ÉTICA E ANTROPOLOGIA -
A CONCEPÇÃO DE TOMÁS DE AQUINO
([1]).
"Contra estas
objeções, está o que diz
Deus (Os 12, 2): `Eu... Me manifesto
por meio de semelhanças...'"
(Tomás de Aquino, S. Th. I, 1, 9).
III.1 O
referencial de Tomás: "Anima forma
corporis"
Neste capítulo,
apresentaremos alguns pontos da filosofia da educação
de Tomás de Aquino, essenciais para nossa reflexão
sobre pedagogia e provérbios.
De fato, a partir desse
referencial filosófico, podemos estabelecer uma
relação muito adequada e natural entre antropologia,
filosofia moral e concepção de conhecimento com a
Pedagogia do mathal.
Há, nesse sentido,
um parágrafo da Contra Gentiles extraordinariamente
sugestivo e que resume, como num espelho convexo, algumas das
principais teses de que nos ocuparemos aqui. Discutindo "de que modo
a alma espiritual pode ser forma ([2])
do corpo" - precisamente um de nossos temas fundamentais -,
Tomás afirma:
"Sempre se verifica o fato
de que o ínfimo de uma ordem de ser superior é
limítrofe ao supremo da ordem inferior. Assim, certos
ínfimos do gênero animal, mal superam a vida das
plantas, como é o caso da ostra, que é imóvel,
só tem tato e está fixa como as plantas. Daí que
S. Dionísio diga que `a sabedoria divina enlaçou os
fins dos superiores com os princípios dos inferiores'. No
âmbito corporal há também algo, o corpo humano,
harmonicamente disposto, que também se enlaça com o
ínfimo do superior, a alma humana, que está no
último grau das realidades espirituais. Tal enlace
manifesta-se no próprio modo de conhecer da inteligência
humana. Daí que a alma espiritual humana seja como que um
certo horizonte e fronteira entre as realidades corpóreas e as
incorpóreas: ela mesma é incorpórea e, no
entanto, é forma de corpo" ([3]).
Destaquemos o ponto mais
importante para nós: a afirmação de que a alma
é forma do corpo ("anima forma corporis") é a
afirmação de uma profunda unidade. Unidade entre o
espiritual e o material, no ser humano; unidade entre o intelectual e
o sensível, no conhecimento!
Em torno desse marco
essencial, discutiremos, brevemente, a posição de
Tomás em relação ao conhecimento intelectual e
à moral. Esses conceitos contextualizam alguns temas
particularmente importantes para nossa análise: o da virtude
da prudentia (e duas de suas partes quasi integrais: a memoria e a docilitas) e o do obiectum proprium da inteligência humana.
III.2
Espírito e matéria: o obiectum proprium da
inteligência
Neste tópico,
analisaremos uma importante dimensão do "materialismo" de
Tomás, a partir do objeto próprio da potência
espiritual da alma humana que é a
inteligência.
A unidade da filosofia de
Tomás, manifesta-se em diversos âmbitos: não
só a constituição fundamental do ser humano
dá-se por integração de espírito e
matéria (é precisamente isto o que significa a
sentença central "anima forma corporis"), mas
também na ordem da operação - sobretudo no caso
do conhecimento - ocorre a mesma harmônica unidade.
Não operamos
diretamente pela alma, mas por meio de suas potências
([4]).
Em um ato tão simples como, digamos, um homem ver a cor de uma
árvore, intervém uma constelação de
fatores: Fulano de Tal ([5]),
que vê porque tem alma ([6]);
mas a alma não é princípio imediato da
operação, ela age, no caso, por meio de sua
potência visual, cujo ato incide sobre o objeto cor
(obiectum formalis), que por sua vez radica no objeto
árvore.
Ora, cada potência da
alma é proporcionada a seu objeto: a potência auditiva
não capta cores, a potência visual não atua sobre
aromas.
O caso do conhecimento
intelectual é mais complexo: o intelecto é reconhecido,
por Tomás, como capaz de abertura, sem limites, para o real:
"As naturezas intelectuais, porém, têm maior afinidade
com o todo do que as outras naturezas; pois, uma substância
intelectual qualquer é, de certo modo, todas as coisas,
já que pode apreender a totalidade do real pelo seu intelecto;
ao passo que qualquer outra substância participa apenas de um
setor particular do ser" ([7]).
E "Diz-se que a alma é de certo modo todas as coisas porque
é naturalmente apta para conhecer tudo. E, desse modo,
é possível que num único ente esteja toda a
perfeição do universo. Daí que esta seja,
segundo os filósofos (pagãos), a plenitude de
perfeição a que a alma pode aspirar: reproduzir em si a
ordem do universo como um todo e suas causas" ([8]).
Esta abertura para o todo
é, aliás, precisamente, a concepção
clássica de espírito, que é a
característica dos entes dotados de intelecto
([9]):
"A alma espiritual - diz S. Tomás na sua pesquisa sobre a
verdade - está essencialmente disposta a `convenire cum
omni ente' (...) o ser espiritual `é capaz de apreender a
totalidade do real'" ([10]).
O homem, capax
universi, chamado a relacionar-se com o todo do real
(convenire cum ommni ente) ([11]),
realiza essa vocação do espírito a partir do
sensível, da experiência, que incide sobre o
fenômeno. Daí que naquela passagem básica
(CG 2,68), citada no tópico anterior, Tomás
tenha dito que o enlace espírito-matéria "manifesta-se
no próprio modo de conhecer da inteligência humana", uma
inteligência espiritual integrada ao
sensível.
Assim se compreende o
extraordinário relevo que Tomás, em sua doutrina sobre
o conhecimento, dá ao concreto, ao fenômeno, ao
sensível: "É conatural ao homem atingir o conhecimento
do inteligível pelo sensível. E é pelo signo que
se atinge o conhecimento de alguma outra coisa" ([12]).
Como vimos, dizer que a
inteligência é uma faculdade espiritual é dizer
que seu campo de relacionamento é a totalidade do ser: todas
as coisas visíveis e invisíveis são-lhe, em
princípio, objeto. Contudo, a relação da
inteligência humana com seus objetos não é
uniforme. Dentre os diversos entes e diferentes modos de ser, alguns
são mais direta e imediatamente acessíveis à
inteligência.
É o que Tomás
chama de objeto próprio de uma potência: aquela
dimensão da realidade que se ajusta, por assim dizer, sob
medida, à potência ([13]).
Não que a potência não possa incidir sobre outros
objetos, mas o obiectum proprium é sempre a base de
qualquer captação: se pela visão, captamos, por
exemplo, número e movimento (digamos, sete pessoas correndo), é porque vemos a cor, objeto próprio
da visão.
Próprio da
inteligência humana - potência de uma forma ordenada
à matéria - é atingir a essência a partir
da sensação: seu objeto próprio são as essências das coisas sensíveis. "O
intelecto humano, porém - diz Tomás, contrapondo a
inteligência do homem à do anjo -, que está
acoplado ao corpo, tem por objeto próprio: a essência, a
natureza das coisas existentes corporalmente na matéria. E,
mediante a natureza das coisas visíveis, ascende a algum
conhecimento das invisíveis" ([14]).
Nessa
afirmação, central, espelha-se, como dizíamos, a
própria estrutura ontológica do homem.
III.3 O
conhecimento a partir do sensível, base da Pedagogia do mathal
Dessa
afirmação decorre, imediatamente, que mesmo as
realidades mais espirituais são alcançadas
através do sensível. "Ora - prossegue Tomás -,
tudo o que nesta vida conhecemos, é conhecido por
comparação (per comparationem) com as coisas
sensíveis naturais" ([15]).
Essa sentença,
além do mais, sugere-nos que o sentido extensivo e
metafórico está presente na linguagem de modo muito
mais amplo e intenso do que, à primeira vista,
poderíamos supor. E é neste enquadramento que se
compreende a doutrina de Tomás como Pedagogia do mathal, que aponta precisamente para essa comparatio:
todo o nosso conhecimento - mesmo o mais espiritual, mesmo o mais
abstrato - dá-se per comparationem ad res sensibiles
naturales ([16]).
Ao contrário dos
anjos - diz Tomás (I,107,1, corpus e ad1) -, que "falam"
diretamente entre si, o pensamento de um homem está oculto
(clauditur mens hominis) para outros homens pela "espessura"
do corpo (grossitiem corporis). E, assim, é
necessário, para a manifestação do pensamento, a
mediação do signo sensível. Esta é a
razão pela qual a educação, a
comunicação e o ensino dão-se por
comparação com a realidade sensível
(exemplo):
"Daí que
também quando queremos fazer alguém entender algo,
propomos-lhe exempla" ([17]).
Exempla é
precisamente o que fazem os amthal, que transmitem o
conhecimento e a experiência per comparationem ad res
sensibiles naturales. Assim, por exemplo, para evidenciar que se
está diante de algo impossível, o libanês remete
ao exemplum:
(#39) É como
pedir ao camelo para tocar flauta [FRHA,
2698].
(Como se sabe, os
lábios do camelo não fecham e seus dedos não se
movem....).
Na base de todo ensino,
sempre está o retorno ao concreto. Na famosa questão
sobre o ensino - I,117,1 -, Tomás afirma que um homem nada
pode ensinar a outro homem, senão movendo, pelo seu ensino, "o
discípulo a que este, por sua própria
inteligência, forme os conceitos intelectuais, cujos signos o
mestre lhe propõe exteriormente" (I,117,1 ad3).
Se o conhecimento que se
obtém por busca própria dá-se pela
aplicação de princípios universais a casos
particulares - que recebe da memória ou da experiência,
proporcionadas pelos sentidos ([18])
-, o mesmo ocorre com o ensino.
Portanto, o mestre pode
contribuir para a aprendizagem do discípulo, propondo-lhe
alguns auxílios para a inteligência, como:
proposições menos universais (cum proponit ei
aliquas propositiones minus universales), exemplos
sensíveis (sensibilia exempla) ou
comparações (similia) que conduzam o intelecto
do educando ao conhecimento das verdades desconhecidas.
Mais alguns
provérbios libaneses, tomados, quase ao acaso, de Freyha,
ajudam a concretizar esses ensinamentos de Tomás. Em vez de
longos e desmaterializados discursos (nesse sentido, podemos
interpretar a etimologia de pro-verbium) sobre, por exemplo, a
inveja, que acaba por criar uma pseudo-realidade para dar
vazão a seus sentimentos pusilânimes, o árabe
diz:
(#40) Não tendo
achado nenhum defeito na rosa, apelidaram-na de "bochecha
vermelha" [FRHA, 3411].
Em vez de nosso abstrato
"Crie a fama e deite na cama", o árabe convoca a
imagem:
(#41) O camelo riu uma
vez na vida e rasgou os lábios para sempre... [BLMR,
232].
Já para rebater
rápida e convincentemente a teimosia que insiste em querer
valer-se de procedimentos ineficazes, lança-se a
comparação fulminante:
(#42) Ele procura mel no
traseiro da vespa [FRHA, 4195].
(Além de não
encontrar mel, expõe-se ao ferrão que, como se sabe,
está precisamente no traseiro da vespa...).
Para ensinar que a ruidosa
vaidade não corresponde à realidade:
(#43) Barulho no tacho,
só dos ossos... [FRHA, 3284].
Para Tomás, o
próprio Deus (que, pelo Seu conhecimento, criou o homem)
assume essa pedagogia. Ao discutir a legitimidade do uso de
metáforas e parábolas (amthal) na Sagrada
Escritura, Tomás afirma a conveniência do ensino por amthal (sub similitudine corporalium)
([19]),
pois o ensino por comparações sensíveis é
o mais adequado à natureza do homem, espírito
intrinsecamente unido à matéria (conveniens est...
spiritualia sub similitudine corporalium tradere). "É
conatural ao homem atingir o inteligível pelo sensível,
pois todo conhecimento tem, para nós, origem no
sensível" ([20]).
E na parte mais nobre do
artigo ([21]),
o sed contra, Tomás lembra que Deus diz da
revelação de Si mesmo: "Pelos profetas proponho
símiles" ([22]).
Na filosofia da
educação de Tomás, encontramos ainda outras
importantes considerações sobre a Pedagogia do mathal, mas antes de tratarmos delas, é
necessário falarmos, brevemente, da própria
concepção de moral.
III.4 Tomás
e a conceituação da moral
Decorrente de sua doutrina
sobre o ser (o ser do homem em alma e corpo), é a
concepção de moral de Tomás (e sua
conseqüente educação moral).
O homem de hoje tem
dificuldades para compreender essa concepção
([23]),
porque ao pensar em moral, costuma imaginar alguma coisa ligada a
regras e proibições, imposições mais ou
menos incômodas e arbitrárias, procedentes dos pais,
professores, ministros religiosos, enfim, limitações
à liberdade feitas pela sociedade.
Totalmente outra é a
concepção de Tomás. Ele nem sequer poderia
conceber a moral como algo imposto, nem como "assunto reservado a
religiosos" e, menos ainda, como algo constrangedor ou repressivo da
liberdade humana! O que, sim, ele diz, é que a moral
é o ser do homem ([24]),
doutrina sobre o que o homem é e está chamado a
ser.
Para Tomás, a moral
é entendida como um "processo de
auto-realização" do homem ([25]);
um processo levado a cabo livre e responsavelmente e que incide sobre
o nível mais fundamental, o do ser-homem:
"Quando porém se
trata da moral, a ação humana é vista como
afetando, não um aspecto particular, mas a totalidade do ser
do homem...; ela diz respeito ao que se é enquanto homem"
([26]).
Note-se que estamos
caracterizando a moral, falando de realização ([27])
(no singular), e não de realizações (plural) nos diversos aspectos setoriais (secundum quid...) da
vida: finanças, saúde, status, etc... Pois a
moral diz respeito precisamente à
realização; realização não
deste ou daquele aspecto parcial, mas a que afeta a totalidade, o que
se é enquanto homem ([28]).
A moral, assim entendida,
pressupõe antes e acima de tudo, o conhecimento; um
conhecimento que, insistamos, refere-se a um único fundamento: o próprio ser do homem, a natureza
humana.
Deste modo, toda norma
moral deve ser entendida como um enunciado a respeito do ser do
homem; e toda transgressão moral traz consigo uma
agressão ao que o homem é.
É, pois, ao homem
que se dirige a ética de Tomás; ao homem total,
espírito em intrínseca união com a
matéria; ao homem, ser-em-potência, que ainda não
atingiu a estatura a que está chamado e para quem a moral se
expressa na sentença do poeta pagão Píndaro:
"Torna-te o que és!" ([29]).
Nesta perspectiva, toda
norma moral deve ser entendida como um enunciado a respeito do ser do
homem; e toda transgressão moral, o pecado, traz consigo uma
agressão ao que o homem é.
Os imperativos dos
mandamentos ("Farás x...", "Não farás y...")
são, no fundo, enunciados sobre a natureza humana: "O homem
é um ser tal que sua felicidade, sua realização,
requer x e é incompatível com y".
Neste quadro, situa-se a
doutrina de Tomás sobre a virtude.
A virtude - como
também o seu oposto: o vício - é um
hábito (naturalmente, a virtude é um hábito bom;
o vício, mau). Nosso tempo anda tão desorientado no que
diz respeito à educação moral que a
própria palavra "hábito" nos causa aversão:
associamos hábito a condicionamento,
domesticação, etc.
Porém, o verdadeiro
sentido do hábito, o que lhe dá Tomás, nada tem
a ver com essas deformações. Hábito é
pura e simplesmente uma qualidade adquirida (auto-adquirida e
livremente desenvolvida) que facilita e aperfeiçoa a
ação e aperfeiçoa também o próprio
homem ([30]).
Antes de falarmos dos
hábitos morais, pensemos no hábito em outros campos:
quem censuraria ao pianista o trabalho de procurar adquirir
facilidade e espontaneidade em suas escalas e acordes, ou os
esforços de alguém que busca a fluência no falar
uma língua estrangeira, etc.? Naturalmente, num primeiro
momento (quando não há hábito) a
ação custa esforço e não se dá
espontaneamente, mas com o tempo e com a auto-educação,
surge o hábito: a facilidade.
O mesmo ocorre com a moral:
adquire-se, por exemplo, a virtude da justiça, na medida em
que não nos custa tanto esforço dar ao outro o que lhe
é devido. Naturalmente, nisso, como em tudo, nem sempre a
nossa tendência espontânea é a correta: pode ser
que espontaneamente a tendência de alguém fosse a de
explorar, atropelar, desrespeitar o outro. Mas, quando esse
alguém reconhece que eticamente, por natureza, há,
neste e naquele caso concreto, algo que ele deve a outrem e
efetivamente o dá, não só está praticando
um ato de justiça: está - como no caso da
educação musical ou no dos idiomas - adquirindo o
hábito, a facilidade de ser justo no futuro.
Assim se compreende a
sentença de Tomás: "As virtudes nos aperfeiçoam
para que possamos seguir devidamente nossas inclinações
naturais" ([31]),
uma vez que - e é um ponto fundamental na antropologia de
Tomás - o homem tende naturalmente à felicidade; por
criação, está indelevelmente inscrito em seu
coração o desejo de ser feliz. A
aquisição de virtudes é, fundamentalmente,
auto-educação para aquilo que objetivamente é
bom (coincida ou não com a espontaneidade).
[1].
Naturalmente, ao longo deste capítulo, retomo
considerações feitas em livros anteriores, sobretudo
dos tematicamente dedicados a Tomás: Oriente & Ocidente
- Razão, Natureza e Graça: Tomás de Aquino em
Sentenças, S. Paulo, EDIX/ DLO-FFLCHUSP, 1995; Tomás de Aquino Hoje, Curitiba-S. Paulo, PUC-PR - GRD,
1993; S. Tomás de Aquino: Sobre a Diferença entre a
Palavra Divina e a Humana, S. Paulo, GRD, 1993; O Significado
Místico dos Números, Curitiba-S.Paulo, Ed. PUC-PR -
GRD, 1992.
[2].
Para os conceitos de forma, razão, natureza e medida, veja-se
o Apêndice, ao final deste trabalho.
[3]. Semper invenitur infimum supremi generis contingere supremum
inferioris generis; sicut quaedam infima in genere animalium parum
excedunt vitam plantarum, sicut ostrea, quae sunt immobilia et solum
tactum habent et terrae in modum plantarum affiguntur; unde et beatus
Dionysius dicit, quod "divina sapientia coniungit fines superiorum
principiis inferiorum". Est igitur accipere aliquid in genere
corporum, scilicet corpus humanum, aequaliter complexionatum, quod
attingit ad infimum superioris generis, scilicet ad animam humanam,
quae tenet ultimum gradum in genere intellectualium substantiarum, ut
ex modo intelligendi percipi potest. Et inde est quod anima
intellectualis dicitur esse quasi quidam horizon et confinium
corporeorum et incorporeorum, in quantum est substantia incorporea,
corporis tamen forma (CG 2,68).
[4].
Aqui, no sentido de potências operativas,
faculdades.
[5].
O sujeito último da operação de ver, que exerce
este ato precisamente porque é um vivente, isto é
dotado de alma.
[6].
A alma não só é principium vitae (I,75,1
etc.) e - para retomar as duas clássicas
definições do De Anima - ato primeiro do corpo
natural organizado ("Anima est actus primus corporis physici
organici habentis vitam in potentia" - II De Anima I 230),
mas também princípio de operações, aquilo
pelo que primeiramente sentimos e conhecemos intelectualmente
("Anima est primum quo et vivimus, et sentimus, et movemur, et
intelligimus" - II De Anima 4 273).
[9].
E da outra potência espiritual: a vontade. Ao conceito de
Tomás de espírito como abertura à totalidade do
real, é dedicado o ensaio de Josef Pieper Abertura para o
todo, São Paulo, APEL, 1989.
[10].
PIEPER, Josef Was heisst Philosophieren?, 8. Aufl.,
München, Kösel, 1980, p. 44.
[11].
As citações de S. Tomás encontram-se
respectivamente na Contra Gentiles III, 112 e De
Veritate I, 1.
[12].
III,60,4. Tomás usa signum para "palavra", além
de, como veremos, um pouco mais adiante, também no sentido de
exemplos sensíveis e amthal (e para muitos outros
"sinais"). A atitude de Tomás de voltar-se para a realidade
concreta, manifesta-se também no modo como considera a palavra
uma realização especial do signo (signum), que,
por sua vez, é "aquilo pelo que alguém chega a conhecer
algo de outro" (III,60,4). O signo leva o sujeito a um conhecimento
novo - a conhecer algo diferente do próprio signo.
Naturalmente, como dizíamos, há uma infinita variedade
de signos: desde a fumaça, signo que indica o lugar e a
intensidade do fogo, à bandeira branca da
rendição. A palavra também é um signo: vox, quae non est significativa, verbum dici non potest (I,34,1), o som animado só é palavra se for
significativo. Próprio da palavra é a significatio; não, porém, uma
significação qualquer, mas aquela que pressupõe
sempre um conceito; a palavra só se dá onde há
conhecimento intelectual. Locutio est proprium opus rationis (I,91,3 ad 3); "falar -diz Tomás- é
operação própria da inteligência". Ora,
entre a realidade designada pela linguagem e o som da palavra
proferida, há um terceiro elemento, essencial na linguagem,
que é o conceptus, o conceito, a palavra interior
(verbum interius), que se forma no espírito de quem
fala e que se exterioriza pela linguagem, que constitui seu signo
audível (o conceito, por sua vez, tem sua origem na
realidade).Mas, se a palavra sonora é um signo convencional (a
água pode chamar-se água, water, eau etc.), o conceito, pelo contrário, é um signo
necessário da coisa designada: nossos conceitos se formam por
adequação com a realidade (Esta nota resume
idéias apresentadas no excelente capítulo de Josef
Pieper "Was heisst Gott Spricht?" in Über die Schwierigkeit
heute zu Glauben, München, Kösel, 1974).
[13].
Ou, melhor dito, vice-versa...
[14]. "Intellectus autem humani, qui est coniunctus corpori, proprium
obiectum est quidditas sive natura in materia corporali existens; et
per huiusmodi naturas visibilium rerum etiam in invisibilium rerum
aliqualem cognitionem ascendit" (I,84,7).
[15]. "Omnia autem quae in presenti statu intelligimus, cognoscuntur a
nobis per comparationem ad res sensibiles
naturales"(I,84,8).
[16].
No ad tertium (da mesma I,84,8), Tomás enfrenta a
objeção de que conhecemos realidades totalmente
incorpóreas, sem imagens (como Deus ou a própria
verdade): "Conhecemos as realidades incorpóreas, das que
não possuímos imagens por comparação com
os corpos sensíveis, dos que possuímos imagens". E
conclui dizendo que só podemos conhecer a Deus por
negação e por alguma comparação com a
realidade corporal.
[17].
"Et inde est etiam quod quando alium volumus facere aliquid
intelligere, proponimus ei exempla" (I,84,7). Na época de
S. Tomás, a palavra latina exempla (e suas
correspondentes nas nascentes línguas nacionais: eisemple, enxiempla etc.) era usada para uma gama muito
próxima da coberta pela palavra árabe mathal,
como se pode comprovar até nos títulos das
traduções que se apresentam em LAUAND, L. J.
(org.) Oriente e Ocidente: Idade Média...
[18]. Universalia principia applicat ad aliqua particularia, quorum
memoriam et experimentum per sensum accipit. Tenha-se em conta
que sentido, sensus, para Tomás não se refere
somente aos sentidos externos, mas também aos internos, como a
imaginação, a vis cogitativa etc.
[20].
"Est autem naturale homini ut per sensibilia ad inteligibilia
veniat: quia omnis nostra cognitio a sensu initium habet"
(I,1,9).
[22].
"Et in manibus prophetarum assimilatus sum" (Os
12,10).
[23].
Um autor tão sóbrio como Jacques Leclercq pôde
escrever em 1949 (e hoje, certamente, a situação
não é melhor): "La morale passe actuellement par une
crise. Je ne vise pas la pratique morale qui est toujours en crise;
jamias la masse ne suit la morale exactement (...). Je parle de la
connaissance et de l'enseignement de la morale". LECLERCQ,
Jacques L'Enseignement de la Morale Chrétienne,
Louvain, Vitrail, 1949, p.9
[24]. Cfr. p. ex. o Prólogo da parte II da Suma Teológica.
[25].
É o que significa, por exemplo, a
caracterização, tantas vezes por ele repetida, da
virtude como ultimum potentiae, "o máximo que se pode
ser". Veja-se, por exemplo, PIEPER, Josef "O Máximo" in
LAUAND, L. J. (org.) Ética: Questões
Fundamentais, São Paulo, EDIX/DLO-FFLCHUSP,
1994.
[27].
"Realização" é, parece-nos no caso, uma boa
tradução contemporânea, de potentia.
[28].
Nossa época, tão sensível para as
realizações, anda um tanto esquecida da
realização. Pense-se por exemplo na
realização profissional. O profissional é, antes
de tudo, um homem. Daí que a realização
profissional deva subordinar-se à moral. Pieper, a
propósito, lembra a atual tendência - cada vez mais
acentuada em nossa sociedade organizada com base na divisão do
trabalho - de pensarmos que uma ação, por trazer o
rótulo de trabalho, estaria, por esse próprio fato,
legitimada também moralmente. Essa atitude de esquecimento da
ética pode levar a desastrosas conseqüências:
"From a technical point of view it was a sweet and lovely and
beautiful job", "do ponto de vista técnico, um trabalho
doce, belo e fascinante", são palavras de Oppenheimer,
referindo-se à sensação que experimentaram
alguns físicos que trabalhavam na produção da
bomba atômica... (In the Matter of J.
Robert Oppenheimer. Transcript of Hearing before Personnel Security
Board. Washington D.C., 1954. Cit. por Pieper em Über den
Begriff der Sünde, pp. 38 e 127).
[29].
cfr. PIEPER, Josef "O Máximo" in LAUAND, L. J. (org.) Ética: Questões Fundamentais, São Paulo,
EDIX/DLO-FFLCHUSP, 1994.
[30].
Robledo, além de notar que "hábito", etimologicamente
(no latim e no grego) remete a "ter", resume, com felicidade, seu
estatuto ontológico: "El hábito es una etapa
intermedia, por decirlo así, entre la pura potencia
indeterminada al bien o al mal, y el acto final e irrevocable que
ostenta para siempre el sello definitivo de su belleza o fealdad
moral". ROBLEDO, Antonio Gómez Ensayo sobre las
virtudes intelectuales México, Fondo de Cultura
Económica, 1957, p. 26.
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