #38a,
#60, #108, #124, #141, #165; Cavalo - #142, #143; Chacal - #47; Cobra
- #112; Cordeiro - #52; Corujão - #52; Corvo - #52, #69, #161;
Falcão - #52; Galinha - #135, #160, #162; Gato - #9, #52,
#102, #123, #124, #125, #126, #127, #128, #144, #166; Gazela - #30;
Lobo - #52, #103, #165; Macaco - #30; Mula - #143; Ovelha - #103,
#165; Peixe #121, #153; Perdiz - #69; Pintada - #52; Pombo - #57;
Pulgas - #60; Rã - #63; Raposa - #160; Rato - #9, #52, #102,
#124, #125, #126, #144; Urso - #26; Vespa - #42.
[39].
"Um fator latente... é preciso revelá-lo... como a
imagem latente de uma película fotográfica". MOLES,
Abraham O Kitsch, São Paulo, Perspectiva, 1972,
p. 11
[41].
Principalmente nas introduções a cada virtude. Por
exemplo: "(A verdade moral e também a verdade em geral) perde
não só sua força conquistadora, mas
também seu poder de anúncio, se não for
regenerada vivamente em seu sentido autêntico. E esta
vivificação contínua realiza-se pela
força incisiva da palavra viva. Daí a grande
responsabilidade - que sempre acompanha o poder - para com a verdade
dos que comunicam: podem anunciar a verdade ou desvirtuá-la"
(pp. 201-202).
[42].
Enquanto linguagem viva. Em que contextos da linguagem quotidiana
aparece a palavra "virtude" ou as que designam as
virtudes?
[43].
E, tantas vezes, não só apontam a
situação, mas, também as razões que
aconselham tal ou qual atitude...
[44].
Livro II, cap. 21. Sigo a edição bilíngüe
(grego/francês) ARISTOTE Art Rhéthorique et Art
Poétique - trad. nouvelle avec texte, intr. et notes par
Jean Voilquin et Jean Capelle. Paris, Garnier, 1944. Continuamos aqui
usando "máximas" e "provérbios", "confundidos" em mathal. Seja como for, mesmo a paroimía (o
provérbio no sentido estrito grego), que, para
Aristóteles, envolve metáfora (cfr. Retórica III, 11,14), é incluído, em
alguns casos, pelo Estagirita, nas máximas (cfr. Retórica II, 21, 12).
[45].
II,21,2. Na tradução da edição citada
(p.251): "Une maxime est un moyen de traduire une manière de
voir ... sur le général. Le général ici,
ne s'entend que de tout ce qui a rapport aux actes et de ce que
l'homme cherche et évite relativement à l'action".
Note-se também que o próprio Aristóteles faz, em
sua argumentação, uso freqüente de
provérbios, como o mostram os seguintes exemplos da Retórica: na discussão sobre o bem e o
útil, ao afirmar que há coisas proveitosas a dois
adversários, recorre ao ditado: "Os males aproximam os
homens..." (I,6,20) e, pouco depois, à paroimía "Quebrar o cântaro à soleira da casa" (I,6,22); para
comprovar que, por vezes, o abundante é preferível ao
raro, vale-se do ditado: "Nada melhor do que a água" (I,7,14);
e, em I,11,25, falando da conformidade e mútua
atração que se dá entre os que são
semelhantes, cita quatro paroimíai, no sentido do nosso
"Cada qual com seu igual". Veja-se também II,23,15; II,25,4
etc.
[46]. FINBERT, Elian-J. Le
Livre..., p. 34.
[47]. FINBERT, Elian-J. Le
Livre..., p. 48.
[48].
AMROUCHE, Marguerite Taos Le Grain..., p.128.
[52].
É um terceiro sistema analisado por Lohmann em "Saint Thomas
et les Arabes (Structures linguistiques et formes de pensée)"
in Revue Philosophique de Louvain, t. 74, fév.
1976, p. 5-29.
[53].
Este tradicional provérbio libanês foi-me lembrado pela
Profa. Dra. Aida R. Hanania.
[54].
FINBERT, Elian-J. Le Livre...,
p. 28
[56].
Citarei pelo já referido programa DEBORA-Microbible, Bíblia de Jerusalén...
[57]. "No dedeñes lo que narran los sabios, vuelve a
menudo a sus proverbios, que de ellos aprenderás doctrina"
(Eclo 8:8).
[58].
Precisamente nessa linha, situa-se o lamento de Hamlet (III,3)
quando, ante a observação de que ele conta com o voto
do próprio rei para suceder-lhe no trono da Dinamarca,
responde com o mofado provérbio "Enquanto a grama cresce... (...o
cavalo pode morrer de fome)": "Aye, sir, but `while the grass grows',
- the proverb is something musty" (SHAKESPEARE - Four Great
Tragedies: Hamlet - Romeo and Juliet - Julius Caesar - Macbeth with introductions by Mark van Doren, New York, Pocket Books, 1950,
p. 280).
[59].
E, quando se passa essa fronteira, entramos decididamente no campo
das disfunções: a atitude de, por princípio,
suspeitar o pior ("Pensa mal e acertarás", diz um infeliz
provérbio ocidental...)
[60].
No original deste (e de muitos outros provérbios...) aparece o Law, o se condicional árabe, usado
freqüentemente para situações impossíveis
ou muito improváveis.
[61].
Este tradicional provérbio libanês foi-me relatado por
Jaime Miguel Lauand.
[62].
E não só dos provérbios, mas dos amthal em geral: pense-se, por exemplo, no perigoso capítulo das
piadas discriminatórias ou no dos apelidos. Objeto desse
preconceito são o fellah, o beduíno, o
judeu (e, em geral, as diversas religiões se estigmatizam
também via amthal), a mulher, a sogra etc.
[63].
Amin Maalouf conclui seu livro As Cruzadas Vistas pelos
Árabes (São Paulo, Brasiliense, 1988) falando de
uma impossibilidade de distinguir entre passado e presente "que toma,
entre alguns fanáticos, a forma de uma perigosa
obsessão: não se viu a 13 de maio de 1981, o turco
Mehemet Ali Agca atirar no papa após ter explicado numa
carta:`Decidi matar João Paulo II, comandante supremo dos
cruzados'?".
[64].
AMROUCHE, Marguerite Taos Le Grain..., p.
127.
[65].
Por exemplo: "Da laranja e da molher, o que ella der" [DELIC,
029], "Inda que somos Negros, gente somos e alma temos"
[DELIC, 030], "Boa fazenda (riqueza) é negros, se nam
custassem dinheiro" [DELIC, 031], "A judeo, nem a porco nam
mettas no teu horto" (por causa do estrago que farão)
[DELIC, 032], "Do sangue misturado... me livre Deos"
[DELIC, 034] etc.
[66].
Como fica claro, por exemplo, em um provérbio - recolhido por
Sbarbi no verbete "Aja" (nome correspondente ao português Axa)
- que, para indicar que se pretende "pagar na mesma moeda", diz: "Si
vos Aja, yo Alí".
[67].
Embora o "moro" seja também, em raros casos, modelo de
valentia ou saber: Aun el mismo moro no lo sabe [SBARBI,
Moro] (Para referir-se a conhecimentos profundos, como reconhece
o comentário de Sbarbi: "la literatura arábigo-hispana
está llena de monumentos, demostrando que tanto en las
ciencias como en Medicina, Filosofía etc. llegaron a alturas
verdaderamente asombrosas).
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