PRUDÊNCIA E
MEMÓRIA
(#44) Al-insan
m'árrad lin-nissyan [FGHL, 51].
(O
ser humano está exposto ao esquecimento).
IV.1 A Virtude da
Prudência: virtude intelectual
Numa
conceituação de moral como a de Tomás, em que a
principal entre as virtudes cardeais é a prudentia ([1]),
compreender-se-á facilmente que um ponto decisivo para a
educação moral seja a educação para a
prudência.
Para a
apresentação do tema, optamos por recolher aqui,
inicialmente, a brilhante sintética exposição,
feita por Pieper ([2]),
sobre a atualidade, o significado e o papel exercido - no pensamento
de Tomás - pela prudência no quadro das virtudes
cardeais:
"Se
perguntarmos, sóbria e objetivamente, o que se pode exigir e
esperar, em termos de "ser-bom", do homem comum - e, portanto, de
cada um de nós -, logo pede a palavra a antiga sabedoria que
fala do espectro de quatro cores em que se desdobra a luz da
perfeição. É a doutrina das "Virtudes Cardeais":
Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança. O
termo latino cardus significa gonzo, que abre o portal da
vida.
Esses quatro
nomes certamente já foram ouvidos muitas vezes, sem que seu
significado fosse levado a sério. No momento, porém, em
que isto se faça, a situação torna-se
complicada. Por exemplo cabe já perguntar: como pode a
Prudência ser virtude? E a compreensão
tornar-se-á ainda mais difícil quando nos disserem que
a seqüência não é casual, mas obedece a uma
lógica de significado e de hierarquia: à
Prudência, cabe, portanto, o primeiro e mais elevado posto.
E mais ainda,
tal formulação nem ao menos é precisa; a rigor,
a Prudência não ocuparia um lugar como elo dessa
série: ela não é algo assim como a irmã
das outras virtudes; ela é a sua mãe e já foi
designada literalmente como "genitora das virtudes" (genitrix
virtutum) ([3]).
Desse modo,
ninguém poderia - e, por estranho que possa parecer, de fato
é assim - praticar a Justiça, a Fortaleza ou a
Temperança, a não ser que seja, ao mesmo tempo,
prudente. Ao mesmo tempo, e até antes.
Pelo uso
comum da linguagem e pelos hábitos de pensamento, temos alguma
dificuldade não só para concordar com o afirmado, mas
até para entendê-lo.
Pois
não dizemos na língua alemã que é
"prudente" (Klug em alemão significa prudente e
esperto) quem é esperto e com ágil inteligência
logo percebe como "levar vantagem"? E não dizemos que Fulano
ou Sicrano é "prudente" demais e, portanto, não defende
com determinação e coragem suas
convicções?
Tudo isto,
sem dúvida, é certo. No entanto, devemos esquecer estes
casos, deixá-los de lado e lembrar-nos de outras
situações que nos são igualmente familiares -
por exemplo, de que, digamos, em caso de conflito, ninguém
pode tomar uma decisão justa se não conhece a
realidade: como as coisas são e em que pé
estão.
O mais puro
desejo de Justiça, a "melhor das boas vontades", a "boa
intenção", tudo isto não basta. Antes, a
realização do bem concreto pressupõe sempre o
conhecimento da realidade.
Isso se pode
exprimir também do seguinte modo: o agir humano é bom e
ordenado quando procede da verdade, que afinal de contas nada mais
é que o vir-a-encarar a realidade. E precisamente este
é o sentido da prudência e de sua posição
privilegiada: que - tanto quanto possível - vejamos a
realidade, que eu veja como realmente são os elementos que
compõem a situação que exige de mim uma
decisão.
Este "ver as
coisas", entretanto, não é de modo algum um assunto
acessório que se possa considerar com ligeireza. Além
do mais, a capacidade de "ver a realidade" é ameaçada
de diversas maneiras. Pois não se trata de uma neutra
contemplação da natureza, mas da incorruptível
"busca da verdade" a respeito de situações nas quais
costumam estar fortemente envolvidos, fatores de interesse pessoal. O
que importa, portanto, é fazer calar nossos interesses - e,
talvez também ouvir o outro, possivelmente um oponente. Quem
não consegue isto, ou não está disposto a isto,
jamais chegará a ver a realidade como ela é.
Mas isso
é apenas o começo e a primeira metade da
Prudência. A outra, bem mais difícil, consiste em
transformar aquilo que foi visto, a verdade das coisas, em diretriz
do próprio querer e agir. Só então se perfaz a
virtude da Prudência, que, com razão, foi definida como
"a arte de decidir-se corretamente".
Só
quem domina esta arte pode ser considerado como um homem moralmente
maduro e adulto. Para ele foi cunhada a palavra da Sagrada Escritura:
"Se o teu olho é simples (simplex), então todo
teu corpo estará na luz" (Mt 6,22)".
IV.2 Prudentia e verdade prática
Após
esta primeira apresentação, passemos a aspectos, por
assim dizer, mais técnicos. Para tanto, valer-nos-emos
também de um clássico guia para mapear o tratamento
desta virtude em Tomás de Aquino, o judicioso La
prudencia de Santiago Ramírez ([4]).
Inicialmente,
deve-se destacar o fato de que é uma virtude intelectual, a prudentia, a principal entre as virtudes cardeais, mãe
e raiz das virtudes morais.
De fato, "A
prudência exerce seu efeito em todas as virtudes (II-II,47,5 ad
2) e não há virtude que não participe da
prudência (II-II,47,5 ad 2). Os dez mandamentos da lei de Deus
referem-se à prática da virtude da prudência, executio prudentiae (II-II,56,2 ad 3) ... A prudência
é causa, raiz, mãe, medida, exemplo, guia, e
razão formal das virtudes morais" ([5]).
É pela prudência que cada ato humano concreto recebe sua
medida, liga-se à realidade, à verdade das coisas,
critério último de moralidade.
Como vimos, a
moral pressupõe a prudência enquanto conhecimento da
realidade e, nesse sentido, Pieper cita a sentença de Goethe:
"Todas as leis morais e regras de conduta podem reduzir-se a uma
só: a verdade" ([6]).
Não
por acaso, um sinônimo antigo de prudentia é discretio, discernimento ([7]):
o homem prudente é o que sabe decidir e agir com
discernimento. E é precisamente disto que se trata: do agir.
Ao contrário da contemplativa sapientia, a prudentia - como já definira Aristóteles -
volta-se para o operabilium e não para a pura
contemplação da verdade [cfr. RAMÍREZ, p.
40].
Mas o operabilium (próprio do intelecto prático) pode
se dar de dois modos, agibilium e factibilium: "Es
agible lo correspondiente a sus operaciones inmanentes, como ver,
pensar y querer; y factible se llama lo relativo a sus operaciones
transeúntes como serrar, curtir y pasear ... La
(operación) inmanente se llama propriamente acción -
como la actio latina y la práxis griega -;
mientras que la transeúnte se llama más bien
producción o confección - como la factio o effectio latina y la poíesis griega"
[RAMÍREZ, p. 41].
E
conclui: "La esfera propria de la prudentia es lo agible
humano: lo factible queda reservado para el arte"
[RAMÍREZ, p. 42]. E isso porque a prudentia - ao contrário da arte ([8])
- delibera e se aconselha. Na arte, as regras são uniformes;
na prudentia, variáveis e mutantes [cfr.
RAMÍREZ, p. 42].
Comentando a
clássica definição de prudentia -
repetida muito freqüentemente por Tomás -, recta ratio
agibilium, diz Ramírez que o termo razão indica que se trata de um hábito intelectual; recta ("verdadeira"), uma virtude; agibilium, prática,
referente ao agir:
"Significa,
pues, una virtud intelectual de lo agible humano en cuanto tal, esto
es, en toda su contingencia y minuciosidad individual: `Recta
razón de las cosas agibles (recta ratio agibilium)
sobre los bienes o males de un hombre, es decir, de uno
mismo'(Tomás de Aquino In VI Ethicorum 7, 1196))"
[RAMÍREZ, p. 89].
Assim, a
verdade da prudência é a verdade prática
([9]).
Note-se, porém, que Tomás não faz uma
cisão entre a razão teórica (que se abre
receptivamente às coisas) e a razão prática (que
se aplica ao agir): não são duas faculdades distintas
da alma (I,79,1); é o intelecto teórico que se estende
e se torna prático (per extensionem fit practicus). A
razão prática não é outra coisa que a
própria razão teórica contemplada sob o aspecto
do verdadeiro, enquanto medida do agir (3,d.23,2,3,2), o verdadeiro
que se estende ao bom (I,d.27,2,1) ([10]).
Assim, a
prudência, virtude que radica no intelecto, "aplica o
conhecimento universal aos casos particulares" ([11]),
fazendo a ponte entre a teórica contemplação da
verdade (e o genérico ditame da sindérese:"Faz o bem e
evita o mal") e o bem concreto executado nesta ação.
Nesse sentido, Tomás esclarece que a prudência trata dos
meios: "No que diz respeito ao conhecimento da realidade concreta
sobre a qual versa a ação, devemos estabelecer
distinções. Pois a ação pode versar sobre
o fim ou sobre o meio. Ora, os fins da vida humana reta já
estão determinados (...) Mas os meios para os fins não
são fixos; há grande variedade e multiplicidade neles
segundo a variedade de pessoas e situações"
([12]).
E
também: "É próprio da prudência não
só a consideração (universal) da razão
(teórica), mas também a aplicação ao
agir, que é o fim da razão prática. E a
prudência não poderia aplicar-se a esses dois polos sem
conhecer ambos... Portanto o prudente precisa conhecer os
princípios universais da razão e os particulares nos
quais se dá a ação" ([13]).
Precisamente
essa mesma estrutura dinâmica de mediação entre o
teórico e o prático, entre o genérico e o
particular é a que é possibilitada -tipicamente falando
- pelos provérbios (e sobretudo pelos provérbios
árabes...).
Exemplifiquemos
com um tema muito freqüente nos provérbios árabes:
o da responsabilidade. Entre o princípio genérico
(evidente, porém ainda abstrato e, portanto, em alguma medida,
inócuo) que diz: "As ações têm
conseqüências" e a consciência concreta da
responsabilidade quanto a esta decisão - sobre minha
vida familiar ou profissional etc. - surge a função
mediadora dos amthal, que ajudam a atingir, de modo vivo e
bem-humorado, meu "aqui e agora":
(#45)
Guardo-me de fazer com as mãos o nó que deverei
desfazer com os dentes [BLMR, 112].
(#46)
Come-se grão a grão o que se expele aos blocos [BLMR, 117].
(#47) O
chacal engoliu a foice; ouçam seus uivos depois para
expeli-la [FRHA, 4098].
(O chacal,
como se sabe, vai comendo..., alegremente,
indiscriminadamente...).
(#48) Eu
te conheço, alfarroba...! [FRHA,
81].
(O fruto da
alfarroba é comestível e ligeiramente adocicado, mas
produz forte constipação...).
(#49) "Eu
não tenho medo do alif, mas do que vem depois!" [FGHL, 2700].
(Aplica-se
este mathal a inúmeras situações em que
alguém se recusa a começar algo por temor do
desenvolvimento que aquilo possa vir a ter. Responde-se: "Eu
não tenho medo do alif, mas do que vem depois" ante
certas insistências: "Vamos lá, um copinho
só...", ou "Você não poderia se encarregar, neste
ano, de organizar o almoço de reencontro da nossa turma de
formatura?", ou "Por que você não faz doutorado?, no
exame de inglês você passa...", "Por que você
não aceita ser síndico de nosso prédio?" etc. O mathal procede de um caso que se tornou proverbial. Um menino,
recém-enviado à escola - e bem ciente das longas horas
de lições de casa a que estavam submetidos seus
irmãos mais velhos -, recusava-se terminantemente a aprender a
ler. Por mais ameaças e castigos que sofresse, continuava
resistindo a pronunciar o alif, a primeira letra do alfabeto.
O professor comunica o fato ao pai que, após
infrutíferos castigos, dirige-se docemente ao menino: "Meu
filho, por que essa teimosia? O alif não vai te fazer
nenhum mal, por que você tem medo do alif?". Ao que o
garoto respondeu: "Eu não tenho medo do alif, eu tenho
medo é do que vem depois...").
(#50)
Dê seu pão ao padeiro, mesmo que ele coma a metade. [FRHA, 243].
(Em qualquer
caso, melhor do que a improvisação amadora é
confiar o serviço a um profissional).
(#51) Por
que estranhas que venha na concha o que tu mesmo colocaste no
pote? [FRHA, 368].
Assim, os
provérbios são, como veremos mais detalhadamente a
seguir, conselheiros da prudência, condensando em si, a
experiência e a apreensão da realidade...
Ao tratar
dessa ponte entre o universal e o concreto, que Tomás atribui
à prudentia, Ramírez faz uma brilhante
análise das relações entre o intelecto e o
sentido interno chamado vis cogitativa.
IV.3 Prudentia e vis cogitativa
A afinidade
entre os amthal e a virtude da prudência dá-se -
em termos cognoscitivos - na medida em que ambos fazem, nos dois
sentidos, a ligação entre o singular e o universal: os
provérbios (e o conhecimento prudencial em geral...) foram
originariamente apreendidos da realidade vivida, depois enunciados
conceitualmente (e, no caso do árabe, tendendo a concretizar,
a "figurar") e, finalmente, voltam à realidade concreta,
quando se aplicam a esta ou àquela situação.
Daí a importância - para nossa análise - da vis cogitativa - sentido interno associado à
razão - que se encarrega, precisamente, do trânsito de
um para outro polo do binômio particular/universal.
"Porque
no basta captar un solo objeto por un solo sentido y por una sola
vez, sino que hace falta captar muchos por diversos sentidos y
repetidas veces y de distintas maneras en cada uno de ellos"
[RAMÍREZ, p. 47]. É à cogitativa
- sentido interno que participa da razão -, que Tomás
atribui a importante função de intermediar a passagem
do conhecimento sensível para o intelectual. E o faz, agindo
precisamente sobre essa série de impressões
sensíveis, realizando uma
"pré-abstração": a collatio.
Antes que se
forme no intelecto o conceito (e a correspondente palavra que lhe
será associada), a collatio é a
ordenação, agrupamento e comparação
dessas sensações, como que preparando-as para a
abstração.
Nesse
sentido, Ramírez apresenta uma passagem fundamental do
Aquinate: pela collatio, a cogitativa volta-se para a massa
informe de sensações, ordena-as e apresenta-as ao
intelecto com o fim de descobrir a lei ou o princípio comum
que as rege e que está neles latente: "Pois a
experiência - diz S. Tomás - é resultado da
comparação de muitos singulares retidos na
memória. Ora, esta comparação é
própria do homem e pertence à cogitativa, chamada de
razão particular, porque realiza a comparação
das intenções ([14])
particulares, como a razão universal o faz para as intenções universais ([15])"
[apud RAMIREZ, p. 48].
Um exemplo -
o do surgimento do conceito de "Kitsch" - ajudar-nos-á
a compreender esta função da cogitativa.
A
formação de qualquer conceito (e, portanto, a
formação de uma palavra) começa pela collatio da cogitativa. Antes de surgir o Kitsch como
palavra e como conceito, na base da apreensão conceitual dessa
realidade, está a collatio, que agrupa e compara - como
que convidando o intelecto a exercer sua ação
universalizadora - impressões aparentemente tão
diversas como: o pingüim da geladeira, a caneta de
múltiplos usos (que também abre latas e possui uma
bússola pisca-pisca embutida etc.), aquele quadro em cor
púrpura fosforescente representando um incêndio na mata,
o anãozinho do jardim etc.
Só a
partir dessa ação da cogitativa, o intelecto pode
radiografar a ratio comum - latente a cada elemento dessa
série de sensações - e chegar, no caso, ao
conceito (e à palavra) Kitsch.
Mas a
cogitativa também faz seu trabalho de
intermediação no sentido contrário: do universal
para o particular. A vis aestimativa - a correspondente
à cogitativa nos animais - informa-os, instintivamente, da
conveniência (ou inconveniência) das intentiones
insensatae (de tal ou qual dado sensível: a ovelha que
foge do lobo, por exemplo). Analogamente, no homem, compete à
cogitativa - em união com a razão - julgar o sentido
moral latente nesta ou naquela situação oferecida pelos
sentidos: "(La cogitativa ejerce su acción...) respecto
de la misma vida moral del alma, en cuanto que, bajo la
dirección de la razón práctica y a su servicio,
compara dichos objetos ofrecidos por los sentidos exteriores y por la
imaginación y la memoria sensitiva, con vistas a descubrir en
ellos y a través de ellos por dicha razón, la verdadera
bondad y malicia moral de que son susceptibles" [RAMIREZ, p.
48-49].
Há,
pois, duas grandes funções da cogitativa: uma,
ascendente, do sensível para o inteligível; outra,
descendente, do inteligível para o concreto. Daí
a conclusão: "el sujeto psíquico de la prudencia no es
sola la razón práctica, sino también la
cogitativa" [RAMIREZ, p. 50].
As
relações entre collatio e provérbios
([16])
são particularmente visíveis no Oriente. A collatio enquanto pré-abstração, agrupa,
enfileira, compara realidades concretas que, após a
ação do intelecto serão unificadas
conceitualmente. Aliás, como faz notar Louis-Claude Fillon
([17]), parabolé ([18]),
é traduzida ao latim por collatio (Cícero) e por similitudo (Tertuliano): comparação e
semelhança ([19]).
"Denota, pois, um gênero literário em que, ao lado da
verdade, se põe, por assim dizer, uma imagem que a torna mais
perceptível, mais viva".
E a
cogitativa faz também a volta: aplica o conceito geral
à realidade concreta.
A collatio, enquanto agrupamento, como que fala por si e convida
naturalmente à abstração, como é o caso
dos antigos provérbios portugueses (que tanto lembram a forma
árabe):
Desejo de
doente, vista de barbeiro, serviço de molher [DELIC,
21].
Azeite
derriba, mel do fundo, vinho do meyo [DELIC,
216].
Essa
tendência oriental para o concreto manifesta-se, por exemplo,
no antigo clássico da literatura árabe, Kalila e
Dimna: no curioso jogo verbal entre o rei e Ilad. A cada conceito
abstrato do rei, Ilad responde com um mathal-collatio, no
estilo dos provérbios numéricos da Bíblia (Pro
30, 15-33).
Quando o rei
fala em "irreconciliabilidade", Ilad retruca que esta só se
dá em quatro casos e enumera a correspondente collatio:
(#52) Lobo
e cordeiro, gato e rato, falcão e pintada, corvo e
corujão ([20]).
Do mesmo
modo, "não ser nada" reconduz à collatio:
(#53) Rio
sem água, território sem rei, mulher sem marido ([21]).
E assim por
páginas e páginas... Na tradição
bíblica, como dissemos, dão-se também collationes que traduzem, numérico-concretamente,
conceitos abstratos como insuportabilidade e insaciabilidade
(respectivamente):
O servo
que chega a ser rei. o louco farto de pão, a moça
antipática que encontra marido e a serva que herda da
patroa (Pro 30, 22-23).
Três
coisas são insaciáveis e uma quarta jamais diz:
"Basta!". O Xeol, o ventre estéril, a terra que não se
farta de água, e o fogo que não diz: "Basta!" (Pro
30, 15-16).
IV.4
As partes quasi integrais da Prudência
A
ligação entre prudentia e Pedagogia do mathal, dá-se, mais concretamente, em
relação a duas partes quasi integrais dessa
virtude, objeto do presente tópico.
Santo
Tomás, precisamente a propósito da prudência,
retoma, exemplificando, os três tipos de partes. E diz
que há partes integrais, como a parede ou o teto
são partes da casa; subjetivas, como "boi" e
"leão" em relação ao "ser animal" e potenciais, como a dimensão nutritiva ou sensitiva em
relação à alma (II-II,48,1).
Prossegue,
explicando que, no caso das virtudes, partes integrais
([22])
são as que concorrem para o ato perfeito da virtude (do mesmo
modo que, digamos, uma casa sem teto não seria uma casa
completa).
Já as
partes subjetivas são as diversas espécies da virtude;
a prudência pode voltar-se para a boa direção de
si mesmo ou do coletivo (neste caso, Tomás analisa a
prudência militar, doméstica e
política).
As partes
potenciais são virtudes adjuntas que se dirigem a atos
secundários, que não possuem toda a virtualidade da
virtude principal.
Ainda em
II-II,48,1, Tomás enumera as partes da
prudência.
Nosso tema, a
educação moral e os provérbios, volta-se,
naturalmente, para o conhecimento, daí que nos interessem,
especial e tematicamente, duas virtudes ([23])
dentre as cinco partes quasi integrais da prudência em
sua dimensão cognoscitiva ([24]):
a memória e a docilidade.
As outras
partes são:
- A
inteligência (intellectus), entendida não
enquanto faculdade intelectiva, nem enquanto cognoscitiva de
universais, mas como uma "outra inteligência" (alius
intellectus) ([25]),
que conhece a outra "ponta" (extremi): um primeiro singular e
contingente operável, a menor do silogismo da prudentia, que deve ser particular (II-II,49,2, c e ad 1). Se
a memória diz respeito ao passado, o intellectus refere-se ao presente "operável". Tendo em conta essas
considerações, constatar-se-á que a virtude da inteligência está implícita em diversas de
nossas análises sobre o concreto da
prudência.
- A solertia, tal como a docilitas refere-se à
aquisição de uma reta opinião. Ao
contrário desta, porém, dá-se não por
meio de ensinamento de outro, mas per se inveniendo, com
rápida e fácil descoberta do meio (II-II, 49,
4).
- Finalmente
(II-II,49,5), a ratio, razão: não enquanto
faculdade, mas enquanto "raciocínio" sobre os casos
particulares e incertos). Nesse sentido, também está
implicitamente considerada em nossas análises.
Antes de
passarmos à análise da memoria e da docilitas, recolhemos, a título de
apresentação de um tema fundamental para a Pedagogia do mathal, uma nota sobre a memória nas
tradições ocidental e oriental ([26]).
IV.5
Nota sobre a Memória nas tradições ocidental e
oriental ([27])
O homem
é, fundamentalmente, um ser que esquece! Nesta aguda
caracterização antropológica coincidem as
tradições de sabedoria oriental e ocidental.
Já
entre os gregos, encontramos um extraordinário papel dado
à Memória, Mnemosyne, nas artes e na
filosofia.
"Mnemosyne
é a mãe das Musas", diz Hesíodo, 700 anos antes
de Cristo. Um século mais tarde, Safo afirma que não
há memória sem as Musas (que teriam herdado da
mãe, aspectos do dom). E, passados outros cem anos,
Píndaro também estabelece o caráter "lembrador"
das musas em seu grandioso Hino a Zeus. A cena é
límpida: sob o poder de Zeus, toda a confusão e
deformidade foi dando lugar à harmonia e à ordem.
Quando o mundo atingiu sua perfeição final de beleza,
Zeus, num banquete, pergunta aos deuses se eles acham que esteja
faltando algo. Sim - é a resposta -, faltam criaturas divinas
que louvem essa beleza... ([28]).
Esse coro de
poetas não se expressa apenas a respeito da arte ou da
filosofia da arte; expressa, também e principalmente,
profundas convicções antropológicas: o homem
é, fundamentalmente, um esquecedor: daí a
necessidade das filhas de Mnemosyne para lembrá-lo.
É por
essa mesma razão que os grandes pensadores da
tradição ocidental consideravam as descobertas
filosóficas, não tanto um deparar-se algo novo e
insólito, mas, precisamente, des-cobertas: trazer
à consciência algo já visto, já sabido,
mas que, por qualquer razão, não permanecera na
consciência. E, de repente, um insight, uma luz interior
permite reparar na realidade já vista: uma ratio,
até então, en-coberta.
Assim,
também a missão da Filosofia não é a de
apresentar-nos algo novo, mas, sim, algo já experimentado e
sabido que, no entanto, permanecia inacessível: justamente o
que se expressa com a palavra lembrar.
Claro que ao
afirmar o caráter esquecedor do homem, não se afirma
que ele esqueça de tudo, mas, principalmente - e é
até uma constatação de ordem empírica -
do essencial. Pois, na verdade, o homem lembra-se de muitas coisas:
naturalmente, ele, "criatura trivial" (Guimarães Rosa), não esquece de conferir seu troco, não esquece
da data da entrevista para um novo emprego, nem da final do
campeonato, nem das realidades que compõem o rotineiro
quotidiano. Muito mais fácil é que, precisamente ante
as sempre urgentes solicitações do "diário dos
dias" (Guimarães Rosa), esqueçamos das grandes
verdades, como a grandiosidade da criação divina ou a
inexorável realidade da própria morte.
Ou, como diz
Deus, pelo profeta Jeremias: "A donzela esquece-se de seus adornos? a
noiva, de seu cinto?; mas, meu povo se esqueceu de Mim, por dias sem
conta" (Jer 2, 32).
O
remédio para esse esquecedor nato é a arte
(Píndaro) e o filosofar, entendido como reminiscência
(Platão) ([29]).
Um
último testemunho da tradição ocidental
provém da teologia de S. Tomás: a memória é uma poderosa virtude, parte importante da principal das
virtudes cardeais: a prudentia. Daí que Tomás
afirme a decisiva missão da meditação: manter
acesa a lembrança do essencial ante a entrópica
tendência ao embotamento...
Se esse
"jeito esquecido de ser" é considerado, como dizíamos,
característica essencial do ser humano na Antropologia
clássica do Ocidente, na tradição oriental, por
sua vez, tal consideração é ainda mais
radical.
Na
língua árabe, desde tempos imemoriais, a própria
palavra para ser humano ([30])
é Insan ([31]).
A surpreendente profundidade antropológica expressa nessa
palavra manifesta-se quando atentamos para seu significado literal,
enfatizando uma característica humana que se absolutizou para
designar o homem. Insan - derivada do verbo nassa/yansa, esquecer -, aponta para aquele que
esquece.
A infinita
sabedoria da língua árabe, ao designar o homem por Insan, o esquecedor, vê-se confirmada pelo fato de que o
próprio falante árabe não se dê conta, no
dia-a-dia, desse fato. Daí a judiciosa
sentença:
(#54) Wa ma sumya al-insan insanan illa linissyanihi ([32]).
("O ser
humano (Insan= ser humano ou esquecedor) não foi
chamado de esquecedor, senão por causa de seu esquecimento").
Naturalmente,
há na formulação original um delicioso jogo de
palavras, como se disséssemos em português, com
Drummond: "O imposto chama-se imposto, porque é-nos
imposto".
Não
é de estranhar, pois, que, no Alcorão (20, 50-52), Deus
se apresente - em contraposição ao insan - como
"Aquele que não esquece".
O mesmo
acontece na Bíblia ([33]):
"Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de
peito?... Ainda que as mulheres se esquecessem, Eu não me
esqueceria de ti" (Is 49,15). E o homem, em sua oração,
apela a Deus lembrador: desde Moisés (Ex 32,13) até o
bom ladrão (Lc 23,42), a Bíblia está repleta de
orações: "Lembra-te, ó Senhor...".
O
esquecimento humano é freqüentemente diagnosticado como
auto-suficiência, proveniente da prosperidade: "Não
aconteça - diz Deus, ante o ingresso do povo na terra
prometida, de onde mana o leite e o mel - que, havendo comido e
estando saciado... e aumentado teu ouro etc. te esqueças de
Iahweh, teu Deus" (Dt 8, 12 e ss.). E, de fato, Jesurun engordou e
esqueceu (Dt 32, 15); "Eu os apascentei e eles se saciaram; uma vez
saciados, seu coração se exaltou e, por isso, eles se
esqueceram de Mim" (Os 13,6).
Consciente de
que o homem é Insan, esquecedor, o Oriente desenvolveu
uma pedagogia - desprezada, esquecida e incompreendida pelo
ocidental contemporâneo -, a pedagogia do dhikr, a
pedagogia do lembrar, a pedagogia baseada na repetição,
nos provérbios, no decorar, nas festas, nos gestos, nos
rituais... ([34]).
Para a
apressada educação ocidental contemporânea - que
se afasta, cada vez mais, da sabedoria em favor da mera
informação - toda repetição é
supérflua e enfadonha: não conduz a nada de novo
("novidade" é um de seus valores absolutos).
Já o
Oriente - guardião da memória - "confunde", em dhikr, memória e repetição. Para um
ocidental de hoje seria inaceitável (e até
incompreensível) a afirmação de Jamil Almansur
Haddad: "Sempre, no Oriente, a repetição. A
repetição que é a música, a
repetição que é o arabesco, as frases que se
repetem infinitamente. Em plano religioso e em plano místico,
o dhikr: a repetição ininterrupta, pelos tempos
infinitos, do nome de Allah, em que o crente se anestesia apenas com
a repetição do nome de Deus, que leva ao êxtase,
o que, em definição rápida, é o contato
direto, imediato com Deus, dispensando intermediários"
([35]).
A
educação oriental sempre se apóia na
repetição. Note-se, de passagem, que a prática
cristã das jaculatórias - evidentemente, uma forma de dhikr - foi (como tantas outras instituições da
ascética cristã) algo surgido no Oriente e aprendido no
Ocidente. Já Santo Agostinho registra: "Diz-se que os monges
do Egito fazem freqüentes orações muito curtas, a
modo de jaculatórias brevíssimas, para que assim a
atenção, que é tão sumamente
necessária na oração, mantenha-se vigilante e
desperta" ([36]).
E no
começo do século V, um autor clássico da
espiritualidade ocidental ([37]),
João Cassiano, relata o que viu nos desertos
orientais.
O abade
Germano, por exemplo, ensina a Cassiano (para que este transmita ao
Ocidente) os princípios pedagógicos fundamentais da
sabedoria dos monges: 1) procurar algo que ajude a mente a lembrar de
Deus e 2) encontrar o meio de fixar essa idéia. E - prossegue
o monge - "é evidente que se caímos em confusão
e dispersão é porque não temos algo concreto
como objetivo fixo, uma fórmula por exemplo, para concentrar o
espírito" ([38]).
O ocidental
de hoje, tão desenraizado (esquece até de sua
condição de esquecedor...), tão afastado da
sabedoria, tão auto-suficiente em seu habitat
tecnológico domesticado, em seu mundo tão incolor e sem
alma, que já não se deixa sensibilizar por nada
(exceto, talvez, por novas formas de consumo, ou efeitos
especiais...); o ocidental bem que poderia expor-se à
necessária complementaridade do diálogo com o Oriente,
para resgatar as raízes de uma sabedoria que, afinal,
são as de sua própria tradição
ocidental.
[1].
Como dissemos na Introdução, as palavras que se
referem a virtudes e à realidade moral, estão expostas
a um desgaste semântico, que torna irreconhecível a prudentia, de que fala S. Tomás, na nossa
"prudência". Seja como for, grafaremos também
"prudência" no sentido de prudentia.
[2].
"Ver aquilo que é" in LAUAND, L. J. (org.) Ética: Questões Fundamentais, São Paulo,
EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1994.
[3]. Prudentia dicitur genitrix virtutum (3,d.33,2,5).
[4].
RAMÍREZ, Santiago M. La prudencia
Madrid, Palabra, 1982, 2a. ed. A partir de agora, será citado
como [RAMÍREZ, p. ].
[5].
PIEPER, Josef Das Viergespann, München, Kösel,
1964.
[6].
Ibidem p. 22. A sentença procede de carta de Göethe a
Müller, 28-III-1819.
[7].
É o sentido - indicado pela própria etimologia grega de phrónesis - que a virtude aquire na
tradição ocidental: em Cícero, em São
Paulo, nos Padres do deserto, em Cassiano, São Bento, S.
Bernardo etc. até Tomás de Aquino. Tomás
só raramente emprega discretio, e como sinônimo
de prudentia [RAMÍREZ, cap. I, 1].
[8].
No sentido clássico de ars: recta ratio
factibilium.
[9].
Neste parágrafo, resumo considerações de Pieper
no Cap. II de Die Wirklichkeit und das Gute,
München, Kösel, 5ª. ed., s.d.
[10].
Uma clara análise dos tradicionais doze atos (seis da
inteligência, seis da vontade) e mútuo relacionamento
entre intelecto e vontade em direção à
concretização do agir, encontra-se em
GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald "La prudence - sa place...",
art. cit. pp. 414 e ss.
[11]. Prudentia applicat universalem cognitionem ad
particularia (II-II, 49, 1 ad 1).
[13]. Ad prudentiam pertinet non solum consideratio
rationis, sed etiam applicatio ad opus, quae est finis practicae
rationis. Nullus autem potest convenienter aliquid alteri applicare
nisi utrumque cognoscat: scilicet et id quod applicandum est et id
cui applicandum est. Operationes autem sunt in singularibus. Et ideo
necesse est quod prudens et cognoscat universalia principia rationis,
et cognoscat singularia, circa quae sunt operationes (II-II, 47,
3).
[14].
No sentido técnico de intentio.
[15]. In I Metaph., 1, 15.
[16].
Se quisermos ser mais completos, devemos falar também nas
mútuas relações entre cogitativa, collatio, memória e experiência. Nesse sentido,
expressa-se Gerhard: "We have spoken of the modification of the
cogitative power by experiences, but we must expatiate upon this. In
our earliest activities we act in a much more purely instinctive and
determined manner than we do as we grow older. As we pile up
knowledge of facts, of how things happen, of what is conducive to
good, or what hurts us, we are no longer led to act immediately upon
the apprehension of an object or situation as a good. The remembrance
of past occurrences is called upon for data which are collated with
the present circumstances. Hence we speak of men of experience being
capable of acting prudently". GERHARD, William A. "The
Intellectual Virtue of Prudence" The Thomist, New York,
Sheed & Ward, Vol. VIII, No. 4, 1945, p. 450.
[17].
Em sua clássica Vida de N. S. Jesucristo, trad. de V.
M. Larrainzar, Madrid, Fax, 1966, p.468
[18].
Literalmente "lanço, ponho ao lado",
justaposição de duas coisas e, portanto,
comparação das mesmas. Parabolé, no grego
neo-testamentário, aproxima-se de mathal. Assim, a
partir de seu ponto de vista oriental "confundente", Lucas (Lc
4,23) denomina parabolé o provérbio:
"Médico, cura-te a ti mesmo!"!! (Fillon, op. cit., p. 469).
(Cfr. BOVER, José M. - O'CALLAGHAN, José Nuevo Testamento Trilíngüe (grego/latim/cast.),
Madrid, B.A.C., 1977.
[19]. Collatio e similitudo são, como estamos vendo,
dois importantes pontos na filosofia da educação de
Tomás e centrais na Pedagogia do mathal.
[20].
BENALMOCAFFA, Abdalllah Calila y Dimna (Introducción, traducción y notas de Marcelino
Villegas). Madrid, Alianza Editorial, 1991, p. 260.
[22].
Na verdade, Tomás fala de partes quasi integrais,
"ad similitudinem partium integralium": a virtude, uma
qualidade simples, não admite partes integrais em sentido
próprio, pois não se trata de sua entidade, mas de
funções (cfr. I-II,54,4).
[23].
O que não impede que as demais partes quasi integrais
da prudência estejam indireta e implicitamente incluídas
em nossa análise... E o mesmo se diga em relação
às partes potenciais da prudentia (II-II, 51): a eubulia, a synesis e a gnome.
[24].
- A providentia, circumspectio e cautio são partes da prudentia enquanto preceptiva e só
serão indiretamente por nós consideradas.
[25].
Enquanto aportação dos princípios universais ao
caso particular. Assim (ad 1), a inteligência não
só conhece os princípios especulativos ou
práticos (como "não se deve fazer mal a
ninguém"), mas se estende ao caso concreto presente e, neste
sentido, é parte da prudência.
[26].
O tópico seguinte reproduz meu capítulo "Al-insan, o
homem esse grande esquecedor" in Oriente e Ocidente:
Língua...
[27].
Ao longo deste tópico, seguimos os capítulos de
SIMONDON, Michèle "Mnémosyne, mère des Muses"
in La Mémoire et l'Oubli - dans la Pensée
Grecque jusqu'à la fin du Ve. siècle avant J.-C.,
Paris, Société d'édition "Les Belles Lettres",
1982; de SNELL, Bruno "Pindar's Hymn to Zeus" in The
Discovery of the Mind - The Greek Origins of European Thought,
Cambridge, Harvard Univ. Press, 1953; e, sobretudo, de PIEPER,
Josef Nur der Liebende singt, Schwabenverlag, 1988, p.35
e ss.
[28].
Se dispuséssemos do tratamento original desse enredo, dado
pelo próprio Píndaro (em vez da seca prosa de
terceiros), comenta Snell, esse episódio, certamente, estaria
entre os mais famosos da literatura grega.
[29].
E também a religião tem um caráter lembrador.
Pieper recorda a oportuna distinção, feita pelo
inglês, entre remember (lembrar-se) e remind (fazer lembrar). As verdadeiras filosofia, arte e religião
fazem-nos lembrar (remind) das verdades fundamentais que, ao
sabor da rotina do dia-a-dia, tendem "a cair" no esquecimento
(aliás, "esquecer" provém de excadescere,
incoativo latino de "cair").
[30].
Próximo ao alemão der Mensch.
[31].
No árabe, Insan é das raríssimas palavras
que se aplicam indistintamente ao masculino e ao feminino.
[32].
Esta sentença foi-me indicada pelo Prof. Dr. Helmi M. I.
Nasr.
[33].
Ele sempre se lembra: do grito dos infelizes (Sl 9, 13); do pobre (Sl
9,19); de que somos pó (Sl 103,14) etc. etc. etc. e,
até mesmo, diz Cristo, do par de passarinhos, que se vendem
por um vintém "... e nem um deles é esquecido por Deus"
(Lc 12,6).. "Pensas que Eu sou igual a ti? ... Compreendei, ó
vós que vos esqueceis de Deus" (Sl 50, 21 e 22).
[34].
De fato, o radical Dh-k-r é mais um exemplo de riqueza do
pensamento confundente oriental. Dh-k-r indica: lembrar-se e fazer
lembrar - os dois polos da sugestiva distinção inglesa: remember e remind (daí também o souvenir o objeto ou gesto diferente do usual, para a
lembrança); nomear, mencionar, citar; repetição
(e, sobretudo, a repetição do nome de Allah ou de
fórmulas de louvor a Deus); celebrar, comemorar
etc.
[35].
"Interpretações das Mil...", p.58.
[36].
"Carta 130, a Proba", recolhido em CARVAJAL, Francisco
Fernández Antología de Textos, 3a. ed.,
Madrid, Palabra, 1983, texto No. 4362.
[37].
Clássico por transmitir à Europa o que aprendera em sua
"reportagem" no Oriente: sobre a vida e a doutrina dos primeiros
monges.
[38].
CASIANO, J. Colaciones I, Madrid, Rialp, 1958, cap.
VIII, pp. 480-481.
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