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Sunday, 18 May 2008


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De Proverbio - Electronic Journal of International Proverb Studies. Proverbs, Quotations, Sayings, Wellerisms.
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EDUCAÇÃO   MORAL   E PEDAGOGIA DO MATHAL

 

"Onde nam ha honra, nam ha desonra"
(antigo provérbio português ([1])).

 

V.1 Prudência e contingência

Estabelecidos os referenciais teóricos nos capítulos anteriores, este é o momento de dedicarmo-nos tematicamente ao alcance educativo dos amthal.

Destaquemos alguns aspectos prévios.

Tomás, nos artigos 1 a 5 de II-II,49 trata, em particular, de cada uma daquelas cinco virtudes - partes quasi integrais da prudência em sua dimensão cognoscitiva (das quais interessam-nos particularmente a memoria e a docilitas) - e uma constante essencial, nesses artigos, é o fato de que a prudência versa sobre ações contingentes.

Assim, no artigo 1, dedicado à virtude da memoria, Tomás observa que não pode o homem reger-se por verdades necessárias, mas somente pelo que acontece in pluribus (geralmente).

Note-se que esta é também a razão da insegurança em tantas decisões humanas: a prudência traz consigo o enfrentamento do peso da incerteza, que tende a paralisar os imprudentes ([2]).

É dessa dramática imprudência da indecisão, que tratam alguns clássicos da literatura: do "to be or not to be..." do Hamlet de Shakespeare aos dilemas kafkianos (o remorso impõe-se a qualquer decisão), passando pelo Grande Inquisidor de Dostoiévski, que descreve "o homem esmagado sob essa carga terrível: a liberdade de escolher" ([3]) e apresenta a massa que abdicou da prudentia e se deixa escravizar, preferindo "até mesmo a morte à liberdade de discernir entre o bem e o mal" ([4]). E, assim, os subjugados declaram de bom grado: "Reduzi-nos à servidão, contanto que nos alimenteis" ([5]).

Este aspecto da condição humana, a angústia da decisão, é descrita também, proverbialmente, pelo mathal:

(#55) É como a peregrinação a Meca: quem diz que é fácil, blasfema; quem diz que é trabalhosa, blasfema [FRHA, 3521].

Nesse mesmo sentido, outros provérbios propõem a solução que a experiência aponta para situações de impasse:

(#56) Vender e arrepender-se é melhor do que não vender e se arrepender [FRHA, 1103].

(#57) - Sim, meu príncipe, era mesmo um pombo, só que agora já voou... [FRHA, 2805].

(É preciso aproveitar a ocasião. Este provérbio é o desfecho da conhecida história em que, numa caçada, o príncipe, indeciso, em vez de disparar logo sobre o objeto, enredou-se em longas discussões, com seus acompanhantes, sobre se se trataria de um pombo ou de uma pedra, até que o objeto (era um pombo mesmo...) escapou voando...).

Nos próximos dois tópicos, a partir dessa contingência da condição humana, analisaremos aspectos da educação invisível propiciada pelos amthal, ligados à memória e à docilitas.

Lembremos - ao tratar da educação para a prudência em conexão com a Pedagogia do mathal - a central afirmação de S. Tomás: "A prudência não é inata em nós; ela procede da educação e da experiência" ([6]).

V.2  A Memória e a Pedagogia do mathal

Mas, voltemos à análise de Tomás. A prudência versa sobre o contingente e, portanto, é pela experiência (per experimentum) que deve o prudente guiar-se, pois, "diz o Filósofo", "a virtude intelectual origina-se e desenvolve-se com a experiência e com o tempo". Mas a experiência, por sua vez, não é senão memória acumulada... ([7]).

Cabem aqui as sugestivas observações do Prof. Sylvio Horta: "Como foi guardada, transmitida essa experiência da vida? Rituais, livros sapienciais, provérbios, fábulas, anedotas etc. A partir da vida de cada um, teremos que encontrar de novo, dar um novo posto a essa sabedoria - bastante problemática - que é fundamental para nossas vidas, principalmente em nossa época, em que teimamos em reduzir tudo à realidade de coisas: o homem é reduzido ora à biologia, ora à economia, ora à psicologia, ora à sociologia. A educação contemporânea, assim como os meios de comunicação, tem favorecido essa interpretação coisificada e fragmentária da pessoa, o que acaba por determinar o nosso comportamento em relação aos outros, que passamos a tratar como coisas. Só com essa volta à experiência da vida - e uma educação que a tenha em conta - é que evitaremos a perda do sentido da realidade que é a vida" ([8]).

Tomás, no ad 2 de II-II,49,1, aponta as quatro leis fundamentais da educação da memória:

1) Estabelecer semelhanças (similitudines) adequadas para o que se quer recordar. Mas, afirma, não semelhanças usuais, pois guardamos melhor o invulgar. E, assim, prossegue o Aquinate, é necessário encontrar semelhanças ou imagens, pois as realidades espirituais facilmente se esvaem se não estão "amarradas" a alguma semelhança corpórea (nisi quibusdam similitudinibus corporalis quasi alligentur). E isto, conclui, porque o conhecimento humano é mais forte com relação ao sensível.

À luz deste princípio (aliás, bastante empírico), torna-se imediatamente evidente a extraordinária força educativa, elucidadora da realidade, dos provérbios árabes concretos (e os amthal, insistamos, são, literalmente, as similitudines de que fala Tomás).

Assim, no sentido da discussão que fazíamos em torno do genial mathal "Pai dele, alho; mãe, cebola..." (em "I.7 - A imagem concreta"), encontraremos, freqüentemente, um contraste: a mesma realidade é expressa em abstrato por nossos provérbios ocidentais, e de modo vivo, material e concreto pelos provérbios árabes.

Desse modo, por exemplo, em vez de dizer fórmulas abstratas, como as nossas: "É perda de tempo", "É inútil" etc., o árabe vale-se de comparações, como as recolhidas por Amrouche ([9]):

(#58) Como dançar diante de um cego (p. 53).

(#59) Como ir se queixar para a madrasta (p.84).

(#60) Como catar as pulgas de um cão (p. 116).

(#61) Como um lampião ao meio-dia (p. 201).

E em lugar de nossa abstrata expressão "Fica uma pela outra", diz o árabe:

(#62) Tu me vendeste cebola estragada; a moeda que eu te dei era falsa (p. 27).

E em vez de "Cada qual com seu igual" (ou o provérbio espanhol: "Dios los crea y ellos se juntan"):

(#63) O besouro casou: desposou a rã (p.83).

Para referir-se a um "oportunista":

(#64) Ele (é) óleo (p. 172) ([10]).

(Quaisquer que sejam as situações, ele sempre sabe situar-se "por cima", tal como o óleo sobre a água...).

Este é também o momento de indicar um outro aspecto do pensamento pedagógico de Tomás (também freqüente nos amthal): o apreço pelo bom-humor ([11]).

Ao tratar do tema na Summa, a afirmação central de Tomás encontra-se em II-II,168,3 ad 3 : Ludus est necessarius ad conversationem humanae vitae, o lúdico é necessário para a vida humana (e para uma vida humana).

Daí decorrem importantes conseqüências para a educação, entre elas a de que o ensino não pode ser aborrecido e enfadonho: o fastidium é um grave obstáculo para a aprendizagem ([12]). A tristeza e o fastio produzem um estreitamento, um bloqueio, ou, para usar a metáfora de Tomás, um peso (aggravatio animi) ([13]). Daí que Tomás recomende a quem ensina, o uso didático de formulações divertidas: para descanso dos ouvintes e para que seja ouvido com gosto (libenter audiat - II-II,177,1): o que acontece quando "se fala, de tal modo que deleite os ouvintes" (dum aliquis sic loquitur quod auditores delectet - II-II,177,1). E, tratando do relacionamento humano, Tomás chega a afirmar que ninguém agüenta um dia sequer com uma pessoa aborrecida e desagradável ([14]).

Assim, de acordo com as necessidades de sua sociedade, o libanês fulmina - em divertidas formulações proverbiais ([15]) - os abusos que dificultam a convivência.

É o caso dos amthal:

(#65) - Há quanto tempo...!  - Claro, você não vai à mesquita, e eu não vou ao cabaré... ([16]).

(#66) -Ôpa! Não é porque eu disse `Enterre-me' que você vai pegar a pá" [FRHA, 146].

(É bem conhecido o espírito de acolhimento oriental e suas desconcertantes - sobretudo para padrões europeus nórdicos - manifestações de carinho (por palavras ou por gestos) em fórmulas que, para o ocidental, parecem exageradas. O Alcorão prescreve, por exemplo (IV, 86), retribuir uma saudação com outra mais intensa ou, pelo menos, não inferior (naturalmente, a reação em cadeia deflagrada por um simples "Bom dia" pode durar uma eternidade). Nesse sentido, Cristo, que tão bem sabe valorizar a hospitalidade e as formas humanas de acolhimento (cfr. p. ex. Lc 7, 44 e ss.), tem que recomendar aos discípulos enviados em missão: "A ninguém saudeis pelo caminho" (Lc 10, 4). É um problema de aproveitamento do tempo em uma missão urgente! Neste campo das saudações e das manifestações de carinho, o refinado Oriente está a anos-luz de distância do primário Ocidente... Por exemplo, o ocidental, ante uma visita que se despede, diz (quando muito): "Vê se aparece!" (com o que - consciente ou inconscientemente - parece afirmar: Nós somos pessoas muito importantes, interessantes, bonitas ... e autorizamos você - que não é nada disso... -, a vir ver-nos, pois, nós, além do mais, somos também generosos etc.). Já o oriental despede-se da visita dizendo: Ismah lana nashufak! - "Permita que nós o vejamos" (você é o importante, etc. etc...). Evidentemente, o exagero das formas (que, em todo caso, no Oriente, não é mero formalismo) requer o necessário corretivo do bom humor dos provérbios. Assim, uma das fórmulas mais fortes de manifestar o carinho é Taqbarny, "Enterre-me!" (com o que se diz: eu quero que você sobreviva a mim, eu não saberia viver sem você etc.) é temperada por esse mathal).

Ainda contra os abusos da hospitalidade, este outro provérbio:

(#67) -Ôpa! Tá certo que dissemos `A casa é sua!', mas não precisa trancar a porta e levar a chave" [FRHA, 147].

E para prevenir contra os que se aproveitam interesseiramente da amizade:

(#68) Meu amigo, meus olhos, luz da minha vida! mas... longe de minha bolsa! [FRHA, 2124].

A formulação divertida, além do mais, auxilia a memória. É freqüente, nesse sentido, que os provérbios resumam - em uma frase - longas histórias ou anedotas e façam a ligação com outros tipos de amthal: provérbio - fábula; provérbio - parábola etc.

Assim, um popularíssimo provérbio em todo o mundo árabe é, na verdade, o desfecho de uma fábula do Kalila e Dimna ([17]):

(#69) O corvo quis imitar o passo (elegante) da perdiz e perdeu o seu. [BLMR, 130].

(É freqüente, em todas as línguas, a relação e mútua-influência entre provérbios e literatura; entre o literário e o popular. Por exemplo, os provérbios apresentados por Helmi Nasr em "Uma seleção de provérbios árabes", são de origem literária ([18]). Uma boa análise desse fenômeno é a apresentada por William George Smith:

"There were originally two sources of proverbial wisdom. One was the common man, from whom came the proverbs of distilled experience such as `a bird in the hand is worth two in the bush'. The other was the wise man, or oracle, whose utterances were the result of reflection, and were received as rules of life by the folk, who had neither time nor mental capacity to meditate upon fundamental truths. The ordinary man was busy making sure the bird remained in his hand.

Once he had discovered, the uselessness of two birds in the bush, or ten in the wood, or a hundred in the air, as against the practical satisfaction of one firmly seized hold of, he registered this conviction as a bit of everyday common sense which it would be well to remember, and passed it on. His comment became a familiar saying, a byword, a proverb. In course of time, it was quoted by a writer either in its obvious sense, or with a transferred meaning to give point to some quite other subject, thus taking to itself a new characteristic of a proverb. Similarly, as education became more general, the sayings, or sententiae, of the wise men were incorporated in books and gradually penetrated downwards until they were adopted as proverbs by the people. In both cases there is the process of gradual penetration of the spoken word from above to below and from below to above, with literature as a kind of eternally moving wheel on which proverbs were caught up, and from which they were thrown off again") ([19]).

Ainda na linha da conexão entre humor e memória, o árabe criou o popularíssimo personagem Jiha ([20]), que concentra em si, dezenas de anedotas e casos divertidos (algo semelhante a nosso Pedro Malazarte ou ao aluno "Joãozinho", personagem de piadas referentes a escola).

Como tipo de variadas situações cômicas, Jiha não deixa de apresentar uma certa ambigüidade: se muitas vezes é o esperto ([21]), é freqüentemente também, o tolo, egoísta e importuno, como é o caso dos seguintes amthal:

(#70) Jiha morreu e pensávamos estar, finalmente, livres dele. Aí ele apareceu, dizendo: - Oi, pessoal! [FRHA, 3418].

(#71) Quem é mais velho: Jiha ou o pai dele?  [FRHA, 1247].

(#72) "Sua benção, madrasta!" [FGHL, 946].

(Jiha apanhava constantemente da madrasta e, aparentando indiferença, repetia, a cada pancada, com ar idiota: "Sua benção, madrasta!". O provérbio é usado para indicar que alguém é imbecil, ou que alguma fala é non-sense).

(#73) Perguntaram a Jiha: - Qual será o dia da ressurreição dos mortos? Ele respondeu: - Quando eu morrer! [FGHL, 203].

Já o preguiçoso é estigmatizado pela frase proverbial:

(#74) -O asno é teu! [FGHL, 95].

(Um homem morreu e deixou, em testamento, seu asno para o mais preguiçoso de seus três filhos. Ante o juiz, o primeiro relatou que um dia, no rio, com água até o pescoço, era tanta a sua preguiça que teria morrido de sede, mas não se sentia capaz de curvar o pescoço para beber. O juiz já ia dar-lhe o asno, quando o segundo contou que também morria de sede em sua cama e, por preguiça, não era capaz sequer de abrir os lábios para acolher a água que caía de uma goteira situada bem em cima de sua boca. Já ia o juiz adjudicar-lhe o legado, mas antes quis interrogar o terceiro, que permanecia em silêncio. Este, indagado, respondeu: "Eu... eu... sei lá... dá o asno prá quem cê quisé, isto me cansa tanto...". Ao que o juiz, imediatamente, ajuntou: "Miserável, preguiçoso dos preguiçosos: O asno é teu!").

Há pouco falávamos da defesa contra os abusos de hospitalidade. Ainda dentre os provérbios ligados a episódios, encontramos este que defende contra os abusos do juramento:

(#75) "Mão na massa, Leila!" [FRHA, 709].

(O Oriente, o juramento. A cada passo, por qualquer ninharia, jura-se. Jura-se pelas barbas do profeta, pelo amor dos meus filhinhos, pela luz dos olhos meus, pelo sol e pela lua, pela manhã e pela noite, pelo Alcorão e pela Bíblia... O árabe, a emoção, o pranto. O exagero. Os acalorados juramentos não deixam de ser suspeitos, mas como defender-se da chantagem emocional que por vezes eles veiculam? Como não perder a lucidez e detectar a eventual falta de credibilidade de que podem ser portadores? A distância crítica, para manter a objetividade, tem uma grande defesa: a do bom humor, avalizado por este antigo provérbio que, no original, contém apenas duas palavras. Trata-se do proverbial episódio do beduíno que roubara um saco de farinha. Ante o juiz, foi-lhe exigido um juramento de inocência. Sem pestanejar, ele jurou, pensando consigo mesmo: "Leila, minha mulher, pode, perfeitamente, estar fazendo pastéis, agora, com aquela farinha. Farinha roubada, Deus é testemunha, eu não tenho").

E contra os abusos dos importunos:

(#76) "Cospe a pedrinha, Mansur!"  [FRHA, 959].

(Frase que se tornou proverbial. Mansur era um "boca-suja", sacristão do bispo, o qual tentava, em vão, corrigir-lhe a linguagem, permeada constantemente de palavrões. Até que lhe ocorreu a eficiente sugestão de que Mansur mantivesse uma pedrinha na boca para ajudá-lo a lembrar-se de evitar expressões indecorosas. Num dia de intenso calor, o bispo percorria a estrada - a pé, acompanhado por Mansur - fazendo suas visitas pastorais, quando ouviu uma velha que chamava por ele, insistentemente, do alto de um morro. Quando acabou de subir a penosa encosta, a velha explicou que o chamara para abençoar sua ninhada de pintinhos... O bispo, enquanto passava o lenço na testa, voltou-se para Mansur - também ele furioso... -, dizendo: "Tudo bem, Mansur, pode cuspir a pedrinha!").

2) Na segunda lei, Tomás afirma ser necessário organizar e dispor em ordem aquilo que se quer lembrar, de tal modo que haja uma associação por encadeamento.

É o que fazem muitos provérbios através do ritmo e da rima:

(#77) Peito de nobre, túmulo do segredo [NASR, 8].

(Rimado no original: Sudur al-ahrar, kubur al-asrar.).

(#78) A vida do fellah é murra (amarga); a do citadino é hurra (livre, fácil). [ARH, 3].

(#79) O fellah desceu à madina (cidade) e não se interessou senão por dibs bi tahina [ARH, 4].

(O dibs bi tahina é um melado com molho de gergelim, vulgar em todo o Líbano. O fellah, pouco dado a inovações, aferra-se a seus hábitos de vida. O provérbio, guardadas as devidas proporções, tem o mesmo sentido que teria, entre nós: "O caipira foi ao restaurante do shopping e pediu milho verde" - nota de ARH).

Como ajuda para a memória, alguns provérbios são formulados em enunciados peculiares.

Alguns vem propostos em forma de enigma. Outros, expressam saborosas formas intensivas, de acentuado sabor oriental:

(#80) Não há preocupação, senão a do casamento [FRHA, 3416].

(A forma da tradução procura preservar o caráter categórico da infinita sabedoria que parece falar, através dos séculos, verdades eternas).

(#81) Não há distância, senão a do coração [FGHL, 1478].

(#82) Não há cansaço, senão o do coração [FRHA, 3122].

(#83) Não há dor, senão a de dente  [FRHA, 3416].

(#84) O que é mais doce do que o mel? Vinagre grátis  [FRHA, 2058].

(#85) O que é mais doce do que haláwah? A reconciliação após a inimizade [FRHA, 2057].

(#86) Quem sabe melhor o que você realmente é? Allah e seu vizinho [FRHA, 3393].

(#87) Se é um homem quem te dirige ameaças, podes, de noite, dormir tranqüilo; se é uma mulher, podes começar a passar as noites em claro... [BLMR, 52].

(Eco de conselhos bíblicos. O Eclesiástico, após enunciar, em seu capítulo 25, as desgraças superlativas:

"Qualquer ferida, menos a ferida do coração;

 qualquer miséria, menos a miséria causada pelo adversário;

qualquer injustiça, menos a injustiça que vem do inimigo...;

não há pior veneno do que o veneno da serpente;

não há pior cólera do que a cólera do inimigo...",

desfecha: "Prefiro morar com um leão ou com um dragão, a morar com uma mulher perversa... Pouca maldade é comparável à da mulher". E, mais adiante, também em sistema comparativo semítico: "É melhor a maldade de um homem do que a bondade de uma mulher" (Eclo 42, 14). Já o livro dos Provérbios diz: "Melhor é morar no deserto do que com uma mulher iracunda" (Prv 21,19);  "Melhor é morar no canto de um teto do que numa casa com uma mulher briguenta" (Prv 25,24); "Goteira pingando sem parar em dia de chuva e a mulher briguenta são semelhantes" (Prv 27,15)).

Encontramos também enunciados rimados (freqüentemente associados a datas religiosas) para veicular úteis lembretes sobre o clima e a agricultura:

(#88) Em março, habal (germinação); em abril, sabal (florescimento da espiga) [ARH, 7].

(#89) A uva, duss (apalpe); a azeitona, russ (esprema) [ARH, 8].

(Apalpe a uva e esprema a azeitona. Quando a uva ainda está verde, a azeitona já está madura- nota de ARH).

(#90) Semear na abstinência do Natal [FGHL, 1977].

(Rimado no original: az-zara'ah / bi-alqta'ah. Os cristãos do Líbano tinham antes do Natal alguns dias de abstinência, que coincidiam com a estação das chuvas, propícia para a semeadura).

O mesmo se dá com conselhos médicos, de bom senso ou sobre a experiência de vida.

(#91) Casa em que não entra o sol, entra o médico [FGHL, 2282].

(#92) Jejua um mês (shahr), viverás um século (dahr) [FGHL, 2285].

3) É necessário, prossegue o Aquinate ao enunciar a terceira lei, que o homem tenha solicitude e afeto para com aquilo que quer recordar ([22]), pois onde não há interesse e amor, não se fixam as impressões na alma.

Nesse sentido, há um ponto em que Tomás atinge profundamente o modo de ser oriental. Pedagogo agudo, Tomás - ao falar do "dom da palavra" em II-II,177,1 - diz que aquele que ensina deve tocar o sentimento, mover ao afeto e isto acontece quando faz com que o que ouve "seja movido ao amor das realidades significadas pelas palavras e queira pô-las em prática: e isto ocorre quando a formulação é tal, que o ouvinte se emociona" (quod aliquis amet ea quae verbis significantur, et velit ea implere: quod fit dum aliquis sic loquitur quod auditorem flectat).

Esse potencial emotivo, tocante, realiza-se em diversos provérbios árabes que movem ao amor, à compreensão, ao perdão, à generosidade:

(#93) - De que filho a senhora gosta mais?  - Do pequeno, até que cresça; do ausente, até que volte; do doente, até que sare [FRHA, 3932].

(#94) Por causa da rosa, a erva daninha acaba sendo regada [FRHA, 2297].

(#95) Fazer o bem e lançá-lo ao mar: tu o reencontrarás mesmo muito tempo depois. [FGHL, 1595].

(#96) Sábio é quem estende seu manto como se fosse tapete e tolo é quem pisa ([23]).

(#97) A mão que dá está sempre acima da que recebe ([24]).

(#98) A ofensa é manta muito curta: mostra a nudez de quem a veste ([25]).

(#99) Dou uma tâmara ao pobre para sentir seu verdadeiro sabor ([26]).

(#100) Não será a bondade a recompensa da própria bondade? ([27]).

4) Finalmente, diz Tomás ao enunciar a quarta lei da memória, é necessário meditar freqüentemente sobre o que queremos guardar na memória.

E cita o provérbio: "o costume é como uma natureza". "Daí que nos lembramos rapidamente do que muitas vezes consideramos, associando, como que naturalmente, uma coisa a outra". E assim, como indicávamos há pouco, a Pedagogia do mathal é uma Pedagogia do dhikr, da repetição viva, que vai contraponteando a realidade quotidiana, ensinando a ver um significado mais profundo em suas mil incidências que, sem a revelação dos amthal, dificilmente perderia sua opacidade. Tal intuição é confirmada pelo mathal libanês:

(#101) A repetição deixa sua marca até nas pedras [FRHA, 1195].

Estas duas últimas leis enunciadas por Tomás, tal como a prudência, unem a ordem intelectual à moral. A memoria, mais do que uma questão de técnicas mnemônicas, liga-se a uma sabedoria pessoal e coletiva (da qual os provérbios são expressão e causa). Com muita propriedade, lembra Pieper - evocando aquele duplo sentido que Tomás encontra na palavra latina sapere ([28]): "Por memória entende-se aqui algo mais do que, por assim dizer, a mera faculdade natural de lembrar-se (...). A `boa' memória, entendida como requisito de perfeição da prudência, não significa senão uma memória `fiel ao ser' (...) O falseamento da recordação, em oposição à realidade, mediante o sim ou o não da vontade, constitui a mais típica forma de perversão da prudência" ([29]).

Precisamente contra essas interferências sobre a límpida visão/recordação da realidade - "mediante o sim ou o não da vontade" ao sabor de interesses interesseiros, de auto-suficiências etc. - adverte a irônica sabedoria dos amthal:

(#102) O rato aconselhou o dono da casa a matar o gato... e a comprar queijo! [BLMR, 309].

(#103) Foram ensinar o lobo a ler: - Diga A. - Ovelha. - Diga B. - Cabritinho [FRHA, 1220].

(Ao lhe pedirem as duas primeiras letras do alfabeto (alif e ba`), o lobo dá as respostas "disparatadas": 'anzah e jady, literalmente, "cabra" e "cabritinho" (ou, também, "menino")).

Com uma formulação um tanto forte (de modo algum alheia à tradição oriental), outro mathal adverte:

(#104) Ele está com o traseiro no charco e (por isso) sonha com melancias ([30]).

Já as "manhas" infantis (tipo para as dos adultos), tornam-se visíveis em:

(#105) - Manhê! Kin'an quer um bolinho! [FGHL, 908].

(Kin'an e seu irmãozinho mais velho esperavam impacientemente ao pé do fogo a chegada do pai, enquanto a mãe fritava aromáticos bolinhos. Querendo abreviar a espera, mas sem se expor, o mais velho disse: - Manhê! Kin'an quer um bolinho! A frase tornou-se proverbial).

(#106) "Deus, envia-nos um hóspede!", rezam as crianças... [FGHL, 458].

(Naturalmente, com a vinda de um hóspede, o tratamento e a comida melhoram).

(#107) Por que o careca haveria de ser gentil com o barbeiro?  [FRHA, 279].

(#108) Quem precisa de algo do cachorro, diz: - Bom dia, excelência! [FRHA, 411].

(#109) - Ah, é fiado? Então me vê dez quilos...  [FRHA, 679].

(#110) "Cebola é um prato nobre", diz o pobre  [FRHA, 899].

(#111) Quebre o fio de sua roca e saberás o que ela tem embaixo da língua. [FGHL, 1038].

(Não se deixe enganar pela aparência suave e gentil dessa moça bela e doce (sobretudo se ela quer casar com você); seu verdadeiro caráter pode ser outro).

(#112) Se o rico come cobra, todos dizem: "Que paladar mais refinado!"; se é o pobre: "Endoidou de vez!". [FRHA, 142].

(A irônica constatação da diversidade de juízos ante o mesmo ato praticado por um rico e um pobre é tema freqüente nos amthal: da sabedoria da Bíblia ("O rico pratica uma  injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre sofre uma injustiça e ainda precisa pedir desculpas" (Eclo 13,3) ou "Rico tropeça, todos o socorrem, rico diz tolices, todos o aplaudem; pobre fala, dizem `Cala a boca' e, se tropeça, derrubam-no de vez" (Eclo 13, 22-23)) aos para-choques de caminhão: "Rico correndo é atleta; pobre, ladrão!" etc.).

(#113) Quando Tannús (Toninho) precisou de nós, nós o chamávamos simplesmente de Tannús, mas quando nós precisamos de Tannús, tivemos de dizer: "Às ordens, venerável mestre!" [FGHL, 222].

(#114) Quando perguntaram ao faminto: "Quanto é dois mais dois?", ele respondeu: "Quatro pães!" [FRHA, 2701].

(#115) Defeito que agrada o sultão, vira virtude ([31]).

(#116) Nunca o mercador diz: "Meu azeite está rançoso" [FRHA, 3346].

(Pelo contrário, seu pregão sempre é: "Óleo, óleo puro, óleo fresquinho...").

O artigo de Tomás sobre a memoria fecha-se com a resposta à terceira objeção: a memória não pode ser parte da prudência, pelo fato tão simples de que a prudência é para o "agível" (operabilium) do futuro, enquanto a memória é do passado. A resposta de Tomás a esta objeção está em consonância com o que dissemos em I.8 sobre a concepção gramatical/mental árabe do passado: "É mister tomar do passado argumentos para o futuro. E, assim, a memória do passado é necessária para bem aconselhar-nos sobre o futuro".

V.3  A docilitas e a Pedagogia do mathal

Do mesmo modo que pode haver um falseamento da lembrança, pode haver um falseamento da percepção da realidade presente, que se recusa à objetividade ([32]).

Daí que, no art.3 (sempre em II-II,49), dedicado à outra parte quasi integral da prudência, a docilitas, Tomás afirme a necessidade dessa disposição de abertura e acolhimento para aprender, a que se opõe a auto-suficiência e a indiferença negligente (ad 2). O Aquinate volta a lembrar que a prudência tem por objeto ações particulares e que estas se dão em diversidade praticamente infinita (quasi infinitae diversitates). Assim, para a prudência, não pode um indivíduo sozinho, em pouco tempo, considerá-las todas. Tomás conclui, com Aristóteles, afirmando toda uma pedagogia dos provérbios: "É necessário considerar atentamente (attendere) as opiniões e sentenças (mesmo não demonstradas) dos anciãos e dos experientes, não menos do que as verdades demonstradas, pois, pela experiência, eles penetram nos princípios".

Essa disposição de aprender, de deixar-se ensinar é particularmente necessária nos dias de hoje ([33]), caso queiramos estabelecer - para além da Pedagogia visível que instrui em técnicas cada vez mais sofisticadas - uma educação invisível, moral, que atinja o homem na totalidade de seu ser.

Nesse sentido, Pieper diz, a propósito do conceito de docilidade em S. Tomás: "Sem docilitas não pode haver prudência perfeita. Mas a docilitas não é evidentemente a submissão e o zelo superficial do `bom discípulo'. O que o termo designa é aquela disponibilidade leal que, em face da multiplicidade realista das coisas e das situações experimentadas, renuncia a refugiar-se estupidamente na absurda autarquia dum saber fictício. O que o termo designa é aquela capacidade de se deixar ensinar, capacidade que brote, não de uma vaga modéstia, mas simplesmente do desejo verdadeiro - o que já, de resto, necessariamente, contém a autêntica humildade. A falta de abertura e a auto-suficiência intelectual são, no fundo, formas de resistência à verdade das coisas reais; ambas assentam na incapacidade de o sujeito conseguir fazer calar o seu `interesse'- condição imprescindível da apreensão da realidade" ([34]).

Não será a atual supressão dos provérbios, sua exclusão dos horizontes de visão do ocidental contemporâneo, um sinal a mais dessa auto-suficiência, dessa incapacidade de deixar-se ensinar, dessa falta de abertura e falta de humildade, características de nosso tempo?

Com isto tocamos um ponto que merece atenção mais detalhada. Quando falamos de memoria e docilitas (por exemplo) não estamos pensando prioritariamente em aspectos "técnicos" da educação, mas em sua dimensão moral: a atitude interior de humildade receptiva. Veja-se a este respeito o Apêndice 5, sobre a proposta pedagógica de Tomás em seu De modo studendi ([35]).

V.4  Idries Shah e a Pedagogia do mathal

Algumas características da Pedagogia do mathal são apontadas nas agudas reflexões de um dos maiores mestres contemporâneos do sufismo, Idries Shah ([36]).

Idries Shah, inicialmente, retoma os temas ([37]) da velação/revelação na forma de ensino por amthal e na leitura do mundo como mathal.

Daí decorre a "multiplicidade de sentidos" de um mathal (conto ou provérbio...), desde que se saiba "superar a face externa" e abrir-se para a compreensão de "conceitos e experiências que têm estrutura semelhante, mas que operam em um nível superior de percepção".

Assim, respondendo à pergunta sobre o papel educativo das sentenças e relatos, o mestre diz:

"A grande fraternidade dos Sufis afirma estas três coisas:

- que o ensinamento Sufi conduz a um reino superior de iluminação humana;

- que mesmo que as suas formas exteriores mudem, o sufismo é eterno; pode-se dizer que sempre existiu;

- que a finalidade do ensinamento Sufi é provocar experiências que conduzam a um conhecimento elevado e não simplesmente propiciar informações ou estímulos emocionais.

O sufismo aperfeiçoou, entre outras técnicas, um método de ensino característico que é quase desconhecido fora dos limites dos iniciados no caminho. Este método, chamado de Impressão Esquemática de Contos, está contido no uso especial que os Sufis fazem da literatura oral e de outras formas literárias. (...)

Uma coisa específica que se pode dizer sobre o conto Sufi é que a sua construção é tal que permite a apresentação, na mente, de um projeto ou série de relações. Quando a mente do leitor se familiariza com essa estrutura, pode compreender conceitos e experiências que têm estrutura semelhante, mas que operam em um nível superior de percepção. Poder-se-ia dizer que é a relação que há entre o ante-projeto e o utensílio terminado.

Esse método, segundo o ensinamento Sufi, pode produzir iluminação ao indivíduo de acordo com a sua capacidade de compreensão. Pode, também, fazer parte essencial dos exercícios de preparação de um estudante. O processo exige que se vá além da face externa de um relato, sem inibir a capacidade do estudante para compreender e gozar de seu humor e outras características exteriores.

Nos círculos Sufis, é costume que os estudantes se embebam em relatos destinados a seu estudo, de modo que possam conhecer os seus múltiplos significados quando esses forem úteis para o seu desenvolvimento".

Tomemos, por exemplo, o provérbio #89:

"A uva, apalpe; a azeitona, esprema".

Esta sentença é, sem dúvida, um útil lembrete agrícola (em um primeiro nível de leitura...). Mas, nada impede que, numa ponderação posterior, o mesmo mathal se revele, por exemplo, um convite a refletir sobre a realidade humana e sua dimensão moral: as coisas do mundo são sinal (segundo a sugestiva acumulação confundente do radical '-l-m, que discutíamos em II.5 e o sentido das parábolas de Cristo, em II.4) e, portanto, os distintos modos de lidar com a uva e com a azeitona podem estar indicando que as pessoas são diferentes e, por isso, nosso relacionamento com elas não pode ser uniforme.

E é evidente que não é à flor, mas a seres humanos que se refere o mathal #94: "Por causa da rosa, a erva daninha acaba sendo regada".

Nessa mesma linha, situa-se também o #124:

"Alimenta teu cão e ele guardará tua casa; faze jejuar teu gato e ele te comerá os ratos".

Nesse sentido, é oportuno retomar, aqui, o pensamento de São Paulo, que é toda uma proposta de Pedagogia do mathal: "Na lei de Moisés está escrito: `Não atarás a boca ao boi que debulha'. Mas, acaso Deus se ocupa de bois? Não é, na realidade, em atenção a nós que Ele diz isto?" (I Cor 9, 9-10).

Assim se compreende que, ao elaborarmos os Índices de provérbios citados nesta tese, deparamos um número (à primeira vista) surpreendente: nos cento e setenta e seis amthal que selecionamos, aparecem nada menos do que trinta animais diferentes ([38]).

Após indicar o potencial educativo dos amthal, o mestre - aguda e certeiramente - responde a uma pergunta sobre por que o Ocidente é tão refratário à sabedoria dos amthal (enquanto o Oriente preserva o apreço pela "pérola").

Idries Shah: O problema é que, no Ocidente, a compreensão do exemplo tem sido freqüentemente trivializada. Há muitas anedotas da literatura e do folclore ocidental que se poderiam empregar para o desenvolvimento da sabedoria. Mas o costume tem sido escrevê-los como relatos menores, ou rir-se do seu "lado engraçado". Daí que os leitores ficam vacinados contra a possibilidade de provocar discernimento.

(Já no Oriente...) o conceito da "pérola dentro da ostra" foi constantemente repetido e mantido vivo. É interessante notar que este conceito foi enfatizado também nas traduções e repetições ocidentais dessas histórias, com suficiente freqüência para permitir que esse elemento se mantivesse ao menos como uma possibilidade. Essa insistência em que a ostra pode conter uma pérola, em vez de ser meramente uma ostra, permite que o homem ocidental busque este conteúdo em relatos que têm um sabor oriental, mas ele não o tolera em um relato ocidental.

(Um exemplo concreto: "É como a orelha de `Van Gogh'").

Os materiais que mais freqüentemente se encontram no Ocidente estão em histórias, anedotas, contos e episódios. Embora não haja habilidade para utilizá-los, esta poderá ser desenvolvida.

Uma das necessidades básicas sufis é permitir que as pessoas se vejam a si mesmas como realmente são, e deixem de lado as fantasias sobre como são ou sobre o que acreditam que estão fazendo. Há uma história ocidental que é boa o suficiente para ser um conto-demonstração Sufi:

Um homem foi a uma exposição de Van Gogh em Nova York. O lugar estava tão repleto que ele nem sequer pode se aproximar dos quadros. Foi-se embora e entalhou uma orelha em carne seca; depois a emoldurou, voltou à exposição e afixou-a na parede com essa inscrição: "orelha de Van Gogh". A multidão se aglomerou ante aquele objeto, permitindo assim que o verdadeiro expert contemplasse os quadros e demonstrasse ao público que eles estavam ali apenas em busca de sensações.

Em um contexto Sufi, este conto teria sido utilizado tanto para assinalar a diferença entre estética e emoção, como para que os participantes se vissem a si mesmos como realmente eram.

No ocidente, contudo, esses contos são geralmente utilizados apenas como piadas: permitem que o ouvinte se sinta contente, talvez aliviado, por não ter estado lá; ou superior, por não se identificar com os que se enganaram.

(...) E espero que não esqueçamos, enquanto tratarmos deste tema, que muitas das mais apreciadas tradições do Ocidente derivam, e não sem orgulho, do Oriente Médio, e especialmente do Mediterrâneo oriental...

V.5  Educação moral, linguagem, realidade e Pedagogia do mathal

Outro importante aspecto a ser destacado no potencial de educação moral (sempre "invisível") exercido pelos provérbios, procede da filosofia moral de Josef Pieper. Uma de suas mais significativas contribuições para a filosofia da educação (e, particularmente, para a filosofia da educação moral) está em apontar concretamente a relação entre educação moral e linguagem.

Tal afirmação não é alheia ao fato de que, como vimos, a principal entre as virtudes cardeais, mãe e raiz das virtudes morais, é uma virtude intelectual, a prudentia.

Ora, nos próprios fundamentos da articulação que a prudência realiza entre o bem e o ser, passando pelo conhecimento, encontra-se a linguagem.

O pensamento e a vida estão mais ligados à linguagem do que em geral supomos. A força viva da palavra não só transmite, mas até mesmo gera e preserva, em interação dinâmica, o que pensamos e sentimos. Sem a palavra, nossa percepção da realidade é confusa ou nem sequer chega a ocorrer.

Valem para toda a realidade humana (e, muito especialmente para a moral), as considerações sobre a "latência", que Abraham Moles tece em seu estudo O Kitsch. Valendo-se de uma metáfora fotográfica, ele fala de uma revelação das impressões confusas ([39]), pelo surgimento de um vocábulo: "O surgimento nas línguas germânicas de um termo preciso para designá-lo (a própria palavra Kitsch - nota nossa) levou-as a uma primeira tomada de consciência: através da palavra, o conceito torna-se passível de apreensão, e manipulável... O trajeto científico para conhecer, começa por nomear" ([40]).

De fato - para continuarmos com o exemplo do Kitsch -, sem a posse da palavra é-nos muito mais difícil reparar - (como já dizíamos no cap. IV, também a propósito do Kitsch) -, em que há, no fundo, qualquer coisa de comum entre o pingüim da geladeira e o anãozinho do jardim...

É precisamente neste aspecto fundamental da educação moral que Pieper insiste ao longo de todo o Das Viergespann ([41]): a interação entre a possibilidade de percepção (e vivenciamento da realidade moral) e a existência de linguagem viva.

O empobrecimento do léxico moral ([42]) é, portanto, hoje, o problema primeiro da educação moral, na medida em que gera um círculo, literalmente, vicioso: a falta de linguagem viva embota a visão e o vivenciamento da realidade moral; o definhamento da realidade esvazia (ou deforma) as palavras...

Faltam-nos os conceitos, faltam-nos os juízos, falta-nos acesso à realidade.

V.6  Provérbios e percepção da realidade

A moral e a educação moral principiam, pois, pela visão da realidade. Precisamente esta tarefa de apontar para a realidade (até então, não divisada) e indicar as notas que caracterizam um conceito (pelo qual apreendemos a realidade...) é uma das funções pedagógicas, agudamente exercida pelos provérbios.

Quando se tem em conta que a educação moral é uma "educação invisível", que - mais do que no âmbito oficial da escola - se exerce na interação social informal e que a moral pressupõe, antes e acima de tudo, conhecimento sobre o homem, torna-se imediatamente evidente que a tradição viva de provérbios populares é poderosa instância de educação moral (que, naturalmente, valerá o que valerem os conteúdos veiculados...).

No caso, essa educação se faz, antes de mais nada, precisamente pela possibilidade de circunscrever, de configurar uma situação, que passaria despercebida, se os provérbios não chamassem a atenção para ela ([43]): especialmente para a educação moral vale a intuição contida na sugestiva  acumulação semântica da palavra castelhana enseñar: ensinar e mostrar!

Há, portanto, parece-nos, uma co-relação entre a desorientação moral contemporânea ocidental e o desenraizamento das tradições proverbiais.

Nesse sentido, já há séculos, Delicado advertia, na introdução de seu livro, sobre o alcance educativo dos provérbios: "pera boa doutrina moral, que a todos pertence". Uma observação particularmente pertinente para o Brasil de hoje, carente de referenciais comuns: tanto no campo da realidade como no da linguagem.

Note-se, a propósito, que já Aristóteles - quando na Retórica trata tematicamente da expressão por meio de gnomé (máxima) ([44]) - lembra que a gnomé é um meio de traduzir uma maneira de ver, que se refere precisamente ao universal que diz respeito à ação: ao que o homem busca e evita em seu agir ([45]).

Apresentemos, aqui, alguns exemplos dessa percepção da realidade, facilitada (ou mesmo possibilitada...) pelos amthal. Ela se exerce, exortando à grandeza e à prática das virtudes, e, por outro, denunciando e ironizando a pequenez e o vício. Em qualquer caso, anunciando a realidade.

Para o primeiro caso, destacamos, inicialmente, a exortação à determinação e à grandeza, objeto de muitos amthal:

(#117) Se é para se apaixonar, que seja por um príncipe;

Se é para bater à porta, que seja à porta de um grande;

Se é para roubar, que seja um camelo [FRHA, 644].

(#118) Meca não está longe para quem está determinado a fazer a peregrinação. [FRHA, 3741].

(#119) Os segredos da arte, para quem os conhece, estão escondidos sob um arbusto; para quem não os conhece, sob uma montanha ([46]).

(Ou é fácil, ou é impossível...).

(#120) Antes inimigo do príncipe do que do guardinha [FRHA, 2308].

(O príncipe, naturalmente, tem mais o que fazer, do que ocupar-se com desavenças... Rimado no original: amyr/khafyr).

O libanês não se deixa abater e resiste à adversidade, opondo-lhe seu engenho e sua determinação:

(#121) Você o joga no mar e ele volta com dois peixes na boca [FRHA, 177].

(Provérbio recentemente lembrado pelo primeiro-ministro Hariri, a propósito do projeto de reconstrução do Líbano...).

(#122) Ele comeu a isca e ainda deu uma defecadinha no anzol [FRHA, 299].

Dentre os vícios, destaquemos, em primeiro lugar, o egoísmo do ser humano, que é, freqüentemente, figurado no gato, tomado como tipo do oportunismo:

(#123) O gato (aproveita e) deita-se em cima do doente [BLMR, 272].

(#124) Alimenta teu cão e ele guardará tua casa; faze jejuar teu gato e ele te comerá os ratos [FRHA, 196].

(#125) Não é por amor a Deus que o gato caça os ratos ([47]).

(#126) O rato caiu do telhado. O gato: - Que Deus te ajude!  O rato: - Tire a pata de cima e deixe que eu cuido de mim [FRHA, 4132].

(#127) "Ó gato, quem testemunha em teu favor?". " Minha cauda!" ([48]).

(#128) A prece do gato: "Senhor, dizima os moradores desta casa e faze-os cegos a fim de que eu possa roubar". A prece do cão: "Senhor, multiplica os habitantes desta casa e faze-os prosperar a fim de que cada um me dê um bocado" ([49]).

Formas sutis de hipocrisia (difíceis até de nomear abstratamente) são agudamente atingidas:

(#129) A mantegueira da velha caiu no fogo. Ela disse: "Eu a ofereço a Allah" ([50]).

(#130) Rasgou as roupas e começou a gritar: Náufrago!, Náufrago! [FRHA, 2750].

(#131) Ele joga a pedra e depois diz : "É o destino". [FRHA, 227].

(#132) Ele entra com a mãe da noiva e sai com a mãe do noivo. [FRHA, 1097].

(#133) Ele deu os pêsames e chorou, mas nem sabe quem morreu. [FRHA, 1107].

(#134) Tudo dói na madame; só sua garganta continua boa... [FRHA, 2921].

(#135) Que Deus prolongue tua doença, ó sheikh, até que minha galinha volte a pôr ovos e eu te os possa oferecer... ([51]).

(#136) Em cima dele, khara (excremento); embaixo dele, khara e ele ainda diz: - Olha que cheiro de khara! [FGHL, 316].

(#137) "Malta não existe"  - "Malta yoq!" [FRHA, 184].

(Emprega-se como resposta ante desculpas esfarrapadas para omissões injustificadas como: "Desculpe, todas as máquinas de xerox, lá da faculdade, estavam quebradas...", ou "Passei na farmácia, mas não havia aspirina...". Procede do proverbial episódio ocorrido no tempo em que a Turquia, em guerra com a Inglaterra, encarregou um almirante de ocupar a ilha de Malta. O almirante partiu e voltou, após algum tempo, dizendo que não tinha encontrado nenhuma Malta; "Malta não existe!". A forma verbal yoq é turca e expressa uma característica típica e decisiva do sistema de língua/pensamento uralo-altaico. Como dissemos, o sistema língua/pensamento árabe é ma'na - intencionalidade - enquanto no sistema grego (e indo-europeu em geral), centrado semanticamente no verbo ser, os membros da frase se agrupam em ordem circular em torno de um verbo. O sistema uralo-altaico, entretanto ([52]), é estritamente linear, com um par de verbos que designam respectivamente a existência ou a não-existência: em turco "var: existe... tal coisa" e "yoq: não existe... tal coisa". Se o indo-europeu é um sistema de enunciação explícita, o uralo-altaico é de simples constatação.

Mas nem tudo são desculpas falsas, há situações em que alguém injustamente "leva a culpa". Pelos amthal essas realidades tornam-se visíveis:

(#138) A culpa não é da D. Cida (a costureira), mas de quem lhe passou as medidas. [FGHL, 1767].

(O nome da costureira no original é: Emm Elyas, que rima com qyas, medida).

(#139) A parede queixou-se ao prego: - Por que me perfuras?  Ele respondeu: - Pergunte ao martelo! [FRHA, 2262].

(#140) O mar brigou com o vento e quem virou... foi a barquinha ([53]).

A vaidade (a tola vaidade...) é sutilmente apanhada pelas formulações:

(#141) O cão late porque late; o dono pensa que é para ele ([54]).

(#142) Se eu sou príncipe e você é príncipe, quem é que vai atrelar o cavalo? [FGHL, 1221].

(#143) Quando perguntaram à mula "Quem é teu pai?", ela respondeu: "O cavalo é meu tio!" [FRHA, 2692].

Como não poderia deixar de ser, a avareza é também alvo da ironia dos amthal:

(#144) Economiza na alimentação do gato e os ratos comer-te-ão as orelhas. [FRHA, 460].

(#145) O avaro teme a pobreza, mas vive nela. [FGHL, 427].

(#146) Será por inveja ou avareza? Ou por ambas?  [FRHA, 1403].

(Inveja e avareza costumam andar juntas...).

(#147) Ele almoçou na madrasta [FGHL, 944].

(Diz-se daquele que sim, comeu, mas muito mal...).

V.7  Disfunções dos provérbios: o pessimismo no extremo do realismo

Tomás, sempre muito agudo e equilibrado não deixa de advertir para as possíveis disfunções da experiência (e, portanto, acrescentemos, dos provérbios que a veiculam...).

Se no tratado da prudência, Tomás afirma, como vimos, que essa virtude dá-se mais nos velhos ("prudentia magis est in senibus..."), por causa de sua longa experiência ("...propter experientiam longi temporis" - II-II,47,15 ad 2), em outro tratado, o da justiça, o Aquinate agudamente observa que pode haver aspectos negativos associados à experiência: o pessimismo da suspeita (suspicio... provenit ex longa experientia). E afirma, com Aristóteles, que os velhos são dados à suspeita, precisamente porque já muito experimentaram (e a experiência aproxima da certeza...) os defeitos dos outros (II-II, 60, 3).

De passagem, vale a pena registrar - a propósito dos temas da experiência e das disfunções dos provérbios - algumas observações de Aristóteles sobre o uso e o abuso das máximas ([55]). Inicialmente, ele aponta que o exprimir-se por máximas só fica bem em pessoas de idade e em assuntos que pressupõem experiência. "Pois é inconveniente, para quem não atingiu a velhice, fazer uso de máximas e contar fábulas e fazê-lo sobre assuntos em que se carece de experiência. É sinal de tolice e de grosseria, como o prova suficientemente o fato de que os rústicos são os mais inclinados a falar sentenciosamente..." (II,21,9). Aliás, já na Bíblia ([56]) - que, por outro lado, insistentemente, exalta a sabedoria dos amthal ([57])- encontramos também diversas advertências - também elas em forma proverbial! - sobre o abuso dos provérbios:

"Como las piernas vacilantes del cojo, es el proverbio en boca de los necios" (Pro 26:7);

"Como espino que va a parar a mano de borracho, es el proverbio en boca de los necios" (Pro 26:9);

"De boca de necio no se acepta el proverbio, pues jamás lo dice a su hora" (Eclo 20:20) etc.

De resto, Aristóteles, aconselha a nos valermos de máximas (Retórica II,21,11) - mesmo as mais desgastadas pelo uso (tal fato indica, precisamente, que são unanimemente aceitas ([58])) -, quando são úteis, por exemplo para exortar (II,21,11), para refutar frases feitas de domínio público (II,21,13) etc.

Em II,21,15, Aristóteles mostra as duas vantagens do uso das máximas pelo orador. A primeira é propiciar acolhimento por parte dos ouvintes, mais não seja pelo prazer da vaidade primária destes, ao verem suas próprias opiniões expostas em modo universal. Por exemplo - prossegue o Estagirita -, com muito prazer, aquele que sofre com um mau vizinho, dará acolhida a quem lhes disser a gnomé: "Grande calamidade é um mau vizinho" (Hesíodo).  E conclui (II,21,16), apontando o segundo auxílio prestado pelas máximas: conferir uma dimensão moral ao discurso, ao mostrar as preferências (e, portanto, o caráter) do orador: máximas moralmente boas farão parecer igualmente bom quem as emprega.

Voltemos às disfunções dos provérbios e da experiência.

"C'um saber só de experiências feito", de "lições" aprendidas no passado, o pragmatismo, o pessimismo e a desconfiança podem informar as palavras e os provérbios que se tiram do "experto peito" (Lusíadas IV, 94). E reciprocamente: os provérbios são poderosos instrumentos para a educação das novas gerações: para ironizar os defeitos e desmistificar ilusões a respeito da realidade e do ser humano. Assim, materializam-se em sentenças muitas formas - freqüentemente cheias de sarcasmo - de condenar e ridicularizar as atitudes contrárias a esse realismo prosaico.

Na fronteira entre o realismo e o pessimismo, muitos provérbios tendem a um realismo cru e sem ilusões, beirando também o pragmatismo ([59]):

(#148) - Teu moinho gira para a direita ou para a esquerda? - Sei lá, o importante é que ele me dá farinha! [FRHA, 2222].

(#149) Plantamos o "se" ([60]), nasceu o "eu gostaria"... [FRHA, 1839].

(#150) Disseram ao prisioneiro: - Vamos te casar com uma moça muito bela e muito rica. - Ótimo, mas soltem-me primeiro. [FGHL, 1397].

(#151) Não digas: - Smallah!, antes que o camelo se levante. [FGHL, 2799].

(O camelo, ao levantar-se, oferece um espetáculo grandioso quando ergue sua enorme massa de um só golpe. É tão imponente que, instintivamente, vem à boca a interjeição de admiração e espanto, misto de prece e de louvor: Smallah! - "Meu Deus!", "Deus te conserve!", "Que beleza!". O efeito é tanto mais surpreendente quando, ainda há um minuto, o camelo estava calmo, aparentemente indolente, largado no solo).

(#152)  - Caíste sozinho ou foi o camelo que te arremessou? - Tanto faz: o fato é que eu caí. [FRHA, 4135].

(#153) (Isto é) Peixe no mar [FRHA, 1924].

(Diz-se quando alguém quer vender ou usar um bem de que ainda não dispõe).

(#154) Você quer pegar as uvas ou... matar o guarda? [FRHA, 332].

(Quando já se obteve o que se queria, o melhor é ir embora quanto antes, sem expor-se inutilmente...).

(#155) Todo pedido de autorização será negado... [FGHL, 1741].

(Vá em frente, faça primeiro e peça autorização depois...).

(#156) Janta-o antes que ele te almoce. [FRHA, 1177].

(#157) Não aconselhe o tolo: em qualquer caso ele te culpará depois [FRHA, 3140].

(#158) A vida é assim: um dia a favor, outro contra... isto para os mais venturosos [FRHA, 635].

(#159) Uma coisa é receber as chibatadas; outra é contá-las... [FGHL, 1699].

(Usado como resposta, quando diante de uma queixa o interlocutor diz: "Mas, isso não é nada" ou "Você não deve se preocupar" etc.).

O pessimismo dos velhos afirma a incorrigibilidade humana, que é concretizada pela comparação com os animais (e por outras metáforas...):

(#160) Podem ficar tranqüilos: a raposa me garantiu que não vai mais pegar galinhas [FRHA, 1144].

(Frase irônica para desmontar, no ato, as declarações de emenda de um salafrário).

(#161) "- Corvo, roubar sabão? Para que?"  "- Roubar é da minha natureza" [FGHL, 2987].

(#162) A galinha sempre cisca. Mesmo sobre um monte de trigo, ela continua ciscando ([61]).

(#163) Khara (excremento) é khara mesmo depois de ter atravessado o Eufrates (al-fara). [FGHL, 392].

(Rimado no original).

Em sua dimensão pessimista, os provérbios - já há séculos - tinham enunciado as "Leis de Murphy":

(#164) Dor de dente... bem no dia do casamento [FRHA, 4247].

(#165) O lobo veio atacar as ovelhas, logo quando o cão tinha ido defecar. [FRHA, 73].

(#166) Bastou elogiarmos a limpeza do gato, e ele foi e defecou no depósito de farinha [FRHA, 2043].

V.8  Disfunções dos provérbios: rótulos e preconceitos

Um outro capítulo importante nas disfunções dos provérbios é o do preconceito ([62]). Seu caráter deletério está na cristalização, tanto mais grave, quanto mais engenhosa for a formulação.

Se, como dissemos em tópico anterior, a memória e a ligação com o passado são a própria base sobre a qual se edifica a educação moral, a disfunção da memória dá-se perpetuando o preconceito (e aqui, mais do que em qualquer outra parte, vê-se o quão importante é uma memória adequada, proporcional, fiel à realidade...).

Pela particular ligação do Oriente com o passado, a disfunção da memória tende a tornar impossível o perdão, a compreensão, o relacionamento... ([63]).

Alguns poucos exemplos de amthal preconceituosos:

(#167) Os beduínos (al-'arab) deixam a ruína detrás de si (bitkharrab) [FGHL, 2260].

(Rimado no original. O beduíno é visto como grosseirão, vândalo, ladrão etc.).

(#168) Quando os beduínos começaram a ter abundância de manteiga, usaram-na para limpar o traseiro [FRHA, 2843].

(#169) Em mil noras, pode haver uma que ame a sogra; em duas mil sogras, pode haver uma que ame a nora.   [FRHA, 790].

(#170) A sogra já foi nora, mas... esqueceu! [FRHA,  2704].

(#171) Rancor de homem é rancor; rancor de mulher, rancores. [BLMR, 56].

(A formulação original joga com o singular e o dual (número característico do árabe): Rancor de homem é um rancor; rancor de mulher, dois rancores).

(#172) Não confie no céu de março, mesmo que ele ria;

Não confie na mulher, mesmo que ela chore ([64]).

Naturalmente, o preconceito não é apanágio dos provérbios árabes. Dá-se também na tradição européia, tendo como alvo, entre outros ([65]), precisamente o árabe.

Para os provérbios seguintes, adotaremos as seguintes abreviaturas:

[SBARBI, Tal] - Verbete "Tal" em SBARBI, José María  Gran Diccionário de refranes de la lengua española. Obra póstuma editada por Manuel J. Garcia. Buenos Aires, Joaquín Gil, 1943.

[SMITH, p.N] - Página N em SMITH, William George (comp. and editor)  The Oxford Dictionary of English Proverbs, Oxford at The Clarendon Press, 1936 (repr.).

No campo do preconceito, encontramos em Delicado, muito antigos provérbios portugueses (/espanhóis), nos quais o tipo de certas atitudes ridículas é a mulher árabe Axa ('Aisha) ([66]):

Axa foy ao banho, teve que contar anno [DELIC, 26].

(Cabem três sentidos ao provérbio:

"Axa tem que contar (computar) um ano entre banho e banho",ou

"Axa, por ter ido ao banho, já tem assunto (contar: narrar) para um ano" e

"O banho de Axa é lento, demora um ano".

É de supor (pela rima: año/baño) que o original seja castelhano).

Aja (/Axa) é objeto de diversos outros maldosos provérbios espanhóis (/portugueses):

Aja enlodada, ni viuda ni casada [SBARBI, Aja].

(A mulher que - tendo incurrido en algun desliz - tem o nome manchado...).

Aja no tiene qué comer y convida huéspedes [SBARBI, Aja].

(Na versão portuguesa: "Axa nam tem que comer, convida hóspedes" [DELIC, 027]).

De cuando acá Aja con albanega? [SBARBI, Aja].

(A albanega é um adorno caro e supérfluo. O provérbio satiriza e lança maliciosas suspeitas sobre uma ascensão rápida ou fácil...).

Quem comete o erro é Aja, mas sabe subtrair-se à punição:

Hácelo Aja, y azotan a Mazote [SBARBI, Aja].

("O justo paga pelo pecador").

Também o beduíno e o "moro" são estigmatizados ([67]):

Ser un beduíno [SBARBI, Beduíno].

(O próprio Sbarbi comenta: "Frase empleada para calificar de huraña y brutal a una persona").

Así hará (uno tal cosa) como volverse moro [SBARBI, Moro].

(Negativa rotunda e definitiva...).

Ser moro al água [SBARBI, Moro].

(Estar perdido: ninguém se dará ao trabalho de salvá-lo...).

Siempre lo tuviste, moro, andar en barraganadas [SBARBI, Moro].

Three Moors to a Portuguese; three Portuguese to an Englishman [SMITH, p. 490].

(Antigo provérbio, já registrado em 1625).

The more Moors, the better victory [SMITH, p. 452].

(Já registrado no século XVII (embora, certamente, seja muito anterior)).



[1]. Registrado no capítulo "Honra" de Antonio Delicado, Adagios portuguezes...

[2]. Como apontávamos, curiosamente, a prudentia, virtude da decisão, converteu-se na atual "prudência" indecisa...

[3]. DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Os Irmãos Karamázovi São Paulo, Ouro, s.d., p. 226.

[4]. Ibidem, p. 225.

[5]. Ibidem, p. 224.

[6]. Ergo prudentia non inest nobis a natura sed ex doctrina et experimento (II-II,47,15,sed contra).

[7]. Em II-II 47,16, Santo Tomás discute se a prudência pode se perder por esquecimento. E afirma que sendo apetitiva (e não só cognoscitiva...), não se perde diretamente (non directe) a prudência por esquecimento, mas conclui: "O esquecimento, no entanto, pode impedir a prudência, pois esta para preceituar, precisa de conhecimento e este, sim, pode ser esquecido".

[8] "A experiência da vida - Sub-solo da reflexão filosófica" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: Idade Média...

[9]. AMROUCHE, Marguerite Taos  Le Grain Magique, Paris, François Maspero, 1966.

[10]. Na Retórica (III,11,5), Aristóteles ensina: "Deve-se tirar as metáforas das coisas que nos são próximas, mas não demasiado evidentes"  ARISTOTE Art Rhéthorique et Art Poétique - (ed. bilíngüe: gr./fr.) trad. nouvelle avec texte, intr. et notes par Jean Voilquin et Jean Capelle. Paris, Garnier, 1944.

[11]. Veja-se, por exemplo, nossa apresentação (e tradução) a seu "Tratado sobre o brincar" in LAUAND, L. J. O Significado Místico..., pp. 13-41. Dessa obra extraímos este parágrafo e o seguinte. Tomás trata tematicamente do brincar no Comentário à Ética de Aristóteles (IV,16) e na Suma Teológica, II-II, questão 168, artigos 2, 3 e 4.

[12]. Suma Teológica, prólogo. Em outro lugar da Suma Teológica, no tratado sobre as paixões, Tomás analisa um interessante efeito da alegria e do prazer na atividade humana, o que ele chama metaforicamente de dilatação: que amplia a capacidade de aprender, tanto em sua dimensão intelectual, quanto na da vontade (o que designaríamos, hoje, por motivação): "A largura é uma dimensão da magnitude dos corpos e só metaforicamente aplica-se às disposições da alma. `Dilatação' indica uma extensão, uma ampliação de capacidade e se aplica à `deleitação' (Tomás joga com as palavras dilatatio-delectatio) com relação a dois aspectos. Um provém da capacidade de apreender que se volta para um bem que lhe convém e, por tal apreensão, o homem percebe que adquiriu uma certa perfeição que é grandeza espiritual: e por isso se diz que pela deleitação sua inteligência cresceu, houve uma dilatação. O segundo aspecto diz respeito à capacidade apetitiva que assente ao objeto desejado e repousa nele como que abrindo-se a ele para captá-lo mais intimamente. E, assim, dilata-se o afeto humano pela deleitação, como que entregando-se para acolher interiormente o que é agradável" (I-II, 33, 1).

[13]. I-II, 37, 2, ad 2.

[14]. I-II, 114, 2 ad 1.

[15]. Já Aristóteles havia advertido em sua Retórica (III,11,6): "A maior parte das expressões engraçadas procedem da metáfora e de uma certa mistificação percebida imediatamente pelo ouvinte; ele apreende tanto mais manifestamente que apreendeu algo, quanto mais inesperado é o objeto. O espírito parece dizer a si mesmo: `Como é verdade! Eu é que estava enganado!'"  ARISTOTE Art Rhéthorique et Art Poétique - (ed. bilíngüe: gr./fr.) trad. nouvelle avec texte, intr. et notes par Jean Voilquin et Jean Capelle. Paris, Garnier, 1944.

[16]. FINBERT, ELian-J. Le Livre de la Sagesse Arabe, Paris, R. Laffont, 1948, p. 41

[17]. É o capítulo XVI "O ermitão e seu hóspede".

[18]. in LAUAND, L. J. (org.) Oriente e Ocidente: O Literário e o Popular, São Paulo, 1995.

[19]. SMITH, William George (comp. and editor)  The Oxford Dictionary of English Proverbs, Oxford at The Clarendon Press, 1936 (repr.), pp. vii-viii.

[20]. Para o estudo de Jiha, como para o bom humor árabe em geral, veja-se também nosso capítulo "O Bom Humor na Bíblia - O Bom Humor Árabe" in LAUAND, L. J. (org.) Oriente & Ocidente: O Bom Humor na Bíblia - O Bom Humor Árabe (e outros estudos), S. Paulo, EDIX/ DLO-FFLCHUSP, 1995.

[21]. Veja-se a este respeito: "Humor: um magnífico tesouro da língua árabe" in ICAB, publ. mensal do Instituto de Cultura Árabe Brasileira, São Paulo, Ano III, No. 6; DIAS, Eduardo  Harém - Contos e Ditos Muçulmanos, Lisboa Clássica, 1942 e CHALLITA, Mansour  As Mais Belas Páginas... Um exemplo: "Cobiçando as belas sandálias novas de Jiha, os companheiros de caminho, ao avistarem uma grande árvore, desafiam-no: "Vamos ver se você é capaz de escalar essa árvore". Jiha descalça-se e, pondo as sandálias no bolso, diz-lhes: "Levo comigo as sandálias para o caso de encontrar um atalho lá em cima e poder continuar caminhando".

[22]. Saber de cor, com o coração, by heart, par coeur.

[23]. FINBERT, Elian-J. Le livre..., p. 29.

[24]. Ibidem, p. 84.

[25]. Ibidem, p. 30.

[26]. Ibidem, p. 82.

[27]. Alcorão 55, 060.

[28]. De que falamos na Introdução.

[29]. PIEPER, Josef  Das Viergespann, München, Kösel, 1964, p. 29.

[30]. AMROUCHE, Marguerite Taos  Le Grain..., p.19.

[31]. FINBERT, Elian-J. Le Livre..., p. 48.

[32]. Ou melhor, como orientalmente diz Pieper, de ouvir a realidade...

[33]. Em que a geração pós-68 é formada pela "sentença": "Não confie em ninguém com mais de trinta anos".

[34]. PIEPER, Josef Virtudes Fundamentais, Lisboa, Aster, 1960, p. 26.

[35]. O fato de termos dedicado um Apêndice a esta questão, não significa que as reflexões que aí estão contidas sejam de menor importância, mas somente que, no corpo do trabalho, por conterem citações longas, interromperiam o fluir da discussão.

[36]. Naturalmente, os Sufis voltam-se mais para o mathal enquanto conto, o que não impede de aplicarmos as reflexões de Idries Shah para o mathal-provérbio.

[37]. SHAH, Idries. Aprender a Aprender. Barcelona, Ed. Paidós Ibérica, 1988, p. 225-227, p. 231-233. Citaremos aqui pela seleção e tradução de HORTA, Sylvio R. G. "Aprendendo a aprender"  in  LAUAND, L. J. (org.) Oriente & Ocidente: Educação Moral e Sátira dos Vícios, S. Paulo, EDIX/ DLO-FFLCHUSP, 1995.

[38]. Aranha - #38b; Asno - #38d, #74; Besouro - #63; Cabritinho - #103; Camelo - #4, #39, #41, #117, #151, #152; Cão - #6, #7, #38a, #60, #108, #124, #141, #165; Cavalo - #142, #143; Chacal - #47; Cobra - #112; Cordeiro - #52; Corujão - #52; Corvo - #52, #69, #161; Falcão - #52; Galinha - #135, #160, #162; Gato - #9, #52, #102, #123, #124, #125, #126, #127, #128, #144, #166; Gazela - #30; Lobo - #52, #103, #165; Macaco - #30; Mula - #143; Ovelha - #103, #165; Peixe #121, #153; Perdiz - #69; Pintada - #52; Pombo - #57; Pulgas - #60; Rã - #63; Raposa - #160; Rato - #9, #52, #102, #124, #125, #126, #144; Urso - #26; Vespa - #42.

[39]. "Um fator latente... é preciso revelá-lo... como a imagem latente de uma película fotográfica". MOLES, Abraham  O Kitsch, São Paulo, Perspectiva, 1972, p. 11

[40]. Ibidem, pp. 11-12.

[41]. Principalmente nas introduções a cada virtude. Por exemplo: "(A verdade moral e também a verdade em geral) perde não só sua força conquistadora, mas também seu poder de anúncio, se não for regenerada vivamente em seu sentido autêntico. E esta vivificação contínua realiza-se pela força incisiva da palavra viva. Daí a grande responsabilidade - que sempre acompanha o poder - para com a verdade dos que comunicam: podem anunciar a verdade ou desvirtuá-la" (pp. 201-202).

[42]. Enquanto linguagem viva. Em que contextos da linguagem quotidiana aparece a palavra "virtude" ou as que designam as virtudes?

[43]. E, tantas vezes, não só apontam a situação, mas, também as razões que aconselham tal ou qual atitude...

[44]. Livro II, cap. 21. Sigo a edição bilíngüe (grego/francês) ARISTOTE Art Rhéthorique et Art Poétique - trad. nouvelle avec texte, intr. et notes par Jean Voilquin et Jean Capelle. Paris, Garnier, 1944. Continuamos aqui usando "máximas" e "provérbios", "confundidos" em mathal. Seja como for, mesmo a paroimía (o provérbio no sentido estrito grego), que, para Aristóteles, envolve metáfora (cfr. Retórica III, 11,14), é incluído, em alguns casos, pelo Estagirita, nas máximas (cfr. Retórica II, 21, 12).

[45]. II,21,2. Na tradução da edição citada (p.251): "Une maxime est un moyen de traduire une manière de voir ... sur le général. Le général ici, ne s'entend que de tout ce qui a rapport aux actes et de ce que l'homme cherche et évite relativement à l'action". Note-se também que o próprio Aristóteles faz, em sua argumentação, uso freqüente de provérbios, como o mostram os seguintes exemplos da Retórica: na discussão sobre o bem e o útil, ao afirmar que há coisas proveitosas a dois adversários, recorre ao ditado: "Os males aproximam os homens..." (I,6,20) e, pouco depois, à paroimía "Quebrar o cântaro à soleira da casa" (I,6,22); para comprovar que, por vezes, o abundante é preferível ao raro, vale-se do ditado: "Nada melhor do que a água" (I,7,14); e, em I,11,25, falando da conformidade e mútua atração que se dá entre os que são semelhantes, cita quatro paroimíai, no sentido do nosso "Cada qual com seu igual". Veja-se também II,23,15; II,25,4 etc.

[46]. FINBERT, Elian-J. Le Livre..., p. 34.

[47]. FINBERT, Elian-J. Le Livre..., p. 48.

[48]. AMROUCHE, Marguerite Taos  Le Grain..., p.128.

[49]. Ibidem, p. 19.

[50]. Ibidem, p. 84.

[51]. Ibidem, p. 96.

[52]. É um terceiro sistema analisado por Lohmann em "Saint Thomas et les Arabes (Structures linguistiques et formes de pensée)" in  Revue Philosophique de Louvain, t. 74, fév. 1976, p. 5-29.

[53]. Este tradicional provérbio libanês foi-me lembrado pela Profa. Dra. Aida R. Hanania.

[54].  FINBERT, Elian-J. Le Livre..., p. 28

[55]. Retórica, II,21.

[56]. Citarei pelo já referido programa DEBORA-Microbible, Bíblia de Jerusalén...

[57]. "No dedeñes lo que narran los sabios, vuelve a menudo a sus proverbios, que de ellos aprenderás doctrina" (Eclo 8:8).

[58]. Precisamente nessa linha, situa-se o lamento de Hamlet (III,3) quando, ante a observação de que ele conta com o voto do próprio rei para suceder-lhe no trono da Dinamarca, responde com o mofado provérbio "Enquanto a grama cresce... (...o cavalo pode morrer de fome)": "Aye, sir, but `while the grass grows', - the proverb is something musty" (SHAKESPEARE - Four Great Tragedies: Hamlet - Romeo and Juliet - Julius Caesar - Macbeth with introductions by Mark van Doren, New York, Pocket Books, 1950, p. 280).

[59]. E, quando se passa essa fronteira, entramos decididamente no campo das disfunções: a atitude de, por princípio, suspeitar o pior ("Pensa mal e acertarás", diz um infeliz provérbio ocidental...)

[60]. No original deste (e de muitos outros provérbios...) aparece o Law, o se condicional árabe, usado freqüentemente para situações impossíveis ou muito improváveis.

[61]. Este tradicional provérbio libanês foi-me relatado por Jaime Miguel Lauand.

[62]. E não só dos provérbios, mas dos amthal em geral: pense-se, por exemplo, no perigoso capítulo das piadas discriminatórias ou no dos apelidos. Objeto desse preconceito são o fellah, o beduíno, o judeu (e, em geral, as diversas religiões se estigmatizam também via amthal), a mulher, a sogra etc.

[63]. Amin Maalouf conclui seu livro As Cruzadas Vistas pelos Árabes (São Paulo, Brasiliense, 1988) falando de uma impossibilidade de distinguir entre passado e presente "que toma, entre alguns fanáticos, a forma de uma perigosa obsessão: não se viu a 13 de maio de 1981, o turco Mehemet Ali Agca atirar no papa após ter explicado numa carta:`Decidi matar João Paulo II, comandante supremo dos cruzados'?".

[64]. AMROUCHE, Marguerite Taos  Le Grain..., p. 127.

[65]. Por exemplo: "Da laranja e da molher, o que ella der" [DELIC, 029], "Inda que somos Negros, gente somos e alma temos" [DELIC, 030], "Boa fazenda (riqueza) é negros, se nam custassem dinheiro" [DELIC, 031], "A judeo, nem a porco nam mettas no teu horto" (por causa do estrago que farão) [DELIC, 032], "Do sangue misturado... me livre Deos" [DELIC, 034] etc.

[66]. Como fica claro, por exemplo, em um provérbio - recolhido por Sbarbi no verbete "Aja" (nome correspondente ao português Axa) - que, para indicar que se pretende "pagar na mesma moeda", diz: "Si vos Aja, yo Alí".

[67]. Embora o "moro" seja também, em raros casos, modelo de valentia ou saber: Aun el mismo moro no lo sabe [SBARBI, Moro] (Para referir-se a conhecimentos profundos, como reconhece o comentário de Sbarbi: "la literatura arábigo-hispana está llena de monumentos, demostrando que tanto en las ciencias como en Medicina, Filosofía etc. llegaron a alturas verdaderamente asombrosas).

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